10 músicas sobre comportamento de Gilberto Gil

“Meu caminho pelo mundo…
Eu mesmo traço,
A Bahia já me deu,
Régua e compasso…” Gilberto Gil

O cantor e compositor Gilberto Gil

Useiro e vezeiro em misturar as influências, ritmos e estilos, tropicalista por vocação e origem, baiano de nascimento e brasileiro até a espinha, Gilberto Gil é dos compositores mais ouvidos e repetidos por bocas e becos e lonas, e para isso há motivo mais do que consistente. É que com sua geleia geral o autor de “Aquele Abraço”, “Toda Menina Baiana”, “A Paz”, e tantos, mas tantos outros sucessos sempre manteve o olhar como de cronista, não preso aos fatos, porém transformando-os – por sua concepção poética e fluida do mundo – em instrumentos de reflexão e mudança. Talvez aí resida o segredo de Gil estar-nos tão próximo, pois afinal fala sobre comportamento não a partir da moral, e, sim, arte, e não inventaram ainda melhor maneira de comunicação e contato.

Crítica: reencontro dos “Novos Baianos” reforça vigor do discurso libertário

“Que independente disso, eu não passo
De um malandro, de um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas, mas ando e penso
Sempre com mais de um por isso ninguém
Vê minha sacola…” Luiz Galvão & Moraes Moreira

Novos Baianos se reencontram para nova turnê

Embora tenha demorado mais do que o esperado pelos fãs – afinal de contas a última reunião do grupo aconteceu no longínquo ano de 1999 e o espetáculo que estava programado para 22h do último sábado começou pouco depois das 23h – o tempo não esgarçou as criações dos “Novos Baianos”, ao contrário, provou que o viço e o frescor da juventude que clamava pelo amor livre ungido na atmosfera hippie que comungava casa, comida e canção permanecem com o vapor ligado a plenos pulmões. Parte do atraso pontual deveu-se à pouca habilidade da casa de espetáculos BH HALL na condução do evento, determinando a abertura dos portões pouco antes do horário marcado – ponto em que pessoas já se aglomeravam nas filas – quando a experiência prova que, se já há quem queira entrar, é de bom costume do anfitrião receber. A outra metade da longa e recompensada espera ocorreu pelo fato de Baby ter, nas últimas décadas, se dedicado exclusivamente ao repertório gospel e a vida religiosa. Por ironia, a ideia ganhou consistência justamente com sua volta aos palcos em 2013, ao comemorar seus 60 anos, e que desembocou em um DVD.

Análise: 70 anos de Beth Carvalho, madrinha do samba de terreiro

“Você vale ouro, todo o meu tesouro,
Tão formosa da cabeça aos pés,
Vou lhe amando, lhe adorando,
Digo mais uma vez,
Agradeço a Deus por que lhe fez…” Jorge Aragão, Almir Guineto & Luiz Carlos

Beth Carvalho completa 70 anos em 2016

Beth Carvalho é, definitivamente, a voz dos sambas animados. Ou, ao menos, a que mais se identifica com o gênero assimilado como pagode, o que originalmente referia-se às rodas de samba e ao encontro de vários músicos em clima descontraído, com muitas bebidas e tira-gostos. Contribuiu para tanto a ligação da intérprete com o morro do Cacique de Ramos, donde foi pescar pérolas de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Beto Sem Braço, Xande de Pilares e outros, em história mais do que conhecida e repisada pelo clamor nacional. É certo que esse pagode tomou o lugar destinado, em tempos idos, às marchinhas, com suas canções rítmicas, entusiasmadas, de letras simples a versar sobre os costumes, daí entende-se a força de seu apelo popular. Beth Carvalho representa, nos dias atuais, o que representaram Marlene e Emilinha. Voz das camadas populares a se estender democraticamente com sua música.

7 músicas para a Independência do Brasil

“Vamos tocando assim mesmo,
Nosso dia há de chegar.
A terra e a gente são boas…
Deus até nasceu aqui.” Murilo Mendes

Artistas do país cantam músicas sobre o Brasil

Na terra que tem palmeiras onde canta o sabiá também cantaram portugueses, índios, negros, mulatos e mamelucos. De toda essa mistura, desde que aspira à sua independência, o Brasil já teve também diversos ritmos, passou pelo samba, o forró, o rock, foi da exaltação à crítica, da esperança ao desconsolo. Porém não se pode negar a riqueza de seu povo, quanto mais musical, não é qualquer país que pode se gabar de ter um Ary Barroso, Assis Valente, Carmen Miranda, Clara Nunes, Paulo César Pinheiro, Cazuza, Milton Nascimento e Renato Russo, além dos “Novos Baianos”. Por sorte e por graça a música das palmeiras onde canta o sabiá depende deles, e de seu som puro.

4 músicas libertárias com Baby do Brasil

“Cósmica a claridade da manhã
Cósmica como o infinito lá do céu
Cósmica como toda a natureza” Baby do Brasil

Baby do Brasil apresenta sucessos de ontem e hoje

Desde que o mundo é mundo Baby já foi Consuelo, do Brasil e até de Jesus, mas o que nunca mudou foi a sua postura livre e ousada frente às expectativas. Além da irreverência gestual e de figurino tanto no palco quanto por outras plagas – desde os tempos hippies dos “Novos Baianos” – a cantora manteve a voz límpida e de largo alcance a serviço de músicas que contemplam a liberdade e o amor, valores repetidos por ela. E para isso não há limites. Afinal Baby canta sucesso de Carmen Miranda até parceria com Pepeu Gomes, passando, com estilo, por Caetano Veloso e Jorge Benjor. O que importa é se libertar, e para isto a música e Baby, com o deslumbre de seu canto, cumprem à risca o papel: com tinta roxa, cósmica e até evanescente…

Entrevista: Tito Marcelo, um nome para se prestar atenção

“Aqui, zona de tato e calor, margem do ser
Larga periferia, olha teu corpo de carne
Tua medida de amor, o que amaste em verdade.” Hilda Hilst

Apesar de já ter lançado dois discos, "O Futuro Ligeiro da Demora" tem sabor de estreia para o artista

O passado, como analista de sistemas, vai ficando cada vez mais para trás. O chamado da música soou mais forte e Tito Marcelo resolveu não se opor ao que parecia inevitável. “Hoje me aceito como artista”, diz o moço. Atualmente com 41 anos, ele dá sua cara a tapa lançado um álbum de título instigante – “O Futuro Ligeiro da Demora” -, e para o qual convidou uma pá de gente boa, como o percussionista Marcos Suzano. A produção foi entregue ao baixista André Vasconcellos. Apresentado à imprensa por Mauro Ferreira (que ressalta influências de gente como Bob Marley, Gonzagão, Legião Urbana, Lenine e até Michael Jackson e Titãs), o disco traz 11 faixas de vieses distintos. Nascido no Recife em dezembro de 1974, Tito Marcelo mora hoje no Rio de Janeiro, embora confesse que tenha sido criado musicalmente em Brasília.

Em seu currículo, constam dois discos anteriores, que o fizeram conhecido em duas das cidades citadas: a capital federal e a sua terra natal. Com o novo petardo, ele visa ampliar o espectro de seu público. E a vontade se reverbera no número de faixas que ele chegou a compor para o novo trabalho: nada menos que 31! Claro, junto ao produtor, o artista submeteu o material a uma peneira, e as 11 que compõem o álbum foram, pois, selecionadas. Em entrevista à Esquina Musical, Tito falou mais sobre o trabalho, que também agrega o trompetista Jessé Sadoc, o baterista João Viana e o guitarrista Torcuato Mariano. Confira!

Análise: 80 anos de Rolando Boldrin, herói da memória nacional

“Êta país tão sinfônico
Que é da América, da América do Sul
Êta país biotônico
Que é do Jeca, do Jeca-Tatu” Rolando Boldrin

Rolando Boldrin apresenta o programa "Sr. Brasil"

Rolando Boldrin desmente duas máximas, uma brechtiana e outra tupiniquim. Pela ordem: “Infeliz a nação que precisa de heróis”; e “O Brasil é um país sem memória”. Rolando é o herói da memória nacional. Fácil provar a hipérbole. Contra a invasão de sertanejos pop, ele mantém, há mais de década no ar, pela valente TV Cultura, um programa de música caipira, não só na vestimenta, no sotaque, como, sobretudo, no espírito, na reverência aos ensinamentos dos simples, ao aprendizado empírico daqueles que creem acima de tudo “nos seus cinco sentidos, o testemunho os leve para onde for geralmente eles não têm medo”, para citar, desta vez com razão, mais uma frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Isto tudo porque Rolando não faz mais do que dar vazão e espaço a uma terra e, principalmente, a uma gente que ele conhece bem. Neste caso, tecer loas à tradição é provavelmente a maior ousadia de Boldrin.

24 Sucessos de Chico Buarque

“Que vive nas ideias desses amantes/Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados/Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes/Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos/Em todos os sentidos” Chico Buarque

Chico Buarque é um dos compositores que mais acumula sucessos no Brasil

Se a história da música popular brasileira possui uma linhagem, nela não pode faltar o nome de Chico Buarque de Hollanda. Filho do historiador Sérgio Buarque – e irmão das também cantoras Miúcha, Cristina Buarque e Ana de Hollanda – o garoto prodígio da canção nacional, como era de se esperar, começou cedo. Enfileirou sucessos desde o princípio da carreira, nos anos 1960, auge da bossa nova, passando por vários ritmos, gêneros e inclusive movimentos musicais, alinhavando parcerias com nomes como o poeta Vinicius de Moraes, o maestro Tom Jobim, o dramaturgo Ruy Guerra e o tropicalista Gilberto Gil, além de outros compositores de peso, tais como Milton Nascimento, Francis Hime e Edu Lobo. Mas Chico Buarque foi e ainda é por si só um emblema, símbolo da qualidade musical tanto em texto quanto em melodia. Não se considera um poeta, nem é preciso, as músicas o confirmam.

Análise: 80 anos de Moacyr Franco, do riso ao choro

“Ainda ontem chorei de saudade…
Relendo a carta e sentindo o perfume…
O que fazer com essa dor que me invade?
Mato esse amor ou me mata o ciúme…” Moacyr Franco

O cantor, humorista e autor Moacyr Franco

“Saio da montanha, mas a montanha não sai de mim” é um ditado inventado que poderia facilmente ser atribuído a Moacyr Franco. Embora tenha deixado Ituiutaba, no interior das Minas Gerais, há uns bons tempos, o artista jamais se furtou de carregar certo semblante típico dessas paragens. E isto para quem se especializou em desenvolver mais de uma atividade artística, como se todas formassem os “cinco dedos da mesma mão”, parodiando Jô Soares. Franco surgiu como ator, explodiu como cantor, assentou a carreira de compositor, arriscou-se na apresentação e traçou até passos sérios, como político filiado a diversos partidos. Para as duas condições que mais exercitou, entre a música e a dramaturgia, alcançou sucesso através de características díspares, sendo motivo de riso numa e oferecendo sensações para o choro noutra. Pura arte. Moacyr é contemporâneo da época de ouro do rádio no Brasil, e certamente influenciado por essa vertente levou os ensinamentos aprendidos tanto para a televisão quanto a música. Discípulo do bordão, da marca, da canção narrada.

3 músicas políticas de Martinho da Vila

“Dinheiro, pra quê dinheiro?
Se ela, não me dá bola,
Em casa de batuqueiro,
Só quem fala alto é viola…” Martinho da Vila

Martinho da Vila interpreta sucessos em show

Martinho da Vila exibe trajetória singular na música brasileira por ter, no meio do samba – a mais tradicional manifestação popular brasileira – costurado estilo facilmente identificado à sua pessoa, tanto na maneira de viver como na de pronunciar-se. Alterando o andamento do ritmo, puxando-o “para trás”, em suas próprias palavras, concedeu ao gênero toda a malemolência e ginga características do povo, trazidas de Angola por seus ancestrais. Com esta mesma calma, Martinho jamais deixou de posicionar-se em relação à suas crenças musicais, religiosas e, consequentemente, políticas. É sem dúvida um dos artistas que mais contribuiu para a questão, seja para falar de dinheiro, racismo e os mais diversos preconceitos de gênero e sexualidade. Apreciar a música de Martinho da Vila, além de divertimento, também é aula de história.