3 músicas para machucar o coração com Alcione

“Este amor me envenena,
Mas todo amor sempre vale a pena…
Desfalecer de prazer, morrer de dor,
Tanto faz, eu quero é mais amor…” Nei Lopes & Wilson Moreira

Alcione canta o amor em tons dramáticos

De São Luís do Maranhão para o Brasil, aonde trabalhava como professora primária e trompetista, Alcione nunca deixou de cantar o amor, mas um amor específico, marcado pelas dores e as separações. Porém, a atitude da intérprete frente a esses deslizes do romantismo não é sempre a mesma. A voz de Alcione passeia pelas desilusões amorosas com a entrega e a angústia de quem muitas vezes se cortou, mas é também capaz de legar ao drama uma pitada de sátira, deboche, e, principalmente, determinação em seguir em frente que atrás vem gente. Dona de uma das vozes mais características da música brasileira e interpretação, como diria o outro, de arrebatar multidões, Alcione machuca, sim, o coração, mas o faz com a ginga e o ritmo do nosso samba. Por saudades, rancor ou mágoa, o amor dança no canto intenso da intérprete.

Somos todos iguais?

“Nestas noites, na Itália inteira, há telescópios voltados para o céu. As luas de Júpiter não barateiam o leite. Mas nunca foram vistas, e agora existem. O homem da rua conclui que poderiam existir muitas outras coisas também, se ele olhasse melhor.” Bertolt Brecht

Os Operários, obra de Tarsila do Amaral

Um dos fundamentos da cultura, mas, sobretudo, da arte, é que ela gera perspectiva, te tira do lugar de conforto ou lhe permite colocar-se no tão famoso lugar dos outros. Mais do que isto, abre (não fecha) parênteses, expande as possibilidades, sublima e fricciona os horizontes, em suma, oferece a liberdade, pois a mortal função da arte é propor a liberdade, ou, ao menos, alguma libertação. Daí que as pessoas percam de vista sua importância, pois impalpável, afinal de contas ela age sobre os modos, comportamentos, visões, e, em última análise, sobre o coração, pois é seu dever transformar não através de teses elaboradas e argumentos com prazo científico de validade, mas através da emoção, tocando-nos. Tenho uma regra básica para definir se algo me comoveu no terreno da arte: é preciso arrepiar-me. A partir deste instinto, deste gesto, percebo e descubro se algo me agradou ou não, e, só depois disso, parto para elaborar a análise em cima da crítica das qualidades e falhas.

Análise: 80 anos de Wilson das Neves, no tempo da música sem limites

“O samba é meu dom…
Aprendi bater samba ao compasso do meu coração,
De quadra, de enredo, de roda, na palma da mão,
De breque, de partido-alto e o samba-canção…” Paulo César Pinheiro & Wilson das Neves

Wilson das Neves é baterista, compositor e cantor

Wilson das Neves é a prova viva de que a música não tem tempo. E isso para um instrumentista de origem, sobretudo um baterista, seria quase uma heresia. No entanto, a música não tem limite, quanto mais o som sagrado de Das Neves, carioca da gema, nascido e criado nas praias, becos e entre bambas do Rio de Janeiro. É certo que ele já era notado quando tocava com gente como Elis Regina, Elizeth Cardoso, Roberto Carlos, Elza Soares, Wilson Simonal, Maria Alcina, coisa que não é pouca. Mas foi ao lado do parceiro definitivo e mais repetido nos últimos anos que Wilson tomou a coragem necessária para exibir outra verve e abandonar de vez a irrefutável modéstia. Encorajado por Paulo César Pinheiro e o dito cujo citado linhas acima, de alcunha Chico Buarque de Hollanda, Wilson assumiu em alto e bom som: tenho voz! Escrevo e canto, e, acima de tudo, dou vazão aos sentimentos. E que som ele ofereceu.

Paralimpíadas do Rio 2016: 3 músicas brasileiras sobre superação

“que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos ” e. e. cummings

Paralimpíadas do Rio de Janeiro 2016

Que o povo brasileiro supera suas dificuldades não é novidade, que ele as supera com ginga, ritmo e determinação, menos ainda. No país do samba e do futebol, música e esporte provam que podem ir além das modalidades-padrão, e, mais ainda, da maneira como as enxergamos. O melhor exemplo são as Paralimpíadas disputadas no Rio de Janeiro neste ano de 2016. Fica claro para quem assiste ou participa dos jogos de basquete em cadeira de rodas, handebol e atletismo para cegos, canoagem, salto, vôlei e tantas, mas tantas outras, que o limite existe, mas é inventado. Com Adoniran Barbosa, Raul Seixas e Gonzaguinha embalamos a superação de nossos melhores atletas.

Artigo: Por que só agora, Lula?

“Demonstrar-lhe que, para a vida, se nasce de tantos modos, de tantas formas… Árvore ou pedra, água ou borboleta… ou mulher… E que se nasce também personagem!” Luigi Pirandello

Lula é investigado pela Lava Jato

Uma das poucas coisas que se aprende com o jornalismo é que versões oficiais dificilmente interessam, pela natureza de seu caráter que as impede de alguma sinceridade para além das aparências. Logo, é preciso ser auspicioso e perspicaz a fim de estimar o que brasões e espelhos escondem. Noutras: quais interesses movem os envolvidos? Para investigar e planejar a derrubada de figuras poderosas é imperioso contar com o apoio e suporte de outras tão ou mais poderosas do que ela. Isso diz a história, as peças de Shakespeare e alguns filmes de Rossellini. Trocando em miúdos, não haveria o golpe militar de 1964 ou a eleição de Collor sem certo respaldo importante, global, robusto. Maquiavel diz que um príncipe não deve formar “exército de mercenários”, pois poder e dinheiro mudam de mãos, e aquelas que foram beijadas tendem a ser dispensadas com o escárnio e escarro citados pelo poeta Augusto dos Anjos.

10 músicas sobre comportamento de Gilberto Gil

“Meu caminho pelo mundo…
Eu mesmo traço,
A Bahia já me deu,
Régua e compasso…” Gilberto Gil

O cantor e compositor Gilberto Gil

Useiro e vezeiro em misturar as influências, ritmos e estilos, tropicalista por vocação e origem, baiano de nascimento e brasileiro até a espinha, Gilberto Gil é dos compositores mais ouvidos e repetidos por bocas e becos e lonas, e para isso há motivo mais do que consistente. É que com sua geleia geral o autor de “Aquele Abraço”, “Toda Menina Baiana”, “A Paz”, e tantos, mas tantos outros sucessos sempre manteve o olhar como de cronista, não preso aos fatos, porém transformando-os – por sua concepção poética e fluida do mundo – em instrumentos de reflexão e mudança. Talvez aí resida o segredo de Gil estar-nos tão próximo, pois afinal fala sobre comportamento não a partir da moral, e, sim, arte, e não inventaram ainda melhor maneira de comunicação e contato.

Crítica: reencontro dos “Novos Baianos” reforça vigor do discurso libertário

“Que independente disso, eu não passo
De um malandro, de um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas, mas ando e penso
Sempre com mais de um por isso ninguém
Vê minha sacola…” Luiz Galvão & Moraes Moreira

Novos Baianos se reencontram para nova turnê

Embora tenha demorado mais do que o esperado pelos fãs – afinal de contas a última reunião do grupo aconteceu no longínquo ano de 1999 e o espetáculo que estava programado para 22h do último sábado começou pouco depois das 23h – o tempo não esgarçou as criações dos “Novos Baianos”, ao contrário, provou que o viço e o frescor da juventude que clamava pelo amor livre ungido na atmosfera hippie que comungava casa, comida e canção permanecem com o vapor ligado a plenos pulmões. Parte do atraso pontual deveu-se à pouca habilidade da casa de espetáculos BH HALL na condução do evento, determinando a abertura dos portões pouco antes do horário marcado – ponto em que pessoas já se aglomeravam nas filas – quando a experiência prova que, se já há quem queira entrar, é de bom costume do anfitrião receber. A outra metade da longa e recompensada espera ocorreu pelo fato de Baby ter, nas últimas décadas, se dedicado exclusivamente ao repertório gospel e a vida religiosa. Por ironia, a ideia ganhou consistência justamente com sua volta aos palcos em 2013, ao comemorar seus 60 anos, e que desembocou em um DVD.

Análise: 70 anos de Beth Carvalho, madrinha do samba de terreiro

“Você vale ouro, todo o meu tesouro,
Tão formosa da cabeça aos pés,
Vou lhe amando, lhe adorando,
Digo mais uma vez,
Agradeço a Deus por que lhe fez…” Jorge Aragão, Almir Guineto & Luiz Carlos

Beth Carvalho completa 70 anos em 2016

Beth Carvalho é, definitivamente, a voz dos sambas animados. Ou, ao menos, a que mais se identifica com o gênero assimilado como pagode, o que originalmente referia-se às rodas de samba e ao encontro de vários músicos em clima descontraído, com muitas bebidas e tira-gostos. Contribuiu para tanto a ligação da intérprete com o morro do Cacique de Ramos, donde foi pescar pérolas de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Beto Sem Braço, Xande de Pilares e outros, em história mais do que conhecida e repisada pelo clamor nacional. É certo que esse pagode tomou o lugar destinado, em tempos idos, às marchinhas, com suas canções rítmicas, entusiasmadas, de letras simples a versar sobre os costumes, daí entende-se a força de seu apelo popular. Beth Carvalho representa, nos dias atuais, o que representaram Marlene e Emilinha. Voz das camadas populares a se estender democraticamente com sua música.

7 músicas para a Independência do Brasil

“Vamos tocando assim mesmo,
Nosso dia há de chegar.
A terra e a gente são boas…
Deus até nasceu aqui.” Murilo Mendes

Artistas do país cantam músicas sobre o Brasil

Na terra que tem palmeiras onde canta o sabiá também cantaram portugueses, índios, negros, mulatos e mamelucos. De toda essa mistura, desde que aspira à sua independência, o Brasil já teve também diversos ritmos, passou pelo samba, o forró, o rock, foi da exaltação à crítica, da esperança ao desconsolo. Porém não se pode negar a riqueza de seu povo, quanto mais musical, não é qualquer país que pode se gabar de ter um Ary Barroso, Assis Valente, Carmen Miranda, Clara Nunes, Paulo César Pinheiro, Cazuza, Milton Nascimento e Renato Russo, além dos “Novos Baianos”. Por sorte e por graça a música das palmeiras onde canta o sabiá depende deles, e de seu som puro.

4 músicas libertárias com Baby do Brasil

“Cósmica a claridade da manhã
Cósmica como o infinito lá do céu
Cósmica como toda a natureza” Baby do Brasil

Baby do Brasil apresenta sucessos de ontem e hoje

Desde que o mundo é mundo Baby já foi Consuelo, do Brasil e até de Jesus, mas o que nunca mudou foi a sua postura livre e ousada frente às expectativas. Além da irreverência gestual e de figurino tanto no palco quanto por outras plagas – desde os tempos hippies dos “Novos Baianos” – a cantora manteve a voz límpida e de largo alcance a serviço de músicas que contemplam a liberdade e o amor, valores repetidos por ela. E para isso não há limites. Afinal Baby canta sucesso de Carmen Miranda até parceria com Pepeu Gomes, passando, com estilo, por Caetano Veloso e Jorge Benjor. O que importa é se libertar, e para isto a música e Baby, com o deslumbre de seu canto, cumprem à risca o papel: com tinta roxa, cósmica e até evanescente…