Ademilde Fonseca (Chorinho)

Chorinho

Ademilde Fonseca, a Rainha do Choro, da doce melodia, do amor sem preconceito.
Aquela cuja voz acompanha o ritmo e a velocidade que tem o mais sentimental de todos os sentimentos: o choro.
O choro é festa típica brasileira.
É confraternização alegre, em harmonia.
“é música clássica tocada com pé no chão, calo na mão e alma no céu”, disse o vocalista do conjunto MPB-4 , Aquiles Rique Reis, na mais perfeita de suas traduções.
Pois o choro remonta à mais antiga de todas as tradições brasileiras, de chorar cantando e cantar sorrindo.

“O brasileiro quando é de choro,
É entusiasmado
Quando cai no samba,
Não fica abafado
E é um desacato
Quando chega no salão”

Álbum: o micróbio do samba

Com sotaque próprio Adriana Calcanhotto inventa seu samba

Adriana Calcanhotto

O mote é samba. Mas o sotaque é de Calcanhotto. Em álbum recheado de dedicatórias, Adriana não presta homenagem. Isso porque recusa a nostalgia para apresentar salutares desvios nos quais ambienta suas composições, com coloquial destreza para o inusitado.

Um dos que recebe menção honrosa na contracapa do disco é Jards Macalé, outro iconoclasta da canção brasileira. Aliado a ele vem Lupicínio Rodrigues, chamado tão intimamente de “lupi” que merece registro a maneira descompromissada com que Adriana se enverga do “micróbio do samba” dito pelo inventor da dor-de-cotovelo para dar nome à 12ª obra de sua carreira fonográfica (exceção à coletânea “Essencial” lançada em 2010).

Entrevista: Jards Macalé

Músico segue como espécime raro e livre na estrada musical 

Músico

Torquato Neto, Emilinha Borba, Debussy, Wally Salomão, Dóris Monteiro, Beethoven, Cazuza, Guimarães Rosa, Radamés Gnatalli, Tim Maia, Glauber Rocha, Jacques Brell, Itamar Assumpção confluem-se no rio JARDS, de ondas sonoras como o “bater de asas de uma borboleta.” “Quero, principalmente, o som do silêncio.”

MACALÉ, apelido de garoto ruim de bola e habilidade no violão, supera definições sobre música. Permanece incapturável e característico, espécime raro em qualquer época: “Joguei pela janela os catálogos todos, samba, funk, música moderna, contemporânea, antiga. A carteira de identidade da música é a própria. Som é som. Não som é não som. E não som também é som. Não entendo essa necessidade desesperada de complicar a compreensão.”

Nelson Ned (Romantismo)

Cantor brasileiro

Multidões lotavam estádios e teatros. Como num show nos dias de hoje do Rei Roberto Carlos. Um público ávido e carente pelas performances românticas do ‘Pequeno Gigante da Canção’. Conterrâneo de Ary Barroso, dono do gongo mais famoso da era de ouro do rádio brasileiro, Nelson Ned subia ao palco do porte de seu 1, 12 metros, para ser aplaudido de pé.

Vendeu centenas de discos, angariou prêmios de platina, ouro, fãs exaltadas, sucessos radiofônicos a todo instante. Foi o primeiro artista latino-americano a alcançar a marca de um milhão de cópias para seu álbum nos Estados Unidos. Sua música mais famosa tornou-se emblema da superação, e mais do que isso, foi parar na franquia do desenho ‘Ursinho Puff’, da Disney.

Clara Nunes (Cantoras brasileiras)

Sereia de Minas

As ondas verdes do mar recebem uma oferenda, uma brisa clara, uma areia espessa. Colares, correntes, patuás e pulseiras presenciam uma espuma branca correndo entre braços abertos que se erguem graciosamente e com as mãos espalmadas, uma para cima e outra para baixo, cantam um salve aos orixás. A espuma branca que corre entre os braços colore o vestido da sereia de traços negros desfiados em sua boca vermelha, seus cabelos frondosos como os de uma árvore, seu canto mestiço e intenso.

Ela agita as mãos com leveza enquanto as linhas da capoeira passam por elas tecendo a barra rodada do vestido longo e os amuletos. O canto da sereia nos leva para o fundo do mar onde encontramos conchas, flores e estrelas. Mas não morremos lá. Porque as águas do mar da sereia são as águas salgadas do mar da Bahia que como um raio de luz dissipam-se nas avenidas do Rio e nos levam até as montanhas de Minas. Se vocês querem saber quem é a sereia, ela é a tal guerreira, de voz de brisa condensada, mar em oferenda, areia Clara.

Jorge Aragão (Pagode)

Pagode

Copo na mesa, borbulha a cerveja e ferve o salão. Com o corpo ajeitado para segurar no laço o cavaquinho, Jorge Aragão dá início à festa. Sem cerimônia, convida para apreciar o barulho que vem do fundo do nosso quintal.

Um sem número de sucessos postos à boca do povo enquanto todos se balançam no ritmo do pagode, confraternização acima de tudo, antes conceito do que número.

Show: Zélia Duncan

Cantora exibe a delicadeza em cena

Show

Não espere arroubos sonoros. Zélia Duncan canta meiga, delicada, suave, suas composições novas. Isso é o que prepara o disco. Diante da platéia a contenção das interpretações se revela desafiadora e fugaz, com leve sorriso de coragem sorrateira.

A presença de Zélia no palco é resguardada de beleza, pelo vestido de Ronaldo Fraga (o coração do artista segundo a cantora), o cenário de Analu Prestes, pinturas abstratas refletidas pelas cores de uma iluminação climática, e a simpatia da protagonista, acompanhada de perto por Ézio Filho (direção musical e contrabaixo), Webster Santos (violão, bandolim e guitarra), Jadna Zimmerman (bateria, percussão e flauta) e Leo Brandão (teclados e acordeom).

Cauby Peixoto (Cantores brasileiros)

Bastidores

Cauby Peixoto veste as músicas que canta com a grandeza de sua voz. De pérolas, brilhantes e cristais. Tal qual um estilista da canção, ele recheia de jazz e suingue próprio os ritmos mais brasileiros. Cauby desenha palavras adornando o límpido de sua voz, que ele apresenta no palco sob cortina exuberante. A cortina é sua figura, sua presença tão sobressaída quanto o motivo dos gritos da platéia: a voz de um cantor da geração de ouro do rádio brasileiro que segue abrasadora em tempos indistintos.

Conceição (samba-canção, 1956) – Jair Amorim e Dunga
É impossível não ligar “Conceição” ao nome de Cauby Peixoto. Ela é resultado da inspiração de dois compositores para tratarem o tema e do poder que um intérprete pode exercer sobre a música. Se não é possível afirmar que todos sabem o nome dos autores Jair Amorim e Dunga, é provável apostar que Cauby tornou-se mais dono da canção que quem a germinou. Isso porque a verdadeira germinação popular deu-se quando ela atravessou sua voz extensa. Não à toa Cauby cantando “Conceição” tornou-se um verdadeiro espetáculo à parte. Com direito a todas as pompas que o cantor sempre adorou.

Show: Yamandu Costa

Violonista se aventura em mar trôpego e desbrava regiões instrumentais 

Show Palácio das Artes

Yamandu Costa: as cordas lhe desobedecem. Incautas, prontas a insolentes provocações, por incitação tutorial. Seus doze dedos se transformam em treze, quatorze, infinitamente. Amarram-se aos trilhos do violão, descarrilados em seqüência.

À deriva, no suntuoso Grande Teatro do Palácio das Artes, o gaúcho iniciou sua expedição com bela homenagem a Raphael Rabello, um mito da arte de trovejar violões, içando as caravelas de “Samba pro Rafa”, em magistral partida.

Carmen Miranda (Cantoras brasileiras)

Cantora brasileira

Carmen Miranda não era brasileira, nem portuguesa, nem chegou a ficar americanizada. Sua personalidade musical não tolerava restrições de gênero, território ou critérios absolutos. Carmen Miranda é hoje, como sempre foi, uma identidade universal da boa música: embora ela cante em bom português falado brasileiramente, mesmo quando o idioma é estrangeiro, na voz de Carmen soa língua mãe.

No tabuleiro da baiana (samba-batuque, 1936) – Ary Barroso
“No tabuleiro da baiana”, composto por Ary Barroso em 1936, é um samba-batuque que traz em seu cardápio musical suingue e malemolência, em versos que soam tão deliciosos quanto os ingredientes do tabuleiro. Misturando elementos típicos da cultura baiana ao amor e ao samba e tornando-os definitivamente parte da mesma receita, Ary Barroso criou um dos mais famosos pratos da culinária musical brasileira, que Carmen cantou com graça e coloquialidade: “No tabuleiro da baiana tem…”