Antônio Maria (Dor de cotovelo)

dor de cotovelo

As noites do Recife refulgem nos galhos das árvores a dor e a saudade. As copas molhadas de orvalho dão sombra aos olhos que choram, choram. Raízes e caules tremem como duas pernas bambas, no suspiro do vento que repele o frevo e amacia as tensões, os nervos. O copo pela metade, acompanhado por um cigarro, transborda a poesia de ‘um homem chamado Maria’, dono de peripécias e impropérios proferidos no Rio de Janeiro, ao lado de gente casta como Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi (o baiano, também vizinho), Fernando Lobo (pernambucano) e Abelardo Barbosa (outro conterrâneo, conhecido por Chacrinha). No horizonte da música brasileira, traduziu sementes e flores geradas no esplendor da manhã, fosse ela alegria ou tristeza, carnaval ou dor-de-cotovelo. Fosse Antônio Maria, um sujeito com mais zelo ao corpo, não teria nos deixado tão cedo, talvez nem mesmo deixado canções de alma e coração, que em um descuido de momento levou, mas o tempo semeou e regou.

Oswaldo Montenegro (Cantores brasileiros)

cantor brasileiro

Homem do teatro ou da melodia? Cabelos ao vento ou de cimento? Filho de Brasília ou pai da interpretação? Nenhuma delas, Oswaldo Montenegro, querelas à parte, faz arte. Brinca com as palavras, brinda com vinho-canção. Ode à melancolia ou trote à alegria barata, tudo pode, sem nada gasta, insurge a graça feito garça no horizonte anil da popular música brasileira.

Duas metades. Dois nomes grandes. Oswaldo. Montenegro. Centopéia cheia com credos calombos carbonos juízes? Oras, somos todos lumes seja na igreja ou na pradaria. Cada um ilumina o que enxerga, atenta, escapa ou aliança de dedo na mão agora é aliança de dedo na mão? Depende. Varia. Verte.

Benedito Lacerda (Chorinho)

Flautista

De ouvido, aprendeu a tocar. De butuca, como se diz hoje em dia. No tempo do cinema mudo, do silêncio, a calmaria das ruas. E a sua flauta subindo pelas paredes como cobra coral que se enrosca na árvore e não solta. Na Jardineira, tão contestada e aclamada. Como era incontestável o seu talento para compor temas instrumentais e executá-los com maestria.

Para isso, contava com a ajuda de jovens nobres, e também dos mais antigos. Entre eles, foram seus correspondentes no campo da composição Ary Barroso (‘Falta um zero no meu ordenado’), Herivelto Martins (‘A Lapa’ está voltando a ser a Lapa), Aldo Cabral (‘Em Mangueira na hora da minha despedida, todo mundo chorou…’), Humberto Porto (no clássico vencedor do concurso de carnaval de 1939), e muitos outros.

Show: Aline Calixto

Cantora apresenta mistura de músicas dos dois álbuns lançados

Show UFMG

No centro do furacão: uma flor. Morena, cacheados cabelos negros brada branda: sou negona, branca, samba. Aline Calixto pisa de sandália o picadeiro armado na Universidade Federal de Minas Gerais para contar a própria história. Contar? Não. Professora de mão cheia adverte, diverte: Canta. Tem uma voz que impressiona. Martinho da Vila põe na panela a gemada carioca.

Convicta cadência crava no mar de estrelas homenagens a Oxossi e Iemanjá. Lavradas na Bahia de Roque Ferreira e nos pergaminhos de Rodrigo Santiago e Douglas Couto, entusiasmam. Desinibida desenvoltura hipnotiza e arremata o público: “E lá fui eu, pro caldeirão, e lá fui eu…todo enfeitiçado pro seu coração!”. Pérola mineral do compositor Affonsinho.

Chico Science (Mangue Beat)

Mangue Beat

Caranguejo mola nas patas. Ciência na astrologia. Arte de Chico. Brasil de Francisco. Rios e dunas e santos. Bomba histriônica. História atômica. Maracatu cá tu ma ar. Mangues e circos e dardos lançados nas lamas do caos.

Jorge Mautner & Gilberto Gil. Tropical rock de Cássia Eller. Percussão e toda uma Nação de Zumbi dos palmares, palmeiras, palmas palestra dessa cidade que nos resta computadorizada e imune; degradada e convexa.

“No bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor
Toda fauna-flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte
E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico”

João Gordo (Punk)

Ratos de Porão

Rato de porão, vômito verme varizes. No ano da ditadura militar brasileira, num dia 13 caveira, macabro, abriu a tampa do esgoto e despencou nesse mundo colhido-calado. Provocou enorme barulho, em vista de seu tamanho desproporcional. Gordo grande grunhindo gritos de guerra poupando refrão.

Cão espumando, chupando manga. Esqueleto de gosma e fúnebre sarcasmo detonou dinamite gargalhou explosão. Cuspe na morte. Quebrar, incompreensível. Descrente desesperança e virulento discurso político.  Cru, agride. Escroto, corvo, massacre. Carnificina, esquizofrenia, saliência. Sexo e bebedeira. Sujo.

Show: Warley Henrique

Cavaquinista mineiro presta homenagem à altura de Waldir Azevedo

Cavaquinho mineiro

Aquecidos os instrumentos, o show começa morno para o que está por vir. Grande atração da noite, o cavaquinista que irá solar Waldir Azevedo é o último a entrar em cena, onde já lhe aguardam os acompanhantes, Gustavo Monteiro no violão, Ricardo Acácio e Robson Batata comandando as percussões.

Ao atacar a primeira leva de músicas no instrumento principal daquela chuvosa confraternização, Warley Henrique não esboça gracejos ou palavras. Somente se entrega ao cavaquinho que a ele pede esmola e recebe de troco notas e mais notas premiadas.

Roque Ferreira (Samba)

Samba

Quem é o homem por trás da reza dessa menina? Fio aceso navalha convicta no interior da Bahia. Recôncavo revanche às pilastras. O resto é mistério, segredo de quem vem de lá. Não basta dizer é ouvir e avir e iridescente há.

O conluio entre ele, Batatinha, Edil Pacheco, Riachão, Ederaldo Gentil, Nélson Rufino, Walter Lima e Panela. Pois covardemente rasparam o tacho mais gorduroso da música brasileira. E dessa forma, cozeram as suculências que nos legam água na boca.

Show: Arnaldo Antunes & Edgar Scandurra

Brasil aproxima-se da África em projeto inspirado da dupla

Show

Descontraídos e afiados, Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra conduzem o mastro do navio que leva o Brasil até Mali. Com a baixa do escriba africano Toumani Diabaté a curva acentuada da cintura que se avista ao longe suspende o movimento por breves momentos, a fé a desembocar ferozmente num açoite intencional.

Percalços sugeridos na travessia pela falta que um homem faz são logo repudiados com doses cavalares de adrenalina imanada por ecos, senhas, guitarra e tambor. O chão do convés é terremoto. As velas aglutinam-se em vulcões. Uma agitada tempestade resoluta abrange o cosmos do Sesc Palladium.

Tetê Espíndola (Cantoras brasileiras)

Cantora

No sul do Mato Grosso do Sul. No alto da primeira altitude, o ato da primeira atitude é desgovernar a revoada. De pássaros no viveiro viveres múltiplos marinheiros. Mar e céu abolem a divisão bojuda intriga dessa terra vã sã.

Se a compreensão humana se acostumou ao peso grave dos palacetes, Tetê Espíndola desafia e afina o instrumento leve. Leve falsete falseando a expectativa? Dum buraco de nozes? Duma toca de lobo? Um tatu acha o rastro, queixa o taco no escuro, e nele arrola.