Donna Summer (Cantoras internacionais)

“Toca minha mão.
Quem fez o amor não vazará meus olhos
porque busco a alegria.
A vida não vale nada, (…)
Olha-me para que ardam os crisântemos
e morra a puta
que pariu minha tristeza.” Adélia Prado

Rainha Disco Music

Não é fácil dizer adeus a uma pessoa que conhecemos pouco, ao mesmo tempo tanto. Principalmente quando nos convém dançar, vem à tona alto falantes em auto e bom som, como burro (pantera) cor de rosa recém saída da fornalha. Rainha ditosa.

Quantas foram as voltas que os teus caracóis deram em torno dos meus ouvidos, grudando chiclete chinês olhos tampados de escuro, despertos ao sol irradiador. Igrejas e capelinhas, mesmo as mais entusiasmadas, soaram ineficazes para cobrir o desespero-lunático de teus fãs.

Emicida – Rap & repulsa

“Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.” Hilda Hilst

Rap

Dentre as acusações correntes que se protocola contra o rap está a de que acabou com a canção, além de incitar a violência e derrocar numa linguagem chula sem direito a aparador.

Do exílio, lírio branco maquiado de fuligem, o instinto sacode as aparências e gravita intencional, direto, frente a frente, olho no olho, dedo na ferida.

Rita Lee – Reza

“É, tudo bem, trabalhar para ganhar a vida, claro! Mas por que é preciso desperdiçar a vida que a gente ganha trabalhando para ganhar a vida?” Quino

álbum Reza

Uma senhora atravessa a rua, o arco, a serra da boa esperança. Rita Lee não esconde os pêlos pubianos (e públicos) nem as rugas vermelhos e negras! O suco gástrico esparramado pela cantora-atriz no divã deglute-se a conta-gotas.

No jardim babilônico que ela escolheu para passar a velhice, reclama como à juventude e pede mais sexo, menos yoga, reflete sobre as drogas (de todos os meios e tipos) ao som do bom rock’n’roll. Mas o ritmo que lhe satisfaz tem frutas e araras.

Tonico & Tinoco (Sertanejo & Caipira)

Música caipira

O bule entupido de café fervente até a boca. Panela de barro sobre um fogão a lenha, obviamente, queimada. Queijo e goiabada servidos em cima de uma toalha quadriculada. Tradições do interior brasileiro, caipiras.

Não se ouve um barulho sequer enquanto comem, posto que é hora sagrada, apenas a reza que prenuncia o ato. Farelos de fubá, leite grosso, coalhar o dia revolvendo a palha do cigarro, do milharal, espantalho é sinal de cruz para corvos.

“Nesta viola, eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade”

Show: Nana Caymmi & Wagner Tiso

“Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar” Vinicius de Moraes & Tom Jobim

Show Nana e Wagner Tiso

Dispensa-se batuta para reger Nana Caymmi e Wagner Tiso. De mãos vazias e abanando o maestro limita-se a interferir no curso das horas com o pulsante coração.

Após breve explicação sobre o tempo da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a história vem clássica como o martírio do leão para arrancar um pedaço de carne, ebola das tumbas Beethoven e tua surdez milenar, tão absoluta quanto absurdamente, rela.

Show: Grupo de Choro Palácio das Artes

“Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.” Sylvia Plath

Chorinho

Uma noite distante, peregrina, antepassada, que nos vem aos ouvidos como uma flor na enseada, meio bamba, leme a passar os dedos por sobre a franja do mar, que trazem, e regam, e regem, qual ondas, jardim, maestros-mastros.

Apresentando-se no Grande Teatro, o Grupo de Choro Palácio das Artes ergueu pernas de bailarinos do corpo jovem da instituição, reverenciou a Velha Guarda do Choro da cidade abaixando o tronco, e abriu os braços para a comunhão de árvores genealógicas das mais distintas.

Humor: Dicró

Melô da galinha

Pilantra, sem vergonha, malandro, filho de mãe de santo, o que mais pode ser? No país da cachaça, do samba e do futebol? Só poderia ser Prefeito. Mas opa, um instante, um minuto, peraí, calma, devagar com o andor que o santo é de barro, e muito bem enfeitado. Uma característica não bate, ou quase.

Defensor do povo, mas com um detalhe importantíssimo, sem demagogia, sincero, espontâneo, esbarrando nos rabos de saia das madames, claro, com todo o respeito, apreciando sempre a beleza de um bom prazer.

“Domingo de sol
Adivinha pra onde nós vamos
Aluguei um caminhão
Vou levar a família na praia de Ramos”

Carlos Galhardo (Cantores brasileiros)

Valsa brasileira

O sangue argentino que corria nas veias de Carlos Galhardo era sempre negado em entrevistas. Impossível não constatar a latinidade “hermana” que se entregava às grandes paixões na forma das valsas mais brasileiras. O cantor com pinta de galã foi para São Paulo ainda bebê, aos dois meses, mas foi no Rio de Janeiro que iniciou sua trajetória musical e artística, cantando e atuando em filmes.

“Os sonhos mais lindos sonhei,
De quimeras mil um castelo, ergui,
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão, mil venturas previ…”

Pixinguinha (Chorinho)

Carinhoso música

A doença aliada à origem africana da avó rendeu-lhe o apelido inusitado. As baixarias ouvidas em casa pelo choro do pai e dos amigos deram a ele uma flauta mágica. O ouvido desaforado fez com que se transformasse em maestro, inepto e aclamado: Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, todos foram unânimes em aplaudi-lo. As vaias vieram quando excursionou com os Oito Batutas para ver o mundo. E se tornou um brasileiríssimo arranjador influenciado pelo jazz americano e os ritmos africanos. As dificuldades financeiras, a bebida e o fumo, o presentearam com um sax. E todas essas rasteiras terrenas ajudaram a compor o gênio que transcendeu as barreiras do tempo: Carinhoso, Lamentos, Um a Zero, Rosa. Pixinguinha, música semente.

Geraldo Pereira (Samba)

Samba Falsa Baiana

O samba recheado de quebradas marcou a vida irregular do compositor. O rebolado das baianas o colocou no chão. De queixo caído ele assistiria ao rebuliço em torno da bossa nova que ele próprio antecipara, não tivesse partido tão cedo. Sem saber, o mineiro que alimentou fama e discórdia no Rio de Janeiro foi um precoce e um privilegiado. Por ter assistido de perto à criação da Estação Primeira de Mangueira e ter convivido com grandes bambas da malandragem teve o prumo certo para tirar melodia e letra do mel que brotava na sua frente. Nem sempre doce, o sambista Geraldo Pereira foi um prodígio, reconhecido mesmo em sua brevidade, como talvez nunca tivesse sido não fossem as tempestades em sua vida.