Ernesto Nazareth (Chorinho)

Chorinho

Quando o Brasil começou a fazer música brasileira e deixou de apenas importar contribuições externas, Ernesto Nazareth estava lá, com seu piano e sua humildade. Fã declarado de Chopin, o músico se notabilizou por não negar a qualidade musical que emergia de fora, mas inserir a esse contexto o que havia de mais Brasil e mais buliçoso em termos de musicalidade erudita e popular; ao mesmo tempo; sem barreiras limitantes. Muitos foram contra e a favor seu espaço em ambas as categorias, mas sua música ultrapassava ao conquistar unanimemente ouvidos e corações de figuras tão acaloradas quanto detentoras de status para certificar o real caráter de Nazareth, “a verdadeira encarnação da alma musical brasileira” para Villa-Lobos, com quem tocou, “um virtuoso do piano”, segundo Mário de Andrade, “genial” para tantos.

Assis Valente (Samba)

Samba

Artista de circo é difícil de achar. Artista espontâneo, que não toca instrumento e sabe rimar letra com melodia. Artista que faz arte até de dentadura, e é desenhista de mão cheia, embora os bolsos permaneçam vazios. Artista de circo desequilibra na corda bamba, como quem disfarça estar em perfeito estado de alegria, acostumado com tristezas natalinas. Assis Valente teve coração de artista e na Praia do Russel morreu em público. O povo cantou sua travessia: “Brasil Pandeiro”, “Uva de Caminhão”, “Fez bobagem”, “Camisa listrada”, provam a eternidade do artista de circo.

Jorge Goulart (Cantores brasileiros)

cantor brasileiro

Bastava uma olhada, um único contato visual para se levantar suspeitas sobre o que aquele homem forte, grande, robusto, era capaz. Mesmo os mais precavidos haveriam de tomar um susto, quando ele enchia o pulmão de ar e se preparava para o gesto.

Gesto, simples, bonito, pequeno, mas que naquele ser imenso se transformava num verdadeiro rojão de festa: com brilhos explodindo no céu e azulando a nuvem branca e o sol poente. Marchas carnavalescas, versões de sucessos norte-americanos (até Charles Chaplin cantou), sambas enredo, canções, exclusivamentesambas, tudo era motivo para seu palavreado bem distribuído colocar-se à serviço da música.

Show: O Terço

Banda alavanca viagens psicodélicas no Palácio das Artes 

Show rock

Retomamos a nave de 1974, o disco voador cibernético dispara guitarras e teclados, fuzis anunciam canhões de bateria, bombas disparam o baixo. Tudo sem parcimônia, com paz, amor e cerimonial digno de batas linhadas e limadas na transição do espacial para o espaço.

Círculos contínuos transcendem para uma mulher com rosto de gato, cauda de sapatilha e adereços mais de estranha bailarina. Rodopia na pia no ralo da cozinha intacto, recheado por rodelas de limão e laranja. Cítrica caipirinha a circular (de novo) pela cidade grande, na orla, no berço, no braço do grande irmão a lhe puxar pelo imã do chamado: um triângulo na testa.

Show: Adriana Partimpim

Moça dos agudos de cristal Adriana Partimpim encanta adultos e crianças

Show infantil

Era abril de 1989, provavelmente em um outono menos frio que o de agora, e o jornalista, cronista e escritor (se todas não forem a mesma coisa) Caio Fernando Abreu escrevia sobre uma moça de 21 aninhos, verdes olhos, platinados cabelos e cotê demi-punk que, sem lembrar Gal, Marina ou Elis, encantava a todos (inclusive uma Marisa Monte presente na platéia) com seus agudos de cristal.

Os mesmos 21 aninhos que ela tinha na época se passaram e, por incrível que pareça, a moça rejuvenesceu. Pintou de pretos os cabelos platinados que já não têm mais nada de cotê demi-punk, colocou uma roupa de bailarina e manteve os mesmos verdes olhos. Além disso, a outra coisa que não mudou foram os olhos que a admiravam empolgados em mais uma de suas histórias, como a contar reais contos de fadas, tanto infantis quanto adultos. A moça também mantém os mesmos agudos de cristal.

Nat King Cole (Jazz)

Jazz

O jazz é dos negros. A igreja dos brancos. Mas e o piano? Com suas teclas misturadas, promove uma interação racial? Afirmações idiotas como as acima apenas servem para reforçar o caráter separatista de algumas imposições. Só que existe um adendo, porém, porquanto.

A Música é universal. E Nat King Cole fez questão de unir em seu canto várias as vertentes. Fossem elas clássicas, gospel, românticas ou castelhanas. Não interessava. Mas somente a semente e sabor do sentimento levado aos ouvidos como a mãe águia solta a comida no céu para que o filho arranque em disparada e capture.

Antônio Maria (Dor de cotovelo)

dor de cotovelo

As noites do Recife refulgem nos galhos das árvores a dor e a saudade. As copas molhadas de orvalho dão sombra aos olhos que choram, choram. Raízes e caules tremem como duas pernas bambas, no suspiro do vento que repele o frevo e amacia as tensões, os nervos. O copo pela metade, acompanhado por um cigarro, transborda a poesia de ‘um homem chamado Maria’, dono de peripécias e impropérios proferidos no Rio de Janeiro, ao lado de gente casta como Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi (o baiano, também vizinho), Fernando Lobo (pernambucano) e Abelardo Barbosa (outro conterrâneo, conhecido por Chacrinha). No horizonte da música brasileira, traduziu sementes e flores geradas no esplendor da manhã, fosse ela alegria ou tristeza, carnaval ou dor-de-cotovelo. Fosse Antônio Maria, um sujeito com mais zelo ao corpo, não teria nos deixado tão cedo, talvez nem mesmo deixado canções de alma e coração, que em um descuido de momento levou, mas o tempo semeou e regou.

Oswaldo Montenegro (Cantores brasileiros)

cantor brasileiro

Homem do teatro ou da melodia? Cabelos ao vento ou de cimento? Filho de Brasília ou pai da interpretação? Nenhuma delas, Oswaldo Montenegro, querelas à parte, faz arte. Brinca com as palavras, brinda com vinho-canção. Ode à melancolia ou trote à alegria barata, tudo pode, sem nada gasta, insurge a graça feito garça no horizonte anil da popular música brasileira.

Duas metades. Dois nomes grandes. Oswaldo. Montenegro. Centopéia cheia com credos calombos carbonos juízes? Oras, somos todos lumes seja na igreja ou na pradaria. Cada um ilumina o que enxerga, atenta, escapa ou aliança de dedo na mão agora é aliança de dedo na mão? Depende. Varia. Verte.

Benedito Lacerda (Chorinho)

Flautista

De ouvido, aprendeu a tocar. De butuca, como se diz hoje em dia. No tempo do cinema mudo, do silêncio, a calmaria das ruas. E a sua flauta subindo pelas paredes como cobra coral que se enrosca na árvore e não solta. Na Jardineira, tão contestada e aclamada. Como era incontestável o seu talento para compor temas instrumentais e executá-los com maestria.

Para isso, contava com a ajuda de jovens nobres, e também dos mais antigos. Entre eles, foram seus correspondentes no campo da composição Ary Barroso (‘Falta um zero no meu ordenado’), Herivelto Martins (‘A Lapa’ está voltando a ser a Lapa), Aldo Cabral (‘Em Mangueira na hora da minha despedida, todo mundo chorou…’), Humberto Porto (no clássico vencedor do concurso de carnaval de 1939), e muitos outros.

Show: Aline Calixto

Cantora apresenta mistura de músicas dos dois álbuns lançados

Show UFMG

No centro do furacão: uma flor. Morena, cacheados cabelos negros brada branda: sou negona, branca, samba. Aline Calixto pisa de sandália o picadeiro armado na Universidade Federal de Minas Gerais para contar a própria história. Contar? Não. Professora de mão cheia adverte, diverte: Canta. Tem uma voz que impressiona. Martinho da Vila põe na panela a gemada carioca.

Convicta cadência crava no mar de estrelas homenagens a Oxossi e Iemanjá. Lavradas na Bahia de Roque Ferreira e nos pergaminhos de Rodrigo Santiago e Douglas Couto, entusiasmam. Desinibida desenvoltura hipnotiza e arremata o público: “E lá fui eu, pro caldeirão, e lá fui eu…todo enfeitiçado pro seu coração!”. Pérola mineral do compositor Affonsinho.