Braguinha (Marchinha)

Marchinha de carnaval

Dono de um dos mais vastos e ricos repertórios da música brasileira, Braguinha jamais aprendeu a tocar um instrumento musical, compondo suas músicas através de uma das formas mais antigas que existem, e que desde criança se aprende, o assovio. Como se fosse um passarinho, um João de barro a construir sua casinha, Braguinha se embrenhava por entre os caminhos do carnaval, do samba-canção e da música infantil dando a medida exata ao chão e às paredes melódicas que construía. Tendo estudado arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, Braguinha logo se consagraria pela música, mas não abandonaria nunca a condição de arquiteto da melodia, sutilmente calculada em seus assovios que criavam personagens como a Chiquita Bacana, o Pirata da Perna de Pau, os heróis e vilões das histórias infantis e as traduções tão deliciosamente brasileiras que ele fazia para os desenhos da Disney.

Eu sou o pirata da perna de pau
Do olho de vidro, da cara de mau”

Zizi Possi (Cantoras brasileiras)

Per Amore

É um bem que Zizi Possi faz à música, o simples fato de cantar. Não obstante, versátil como uma parreira que dá cacho de uva preta ao dia e uva verde à noite, aproveita para alongar dialetos com rara ginástica e completo envolvimento. Italiano, inglês, português, no mínimo.

Maria Izildinha, nada pequena no papel que ocupa dentro do teatro brasileiro de música e poesia, começou a carreira novinha, e ocupou-se do estudo de piano dos cinco aos 17 anos. Depois, uma importantíssima tarefa, voltou-se para Salvador, na Bahia, onde ensinou o que já sabia para filhos de prostitutas e crianças abandonadas na rua no bairro do Pelourinho.

Cascatinha & Inhana (Sertanejo & Caipira)

Música sertaneja

Pare em qualquer lanchonete ou restaurante de beira de estrada que se deparará com esses dois. Não apenas um, porque assim não existiriam, mas o casal. Os sabiás do sertão resistem aos tempos tecnológicos graças ao bom grado de caminhoneiros, sertanejos, carpinteiros, advogados, biólogos, gente de bem que não se cansa de ouvir: Cascatinha e Inhana.

Mas donde vieram dois passarinhos de espécie tão rara e onde foram dar? Francisco molhava-se na cachoeira pequena, em Garça, no interior de São Paulo, conhecida justamente como ‘cascatinha’. Portanto, nada a ver com mentiras contada aos colegas durante a infância, embora seja razoável pensar que estas acontecessem para tirar vantagem junto aos demais.

Renato Russo (Rock)

Rock

O menino enrolado nos lençóis brancos. De uma Rússia onde gelo e filosofia se misturam, acompanham tua solidão. Fantasmas debaixo da cama vêm lhe assombrar todas as noites, com os mesmos presságios: uivos de lobos carregam nas patas coragem e maldade.

Os óculos embaçam o idioma. Dívidas com o português, inglês e italiano, dúvidas com o sexo. Beijou um sapo e ele se transformou em princesa, quando era o príncipe que dentro do sono erótico cultivava-lhe os sentidos prósperos, de tesão e carinho.

Carlinhos Vergueiro (Cantores brasileiros)

cantor brasileiro

É em casa que se aprende. O avô ensinando desde cedo o menino Carlinhos a apreciar a boa melodia do piano. Para depois sair mundo afora, cabelos longos a conhecer e destrinchar sozinho os mistérios envoltos em notas não decifráveis pela matemática.

Sozinho não. De preferência com a companhia de gente de bem, do bom, na boa. Se a tira-colo puder se levar um tal de Vinicius de Moraes, ou um Toquinho, melhor. Caso contrário há quem prefira andar de mãos dadas com um vulgo Adoniran Barbosa, comendo ‘torresmo à milanesa’ com a Clementina de Jesus.

Wilson Miranda (Jovem Guarda)

Jovem Guarda

Wilson Miranda é daqueles famosos casos do primeiro a partir e também a abandonar o barco. Introdutor dos estilos que fomentaram a conhecida ‘Jovem Guarda’ brasileira, como o twist, o calypso e as baladas de rock, ou seja, ritmos dançantes que combinavam andamento veloz com letras romantizadas, o inicial cantor travessou os mares como crooner de uma banda de jazz.

Embora fortemente criticado pelos meios de comunicação, em virtude da defesa dos valores tradicionais e contra a invasão de cultura estrangeira no país, o rapaz de Itápolis, no interior de São Paulo, alavancou aplausos junto ao público, principalmente em função das músicas ‘Alguém é bobo de alguém’, ‘Não tive intenção’, ‘Bata baby’, ‘Estou começando a chorar’ e ‘Chove’.

Humor: Chico Anysio

Humor

O homem sem rosto definido. De mil rostos, 209 tipos irrestritos. Abrilhantavam o rádio, a TV e o teatro brasileiros com quadros humorísticos ligados umbilicalmente ao povo, que colocava o dedo na ferida da grávida, da parteira, do palanque e do padeiro.

Desde as contribuições sertanejas ao repertório eclético da musa da dor de cotovelo Dolores Duran, até zombarias instantâneas com o vocabulário rebuscado e planador de Caetano Veloso e a turma dos Novos Baianos, Chico Anysio sucedeu na música com o mesmo entusiasmo e clamor popular.

Jorge Benjor (Samba Rock)

Música brasileira

Um balanço ritmado por cuíca e guitarra. Nos embalos de sábado à noite e nas manhãs de carnaval nasceu na periferia de São Paulo uma dança trazida ao gosto popular por Jorge Ben, garoto do Beco das Garrafas que na metade da década de 60 mostrou ao mundo seu “sacundin sacunden”. Virou samba-rock a adesão de batidas elétricas a temas acústicos e universos distintos, como a bossa de João Gilberto e o canto falado do blues, a partir de histórias simples cantadas com entusiasmo. De uma vertente criou asas a pilantragem de Carlos Imperial e Wilson Simonal. A ala soul teve liderança de Tim Maia, Cassiano, Hyldon, e mais tarde, Sandra de Sá. Completava o time, seguidores fiéis que acompanhavam o ritmo, como o Trio Mocotó (formado por Nereu Gargalo, Fritz Escovão e João Parayba), Branca di Neve e Bebeto, além de eventuais flertes com artistas de searas amplas, a exemplo dos tropicalistas da banda Mutantes, que em 1968, gravaram A Minha Menina, sucesso instantâneo de autoria de Jorge Ben Jor, o pai que sem assumir a cria (jamais aceitou o termo samba-rock) viu os frutos espalharem-se na música brasileira.

Show: Humberto Junqueira

Em dia de festa violonista executa com esmero o repertório de Garoto

interpreta Garoto

Na noite de segunda-feira, no Conservatório da UFMG, rebola-se um misto de surpresa e surpreendido, inspiração e improviso, conformação e euforia. Explica-se: marca o fim dos trabalhos no mês. Mas é pouco o tempo de espera no calendário, somente uma semana de ausência, sentida firmemente em decorrência da qualidade dos que ali se apresentam, e legam saudade.

Humberto Junqueira não foi diferente dos outros que o antecederam nessa edição, ele inclusive, em escala formada de grupo (o descontraído ‘Quem Não Chora Não Mama’, que pegou para si no colo Jacob do Bandolim). Coube ao intérprete solo de violão de 7 cordas tomar em seus braços, dedos ágeis e giratórios capazes de circundar o complicado e harmoniosamente belo repertório de Garoto.

Ernesto Nazareth (Chorinho)

Chorinho

Quando o Brasil começou a fazer música brasileira e deixou de apenas importar contribuições externas, Ernesto Nazareth estava lá, com seu piano e sua humildade. Fã declarado de Chopin, o músico se notabilizou por não negar a qualidade musical que emergia de fora, mas inserir a esse contexto o que havia de mais Brasil e mais buliçoso em termos de musicalidade erudita e popular; ao mesmo tempo; sem barreiras limitantes. Muitos foram contra e a favor seu espaço em ambas as categorias, mas sua música ultrapassava ao conquistar unanimemente ouvidos e corações de figuras tão acaloradas quanto detentoras de status para certificar o real caráter de Nazareth, “a verdadeira encarnação da alma musical brasileira” para Villa-Lobos, com quem tocou, “um virtuoso do piano”, segundo Mário de Andrade, “genial” para tantos.