Show: Alceu Valença & Orquestra Ouro Preto

Músico pernambucano une as influências à mineralidade do erudito

Show com Orquestra

Alceu Valença é o artista tipicamente, genuinamente, nativamente brasileiro, um popular. Por isso a apresentação sua acompanhado da Orquestra Ouro Preto é desastre aéreo, explosão culpada de comoção, transformação e sentimento pela perda de algo tão precioso que volta (à origem).

O sino da capela inicia o ritual da noite, ainda faltando presença do mestre de cerimônia, sendo a regência entregue aos trabalhos do maestro Rodrigo Toffolo, empunhado de vestimenta e musicalidade adequadas. Frevos, batuques, badulaques, pérolas esquecidas o nome, por esse vão, reles manuscrito póstumo.

“A bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vem chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento
E o sol parando nossas roupas no varal”

Hyldon (Soul Music)

Hyldon as dores do mundo

Muita gente desconhece o baiano de pronúncia improvável, radicado no Rio de Janeiro, responsável pela fermentação de ritmo americano em terras tupiniquins, ao lado de Tim Maia e Cassiano. Bolo de influências revolvidas ‘na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê’.

Hyldon é palavra simples, circunflexa, direta como flecha no alvo da matriz Soul Music. São dele os verbos, melodias e batidas de duas das mais repetidas canções dos últimos setembros, primaveris, de retomada, entoadas tanto bêbadas quanto sobriamente, em reuniões de dor de cotovelo e saudade.

“E eu vou, esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber quem fui
Mas sim o que sou”

Show: Acir Antão & Sarau Brasileiro

Noite de dança e lembranças enternece corações saudosos

Show História Oral e Musical de Belo Horizonte

A noite começou com atraso. Compensado pelo belo número que estava reservado aos que compareceram ao espaço ‘Centro e Quatro’ para ver e ouvir Acir Antão contar e cantar as histórias de Belo Horizonte. Acompanhado pelo grupo de choro ‘Sarau Brasileiro’, o show que estava programado para as 20h se iniciou às 21h, com a apresentação de um vídeo.

Estrelado pelo radialista farto de boas histórias e causos pontuais que traçaram a linha da nova capital mineira, como ele diz, ‘nascida sob a égide do novo’, em substituição à barroca Ouro Preto, o clima começou a esquentar com mornas passagens de lembranças que bafejam na nuca aquela saudade gostosa.

Jorge Veiga (Samba)

Samba

Jorge Veiga, o Caricaturista do Samba, nasceu no dia 14 de abril de 1910, no subúrbio do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, e faleceu no dia 29 de junho de 1979. O cantor se tornou famoso por interpretar com voz fanhosa e sorriso fácil, sambas de breque, anedóticos e malandros, que o tornaram a mais perfeita tradução do malandro carioca metido a grã-fino da década de 50.

“Doutor de anedota e de champanhota
Estou acontecendo no Café Soçaite
Só digo a chanté
Muito merci all right
Troquei a luz do dia pela luz da light”

Sérgio Sampaio (O Rei & o fora da lei)

Trajetórias de Sérgio Sampaio e Roberto Carlos são comparadas

Eu quero é botar meu bloco na rua

As águas de Itapemirim deram ao mundo um Rei e um fora da lei. Um médico e um monstro. Cachoeiro, no masculino, maturou a seleção natural entre aquele que seria quase unânime em agasalhar corações maternos e o que exacerbava feminilidade na postura prática. Pernas cruzadas, cabelos longos e negros como lágrimas ou labirintos, boca embicada à espera de um batom corrosivo vermelho que pintava seu nome nos encartes dos discos: Sérgio Sampaio. O outro prescinde apresentação, Roberto Carlos.

Dona Ivone Lara (Samba)

Sonho Meu

Dona Ivone Lara. Ah, Dona Ivone Lara, quanta força de menina há no respeito com que te tratam. Pois conquistou essa alcunha brincando, bulindo travessuras, esquentando na xícara de café o leite adormecido da manhã, ao que chamaram essa diversão de samba-enredo, você aceitou, porque não? Afinal contava a história da sua vida, os sonhos, as fantasias, de bonecos que desfilariam nas avenidas do Rio, com toda a elegância imaginada, no coração verde e branco do Império Serrano.

“Carnaval
Doce ilusão
Dê-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução
Quero sentir nas asas do infinito
Minha imaginação

Dança: Frevo

Tradição pernambucana segue irrestrita!

Festa brasileira

Frevo guarda chuva, solta o sol na praça. Bonecos de Olinda, pernas de pau, os canhões são braços, que acenam aos anões, donos do espetáculo, borrifando alegria, pecado, gíria, molecada em vestes, despida.

Alceu Valença e Antônio Nóbrega, Capiba e essa gente monta, se esconde na moita, na mata, meio dia, noite inteira, bebedeira, capim e cachaça, algibeira, tem gim e alaga de inundação e prece o verso do poeta, profeta das horas intermináveis. O Frevo é a festa que nunca acaba.

Zeca Baleiro (Cantores brasileiros)

Telegrama Música

A Prosa:

José de Ribamar é um santo. Zeca Baleiro, o artista, portanto, um diabo. Descendente de árabes, provido no Maranhão, nordeste brasileiro, veio ao mundo para homenagear a crença de sua mãe, o que realizou em partes. Destreza de um rápido gatilho já o acompanhava garoto, assim como a malícia com que embalaria suas cantigas de roda, mas o apelido veio não por estilingue de arma, e sim mania de chupar doces durante a aula, o que lhe garantiu a primeira idéia artístico-literária: fundar loja de quitutes. Explico, o batismo do estabelecimento veio em virtude de sua intuição de menino-músico, “Fazdocinhá”, tradicional re-canto dos habitantes locais.

Noite Ilustrada (Samba)

Cantor brasileiro

O que a Noite tem a ver com Ilustração do Verso? Atrás da capa de Revista esconde-se um moreno, negro, olhos de leopardo, rugir contento. Mineiro, de Pirapetinga, carioca, da Portela e da Volta por cima. Por baixo dos trilhos do trem um coração irmão de Pelé, confundido, arredio, ousado no drible de partir pro alto, partilhar a cintura, na curva do samba que vira a boa esperança em nó do sucesso.

“Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
Dá a volta a por cima”

Roberto Silva (Samba)

Cantor brasileiro

Todo Reinado precisa de um Príncipe. No Brasil, terra do Samba, o escolhido foi Roberto Silva. Filho de dinastia nobre, herdeiro direto da linhagem de Ciro Monteiro e Orlando Silva, aprendeu desde cedo a desdobrar o ritmo e salientar a intenção dos versos em falas bem costuradas e repiques na medida exata para sua voz.

“O escurinho
Era um escuro direitinho
Agora está com a mania de brigão
Parece praga de madrinha ou macumba
De alguma escurinha que lhe fez ingratidão”