Michael Jackson (Cantores internacionais)

“Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso.
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.” Edgar Allan Poe

Rei do Pop

Acanhando, dentro do que nunca achou poderia ou devia fazê-lo, um rubor toma conta da ousadia involuntária, abismado pela impaciência do condão paterno o tendão se contrai em nervo e dissidência, de repente o rato corre tanto a ponto de esquecer a dor de ter uma pata presa na ratoeira.

Mas a transposição não desfaz a medida e circunstância de ter sido o menino criado por mãos de gancho, servos feitos em imobiliárias, línguas bipartidas de cobra arranjando lugar no estômago para devorá-lo. Parece conto de fadas, mas é horror a vida deste garoto.

“’Cause this is thriller
 Thriller night
 And no one’s gonna save you
 From the beast about to strike
 You know it’s thriller
 Thriller night
 You’re fighting for your life

Marisa Monte – O Que Você Quer Saber De Verdade

“Descalço no parque
Sozinho eu estou
A esperar por você meu amor” Jorge Benjor

O Que Você Quer Saber De Verdade

Pássaros revoam dos lençóis e perguntam para Marisa Monte: O Que Você Quer Saber de Verdade? Ela, dançarina dos redemoinhos responde com a interrogativa flexão de sobrancelhas que lhe é característica. Todo o disco novo da cantora permeia a indecorosa sensatez de sua voz sigilosa.

Caminha bem arrumada pela manhã, fronha do travesseiro amassada, olhos de girassol na janela embaçada, um atento esperar pelo amor que retém, “Descalço no Parque”. Trilha férrea dum Roberto Carlos no radinho de pilha avista a memória em “Depois”.

Paul McCartney (Cantores internacionais)

“(…) Deixo-as, como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda… Tudo está na palavra…” Pablo Neruda

Beatles

Uma página literária para Paul McCartney. Não sou esse jornalista típico. Copo de uísque, estante à esquerda, na mesa o teclado. Da caverna vem com barbante no polegar. A camisa jeans sobre ombreiras vermelhas-amarelas-azuis do sargento Pimenta.

Mas um menino sai de casa à perigo, frouxo, trouxa nas costas igualando a esfera da lua minguante, presumindo assumir a forma de um ritmo elétrico, por isso ela aceita convicção e circunstância de osso de caveira, na boca do cachorro dobra a esquina e o rabo abana, uma melodia, nota, timbre…

“What if it rained?
We didn’t care
She said that someday soon
The sun was gonna shine.
And she was right,
This love of mine,
My valentine

Dança: Festa Junina

“Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
metade cheias de luz,
metade cheias de frio.” García Lorca

bandeirinhas

Bandeirinhas coloridas dançam uma quadrilha ao sabor do vento e da canjica.
A noiva veste branco, o padre sua bata preta e o noivo está amarelo de tanto medo!
Ao redor deles, os convidados completam a festa com roupas de todas as cores.
As mulheres com seus vestidos de chita e Maria Chiquinha no cabelo.
Os homens de camisa xadrez, calça remendada com panos coloridos e chapéu de palha.
Aquelas que ainda não encontraram um noivo fazem simpatias para Santo Antônio.
Aqueles que já encontraram uma noiva pedem a chave dos céus para São Pedro.
E aqueles que não querem uma coisa nem outra pulam a fogueira de São João!

Show: Zeca Baleiro (Calma aí, coração)

“(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas” e. e. cummings

A honra de ter me sido apresentado por você, ignora a conjugação do verbo. Zeca Baleiro, o inescrupuloso, desbrava os grandes sertões veredas pisando em cactos. Fura um buraco na secura da planta e dela bebe a água, jorra sede, jorra sebo, canta rap, funk, samba, funde cuca, rock, praia – no meio do deserto – com malemolência.

Os desfeitos técnicos, como uma chance da vida, embarcam na locomoção do autor, esparge na vossa cara o imperfeito, passível de erro, pecado, demora. Tudo pode para aquele que detém o pingente, grita alguém da platéia, recebe a resposta negativa. Motivo, segurança, momento, para usufruir da molequice embriagante, pirraça a descompostura de Lulu Santos.

Humor: As Empreguetes

“A única coisa que eu sei é que os passarinhos não precisam de escada para subir em nenhum lugar!” Quino

Perguntaram-me o que achava do clipe que só anda rolando (pois proibido nos outros) site da Rede Globo, verdadeira febre sem carnaval, fora de época.  Pois o susto foi grande quando lhes confrontei meu desconhecimento. Facilmente não sou um jornalista bem informado desse país.

Apesar do ledo engano à primeira vista, decidi satisfazer o meu gosto e provar do bolo já raspado por incensados dedos e tatos (e línguas até). Procurei pelo novo fenômeno da teledramaturgia musical brasileira e em poucos minutos estava de frente àquele que me revelaria.

Bee Gees (Cantores internacionais)

“Vezenquando baixa uma saudade, quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado deste verão, e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens, sempre azul.” Caio Fernando Abreu

cantores internacionais

Crápula das minhas aliterações, eu mesmo um pobre ponto mal costurado. Rio e o riso é grosso. Massivo maciço maço de cigarros estonteantes, puxo o primeiro: é Barry Gibb, homem bonito, robusto, alce dos Andes. Nele se sustentam os ases do baralho embaralhado por Eros.

O segundo cigarro de que me sirvo é Robin Gibb, esguio, raquítico, trágico. Uma tesoura cega tentando entrar num ambiente de malhas, rangedoras, qual máquinas em horário de trabalho. Insiste com a especiaria dum ramo duma espiga de milho. Chamam-lhe o espantalho, ele treme, mas não reage.

Show: Los Hermanos

“Moça, olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê” Marcelo Camelo

Marcelo Camelo Rodrigo Amarante

Não, não fui eu quem assisti ao mesmo show do Los Hermanos que você. O que vi foi outro. Cada qual lunática lente lírica. Naquela minha adolescência, eu divulgava minhas longas tranças Rapunzel, presas por uma bandana verde-água, Cazuza estampava a frente da camisa de igual coloração.

Os olhos, como duas persianas repuxadas, eram esteiras que teimavam moles em ojeriza ao esgoto claustrofóbico. Era preciso força para se manter alerta, no meio de toda a confusão limitável da vida do palhaço da lagartixa. Espelhos recorrentes numa lousa de hastes.

Donna Summer (Cantoras internacionais)

“Toca minha mão.
Quem fez o amor não vazará meus olhos
porque busco a alegria.
A vida não vale nada, (…)
Olha-me para que ardam os crisântemos
e morra a puta
que pariu minha tristeza.” Adélia Prado

Rainha Disco Music

Não é fácil dizer adeus a uma pessoa que conhecemos pouco, ao mesmo tempo tanto. Principalmente quando nos convém dançar, vem à tona alto falantes em auto e bom som, como burro (pantera) cor de rosa recém saída da fornalha. Rainha ditosa.

Quantas foram as voltas que os teus caracóis deram em torno dos meus ouvidos, grudando chiclete chinês olhos tampados de escuro, despertos ao sol irradiador. Igrejas e capelinhas, mesmo as mais entusiasmadas, soaram ineficazes para cobrir o desespero-lunático de teus fãs.

Emicida – Rap & repulsa

“Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.” Hilda Hilst

Rap

Dentre as acusações correntes que se protocola contra o rap está a de que acabou com a canção, além de incitar a violência e derrocar numa linguagem chula sem direito a aparador.

Do exílio, lírio branco maquiado de fuligem, o instinto sacode as aparências e gravita intencional, direto, frente a frente, olho no olho, dedo na ferida.