Entrevista: Zeca Pagodinho

“O ataque de uma borboleta agrada mais que todos os beijos de um cavalo.” Mario Quintana

Deixa a vida me levar

“Não ouço o que há de pior na música brasileira”, é com estas palavras que Zeca Pagodinho exalta o samba, o pagode, o próprio disco, mote da apresentação no Chevrolet Hall na próxima sexta-feira, 19 de outubro, encerrando a turnê de mais um festivo sucesso da carreira do compositor de Xerém.

Mas Zeca também não se fecha para o que há de novo. “Vida da minha vida” compila antigos êxitos, como a canção “Pôxa”, do pouquíssimo gravado Gilson de Souza, redescoberta por Zeca quando este ouvia a rádio Tupi, do Rio de Janeiro, a inéditas composições, entre elas homenagem ao neto de Pagodinho, intitulada “Orgulho do Vovô”, em parceria com Arlindo Cruz.

Fela Kuti (Afrobeat)

“Podes caminhar na água?
Não fizeste mais do que uma palha
Podes voar no ar?
Não fizeste mais do que um mosquito
Conquista o TEU coração
– E pode ser que te
Tornes alguém” Abdullah Ansari

Fela Day

O homem que se casou com 27 mulheres ao mesmo tempo. O homem morto, vítima da AIDS, aos 58 anos, no longínquo 1997. Afirmações mentirosas. É o que estão dispostos a provar os seus súditos, que se reunirão no Granfinos na noite de quinta-feira para celebrar o carma e os gritos de Fela Kuti, inventor do afrobeat, de fato pantera negra, não gato, pois sete vidas seria uma quantidade insuficiente ante as dificuldades enfrentadas.

Isto porque milhares de corações, abusando do direito de proferir hipérboles, baterão como cônjuges, e ainda mais, amantes do ritmo ilimitado e político do compositor nascido num dia 15 de outubro de 1938, álibi para a proclamação do festejado “Fela Day”.

Entrevista: Vander Lee + Dibigode

“Leva meu samba, meu mensageiro, esse recado, para o meu amor primeiro” Ataulfo Alves

compositor mineiro Ataulfo Alves

Esgueirando-se do jogo proposto pelo musicólogo Ary Vasconcelos, o músico e compositor Vander Lee é incapaz de sublinhar Ataulfo Alves em uma só palavra. Prefere três: cultura matuta mineira. E se estende prazerosamente: “É a impressão mineira ao samba, uma visão de mundo carregada de culpa, ligação familiar e anti-malandragem, típica da nossa Zona da Mata.”

O músico, que se apresenta hoje pelo Projeto Compositores.BR no Palco do Sesc Palladium, pretende esmiuçar o repertório de Ataulfo Alves a partir de canções clássicas que o tempo se encarregou de eternizar, como “Você passa, eu acho graça”, “Ai que saudades da Amélia”, e “Meus Tempos de Criança”.

Wando (Romantismo)

“Menina, deixa que eu erga
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos antigos
a rosa azul de teu ventre.” García Lorca

Cantor das calcinhas

O artista popular alimenta-se das carícias do público. Numa tenda de frutas, debaixo de um sol de meio dia, o menino criado no interior de Minas Gerais, vendia seu peixe. Quando apareceu num belo dia um ilustre cliente: Jair Rodrigues era seu nome. Alto, esbelto, sensual, cantava sambas ao lado de Elis Regina na televisão, e decidiu levar aos palcos a música do menino das frutas.

Wando imediatamente estourou nas paradas de sucesso, mas à distância, assistindo embevecido ao êxito de sua composição através das repetições radiofônicas. Logo, quis conhecer ele próprio o afago do público. Investiu-se de uma sensualidade consentida, num acordo tácito entre ele e a plateia ficaria provado que para se conseguir carinhos não eram necessárias mais do que meias palavras, cantadas ao pé do ouvido, com charme e saliência.

Fernanda Brum (Música gospel)

“Se eu existo, logo Deus deve existir também. É uma gentileza que faço com um desconhecido.” Lobão

Cantora Gospel Pavão pavãozinho

O sobrenome lembra bruma. Desconhecida, fumegante. Plana plena pluma. Fernanda caminha por entre nuvens disformes, a colher os espinhos das rosas. Os espinhos, forma pontiaguda, esverdeada, negra na parte afiada, da coroa do Cristo. Pouco lhes lançamos olhares.

Porque neste segmento, ou em qualquer outro, a vermelhidão da flor investe-nos mais medo, ameaça, vertigem, vendagem? Fernanda clama ao outro lado, sem esquecer o fardo pesado e feio das calamidades. Toca na superfície da beira, na galhada menos baixia, na bexiga cheia: esvazia. Num único sopro de vento.

Criolo – Rap Na Orelha

“O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.” Carlos Drummond de Andrade

Nó Na Orelha

Tartamudeando a música estava ali abandonada, rejeito, até que o sujeito chegou para pegá-la. Guardou-a como uma tartaruga fora da casca, por descuido da mãe ou dos entes próximos. A música, pequenininha, singular, desprotegida, indefesa, precisa de guarda-chuva.

Não pode ficar ao relento, aguardando pingos grossos, finos, violentos. Enxurradas vorazes deixaram a música com aquela cara de cachorro pidão, pinto no lixo, molhado gato. Sem os pelos aparados, bem penteados, alisados, a música tem aparência amedrontada.

Show: Zé Ramalho & Banda Z

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!” Augusto dos Anjos

Zé Ramalho Chão de Giz

Detrás das neblinas, perde-se de vista o horizonte, um carneiro é sacrificado em nome do Pai, um velho conduz o rebanho com o cajado, feito de madeira, arame, esculpido por mãos comidas por rugas e outros animais que vêm a ter sabedoria pelas profecias dele: o homem.

O homem é desde os primórdios o mais inteligente de todos os animais, e de longe o menos sabido. A intuição conservada nos seres puros perdeu-se com a progressão dos anos, meses, milênios, pouco restou do que havia de lúdico, frutífero, ingênuo.

Show: Renato Teixeira & Banda

“a coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está é na travessia.” Guimarães Rosa

Romaria

O irredutível carisma de Renato Teixeira segue tocando a boiada. Como legítimo mártir da música caipira, o homem da barba branca, dos cabelos brancos, põe a viola dentro da sacola e vai viajar. Convida-nos a ir com ele: seus filhos (nascidos e criados) de uma sincera amizade.

Por entre estradas de ferro e terra, trilhos de trens e cores, referências a Caetano Veloso e Sérgio Reis, soa o berrante do segundo e a São Paulo do primeiro: duas musas inspiradoras do franzino homem do interior que “anda devagar porque já teve pressa, e leva esse sorriso porque já sofreu demais”, entoa junto com o coro da plateia o sucesso bisado por Almir Sater.

Show: Fafá de Belém (canta Antônio Maria)

“Busque amor novas partes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças;
que mal me tirarão o que eu não tenho.” Camões

Fafá de Belém canta Antônio Maria

Falta a Fafá o recato, a contenção, e o esmero para que a apoteose perene da voz inflamada da cantora acompanhe o ciclone de emoções que a destilada música pretende passar. Em doses sempre homéricas (nunca homeopáticas), como é do pavio aceso da nativa mulher de Belém, à vontade em cena como na sala de casa, o que em alguns casos soaria salutar, neste remendo acaba despropositado.

O homenageado da noite, outro nortista, pois que nordeste e norte se embaraçam na salada recheada de frutas de Fafá, era Antônio Maria, sutil na sintonia com o repertório acalorado e confessional da intérprete. O mérito maior da apresentação do projeto “Compositores.BR” no palco do Sesc Palladium esteve na reverência atrevida.

Dança: Funk (Carioca)

“O não dizer é o que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.” Hilda Hilst

Funk Carioca

Um corpo nu está dançando. Balança-se desavergonhado. O pudor não existe na terra (treme) onde dança – o corpo nu. Moral não existe na terra (bate) onde dança – o corpo nu. Caroço cuspiu-se violentamente, exibindo ventre, nádegas, seios, as malditas reprimidas escapolem. Chupa-se a fruta do início ao final, passando por suas veias, sentindo o gosto híbrido da semente rija e macia.

O corpo nu está dançando. Agora não um, são muitos. Orgia regada a vinho e liquidez maciça, libido e ardilosa língua a perpassar orelhas. O quadril dilata-se, o centro do mundo é o verniz da mulata. Brilha o pedaço apertado num short compacto, desprevenido, munido de pele à mostra. O quadril é todo dos ares – entorna, rebobina, desfaz o movimento, avança na direção do explosivo: fogosa mulata, quadril, dançarina.