Entrevista: Dissonâncias de Alaíde Costa

“Pela estrada da minha dissonância…” Fernando Pessoa

Alaide-Costa

Alaíde canta Alaíde, como conclui o nome de seu novo álbum, a ser lançado ainda em 2014. Não mais Vinicius, Tom, Vandré e Alf, músicos e amigos conhecidos assim por íntimos. Engano. A cantora carioca que hoje vive em São Paulo continua dando uma volta tão grande nas evidências que é capaz de lançar um álbum autoral onde é parceira de todos esses baluartes do nosso cancioneiro. E mais, é ela a autora das melodias, isso quando não compõe música e letra. “Há ainda parceiros menos conhecidos, como o Paulo Alberto Ventura em ‘Tempo Calado’, o José Márcio Pereira e o Geraldo Julião, são ao todo cerca de doze faixas”, revela. A produção é do pesquisador Thiago Marques Luiz, que lança o trabalho por seu selo, o “Nova Estação”.

Com recente passagem por Belo Horizonte, onde se apresentou no projeto “Salve Rainhas”, na FUNARTE, Alaíde aproveita para emendar mais um acontecimento. “Gravei um CD todinho com Toninho Horta, está pronto para sair, acredito que ainda este ano”. No referido show, a cantora emocionou a plateia ao entoar, no bis, à capela, a “Bachiana nº 5”, de Villa-Lobos. “Cantei com o coração”, atesta com a palavra final que dá nome a um dos mais emblemáticos discos da carreira, cuja canção nasceu da parceria entre o carioca Ronaldo Bastos e o mineiro Nelson Ângelo, mesma mistura que promete dar certo entre a intérprete e o violonista identificado com o Clube da Esquina. As duas novidades devem elevar a 15 a discografia autoral de Alaíde.

O samba mágico de Cartola: Aprendiz da alvorada

“Todo mundo tem o direito de viver cantando” Cartola

Cartola

Angenor só descobriu seu nome aos 56 anos, ao se casar com sua segunda esposa. Só gravou suas músicas em disco aos 65, depois de lavar carros e construir com tijolo e cimento os caminhos de sua vida. Mas Angenor sempre foi poeta, sempre foi Cartola mesmo antes de tê-la na cabeça. Por obra do destino, cresceu fidalgo em meio à pobreza de Mangueira, e a cantou em versos silenciados pelo perfume das rosas. A cantou em versos que o estudo das línguas, a formação cultural, a exigência da técnica, não ensinam. Foi aprendiz da alvorada, das cores verde e rosa que o amanhecer nos mostra ao desfilar suas bandeiras, dos ensinamentos cíclicos de um mundo moinho, e mestre do samba nítido e acarinhado pelas cordas de aço de um violão divino.

As rosas não falam (samba, 1976) – Cartola
Cartola nasceu no Catete, logo depois foi morar em Laranjeiras, bairros da zona sul do Rio de Janeiro. Mas com a morte do avô, em 1919, ele e seus cinco irmãos foram obrigados a se mudar com os pais para o Morro da Mangueira, favela que se iniciava naqueles tempos. Sempre chegado a uma cachaça e várias mulheres, Cartola não gostava de trabalhar, o que lhe rendia diversas brigas com o pai. Numa dessas foi expulso de casa. A essa altura já trabalhava como pedreiro, já usava o chapéu coco para proteger o cabelo da cal que lhe deu o apelido famoso e já gostava de samba, inclusive já escrevia os seus. Os primeiros deles foram mostrados aos colegas do “Bloco dos Arengueiros”, que não simpatizaram muito com as composições. Embora fossem bons de samba e de briga, eles provavelmente não notaram que Angenor escondia sob a cartola que lhe protegia a cabeça, versos e melodias tão sublimes quanto as rosas que desabrochavam na primavera. Numa tarde de 1975, o compositor Nuno Veloso, que levava Cartola e dona Zica até a casa de Baden Powell, resolveu comprar flores para o casal. Ao se encantar com o desabrochar da roseira no dia seguinte, Zica questionou o marido: “Como é possível, Cartola, tantas rosas assim?”, ao que ele respondeu sem muito entusiasmo: “Não sei, as rosas não falam”. E começava a florescer naquele dia mais uma música que traria voz eterna a seu compositor. Gravada por ele e por Beth Carvalho em 1976, demonstrava toda a esperança lírica de Cartola, que a escrevera em seus 67 anos.

Adoniran Barbosa: cronista da fala

“Fosse qual fosse o assunto as escrevia para ela, nelas ria e chorava para ela, e em cada palavra se ia a minha vida. No lugar da fórmula de folhetim tradicional que as crônicas tiveram desde sempre, as escrevi como cartas de amor que cada um podia tornar suas.” Gabriel García Márquez

Adoniran Barbosa - Sem data - Foto: UH/Folha Imagem                                               *** Publicada na Isto é 2103 ***

Adoniran Barbosa, poeta do chapéu, do terno, do cachecol e da gravata borboleta.
Afinal, vivia na cidade da garoa e precisava se proteger da chuva e do vento.
Mas a cidade da garoa era para ele muito mais do que chuva e vento, eram as pessoas humildes que viam seus trens, seus sonhos, seus amores irem embora.
Adoniran Barbosa era um cronista irreverente, que cantava uma cidade que estava indo embora e aos poucos deixaria de existir para dar lugar ao progresso.
Mas o que jamais iria embora seria sua música, sua maloca, seu trem das onze que ele eternizou em versos.

“Não posso ficar
Nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora ás onze horas
Só amanhã de manhã”

As Mil Faces de Ney Matogrosso

“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?” Carlos Drummond de Andrade

Ney-Matogrosso

A cortina do teatro se abre e o homem com voz feminina e pose libidinosa contorna de preto os olhos e pisa firme no palco, pinta de vermelho a boca e aguça os ouvidos para sentir os sons que emergem de seu corpo quase nu. Uma flor vermelha se espreguiça na orelha e ruma para lançar seu perfume por entre os dentes separados desse mago sensual e aflito. O batom vermelho beija bandidamente o público com seus agudos que dançam acompanhando os quadris e as batidas do peito. Colares de pérolas, brilhantes e badulaques completam o espetáculo. O mago se transforma em peixe, em água viva, em pássaro, em lobisomem. Transforma-se num pescador de pérolas. As correntes do homem libertário enfeitam seu corpo, mas não impedem seus movimentos. No palco ele está livre, pula, dança, flerta com milhares de rostos ao mesmo tempo e canta. Canta com sua voz encantada que nenhuma força jamais impediu. Porque não há força capaz de impedir o canto de Ney Matogrosso. Dentro dele há um bicho, uma mulher, um canto imprevisível e sedutor que rebola lascivamente dentro do imaginário e do corpo.

“Esse corpo moreno
Cheiroso e gostoso
Que você tem
É um corpo delgado
Da cor do pecado
Que faz tão bem”

Gonzaguinha: Grito de alerta e esperança

“Sabendo que o importante não é o aplauso nem a vaia, mas o silêncio que fica depois da música.” Gonzaguinha

Gonzaguinha

Por trás da expressão carrancuda, do semblante de poucos amigos e da barba que escondia-lhe a chance de um sorriso mais largo, havia um coração pronto a explodir do menino que desceu o São Carlos para colocar o dedo na ferida dos problemas sociais e afetivos de mulheres e homens. Filho do Rei do Baião, da dançarina Odaléia e da música brasileira que acolheu com tamanha propriedade, a cara de Gonzaguinha era a de um Brasil que não se entrega e não deixa de apontar as mazelas que atingem as suas pessoas. Com a camisa aberta e o peito à mostra ele escreveu através de suas músicas um retrato sensível, por vezes raivoso, outras vezes irônico, de sentimentos universais e em decadência. Era um grito de alerta, e ao mesmo tempo, de esperança.

Com a perna no mundo (samba, 1979) – Gonzaguinha
Filho de vários pais e de várias mães, Gonzaguinha teve história parecida com a de muitos brasileiros. Nasceu no ventre da cantora e dançarina da noite Odaléia e foi registrado pelo expoente maior da música nordestina levando seu nome. Com a morte da mãe quando ele tinha dois anos, vítima de uma tuberculose, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi entregue aos carinhos de dona Dina e seu Xavier, para que o pai pudesse cumprir sua vida de viajante. Luizinho, como passou a ser chamado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, logo aprendeu a tocar violão com seu padrinho, a sacar as malícias das ruas, e a ter vontade de conhecer outras bandas. Essa epopéia comum a tantos brasileiros, Gonzaguinha cantou “Com a perna no mundo”, de 1979, em que deixava um caloroso recado à madrinha querida: “Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é, perna no mundo, sumiu…”

Nelson Gonçalves: O Vozeirão da Música Brasileira

“morre a vida e tranqüiliza-se o sangue
até que rompe o novo movimento
e fica ressoando a voz do infinito.” Pablo Neruda

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Um terno alinhado, uma camisa de botão, para as ocasiões mais especiais uma gravata, cabelos penteados para trás, anel de brilhante no dedo, metralha na cintura e na garganta, no gogó, como ele dizia. Assim ele subia ao palco, disparava o vozeirão e era adorado por seu povo. Com sua porção sofisticada e sua porção considerada brega Nelson Gonçalves agradava tanto ao gosto popular como aos ouvidos mais exigentes. Porque Nelson cantava de tudo, tinha voz para cantar de tudo, e cantava como ninguém. Escolhia seu repertório através das canções que mais lhe comoviam e se encaixavam em sua voz. E era exatamente por causa dessa última condição que ele cantava de tudo. A voz de Nelson Gonçalves era maior até que as próprias canções que cantava. Maior do que o próprio mito em torno dele. Nunca ouve voz capaz de vibrar tanto quanto aquele grave. Quando cantava os versos de “Pensando em Ti” com a voz embargada por supostas lágrimas ou concedia a força necessária para a “Renúncia”, Nelson costumava dizer que ele mesmo se emocionava com suas interpretações. Era um homem vaidoso, que gostava de se elogiar, centrado em si, que deixou suas mulheres, sua mãe e seus filhos. Mas que deixou principalmente sua voz, para que pudéssemos ouvi-la e nos emocionar como ele. Municiado por seus “dós-de-peito” Nelson cantava sem nenhum esforço. Cantar, para Nelson Gonçalves, era a coisa mais fácil do mundo.

“Eu amanheço pensando em ti
Eu anoiteço pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite pensando em ti
Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus”

Herói de cinema a Rei do Ritmo: as canções de Jackson do Pandeiro

“mas eu antecipo.
Não há substituto para uma vida inteira. (…)
dez mil anos de ritmo-do-coração-pensar-dizer,” Ezra Pound

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Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no “Rei do Ritmo”. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias, e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar o sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.

“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

As Canções de Ângela Maria: Estrela Infinita

“Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!” Florbela Espanca

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Ângela Maria, a voz doce e quente que canta para o mundo.
A voz do adeus, das brigas e despedidas.
A voz que perdoa os “tapas na cara” e confia no poder de amar do coração.
Como disse Chico Buarque: “Ângela é todas numa só voz.”
Uma voz imensa que enche a “noite vazia” de amor e luz.

“Em nome do amor
Que houve entre nós dois
Deixemos pra depois
O adeus”

Canção do morro: a música que nasce na favela

“E este por sobre nós espelho, lento,
bebe ódio em mim; nela, o vermelho.
Morro o que sou nos dois.
O mesmo vento
que impele a rosa é que nos move, espelho!” Ferreira Gullar

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O morro sempre teve melodia.
Sempre teve música entre seus caminhos.
Caminhos tortuosos, de subidas difíceis e perigosas descidas.
Mas caminhos que apesar das dificuldades sempre criaram bonitas canções.
Caminhos de Cartola, de Wilson Batista.
Caminhos de Carlos Cachaça, de Ismael Silva.
Caminhos dos bambas, dos passistas da escola de samba e da vida.
Das mulatas guerreiras que erguiam suas latas d’água na cabeça e seguiam em frente, em direção ao novo dia.
Canções que foram feitas para o céu, para Ave Maria, pras cabrochas de pé no chão.

Paixão Cearense: A música que vem do Ceará

“um círculo de pássaros e chamas.
E pelos canaviais,
testemunhas que sabem o que falta.
Sonho concreto e sem norte
de madeira de guitarra.” García Lorca

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O Raimundo mais famoso do Ceará levou as velas do Mucuripe para velejar o Brasil inteiro. Seu parceiro na música mostrou aos jovens seu descontentamento com a própria geração. O poeta que nasceu no Ceará era na verdade agricultor. O poeta que levou essa paixão no nome não era cearense. O grupo que se tornou mais conhecido exibiu com orgulho seus “Quatro Ases e um Coringa.” Outro compositor daquela terra desfilou na avenida seu bloco do prazer. E o letrista mais proclamado nas canções do Rei do Baião foi a síntese desse povo rico e diverso.

Mucuripe (1972, MPB) – Fagner e Belchior
Fagner e Belchior se conheceram em Fortaleza, depois do primeiro sair de Orós e o segundo deixar Sobral. Juntos, ao lado de Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra formaram o “Pessoal do Ceará”, que se apresentava semanalmente em um programa de rádio. Levando na bagagem as lembranças de sua terra, seguiram roteiros distintos, Fagner indo para Brasília estudar arquitetura e Belchior indo para o Rio de Janeiro estudar medicina. Mas em 1971, no Festival de Música Popular do Centro Universitário de Brasília, Fagner inscreveu uma música que havia feito com o conterrâneo agora distante. “Mucuripe”, destino solitário das jangadas em Fortaleza, tirou o primeiro lugar e atentou os olhares brasileiros para a permanente poesia das águas da canção cearense. Um ano depois, a música foi interpretada por Elis Regina. Com esse êxito, Raimundo Fagner mudou-se para o Rio de Janeiro e Belchior para São Paulo. Além disso, Fagner fez seu próprio registro, na série “Disco de Bolso”, lançada pelo jornal “Pasquim”, com Caetano Veloso cantando no outro lado do compacto “A Volta da Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Refletia no canto arraigado de Fagner, a permanente poesia das águas. Da flor fez-se o agasalho. Da vela que ilumina o mar, a esperança de um rapaz novo encantando.