10 criadores de vanguarda da música brasileira

“Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.” Paulo Leminski

O júri formado por Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat elegeu “Cabeça” como a vencedora do Festival Internacional da Canção de 1972, mas o compositor Walter Franco jamais recebeu o prêmio. No intervalo da apresentação, as vaias estrondosas da plateia e a presença de militares do regime ditatorial resultaram na remoção do júri, e o primeiro lugar acabou com “Fio Maravilha”, de Jorge Benjor, interpretada por Maria Alcina. O episódio é elucidativo do tipo de música que Walter Franco produziu. Morto no último dia 24 de outubro, ele renegou a vida inteira o rótulo de maldito, colado em artistas inconformados que encheram a música brasileira com trabalhos experimentais e de vanguarda.

10 mineiros que poderiam ter nascido no Rio

“O mar de Minas não é no mar.
O mar de Minas é no céu
pro mundo olhar pra cima e navegar
sem nunca ter um porto onde chegar…” Domínio Público

Eles são mineiros, mas dedicaram filmes, livros e canções para aquela que é considerada por muitos como a “Cidade Maravilhosa”. Vocacionados para a criação, músicos, atores, escritores e cineastas partiram de todos os cantos das Minas Gerais em busca de uma oportunidade para exercer o seu ofício e acabaram se estabelecendo no Rio de Janeiro. Hoje em dia, não é incomum que eles carreguem o sotaque praiano e tragam a saudade das montanhas.

“É necessário ter conteúdo para não gerar uma música vazia”, diz cantora Lívia Itaborahy

“Mas o amor nascente aguçou nela o senso da beleza e ela jamais esquecerá aquela música. Toda vez que a ouvir, ficará emocionada. Tudo o que acontecer em torno dela nesse momento ficará aureolado com o brilho daquela música, e será belo.” Milan Kundera

Estreante no mercado fonográfico, a cantora Angélica Duarte decidiu homenagear Caetano Veloso em seu primeiro EP. “Odara” apresenta três músicas do irmão de Maria Bethânia. Apesar do caráter de tributo, Angélica garante o vigor e a atualidade do trabalho. “A gente homenageia os músicos que os nossos pais escutavam porque eles são importantes para o que a gente faz agora. A Tropicália abriu muitas portas para que a gente continue se reinventando”, declara a cantora.

O mineiro Octavio Cardozzo seguiu a mesma linha. Em 2019, ele coloca na praça o seu segundo álbum. “Sertão Elétrico” é baseado no show homônimo, onde cantou músicas de Bethânia. “Hoje estamos mais perto dos artistas e poderíamos dividir o line-up de um festival com Caetano e Gil, por exemplo”, afirma Cardozzo. Também mineira, Lívia Itaborahy dedicou show a Ivan Lins. “Reverenciar um trabalho, apesar de não romper, traz um novo olhar, que é dado a partir do recorte que se faz daquele artista”, afiança Lívia.

10 gringos que foram adotados pela música brasileira

“E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.” Pablo Neruda

António Joaquim Fernandes morreu em setembro, aos 67 anos, vítima de câncer de pele. Com estas informações, poucos o reconheceriam. Foi no Brasil, para onde se mudou aos 11 anos, que o cantor nascido em Macedo de Cavaleiros, em Portugal, adotou o nome artístico de Roberto Leal, alcançando um enorme sucesso ao popularizar os fados de seu país. Assim como Roberto Leal, outros músicos vindos de fora escolheram o Brasil para expressar sua arte. Listamos alguns deles.

Ruy Castro: “Ataques a artistas são inadmissíveis”

“Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço/ que além do tempo me leva.
Só – na treva,/ fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível/ reinventada.” Cecília Meireles

“Era como se estivesse esperando pela notícia”, confidencia Ruy Castro, 71. “Na véspera, tinha passado o dia tocando vários discos dele, mas isso não é vantagem, porque toco seus discos com frequência”, complementa. A afirmação se refere a julho deste ano, quando, no dia 6, o mundo foi informado de que o papa da bossa nova havia morrido, depois de uma vida de 88 anos em que se dedicou, basicamente, a construir o silêncio por meio da música. Ou vice-versa.

“Gostaria que ele tivesse passado os últimos 20 anos gravando, mesmo que fosse em casa, só ele e o violão. Não sei se isso aconteceu”, lamenta Castro. O que se sabe a respeito dos dias finais de João Gilberto (1931-2019) é que o homem responsável por internacionalizar a música brasileira, após o fenômeno conhecido como Carmen Miranda (1909-1955), teve de enfrentar uma penúria financeira, fruto de disputas entre gravadoras e familiares, e que não subia em um palco desde 2008, quando realizou sua última turnê.

70 anos de Zé Ramalho em 7 curiosidades

“Raio fresco jamais luziu nessas cavernas;
Os miasmas febris, entrando pelos muros,
Filtram a se inflamar assim como lanternas
E o corpo vos penetram de cheiros impuros” Baudelaire

Todas as vezes em que vi Zé Ramalho ele estava em cima de um palco, comprovando a definição, que se tornou surrada, daqueles que chamavam a sua voz de cavernosa. De fato, o som oriundo da garganta do homem nascido em Brejo do Cruz, no interior da Paraíba, se articulava de longe e, ao mesmo tempo, de um lugar escuro e úmido. Apesar de nunca ter trocado uma palavra com Zé Ramalho, me tornei parceiro dele em 2013, quando coloquei letra na canção “Paraibeiro”. Na próxima quinta (3), o autor de “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “Mistérios da Meia-Noite” e outros clássicos, completa 70 anos. Embora esteja em turnê pelo país, ele se nega a dar entrevistas e adota um comportamento cada vez mais recluso, como se, dentro de si, estivesse mais próximo do outro.

14 featurings que deram o que falar na música brasileira

“Todos eles eram bastante famosos, mas se apresentavam no palco como se fossem muito mais famosos: isto é, com modéstia.” Brecht

Levada à casa de João Nogueira pelo amigo Paulo César Pinheiro, a cantora Elis Regina ganhou de presente a música “Bolero de Satã”, com letra de Pinheiro e melodia de Guinga. Elis decidiu convidar para a faixa, gravada no álbum “Essa Mulher” (1979), Cauby Peixoto, que ela considerava o melhor cantor do Brasil.Como se sabe, Elis tinha um temperamento competitivo e era avessa a dividir os holofotes.

Ela não gostava de duetos. De fato, o que se viu foi outra coisa, mesmo com seu ídolo maior. Ao longo dos 3 min 25s da canção, a presença de Cauby se resume a 32 segundos, sendo que em boa parte deles Elis faz vocalises ao fundo, e, nos cinco segundos finais, os dois, enfim, unem suas belas vozes. O que na época era conhecido como “participação especial”, hoje, seria chamado de “featuring”, ou, até, pela abreviação do termo, “feat”. Abaixo, selecionamos alguns dos mais bombados atualmente, com direito a uma licença poética para homenagear os precursores.

Wesley Safadão: “É preciso que haja controle sobre o desmatamento”

“A música veio ao mundo para suscitar prazer.” Thornton Wilder

Wesley Safadão, 31, foi o único dentre os 10 artistas mais populares do Brasil a declarar seu voto durante o primeiro turno das eleições presidencias do ano passado. Na época, o cantor, que integrava a lista de vídeos mais visualizados no Twitter e se mantinha entre os recordistas de cliques também do Spotify, anunciou que votaria em Ciro Gomes. O candidato do PDT chegou a ser governador do Ceará e prefeito de Fortaleza, cidade natal de Safadão. Em junho deste ano, o músico protagonizou outro episódio inusitado. Amigo de jogadores como Neymar e Philippe Coutinho, ele foi convidado a entrar no vestiário da Seleção Brasileira de futebol na estreia da Copa América, em São Paulo, acesso que foi negado ao presidente Jair Bolsonaro. Içado à fama como vocalista da banda de forró Garota Safada, em 2007, Safadão passou, com o tempo, a acrescentar cada vez mais misturas em seu caldo musical. “Amor Falso”, gravada com Aldair Playboy e Kevinho, com 370 milhões de visualizações, é um desses exemplos. “A música é uma arte, não é algo fechado, e isso eu gosto e valorizo muito”, informa Safadão, que admite ouvir a voz do povo na hora de decidir o que cantar. Leia abaixo a íntegra da entrevista com o artista.

10 curiosidades imperdíveis sobre o frevo

“eu quero/ser o janeiro/a chegar
em fevereiro/fazendo o frevo
que eu quero/chegar na frente
em primeiro” Paulo Leminski

Paulo Leminski (1944-1989) escreveu: “desmontando o brinquedo/ eu descobri que o frevo/ tem muito a ver/ com certo jeito/ mestiço de ser/ um jeito misto/ de querer/ isto e aquilo/ sem nunca estar tranquilo/ com aquilo/ nem com isto”. Os versos do poeta curitibano, publicados em 1983, no livro “Caprichos e Relaxos”, captam a inquietação do centenário estilo musical, declarado Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade em 2012 pela Unesco, cujo aniversário é celebrado no dia 14 de setembro.

A data coincide com o nascimento do jornalista Oswaldo Oliveira que, em 1907, grafou a palavra pela primeira vez nas páginas do semanário recifense “Pequeno”, ao dar uma nota sobre o ensaio do Clube de Empalhadores do Feitosa, que tocou, entre outas, músicas como “Amorosa”, “Entre Delícias” e “O Sol”. Dois anos depois, o termo ressurgiria no mesmo vespertino, desta vez na seção “Cavaco”, assinada por Mario Jota, que dizia: “Frevo, palavra magnética, capaz de pôr em vibração contínua o universo inteiro”.

João Bosco, sobre momento político: “Sinto que vivo num hospício”

“A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio” Cecília Meireles

Um homem caminha, em uma paisagem desértica e árida, e vem, do fundo do horizonte, em direção ao espectador. “Nesse trajeto, que não podemos mensurar de acordo com o tempo cinematográfico, não há nenhum barulho e nenhuma interferência sonora”, aponta João Bosco. A cena descrita por ele está na primeira sequência do filme “Paris, Texas”, dirigido pelo alemão Wim Wenders em 1984. “Me lembro dela pela importância da mensagem”, sublinha. Para chegar ao título do novo disco, o primeiro de inéditas em oito anos, Bosco pensou nessas imagens.

Pode parecer estranho para um músico virtuoso como o violonista de Ponte Nova (MG), mas é essa “sonoridade” que ele persegue, seguindo, inclusive, a premissa do poeta gaúcho Mario Quintana (1906-1994): “Toda arte é feita de silêncio – inclusive a própria música”. “Existe uma zoeira grande hoje em dia, muito barulho e muita falação. Falta reflexão, sempre acreditei na necessidade do silêncio para chegar até ela. Tudo que há de som nesse disco te leva a pensar mais profundamente sobre as coisas, e aí você precisa do silêncio”, destaca.