Entrevista: Valesca Popozuda exalta a liberdade sexual da mulher

“Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.” Adélia Prado

Na linha evolutiva da música sexual brasileira, é possível dizer que, entre Rita Lee e Karol Conka, o funk de Tati Quebra-Barraco, Deize Tigrona e Valesca Popozuda se impôs como ponto nevrálgico. No começo dos anos 2000, Tati foi a responsável por entoar os versos “se eles quer que você mame/ manda eles te chupar”, invertendo a lógica estabelecida pelo universo machista. Valesca Popozuda, intérprete de “Quero Te Dar”, fala de sua experiência: “A liberdade feminina sempre existiu, só que era medrosa. Eu quis libertar as mulheres. Por que não falar do nosso órgão genital?”, questiona a artista. Confira a entrevista com Valesca na íntegra. 

Três é demais! 10 trios famosos da música popular brasileira

“Nada somos. No entanto, há uma força que prende
o instante da minha alma aos instantes da terra,
como se os mundos dependessem desse encontro,
desses prelúdios sobressaltados.” Cecília Meireles

Na próxima sexta (7), os Tribalistas se apresentam em Belo Horizonte e apresentam ao público o repertório de seu novo álbum, lançado em 2017, além de sucessos do disco de 2002, como “Velha Infância”, “Passe em Casa” e “Já Sei Namorar”. Aproveitamos a oportunidade para relembrar trios famosos da música brasileira e mostrar que, antes de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown, a prática já era uma fórmula de sucesso em vários gêneros, do sertanejo ao rock rural, passando pelo baião, bossa nova, psicodelia, jovem guarda e samba.

Entrevista: Mano Brown defende Lula e critica a mídia

“Ah, aprende-se o que é preciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne.” Franz Kafka

Todo o trabalho de Mano Brown à frente dos Racionais MC’s está fundamentado na observação social e na defesa da camada mais pobre da sociedade, frequentemente atingida pela violência no país. Por essas e outras, não é de se espantar a tomada de posição do rapper diante do estado de coisas que têm determinado a política nacional desde as manifestações de junho de 2013.

“Eu acompanhei esse processo desde o início, quando começaram a cogitar o impeachment da Dilma, com a história das pedaladas fiscais, a gente já sabia que o desfecho seria a prisão do Lula”, garante. No final do ano passado, o rapper chegou a postar em suas redes sociais uma foto ao lado do ex-presidente e de Chico Buarque, após uma partida de futebol em que os três participaram. Sem esconder o apoio, ele entoou em seus shows, mais de uma vez, o coro de “Lula Livre”.

Crítica: Musical “O Fantasma da Ópera” é clássico ultrapassado

“pode escapar-nos, porventura, e desvanecer-se, porque não confiamos em fantasmas.” Virginia Woolf

A parafernália em torno de “O Fantasma da Ópera” justifica sua grandiosidade. Cumprindo a premissa dos musicais da Broadway, a nova versão brasileira do musical aposta numa estrutura que impressiona pelos atributos físicos. O cenário não deixa de destacar os itens que terão papel narrativo no desenrolar da trama, em especial o gigantesco lustre colocado sobre a cabeça dos espectadores. A reprodução de um coral de anjos e um brinquedo de um macaco instrumentista também chama atenção pela beleza dos objetos. A atuação da orquestra é outro ponto alto.

Mas, como de praxe, afora o que se impõe pela presença física ou sonora, todo o resto fica a dever. Um musical é, por mania, grandiloquente, ainda mais quando se encontra com o universo operístico. A expansão de gestos, vozes e cores é tamanha que chega ao nível da pirotecnia, o que não anula a capacidade do time de intérpretes líricos, em especial a do protagonista, cuja voz se destaca. Thiago Arancam compõe um Fantasma ao gosto dos fãs: ele toma a cena com vigor, pela força de sua garganta e a rudeza de seu gestual.

Entrevista: O caminho do rap de Marcelo D2 a Hungria Hip Hop

“É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos.” Ana Cristina Cesar

Encontros de astros do rap com artistas de outros segmentos ficaram comuns. Criolo gravou com Ivete Sangalo. Marcelo D2 se dedicou a cantar o samba de Bezerra da Silva. Renegado está em turnê com a Orquestra Ouro Preto. Enquanto isso, Emicida, Hungria Hip Hop e Karol Conka dividem a trilha sonora da atual temporada de “Malhação” com uma nova safra de funqueiros. “Ter uma música em novela da Globo é uma quebra de barreiras. O rap está alcançado lugares que nunca imaginamos”, afirma Hungria. Para completar, o rapper canadense Drake fez história ao se tornar o primeiro artista a bater os 50 bilhões de reproduções em streaming.

Marcelo D2

1 – Qual a importância para você de participar de um festival como o Saravá, que já traz no próprio nome uma ode às raízes negras e reúne um time de artistas como DJ Negralha, DJ Xeréu, Parceria Fina e outros, cuja trajetória esteve sempre voltada para o hip hop, reggae, rap e soul?
Esse lance de raiz é uma parada muito presente pra mim. Meu próximo trabalho, o “Amar é para os Fortes”, por exemplo, é todo produzido por um coletivo que chamamos de “mulato”. E, longe do significado pejorativo que muita gente associa ao termo, mulato é essa mistura que é indissociável ao brasileiro, é essa miscigenação de raízes que define a nossa identidade. Então, pra mim é uma honra participar da primeira edição de um festival como o Saravá. E dividir o palco com essa rapaziada é uma responsabilidade grande.

21 músicas brasileiras da polêmica rap raiz x rap Nutella

“Esses moleque arrastaram, causaram
Derrubaram as moto, bateram nos carro
Tretaram com as tia, zarparam
Festa é festa, fica na paz” Emicida & Rael

Desde os primórdios, o rap nacional bebia na fonte do samba e suas diversas intersecções com a música negra. Os próprios Racionais MC’s e Mano Brown já apresentavam influências trazidas por Jorge Benjor, assim como o rapper Athalyba Man se aproximava da canção de tradição romântica. Apesar disso, atualmente o gênero sofre com a febre do meme “Nutella x raiz”. O rap Nutella supostamente prioriza um discurso calcado nas relações afetivas e na ostentação de bens materiais, em detrimento do histórico engajamento político e da crítica social presente nas letras dos Racionais MC’s, Sabotage, MV Bill, Rappin’ Hood e Black Alien. Esse segundo time pertenceria ao chamado rap de raiz. Confira abaixo alguns clipes que traduzem esses dois estilos.

Entrevista: Projota, entre o rap Nutella e de raiz

“Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.” Paulo Leminski

Como muitos ditados populares, a origem é incerta. Fato é que a rivalidade criada por meio do meme “raiz x nutella” começou a se alastrar na internet em 2016. Curiosamente, dois anos antes, uma banda que hoje é vítima do termo já tinha se referido à marca especializada em creme de avelã com cacau e leite.

Foi em 2014 que os garotos do quarteto fluminense Oriente lançaram “O Vagabundo e a Dama”, que dizia: “Ele chegou da pista, viu a cama e foi cochilar/ Ela acordou, abriu a janela, e viu o sol nascendo no mar/ Ele abriu a geladeira, de novo pão com mortadela/ Ela comeu croissant, com Ovomaltine e Nutella”.

19 encontros incríveis entre música e literatura no Brasil

“– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Manuel Bandeira

A música “Língua” fechava o disco gravado por Caetano Veloso em 1984. “Velô” trazia parcerias com nomes ligados à literatura, casos dos poetas Augusto de Campos, Wally Salomão e Antonio Cícero. A faixa, em especial, era recheada de citações a escritores de variados gêneros, estilos e épocas: passava dos clássicos Luís de Camões e Olavo Bilac aos consagrados Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, chegando até ao contemporâneo Glauco Mattoso.

Mas, como numa ironia, ao fim Caetano determinava a superioridade musical quando o assunto era o idioma português: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão”, cantava o baiano, acompanhado por Elza Soares. Ele próprio lançaria, em 1997, o livro “Verdade Tropical”, espécie de ensaio que oferecia um olhar agudo sobre a cultura brasileira. Fato é que músicos de todas as gerações têm se arriscado cada vez mais a desmentir a máxima proferida pelo mentor tropicalista.

60 anos da Bossa Nova: 18 músicas e discos inesquecíveis do gênero

“No vosso rastro persiste/ o mesmo eterno poeta
Um poeta – essa coisa triste/ escravizada à beleza
que em vosso rastro persiste,/ levando a sua tristeza
no quadro da bicicleta.” Vinicius de Moraes

Tiete, o rapaz não titubeou ao avistar o poeta: o chamou de mestre, pediu um autógrafo e guardou a preciosidade num envelope pardo. Poucas horas depois, assim que chegou aos estúdios da gravadora Odeon, no Rio de Janeiro, largou displicentemente a assinatura de Carlos Drummond de Andrade em um canto qualquer, e nunca mais a avistou, tampouco se preocupou com o fato. A história é contada pelo músico mineiro Pacífico Mascarenhas, 83, que participou do episódio, e traz como personagem principal João Gilberto, 87, o inventor da batida de violão e voz diminuta que assombrou o país quando lançou, no dia 10 de julho de 1958, o compacto que trazia, de um lado, “Chega de Saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e, do outro, “Bim Bom”, de sua autoria. De lá para cá, a Bossa Nova manteve, ao longo desses 60 anos, o título de nobreza e a pompa de modernidade, com o aval de músicos internacionais e a reverência dos que vieram depois, ainda que uma renovação, em termos de repertório, não tenha ocorrido.

*DISCOS:

3 músicas apaixonadas de Alceu Valença

“Porquanto
como conhecer as coisas senão sendo-as?” Jorge de Lima

Salve a ‘Morena Tropicana’, e sua beleza de jabuticaba, viva ‘La Belle de Jour’, e sua francesa brasilidade, ‘Anunciação’ para a mãe do compositor, completa 98 anos nesta data, ‘Cavalo de Pau’ para os apressados, ‘Coração Bobo’ aos românticos esperançosos. Todos esperam que Alceu volte, e ele volta, volteia, sestrosa maneira de gingar, barba e cavanhaque, modos de um distinto cavalheiro do apocalipse a saborear, dengosa, o sumo da condensação, condução, condão, da tua varinha despontam maravilhas.