Reginaldo Rossi: o orgulho da vergonha

“Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

virada cultural largo do arouche reginaldo rossi

O poeta de língua portuguesa mais aclamado do mundo disse em versos estar farto de semideuses, a procura de gente que tivesse levado porrada, sido ridículo, cômico, passado vergonha, amar sem ter sido amado. Fernando Pessoa é um nome que, para quem conhece pouco, ainda sustenta uma frase, a da “dor que deveras sente”. Assim como Reginaldo Rossi, pois que ao bastante distraído não escapa a epígrafe de “Garçom”, em português claro, música de corno.

De um jeito ou de outro, embora um seja natural de Lisboa e outro de Recife, em Pernambuco, os dois espalharam em síntese os sentimentos que atingem a todos, e com uma postura diversa à da hipócrita sociedade: não esconderam os defeitos, as falhas, ao contrário, cada um a seu modo, o primeiro com elegância, o segundo de forma direta, simples, tosca, escancararam o orgulho da vergonha. O que sustenta a obra de Reginaldo Rossi é o tratamento que ele dá aos valores.

Entrevista: A música da alma de Hyldon

“Na natureza existem assinaturas
a dispensar a tradição verbal,
a folha do carvalho nunca folha plana.” Ezra Pound

Hyldon

Nem sempre o primeiro a sentir os versos tem o devido reconhecimento. Isso porque na música é habitual confundir quem canta como o dono da letra. Na maioria das vezes pela capacidade do intérprete, que além de alçar a canção ao sucesso a incorpora e reinventa. Casos parecidos com o de “Vapor Barato”, de Wally Salomão e Jards Macalé, imortalizada por Gal Costa, e mesmo “Vida Louca Vida”, de Lobão e Bernardo Vilhena, no registro histórico de Cazuza, assemelham-se ao do compositor Hyldon. É ele o autor das frases marcantes de “Na rua, na chuva, na fazenda”, gravada pelo Kid Abelha, e “As Dores do Mundo”, relançada pelo Jota Quest. E é ele quem lança disco novo, onde toca, compõe e interpreta, intitulado “Romances Urbanos”.

Com discografia que reúne agora quatorze títulos, entre autorais e participações, Hyldon sempre teve como princípio a soul music, e é um dos responsáveis pela difusão do estilo na música brasileira. Como ele mesmo diz, “tudo começou com Little Richard, acho que o ano era 1958, e a música era ‘Tutti Frutti’, um rock pauleira!”, afirma. Daí por diante seus ouvidos encontraram a obra de Ray Charles, em especial a canção “I can´t stop loving you”, e do grupo vocal The Platters, estourado na época com diversos hits, a exemplo da clássica “Only You” e a não menos famosa “My Prayer”. Esses foram alguns dos símbolos que tocaram o menino de sete anos. Era só o começo de uma paixão e uma carreira que não mais se separariam. Mais estava por vir.

Músicas do Brasil inspiradas em Nelson Mandela

“Ninguém nasce odiando as pessoas por causa da cor de sua pele, ou por seu passado, ou por sua religião. As pessoas aprendem a odiar e, se elas podem aprender a odiar, elas também podem aprender a amar.” Nelson Mandela

Former South African President Nelson Mandela during his meeting with Conservative Party leader David Cameron at The Dorchester in central London. Picture date: Sunday June 29, 2008. Watch for PA story POLITICS Mandela. Photo credit should read: Johnny Green/PA Wire

Não tem cor. Não é a ausência ou presença absoluta. Não tem peso. Não levanta vôo ou afunda. Não tem tamanho. Os pés não estão na terra nem a cabeça nas nuvens. Não tem corpo. Nem está morto. Vive no mundo, apesar de tudo. Não é velho, novo, gasto, contemporâneo. Não é de espécie nenhuma: mamífero, molusco, planta. E posso dizer como digo, ainda que proibido fosse: que Nelson Mandela é um homem. Afirma aos homens para viver como homens, mulheres, crianças: sem peso, tamanho, cores, espécies, nomes: Amem-se.

Meu Homem [Carta a Nelson Mandela] (samba, 1988) – Martinho da Vila
Com o acompanhamento de Raphael Rabello no violão de 7 cordas, Martinho da Vila registrou em 1990, no álbum “Martinho da Vida”, a composição de sua autoria que já havia sido lançada dois anos antes, em 1988, por Beth Carvalho, esta no LP “Alma do Brasil”. Na canção o sambista descreve um sonho em que desfeito de preconceitos os ensinamentos do líder sul-africano, Nelson Mandela, são seguidos, até que no final lembra-se dos tristes tempos do “Apartheid” e roga para que um dia os sonhos sejam somente doces. “Meu Homem [Carta a Nelson Mandela]” combina em seu percurso melancolia e sensualidade, tanto na interpretação de Martinho da Vila quanto na de Beth Carvalho.

Crítica: Falta humor e improviso para a atual geração pop da música brasileira

“…é na intenção que está o supremo encanto (…). Gaitinha de boca bem tocada não é gaitinha de boca. E outra coisa: falta-lhe o poder da sugestão, a graça melancólica do inatingido…” Mario Quintana

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A atual geração pop da música brasileira me parece de muito “bom gosto”. O que no jargão do alcoólatra é um porre. Como diria Arrigo Barnabé: ao contrário de Lupicínio Rodrigues eles não compõem guarânias. E quando o fazem é com a magnânima humildade do ser que estende os braços aos necessitados. Afinal pertencem à modernidade e ao descolamento dos chicletes de tutti-frutti. Sem nenhuma referência à música de Little Richard ou à banda de Rita Lee. Perto dos antepassados eles são minúsculos.

Assisti ao programa “Som Brasil”, da Rede Globo, apresentado por Patrícia Pillar e dedicado aos artistas contemporâneos, na última sexta-feira. Nos palcos desfilaram estilismos, poses e pretensões. Representantes da cara séria, do ar mais profundo, do roteiro amarrado, do papel neste mundo. Herdeiros daquele blasé de Oscar Wilde, porém sem o brilho o que resta é o tédio. Como disse o outro da herança de Paulo Francis: muitos pegaram a arrogância, mas não há luz nenhuma.

Autor de “Noites Felinas”, Cyril Collard foi poeta, músico, ator e cineasta

“As verdades da vida são sempre ditas na cama.” Cazuza

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Bissexual, experimentado em drogas, vítima fatal da AIDS na década de 90, antes de completar 40 anos. Poeta, compositor, ator, músico e cineasta. Dedicado, sobretudo, à arte. História comum às de Cazuza, Caio Fernando Abreu, Reinaldo Arenas e Renato Russo, entre outros. As semelhanças são várias, mas o que distingue o francês Cyril Collard (morto há 20 anos, em 5 de março de 1993) entre seus pares é, por exemplo, certa veemência aliada à insolente poesia com que registrou a própria vida.

Se do compositor carioca podemos destacar a acidez, do escritor gaúcho o lirismo, do poeta cubano a rebeldia e do cantor criado em Brasília o sentimentalismo, todas essas características aparecem em Cyril de maneira ainda mais petulante, num vulnerável desdém com que conciliou inseparavelmente tudo o que lhe despertava interesse. Assim ele anuncia no filme “Noites Felinas”, no que parece ser um poema e depois cantarola-se quase aos assovios: “dizer não ao canto das sereias ou rugir como um leão na arena?”

Entrevista: O livro de músicas de Célia, intérprete dramática

“e no zumbido do aeroplano a voz do céu de verão murmurava sua alma impetuosa.” Virginia Woolf

Celia-cantora-entrevista

Os olhos são de Maysa e o humor tem a sagacidade de uma Angela Ro Ro. Apesar das semelhanças com uma que veio antes e outra depois, Célia é cantora peculiar no universo da canção brasileira, a começar pelos “bons modos” com os quais prefere ser conhecida. “Não me conformo em ser o quinto músico de uma banda. Sou a solista interpretando a palavra”, diz. Por isso a alcunha de “intérprete” lhe cai melhor que a de cantora, afinal de contas, “a voz pode ser só um instrumento, como baixo, guitarra, bateria, piano”, ou o “algo mais” que em 42 anos de carreira ela procura, e não raro encontra.

Para 2014 o projeto ambicioso da paulista nascida na capital, mas criada em São Bernardo do Campo, prossegue nesse rumo. Ao lado do ator Marco Ricca e com direção de Jorge Takla – famoso por trabalhar, inclusive, com óperas – ela unirá música e teatro num espetáculo em que “o ator terá que saber cantar e o cantor que interpretar”, afiança. Com “mais de 40 canções no repertório e trechos interligados em que as respostas serão faladas e cantadas”, Célia adianta a presença de “Fala baixinho” de Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho, unida a “Speak Low”, do alemão Kurt Weill, num mesmo número.

Entrevista: O Teatro Sonoro de Vânia Bastos

“A luz do sol pingava sobre a casa como tinta dourada em uma jarra artisticamente decorada, e os pontos de sombra que caíam como sardas aqui e ali apenas intensificavam o rigor do banho de luz.” F. Scott Fitzgerald

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Arrigo Barnabé e Edu Lobo podem não ter nada a ver um com o outro, ao olhar primeiro e desatento. Mas numa coisa eles concordam: Vânia Bastos. A cantora paulista, nascida no interior, em Ourinhos, começou a carreira acompanhando o paranaense na banda “Sabor de Veneno”, com o lançamento em 1980 do histórico álbum “Clara Crocodilo”, e dedicou o último trabalho registrado em disco ao compositor carioca identificado, sobretudo, com a bossa nova.

Com discografia de onze títulos autorais, sem contar as participações em bandas e projetos especiais, e mais de trinta anos de carreira, Vânia não para de inovar. Um exemplo recente é a criação de personagem interpretada por ela durante espetáculos. “Eu estava esquentando a voz no camarim e tinha um eco bem bom, a voz ia longe! Comecei a brincar com ‘Upa Neguinho’ (de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) usando uma voz erudita, de farra! O Ronaldo Rayol (arranjador e violonista) achou que era alguma cantora alemã ensaiando ópera! Rimos muito quando descobriram que era eu, e então o Passoca (cantor e compositor), deu a idéia do nome: Ardah, de Eduarda, e Wolff, que é lobo, em alemão”, explica.

Rei da Embolada, Manezinho Araújo é 100!

“Alegres trópicos: bagana – papanata – ponta
firme – campar com a pururuca – encher a moringa
de fumaça – buchicho – xarope – muquirana.” Wally Salomão

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Um homem que teve sucessos gravados por Gilberto Gil e Jackson do Pandeiro, conheceu Noel Rosa e despertou o encanto de Carmen Miranda completaria cem anos de vida em 2013. A sentença condicional deve-se tanto ao falecimento (em 23 de maio de 1993) quanto à incerteza da efeméride. Afinal Manezinho Araújo afirma em entrevista a Fernando Faro para o programa “Ensaio” ter nascido em 27 de setembro de 1910, enquanto o Dicionário da Música Popular Brasileira de Ricardo Cravo Albin, e outros veículos de imprensa, o desmentem, determinando o choro do menino a vir ao mundo em 1913.

Pernambucano, natural de Cabo, no interior, “Manezinho Araújo escreveu uma importante página na história da música brasileira. Uma página de muita originalidade e de uma simplicidade que ás vezes pode ser confundida com algo raso, descartável, mas a música dele tinha fundas raízes”, depõe o cantor e compositor Geraldo Maia, que homenageou seu conterrâneo no álbum “Ladrão de Purezas”, lançado em 2011 pela Biscoito Fino, com pérolas pouco conhecidas mescladas a inegáveis êxitos. Conhecido como “Rei da Embolada”, Manezinho é da dinastia de “monarcas” do nordeste, como Luiz Gonzaga (“Rei do Baião”) e Jackson do Pandeiro (“Rei do Ritmo”).

Entrevista: Fátima Guedes caminha sensual entre música e poesia

“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.” Carlos Drummond de Andrade

Fatima-Guedes

O escritor colombiano Gabriel García Márquez afirma que todo autor passa a vida burilando o mesmo livro, e no caso dele seria o da “solidão”. Maria de Fátima Guedes, conhecida nacionalmente a partir do segundo nome como cantora, compositora e instrumentista nascida e moradora do Rio de Janeiro, afiança: “Toda a síntese da minha obra está na canção ‘Condenados’”.

De versos como “ah, meu amor, estamos condenados/nós já podemos dizer que somos um/e nessa fase do amor em que se é um/é que perdemos a metade cada um”, a música foi lançada no segundo álbum da artista, em 1980, intitulado apenas com o seu nome. Dona de discografia com onze títulos, fora coletâneas e participações, Fátima prepara novidades para 2014, inclusive uma volta a Belo Horizonte.

Entrevista: Eliana Pittman revisita sucessos da carreira no projeto “Salve Rainhas”

“Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto.
Só falando, faz perder
Todo o juízo a um santo.” Florbela Espanca

Eliana-Pittman

Quem a vê assim como a empregada Chica, “num papel totalmente anti-glamour”, ela própria diz, pouco imagina que Eliana Pittman, antes de participar da novela “Sangue Bom” na rede Globo, muito cantou por esse planeta, e acumulou farta bagagem de sucessos e histórias inusitadas, sempre munida do charme e exuberância de sua voz.

REPERTÓRIO
É parte dessa trajetória que Eliana irá apresentar ao público que comparecer neste domingo (29/09) à Funarte, 19 horas, acompanhada do pianista mineiro Dudu Viana, no projeto “Salve Rainhas”, numa espécie de bate-papo musical que promete reunir fatos marcantes e os êxitos inquestionáveis de carreira iniciada em 1963 ao excursionar para a Argentina ao lado do padrasto famoso, o saxofonista Booker Pittman, de quem também herdou o nome artístico.