Entrevista: Lanny Gordin, o maior guitarrista de todos os tempos

“quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor” Allen Ginsberg

Lanny-Gordin-entrevista

Não são poucos os que o consideram “o maior guitarrista de todos os tempos”, palavras que cabem na boca de Eduardo Araújo, e que com um ajuste aqui outro ali bem poderiam ser de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé ou Chico César – que o homenageou na canção “Lanny Qual?”, lançada em 1995 pela cantora Vange Milliet – todos parceiros de vida e estrada do brasileiro filho de pai russo, mãe polonesa e que nasceu na China, com passagem por Israel.

Toda essa miscelânea ajudou a formar o som de Lanny Gordin, que prepara para 2014 o lançamento de seu quinto disco solo. “O álbum já está pronto e deverá ir para as lojas em maio. Tem 13 faixas de músicas da Tropicália, standards do jazz internacional, 2 músicas free que fiz com o Edgard Scandurra na hora e mais uma minha já conhecida do público, além de outra inédita feita especialmente para este CD”, revela.

Ataulfo Alves, uma lenda brasileira

“ – Os primeiros cantos são feitos de rosas despetaladas. Lembram o paraíso antes do pecado.” Murilo Rubião

Ataulfo-Alves

O Negrinho do Pastoreio carrega suas velas, símbolo do agradecimento daqueles que perderam algo. O Urubu malandro e suas pastoras levam o samba, modinhas mineiras aprendidas em casa, numa pequena Miraí que circulou o país pelos “tempos de criança”. Para um são celebradas missas, rezas, oferendas de flores. Para o outro, realizam-se rodas de samba, serestas, cantorias e serenatas. São homens-meninos da mais alta estirpe popular, um tem o peito nu, o outro traja ternos elegantes. Ambos têm a condição de lendas, com toda a justiça por tantos feitos espetaculares. Por causa disso, são eternos: Tanto o menino escravo, quanto o outro, filho de violeiro e versejador, mais conhecido por sua assinatura em melodias e letras, Ataulfo Alves.

Errei, erramos (samba, 1938) – Ataulfo Alves
Filho do Capitão Severino, assim chamado o conhecido violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona Mata de Minas Gerais, pode-se dizer que Ataulfo Alves nasceu em berço de ouro da música popular brasileira. Porque foi através do DNA paterno que aprendeu a retrucar as trovas que virariam versos, e mais tarde, clássicos. O primeiro da safra do mineiro tímido que rumara da Fazenda Cachoeira para o Rio de Janeiro pode-se dizer que foi “Errei, erramos”, na interpretação do “Cantor das Multidões” Orlando Silva, depois de alguns sucessos nas vozes de Almirante, “Sexta-feira”, Carmen Miranda, “Tempo perdido”, Floriano Belham, com “Saudade do meu Barracão”, Silvio Caldas, a valsa “A você”, em parceria com Aldo Cabral, e Carlos Galhardo, na parceria com André Filho, “Quanta Tristeza”. O samba de 1938 foi lançado quando Ataulfo já detinha certo prestígio não somente aos olhos do descobridor e padrinho Bide, da dupla com Marçal, mas de grande parte do mundo do samba. Na canção, Ataulfo utiliza duas de suas temáticas favoritas, o amor e o sofrimento, que juntos recebem um julgamento filosófico com preceitos religiosos, onde o autor divide as culpas do sentimento que não vingou: “Esse princípio alguém jamais destrói. Errei, erramos.”

Dalva de Oliveira: A dor que grita

“Vieram, por ti, músicas límpidas,
trançando sons de ouro e de seda.” Cecília Meireles

Capa

Dalva de Oliveira, a Rainha do Rádio, da dor, do Trio de Ouro, da comédia e da tragédia do amor.
Sua voz emocionada e comprida procurava Deus, Ave Maria e os amores que perdeu.
Procurava as flores, a grande verdade e o segredo da vida.
Procurava bandeira branca para a guerra em que seu coração se envolveu.

“Eu, que lutei tanto contra a inveja e maldição,
Sinto essas mãos enfraquecidas a sangrar,
Que já não podem te apertar,
Foge de mim”

50 anos do golpe e da ditadura militar: 16 músicas marcantes do período

“Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia…
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria…” Chico Buarque

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No dia 1º de abril de 1964, um golpe militar derrubou o então presidente do Brasil, João Goulart, e instaurou uma tenebrosa e perversa ditadura que durante 21 anos torturou, exilou e matou os seus cidadãos. Sob forte influência da propaganda norte-americana e do plano de expansão do seu domínio nos países da América Latina, o golpe ganhou apoio de parte da população média brasileira que, temendo um regime comunista, participou de passeatas como a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

A mentira do atentado não residia apenas na data em que ocorreu, disfarçada na história oficial para o dia 31 de março na tentativa de legitimar o que jamais seria possível. A liberdade dos marchantes pela família com Deus também só foi possível naquele nome tão fictício quanto os suicídios, desaparecimentos e acidentes de políticos, jornalistas, operários, ativistas e qualquer um que insurgisse a voz contra as barbaridades do regime que, além de tudo, fraudava obituários para esconder os assassinatos que praticava.

Pode vir quente com Eduardo Araújo & Sylvinha

“Olhai que de asperezas me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido lenho.” Camões

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A voz rouca e encorpada de Eduardo Araújo já ecoava pelos campos da fazenda de seu pai em Joaíma, no interior de Minas Gerais, desde muito cedo, e logo o fez perceber que a carreira de veterinário talvez não fosse a melhor opção para sua vida. Partiu então em busca de outras terras e resolveu cavalgar pelas notas e acordes dançantes de um ritmo novo que surgia com força e ousadia no cenário musical brasileiro: a Jovem Guarda. Liderada por nomes como Roberto Carlos e Erasmo Carlos e tendo ainda em seu elenco as presenças marcantes de Renato e seus Blue Caps, Ronnie Von, The Fevers, Jerry Adriani, além das musas Wanderléa, Rosemary e Sylvinha Araújo, dentre outros, a Jovem Guarda logo emplacaria nas paradas de sucesso e faria com que um desesperançado Eduardo Araújo deixasse novamente a fazenda de seu pai para trás e voltasse ao Rio de Janeiro, atrás do sonho de cavalgar na crista da onda daquelas canções. O que aconteceu efetivamente no ano de 1967 quando estourou com o seu primeiro sucesso, a canção “O bom”, de Carlos Imperial, que traduzia o comportamento e a postura musical e artística daquela nova geração de músicos.

“Ele é o bom, é o bom, é o bom
“Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ah!, Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear
botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar”

Entrevista: Luís Capucho vai tirar você desse lugar

“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso!” Jack Kerouac

Luis-Capucho

Quando Cássia Eller o gravou em 1999 pouca gente procurou saber quem era o autor dos versos de “Maluca”. Quando Ney Matogrosso anunciou que o gravaria em 2013, muita gente foi atrás do homem do “Cinema Íris”. Por conta de versos sobre masturbação e mudanças no projeto, Ney não registrou a música de Luís Capucho. “O disco mudou de rumo, ele achou dificuldade no projeto e não sei se irá retomá-lo”, explica o entrevistado.

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, Capucho, que é cantor, músico, artista plástico e escritor, não vê ligação da arte que pratica com os outros filhos ilustres do município. “Não sou parte dessa tradição de artistas em Cachoeiro. Não sinto que eu faça parte de um núcleo que a cidade tenha produzido. É uma coincidência”, afirma. Além de Capucho, os músicos Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Raul Sampaio nasceram lá.

Nora Ney: A tristeza falada

“Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!” Florbela Espanca

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Nora Ney, a cantora das trágicas paixões que há no mundo, da dor-de-cotovelo, da fossa, dos “fracassados do amor”. Com sua interpretação certeira, cantou a boemia, o preconceito, o amor e a mágoa e atingiu como ninguém o seu alvo: o coração daqueles que sofrem e que amam.

“Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia”

As Músicas Que Clodovil Cantou

“Em assuntos de vital importância, o estilo, e não a sinceridade, é o verdadeiramente vital.” Oscar Wilde

Clodovil

O falar empolado e as idiossincrasias da personalidade tornaram Clodovil uma figura caricata. Infelizmente, a imagem que cristaliza o tempo nem sempre é a mais próxima da realidade. Estilista consagrado, após estrondoso sucesso passou a se dedicar menos à alta costura e mais àquilo que considerava a realidade da maioria da população de seu país, oposta à dele, já incorporado a uma privilegiada minoria da elite financeira do Brasil. Astuto, Clodovil tanto se ofereceu às artes como estas a ele. Criou moda para peças teatrais e filmes.

Nos palcos não apenas interpretou personagens, inclusive na televisão, quase unicamente sendo o próprio ou algo muito próximo disto – com algum disfarce de troca de nome, quando muito – como se deleitou a soltar a voz com o rigor e a elegância que pautaram suas costuras e alfinetadas, em canções tarimbadas. Além da pecha de barraqueiro, polêmico e briguento, alcunhas construídas pelo apresentador ao longo dos anos em programas muito populares, Clodovil foi um homem com talento e dom para a cultura e a arte.

Entrevista: Passoca, o violeiro da vanguarda

“olhe a luz nas tábuas, a mesma que incendeia as árvores lá fora. A tarde nas tábuas. Deixe que lhe penetre a densa espera do chão.” Ferreira Gullar

Passoca

Marco Antônio Vilalba, apesar do apelido popular, não se encontra em qualquer banca. Um dos ditos que profere talvez ajude a resolver o enigma. “Toda arte tem que ser experimental”, diz. Passoca, compositor, cantor e violeiro, tem um trabalho associado tanto à música caipira quanto à vanguarda paulista. Natural de Santos, formou-se em arquitetura na faculdade de São José dos Campos, onde começou a construir o caminho que culminou no mais recente disco, “Suíte Paulistana”, de 2012, uma ode à cidade de São Paulo quando de seu aniversário de 458 anos.

“Conheci Arrigo Barnabé na década de 1970, através de uma amiga em comum”, relembra. Nesta época, Passoca tocava na banda “Flying Banana”, que lançou um disco em 1977, e também abriu show para o compositor cearense Ednardo, antes de lançar o primeiro trabalho solo, “Que Moda!”, com composições que já refletiam o espírito rural-urbano de sua obra, onde constavam parcerias com Renato Teixeira e clássicos de Hekel Tavares e Joracy Camargo, tudo sob a ótica pouco ortodoxa do entrevistado. “Minhas influências começam na era do rádio, de lá pra cá passou muita gente”, avisa.

Entrevista: Déa Trancoso, o bem-te-vi de Almenara

“pôr de sol pingo de saudade
a flor cheiro de mel na água cor de leite
acorda o peixe
sonho de fósforo” Paulo Leminski

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Déa Trancoso era uma ilustre desconhecida do grande público quando recebeu indicação ao Prêmio de Música Brasileira em 2007, nas categorias disco regional, cantora regional, projeto visual e cantora por voto popular, em razão do disco “TUM TUM TUM”. Não levou nenhuma. Mas o fato já lhe valeu “um louro enorme”, diz ela sobre concorrer “com grandes nomes da MPB”. Além disto, o álbum, inicialmente lançado por seu próprio selo, foi relançado em 2010 pela “Biscoito Fino”. Agora, depois de 30 anos morando em Belo Horizonte, Déa está de volta ao Vale do Jequitinhonha, de onde saiu e que lhe inspirou o incensado trabalho. “Hoje resido em São Gonçalo do Rio das Pedras, alto do Vale, minha região natal”, confirma.

Nascida em Almenara, perto da divisa de Minas Gerais com a Bahia, Déa é hábil experimentadora de sotaques, influências, origens. Seu trabalho confunde-se com a pesquisa, onde ritmos embrionários, como o semba, e rituais indígenas, como o catimbó, constituem espinha dorsal. A respeito dos planos para o novo ano, a entrevistada segue a natureza. “Em 2014 completo 50 anos. Não tenho planos. Desse modo quem comanda, hoje, é o vento. Meu único desejo é lançar meu primeiro livro de poemas. No entanto, isso está vinculado ao destino. Se ele quiser, chegará a hora de lançar. Senão, aguardo. Tudo sem pressa. Tudo calminho”, diz. Com uma discografia iniciada em 2006 e que contém três títulos, a artista colocou no mercado em 2012 box completo.