10 Sucessos de Jair Rodrigues

“Ao compasso da cadência
Do brotar das estrelas até a meia-luz
Da meia-luz até a meia-luz
Incessante a cadência” Ezra Pound

Jair-Rodrigues

Jair Rodrigues colocou de cabeça pra baixo e jogou para cima a música brasileira como no movimento das mãos que embalam o rap. Uma invenção tão faceira quanto a mania nunca abandonada de plantar bananeira em pleno palco, ou onde quer que fosse chamado para se apresentar. O “Cachorrão”, como era conhecido pelos mais íntimos por questões que escapam ao domínio da figura pública, emendou uma coleção de sucessos desde o princípio da carreira. Alcançou o auge de maneira tão instantânea que em pouco tempo já cantava com Elis Regina, consolidava ao mundo o talento de Geraldo Vandré numa “Disparada”, vencia aquele Festival e cativava a plateia com uma nova ordem. A ordem de Jair Rodrigues, onde só a alegria era permitida e a tristeza só entrava em letra de samba.

Entrevista: Todos os T´s e acentos nos IS de Tetê Espíndola

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.” Manoel de Barros

Tete-Espindola

Tetê Espíndola nunca foi artista de um voo só. E não é espantoso para os que conhecem de perto a trajetória da cantora e instrumentista, além do espanto de admiração já recorrente, que ela alce voo duplo ao lançar o álbum que contém duas fases distintas da carreira. Com link para venda no site oficial da artista, o novo trabalho agrega no mesmo encarte os discos “Pássaros na Garganta”, lançado em 1982 com músicas de Tetê, Arrigo Barnabé e Carlos Rennó, e que lhe rendeu à época o prêmio APCA de artista revelação, e “Asas do Etéreo”, totalmente inédito, com participações deliciosamente ao sabor de Tetê.

“O álbum duplo já foi lançado em São Paulo, no SESC Vila Mariana, em março, com a participação de todos os convidados”, revela. Entre estes figuram nomes habituais das andanças pelos ares de Tetê, como Arrigo Barnabé, DuoFel, Felix Wagner, Paulo Lepetit, e outros convocados para esta ocasião especial, cuja sintonia com o trabalho da artista é inegável. Lá estão Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Jacques Morelenbaum, Almir Sater, Trio Croa, Teco Cardoso, Bocato, Marcelo Pretto e o rebento natural da artista, o filho querido Dani Black. Com lançamento pelo selo SESC, a arte da caixa ficou a cargo de Lula Ricardi.

Valesca Popozuda no Museu de Paris

“A maioria das gentes vive de convicções e não de ideias.” Mario Quintana

Valesca-Popozuda

É daquele célebre desconhecido a frase sobre “o que falamos dos outros revelar mais de nós mesmos”. A recente celeuma provocada pela inclusão de uma pergunta sobre Valesca Popozuda numa prova de filosofia tem muito a esclarecer sobre esta tese. Parece-me mais revelador analisar a reação da sociedade em sua pretensa maioria do que a questão propriamente dita que é, sem dúvida nenhuma, mal formulada.

Em todo caso, lembra-me uma atitude um tanto mais ousada e bem empregada, que data do século passado, quando o artista plástico e poeta francês Marcel Duchamp enviou um urinol para o “Salão dos Artistas Independentes” de Nova York, na tentativa de exposição. À época rejeitada hoje a obra que confunde e prejudica muitos “artistas considerados modernos” figura entre as peças mais cobiçadas de um museu em Paris.

A Flor & O Espinho De Nelson Cavaquinho

“Quando eu passo
Perto das flores
Quase elas dizem assim:
Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim” Nelson Cavaquinho

Nelson-Cavaquinho

O jeito de tocar o violão e o cavaquinho que lhe rendeu o apelido, beliscando as cordas com dois dedos, e a voz sempre embargada de uma profunda tristeza, ajudavam a compreender a essência daquele artista. Mergulhado na boemia, Nelson Cavaquinho fazia da melancolia seu mote para compor sambas sinceros e profundos, como “Folhas Secas”, “A flor e o espinho” e “Quando eu me chamar saudade”, todas com Guilherme de Brito, além de criar a obra-prima “Luz Negra”, na qual mais uma vez se despedia da vida, alçada ao sucesso nas vozes de Nara Leão e Elizeth Cardoso. Sempre ligando o amor à tragédia, Nelson Cavaquinho foi um instrumentista, compositor e poeta que viveu a vida inspirado pela morte, e que soube tirar dela, letras e melodias cheias de luz, mesmo negras, cheias de flores, mesmo que com espinhos e cheias de folhas, até mesmo as secas.

A flor e o espinho (samba, 1957) – Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha
“A flor e o espinho” nasceu do cavaquinho de Nelson com a ajuda de mais um desses parceiros que ele conheceu nas mesas de boteco. Guilherme de Brito pediu a todos que tirassem o “sorriso do caminho”, pois ele ia passar com sua dor. O autor desses versos imponentes e tristonhos realmente conheceu Nelson em seu habitat preferido, mas diferente de outros “compositores de ocasião”, participou com poesia e não com dinheiro da canção gravada pelo cantor Raul Moreno, em 1957. O outro parceiro de Nelson na canção é Alcides Caminha, que só mais tarde teria sua identidade revelada, era o desenhista Carlos Zéfiro, famoso pelos quadrinhos eróticos nas décadas de 50 e 60. Escondido com sua voz nos porões do “Cabaré dos Bandidos”, Nelson só apareceria em disco em 1965, ao tocar seu violão rústico na música que era cantada por Elizeth Cardoso. O álbum chamava-se “Elizeth sobe o morro”. Nelson descia aos poucos para o estrelato.

5 Músicas Cantadas Por Grande Otelo

“Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir” Hilda Hilst

Grande-Otelo

Nas palavras de Herivelto Martins, Grande Otelo tinha “mania de compositor”. O pequeno Sebastião Prata que nasceu em Uberlândia transformou-se num dos maiores atores cômicos do Brasil, e morreu como o inconfundível Grande Otelo no aeroporto de Paris, quando se preparava para receber uma homenagem. Imortalizado na alma brasileira de Mário de Andrade, ao interpretar Macunaíma no cinema e receber o prêmio de melhor ator, Otelo também se destacou como cantor e compositor de grandes sambas.

Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo
Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que esse o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai…”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

As Músicas Na Voz De Jamelão

“nenhuma nuvem, mas o corpo de cristal
a tangente formada na concha da mão
como vento vivo em alamedas de faias
como vigoroso ar entre ciprestes” Ezra Pound

Jamelao

Dormia o fruto na planta, quando um ruído doce o despertou. Veio assim, de repente, sem saber de onde vinha, pra que vinha, com a perfeição que a natureza confere aos pré-destinados. José Bispo só saíra de casa com seu pandeiro na intenção de paquerar as meninas, e divertir-se ao som do ritmo. Não imaginava que o coração guardava a verde e rosa coloração da Mangueira, nem que tua pele negra marotamente lhe daria uma assinatura.

Única e inimitável, como estilo, não como nomes que se repetem. Despertou o fruto, a assinatura, a cor, o ritmo, a voz vigorosa, extrema, suspensa e pesada, puro aço cintilante e admirável. Jamelão cantou o samba de sua escola, e a dor de cotovelo do professor do samba-canção, Lupicínio Rodrigues. Excursionou com a Orquestra Tabajara de Severino Araújo, desfilou em parques europeus o brasileiro autêntico que sempre foi, e é ainda, pois é possível ouvir em discos a deflagração do objeto que amanheceu vida.

Noel Rosa: sambista de todos os desejos

“Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia” Noel Rosa

Noel-Rosa

O poeta da vila, como ficou conhecido por ter nascido, vivido e consagrado o bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, nasceu no dia 11 de dezembro de 1910, e faleceu no dia 4 de maio de 1937, vítima de uma tuberculose. Noel Rosa foi um poeta jovem, que nos deixou aos 26 anos.
Um poeta jovem que nos presenteou com todos os tipos de cantos.
O canto alegre, o canto triste, o canto que enfeitiçou a Vila. O canto do samba rindo que canta a dama da Lapa e toda a dor que existe. Todo o amor que existe.

“Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem”

Sucessos da divina Elizeth Cardoso

“A voz divina ainda se dissolvia quando cada palavra voltou a cair, em chuva de flores.” Mallarmé

Elizeth-Cardoso

Elizeth Cardoso, Divina Rainha da música brasileira. Rainha negra, Mulata Maior que desde cedo cantava os sucessos de Vicente Celestino, e aos cinco anos subiu pela primeira vez ao palco. Rainha que sentava “Naquela Mesa”, no meio do povo que chorava a morte de Jacob do Bandolim, o amigo que a levou para fazer um teste na Rádio Guanabara. E ali começa sua trajetória a se tornar estrela enluarada. Logo, a menina nascida na Estação de São Francisco Xavier no dia 16 de julho de 1920, estaria entoando canções que seriam sucesso em todas as casas, todos os lares, todos os barracões de zinco do país. Elizeth Cardoso seria em breve, a própria canção de amor que cantou.

“Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade!”

Haroldo Lobo & as marchinhas sobre Getúlio Vargas

“o carnaval passa
guardada na mala
a tua meia máscara” Paulo Leminski

Haroldo-Lobo

Haroldo Lobo, considerado um dos maiores compositores carnavalescos de todos os tempos, nasceu no Rio de Janeiro no dia 22 de julho de 1910 e morreu no dia 20 de julho de 1965 na mesma cidade. O autor de marchinhas inesquecíveis como “Alá-lá-ô”, com Antônio Nássara, “Retrato do velho”, com Marino Pinto, “Eu quero é rosetar”, com Milton de Oliveira, e “Tristeza”, com Niltinho, sucesso imortalizado na voz de Jair Rodrigues, completaria seu centenário de vida em 2010.

Haroldo Lobo venceu diversos concursos de carnaval e teve suas músicas gravadas por nomes como Aracy de Almeida, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Jorge Veiga, Carlos Galhardo, Linda Batista, Carmen Miranda, dentre outros. O folião que transformava a vida em melodia é sempre lembrado nas rodas de bar que discutem sobre aquele que escreveu a marchinha que fala do deserto do Saara, ou aquela outra que falava sobre Getúlio Vargas. Por seu caráter popular e divertido, Haroldo Lobo terá sempre seu nome festejado como um dos imortais do carnaval brasileiro.

5 Músicas Cantadas Por Mussum

“Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Mussum

Um dos trunfos do programa “Os Trapalhões”, que ficou no ar de 1977 a 1993 com quadros inéditos, além de um sem número de filmes, é que os personagens interpretavam a si próprios. O protagonista Renato Aragão de fato o cearense, retirante nordestino na cidade grande. Dedé Santana o suburbano carioca. Mauro Gonçalves, o Zacarias, o único com formação de ator através do rádio, sugeria piadas de homossexualidade, e não raro usava vestimentas, gestos e vozes femininas e infantilizadas. E Mussum, o sambista do morro.

Se Didi e Dedé formaram seu humor principalmente através do circo e tinham uma veia prioritariamente espontânea e de improviso, mais ainda se pode dizer desta naturalidade em Antônio Carlos Gomes. O gosto pelo samba, pela bebida, pelos dizeres invocados e a paixão pelo Flamengo eram reais. Mussum vivia na tela o que vivia nos palcos de asfalto, nas mesas de bar e nas arquibancadas. O próprio apelido sugeria uma maneira lisa e escorregadia de escapar de enrascadas, característica do peixe que inspirou Grande Otelo nesse batizado.