Herói de cinema a Rei do Ritmo: as canções de Jackson do Pandeiro

“mas eu antecipo.
Não há substituto para uma vida inteira. (…)
dez mil anos de ritmo-do-coração-pensar-dizer,” Ezra Pound

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Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no “Rei do Ritmo”. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias, e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar o sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.

“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

As Canções de Ângela Maria: Estrela Infinita

“Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!” Florbela Espanca

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Ângela Maria, a voz doce e quente que canta para o mundo.
A voz do adeus, das brigas e despedidas.
A voz que perdoa os “tapas na cara” e confia no poder de amar do coração.
Como disse Chico Buarque: “Ângela é todas numa só voz.”
Uma voz imensa que enche a “noite vazia” de amor e luz.

“Em nome do amor
Que houve entre nós dois
Deixemos pra depois
O adeus”

Canção do morro: a música que nasce na favela

“E este por sobre nós espelho, lento,
bebe ódio em mim; nela, o vermelho.
Morro o que sou nos dois.
O mesmo vento
que impele a rosa é que nos move, espelho!” Ferreira Gullar

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O morro sempre teve melodia.
Sempre teve música entre seus caminhos.
Caminhos tortuosos, de subidas difíceis e perigosas descidas.
Mas caminhos que apesar das dificuldades sempre criaram bonitas canções.
Caminhos de Cartola, de Wilson Batista.
Caminhos de Carlos Cachaça, de Ismael Silva.
Caminhos dos bambas, dos passistas da escola de samba e da vida.
Das mulatas guerreiras que erguiam suas latas d’água na cabeça e seguiam em frente, em direção ao novo dia.
Canções que foram feitas para o céu, para Ave Maria, pras cabrochas de pé no chão.

Paixão Cearense: A música que vem do Ceará

“um círculo de pássaros e chamas.
E pelos canaviais,
testemunhas que sabem o que falta.
Sonho concreto e sem norte
de madeira de guitarra.” García Lorca

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O Raimundo mais famoso do Ceará levou as velas do Mucuripe para velejar o Brasil inteiro. Seu parceiro na música mostrou aos jovens seu descontentamento com a própria geração. O poeta que nasceu no Ceará era na verdade agricultor. O poeta que levou essa paixão no nome não era cearense. O grupo que se tornou mais conhecido exibiu com orgulho seus “Quatro Ases e um Coringa.” Outro compositor daquela terra desfilou na avenida seu bloco do prazer. E o letrista mais proclamado nas canções do Rei do Baião foi a síntese desse povo rico e diverso.

Mucuripe (1972, MPB) – Fagner e Belchior
Fagner e Belchior se conheceram em Fortaleza, depois do primeiro sair de Orós e o segundo deixar Sobral. Juntos, ao lado de Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra formaram o “Pessoal do Ceará”, que se apresentava semanalmente em um programa de rádio. Levando na bagagem as lembranças de sua terra, seguiram roteiros distintos, Fagner indo para Brasília estudar arquitetura e Belchior indo para o Rio de Janeiro estudar medicina. Mas em 1971, no Festival de Música Popular do Centro Universitário de Brasília, Fagner inscreveu uma música que havia feito com o conterrâneo agora distante. “Mucuripe”, destino solitário das jangadas em Fortaleza, tirou o primeiro lugar e atentou os olhares brasileiros para a permanente poesia das águas da canção cearense. Um ano depois, a música foi interpretada por Elis Regina. Com esse êxito, Raimundo Fagner mudou-se para o Rio de Janeiro e Belchior para São Paulo. Além disso, Fagner fez seu próprio registro, na série “Disco de Bolso”, lançada pelo jornal “Pasquim”, com Caetano Veloso cantando no outro lado do compacto “A Volta da Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Refletia no canto arraigado de Fagner, a permanente poesia das águas. Da flor fez-se o agasalho. Da vela que ilumina o mar, a esperança de um rapaz novo encantando.

Apelos de mulher na música brasileira

“ – essa frágil e bela criatura diante da qual os homens se curvavam, essa criatura limitada e circunscrita que não podia fazer o que bem quisesse, essa borboleta com milhares de facetas nos olhos e uma delicada e fina plumagem, com dificuldades e suscetibilidades e tristezas inúmeras; uma mulher.” Virginia Woolf

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“Toda mulher gosta de apanhar”, disse Nelson Rodrigues. Talvez não seja isso. Mas talvez o sofrimento seja sim essencial ao amor, o amor verdadeiro. Talvez as lágrimas caiam para inundar de peixes os rios caudalosos das paixões. Assim como a chuva, que destrói e irriga a vida, o amor talvez precise penar para depois florescer. No amor verdadeiro, sêmen é lágrima. No programa especial de hoje você vai ouvir “apelos de mulher”. Músicas cantadas por mulheres que retratam todo o sofrimento de seus mundos e a espera, a luta, a busca pelo seu amor. Todos os apelos feitos para que esse amor vá embora, sofra ou fique com elas. Vocês ouvirão mulheres que sangram, que fazem loucuras, que rondam a cidade, que se deixam dominar, usando todos os artifícios e apelos possíveis. Hoje, vale tudo por amor.

1- Sufoco / Com açúcar, com afeto:
Dos vários tipos de amor que existem, um deles é o que sufoca, machuca, maltrata. O outro é o que cuida, constrói, espera, prepara o café e o doce predileto. Em comum, o fato de serem amores e passarem por cima do sofrimento, da indiferença e da loucura para sobreviverem. Pois embora seus cardápios sejam diferentes, um mais doce o outro mais amargo, ambos se alimentam do mesmo ingrediente indispensável ao amor: a superação. O amor é uma questão de superação. Só quem supera o sufoco é capaz de amar e de deliciar os seus sabores, com açúcar e com afeto, um apelo ao amor.

A Comida na Música Brasileira

“Os artistas sabem que suas obras não são para ser compreendidas, mas para ser degustadas.” Rubem Alves

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É de dar água na boca. Do peixe com coco ao vatapá. A feijoada completa, sem dispensar o torresmo à milanesa. Para quem gosta tem até jiló. De sobremesa uma goiabada, doce de coco e também bananas. E ainda a jaca que a Chiquinha corta. Tudo isso no tabuleiro da baiana, no pagode do Vavá, é um tico-tico só no fubá. O prato fundo já está servido. E quem quiser pegue o seu lugar. Cadeira vazia não pode ter. E se na gula alguém engasgar, com uma espinha de bacalhau, cante uma música bem brasileira, que lhe garanto, ela sai ilesa! E requebrando nessa balbúrdia, delícia a música e a comida, ainda mais se for brasileira!

1- No tabuleiro da baiana (samba-batuque, 1936) – Ary Barroso
“No tabuleiro da baiana”, composto por Ary Barroso em 1936, é um samba-batuque que traz em seu cardápio musical suingue e malemolência, em versos que soam tão deliciosos quanto os ingredientes do tabuleiro. Misturando elementos típicos da cultura baiana ao amor e ao samba e tornando-os definitivamente parte da mesma receita, Ary Barroso criou um dos mais famosos pratos da culinária musical brasileira. “No tabuleiro da baiana tem…”

Reginaldo Rossi: o orgulho da vergonha

“Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

virada cultural largo do arouche reginaldo rossi

O poeta de língua portuguesa mais aclamado do mundo disse em versos estar farto de semideuses, a procura de gente que tivesse levado porrada, sido ridículo, cômico, passado vergonha, amar sem ter sido amado. Fernando Pessoa é um nome que, para quem conhece pouco, ainda sustenta uma frase, a da “dor que deveras sente”. Assim como Reginaldo Rossi, pois que ao bastante distraído não escapa a epígrafe de “Garçom”, em português claro, música de corno.

De um jeito ou de outro, embora um seja natural de Lisboa e outro de Recife, em Pernambuco, os dois espalharam em síntese os sentimentos que atingem a todos, e com uma postura diversa à da hipócrita sociedade: não esconderam os defeitos, as falhas, ao contrário, cada um a seu modo, o primeiro com elegância, o segundo de forma direta, simples, tosca, escancararam o orgulho da vergonha. O que sustenta a obra de Reginaldo Rossi é o tratamento que ele dá aos valores.

Entrevista: A música da alma de Hyldon

“Na natureza existem assinaturas
a dispensar a tradição verbal,
a folha do carvalho nunca folha plana.” Ezra Pound

Hyldon

Nem sempre o primeiro a sentir os versos tem o devido reconhecimento. Isso porque na música é habitual confundir quem canta como o dono da letra. Na maioria das vezes pela capacidade do intérprete, que além de alçar a canção ao sucesso a incorpora e reinventa. Casos parecidos com o de “Vapor Barato”, de Wally Salomão e Jards Macalé, imortalizada por Gal Costa, e mesmo “Vida Louca Vida”, de Lobão e Bernardo Vilhena, no registro histórico de Cazuza, assemelham-se ao do compositor Hyldon. É ele o autor das frases marcantes de “Na rua, na chuva, na fazenda”, gravada pelo Kid Abelha, e “As Dores do Mundo”, relançada pelo Jota Quest. E é ele quem lança disco novo, onde toca, compõe e interpreta, intitulado “Romances Urbanos”.

Com discografia que reúne agora quatorze títulos, entre autorais e participações, Hyldon sempre teve como princípio a soul music, e é um dos responsáveis pela difusão do estilo na música brasileira. Como ele mesmo diz, “tudo começou com Little Richard, acho que o ano era 1958, e a música era ‘Tutti Frutti’, um rock pauleira!”, afirma. Daí por diante seus ouvidos encontraram a obra de Ray Charles, em especial a canção “I can´t stop loving you”, e do grupo vocal The Platters, estourado na época com diversos hits, a exemplo da clássica “Only You” e a não menos famosa “My Prayer”. Esses foram alguns dos símbolos que tocaram o menino de sete anos. Era só o começo de uma paixão e uma carreira que não mais se separariam. Mais estava por vir.

Músicas do Brasil inspiradas em Nelson Mandela

“Ninguém nasce odiando as pessoas por causa da cor de sua pele, ou por seu passado, ou por sua religião. As pessoas aprendem a odiar e, se elas podem aprender a odiar, elas também podem aprender a amar.” Nelson Mandela

Former South African President Nelson Mandela during his meeting with Conservative Party leader David Cameron at The Dorchester in central London. Picture date: Sunday June 29, 2008. Watch for PA story POLITICS Mandela. Photo credit should read: Johnny Green/PA Wire

Não tem cor. Não é a ausência ou presença absoluta. Não tem peso. Não levanta vôo ou afunda. Não tem tamanho. Os pés não estão na terra nem a cabeça nas nuvens. Não tem corpo. Nem está morto. Vive no mundo, apesar de tudo. Não é velho, novo, gasto, contemporâneo. Não é de espécie nenhuma: mamífero, molusco, planta. E posso dizer como digo, ainda que proibido fosse: que Nelson Mandela é um homem. Afirma aos homens para viver como homens, mulheres, crianças: sem peso, tamanho, cores, espécies, nomes: Amem-se.

Meu Homem [Carta a Nelson Mandela] (samba, 1988) – Martinho da Vila
Com o acompanhamento de Raphael Rabello no violão de 7 cordas, Martinho da Vila registrou em 1990, no álbum “Martinho da Vida”, a composição de sua autoria que já havia sido lançada dois anos antes, em 1988, por Beth Carvalho, esta no LP “Alma do Brasil”. Na canção o sambista descreve um sonho em que desfeito de preconceitos os ensinamentos do líder sul-africano, Nelson Mandela, são seguidos, até que no final lembra-se dos tristes tempos do “Apartheid” e roga para que um dia os sonhos sejam somente doces. “Meu Homem [Carta a Nelson Mandela]” combina em seu percurso melancolia e sensualidade, tanto na interpretação de Martinho da Vila quanto na de Beth Carvalho.

Crítica: Falta humor e improviso para a atual geração pop da música brasileira

“…é na intenção que está o supremo encanto (…). Gaitinha de boca bem tocada não é gaitinha de boca. E outra coisa: falta-lhe o poder da sugestão, a graça melancólica do inatingido…” Mario Quintana

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A atual geração pop da música brasileira me parece de muito “bom gosto”. O que no jargão do alcoólatra é um porre. Como diria Arrigo Barnabé: ao contrário de Lupicínio Rodrigues eles não compõem guarânias. E quando o fazem é com a magnânima humildade do ser que estende os braços aos necessitados. Afinal pertencem à modernidade e ao descolamento dos chicletes de tutti-frutti. Sem nenhuma referência à música de Little Richard ou à banda de Rita Lee. Perto dos antepassados eles são minúsculos.

Assisti ao programa “Som Brasil”, da Rede Globo, apresentado por Patrícia Pillar e dedicado aos artistas contemporâneos, na última sexta-feira. Nos palcos desfilaram estilismos, poses e pretensões. Representantes da cara séria, do ar mais profundo, do roteiro amarrado, do papel neste mundo. Herdeiros daquele blasé de Oscar Wilde, porém sem o brilho o que resta é o tédio. Como disse o outro da herança de Paulo Francis: muitos pegaram a arrogância, mas não há luz nenhuma.