Sucessos da divina Elizeth Cardoso

“A voz divina ainda se dissolvia quando cada palavra voltou a cair, em chuva de flores.” Mallarmé

Elizeth-Cardoso

Elizeth Cardoso, Divina Rainha da música brasileira. Rainha negra, Mulata Maior que desde cedo cantava os sucessos de Vicente Celestino, e aos cinco anos subiu pela primeira vez ao palco. Rainha que sentava “Naquela Mesa”, no meio do povo que chorava a morte de Jacob do Bandolim, o amigo que a levou para fazer um teste na Rádio Guanabara. E ali começa sua trajetória a se tornar estrela enluarada. Logo, a menina nascida na Estação de São Francisco Xavier no dia 16 de julho de 1920, estaria entoando canções que seriam sucesso em todas as casas, todos os lares, todos os barracões de zinco do país. Elizeth Cardoso seria em breve, a própria canção de amor que cantou.

“Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade!”

Haroldo Lobo & as marchinhas sobre Getúlio Vargas

“o carnaval passa
guardada na mala
a tua meia máscara” Paulo Leminski

Haroldo-Lobo

Haroldo Lobo, considerado um dos maiores compositores carnavalescos de todos os tempos, nasceu no Rio de Janeiro no dia 22 de julho de 1910 e morreu no dia 20 de julho de 1965 na mesma cidade. O autor de marchinhas inesquecíveis como “Alá-lá-ô”, com Antônio Nássara, “Retrato do velho”, com Marino Pinto, “Eu quero é rosetar”, com Milton de Oliveira, e “Tristeza”, com Niltinho, sucesso imortalizado na voz de Jair Rodrigues, completaria seu centenário de vida em 2010.

Haroldo Lobo venceu diversos concursos de carnaval e teve suas músicas gravadas por nomes como Aracy de Almeida, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Jorge Veiga, Carlos Galhardo, Linda Batista, Carmen Miranda, dentre outros. O folião que transformava a vida em melodia é sempre lembrado nas rodas de bar que discutem sobre aquele que escreveu a marchinha que fala do deserto do Saara, ou aquela outra que falava sobre Getúlio Vargas. Por seu caráter popular e divertido, Haroldo Lobo terá sempre seu nome festejado como um dos imortais do carnaval brasileiro.

5 Músicas Cantadas Por Mussum

“Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Mussum

Um dos trunfos do programa “Os Trapalhões”, que ficou no ar de 1977 a 1993 com quadros inéditos, além de um sem número de filmes, é que os personagens interpretavam a si próprios. O protagonista Renato Aragão de fato o cearense, retirante nordestino na cidade grande. Dedé Santana o suburbano carioca. Mauro Gonçalves, o Zacarias, o único com formação de ator através do rádio, sugeria piadas de homossexualidade, e não raro usava vestimentas, gestos e vozes femininas e infantilizadas. E Mussum, o sambista do morro.

Se Didi e Dedé formaram seu humor principalmente através do circo e tinham uma veia prioritariamente espontânea e de improviso, mais ainda se pode dizer desta naturalidade em Antônio Carlos Gomes. O gosto pelo samba, pela bebida, pelos dizeres invocados e a paixão pelo Flamengo eram reais. Mussum vivia na tela o que vivia nos palcos de asfalto, nas mesas de bar e nas arquibancadas. O próprio apelido sugeria uma maneira lisa e escorregadia de escapar de enrascadas, característica do peixe que inspirou Grande Otelo nesse batizado.

Entrevista: Lanny Gordin, o maior guitarrista de todos os tempos

“quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor” Allen Ginsberg

Lanny-Gordin-entrevista

Não são poucos os que o consideram “o maior guitarrista de todos os tempos”, palavras que cabem na boca de Eduardo Araújo, e que com um ajuste aqui outro ali bem poderiam ser de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé ou Chico César – que o homenageou na canção “Lanny Qual?”, lançada em 1995 pela cantora Vange Milliet – todos parceiros de vida e estrada do brasileiro filho de pai russo, mãe polonesa e que nasceu na China, com passagem por Israel.

Toda essa miscelânea ajudou a formar o som de Lanny Gordin, que prepara para 2014 o lançamento de seu quinto disco solo. “O álbum já está pronto e deverá ir para as lojas em maio. Tem 13 faixas de músicas da Tropicália, standards do jazz internacional, 2 músicas free que fiz com o Edgard Scandurra na hora e mais uma minha já conhecida do público, além de outra inédita feita especialmente para este CD”, revela.

Ataulfo Alves, uma lenda brasileira

“ – Os primeiros cantos são feitos de rosas despetaladas. Lembram o paraíso antes do pecado.” Murilo Rubião

Ataulfo-Alves

O Negrinho do Pastoreio carrega suas velas, símbolo do agradecimento daqueles que perderam algo. O Urubu malandro e suas pastoras levam o samba, modinhas mineiras aprendidas em casa, numa pequena Miraí que circulou o país pelos “tempos de criança”. Para um são celebradas missas, rezas, oferendas de flores. Para o outro, realizam-se rodas de samba, serestas, cantorias e serenatas. São homens-meninos da mais alta estirpe popular, um tem o peito nu, o outro traja ternos elegantes. Ambos têm a condição de lendas, com toda a justiça por tantos feitos espetaculares. Por causa disso, são eternos: Tanto o menino escravo, quanto o outro, filho de violeiro e versejador, mais conhecido por sua assinatura em melodias e letras, Ataulfo Alves.

Errei, erramos (samba, 1938) – Ataulfo Alves
Filho do Capitão Severino, assim chamado o conhecido violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona Mata de Minas Gerais, pode-se dizer que Ataulfo Alves nasceu em berço de ouro da música popular brasileira. Porque foi através do DNA paterno que aprendeu a retrucar as trovas que virariam versos, e mais tarde, clássicos. O primeiro da safra do mineiro tímido que rumara da Fazenda Cachoeira para o Rio de Janeiro pode-se dizer que foi “Errei, erramos”, na interpretação do “Cantor das Multidões” Orlando Silva, depois de alguns sucessos nas vozes de Almirante, “Sexta-feira”, Carmen Miranda, “Tempo perdido”, Floriano Belham, com “Saudade do meu Barracão”, Silvio Caldas, a valsa “A você”, em parceria com Aldo Cabral, e Carlos Galhardo, na parceria com André Filho, “Quanta Tristeza”. O samba de 1938 foi lançado quando Ataulfo já detinha certo prestígio não somente aos olhos do descobridor e padrinho Bide, da dupla com Marçal, mas de grande parte do mundo do samba. Na canção, Ataulfo utiliza duas de suas temáticas favoritas, o amor e o sofrimento, que juntos recebem um julgamento filosófico com preceitos religiosos, onde o autor divide as culpas do sentimento que não vingou: “Esse princípio alguém jamais destrói. Errei, erramos.”

Dalva de Oliveira: A dor que grita

“Vieram, por ti, músicas límpidas,
trançando sons de ouro e de seda.” Cecília Meireles

Capa

Dalva de Oliveira, a Rainha do Rádio, da dor, do Trio de Ouro, da comédia e da tragédia do amor.
Sua voz emocionada e comprida procurava Deus, Ave Maria e os amores que perdeu.
Procurava as flores, a grande verdade e o segredo da vida.
Procurava bandeira branca para a guerra em que seu coração se envolveu.

“Eu, que lutei tanto contra a inveja e maldição,
Sinto essas mãos enfraquecidas a sangrar,
Que já não podem te apertar,
Foge de mim”

50 anos do golpe e da ditadura militar: 16 músicas marcantes do período

“Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia…
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria…” Chico Buarque

ditadura-militar-musica

No dia 1º de abril de 1964, um golpe militar derrubou o então presidente do Brasil, João Goulart, e instaurou uma tenebrosa e perversa ditadura que durante 21 anos torturou, exilou e matou os seus cidadãos. Sob forte influência da propaganda norte-americana e do plano de expansão do seu domínio nos países da América Latina, o golpe ganhou apoio de parte da população média brasileira que, temendo um regime comunista, participou de passeatas como a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

A mentira do atentado não residia apenas na data em que ocorreu, disfarçada na história oficial para o dia 31 de março na tentativa de legitimar o que jamais seria possível. A liberdade dos marchantes pela família com Deus também só foi possível naquele nome tão fictício quanto os suicídios, desaparecimentos e acidentes de políticos, jornalistas, operários, ativistas e qualquer um que insurgisse a voz contra as barbaridades do regime que, além de tudo, fraudava obituários para esconder os assassinatos que praticava.

Pode vir quente com Eduardo Araújo & Sylvinha

“Olhai que de asperezas me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido lenho.” Camões

eduardo-araujo-sylvinha

A voz rouca e encorpada de Eduardo Araújo já ecoava pelos campos da fazenda de seu pai em Joaíma, no interior de Minas Gerais, desde muito cedo, e logo o fez perceber que a carreira de veterinário talvez não fosse a melhor opção para sua vida. Partiu então em busca de outras terras e resolveu cavalgar pelas notas e acordes dançantes de um ritmo novo que surgia com força e ousadia no cenário musical brasileiro: a Jovem Guarda. Liderada por nomes como Roberto Carlos e Erasmo Carlos e tendo ainda em seu elenco as presenças marcantes de Renato e seus Blue Caps, Ronnie Von, The Fevers, Jerry Adriani, além das musas Wanderléa, Rosemary e Sylvinha Araújo, dentre outros, a Jovem Guarda logo emplacaria nas paradas de sucesso e faria com que um desesperançado Eduardo Araújo deixasse novamente a fazenda de seu pai para trás e voltasse ao Rio de Janeiro, atrás do sonho de cavalgar na crista da onda daquelas canções. O que aconteceu efetivamente no ano de 1967 quando estourou com o seu primeiro sucesso, a canção “O bom”, de Carlos Imperial, que traduzia o comportamento e a postura musical e artística daquela nova geração de músicos.

“Ele é o bom, é o bom, é o bom
“Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ah!, Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear
botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar”

Entrevista: Luís Capucho vai tirar você desse lugar

“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso!” Jack Kerouac

Luis-Capucho

Quando Cássia Eller o gravou em 1999 pouca gente procurou saber quem era o autor dos versos de “Maluca”. Quando Ney Matogrosso anunciou que o gravaria em 2013, muita gente foi atrás do homem do “Cinema Íris”. Por conta de versos sobre masturbação e mudanças no projeto, Ney não registrou a música de Luís Capucho. “O disco mudou de rumo, ele achou dificuldade no projeto e não sei se irá retomá-lo”, explica o entrevistado.

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, Capucho, que é cantor, músico, artista plástico e escritor, não vê ligação da arte que pratica com os outros filhos ilustres do município. “Não sou parte dessa tradição de artistas em Cachoeiro. Não sinto que eu faça parte de um núcleo que a cidade tenha produzido. É uma coincidência”, afirma. Além de Capucho, os músicos Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Raul Sampaio nasceram lá.

Nora Ney: A tristeza falada

“Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!” Florbela Espanca

Nora-Ney

Nora Ney, a cantora das trágicas paixões que há no mundo, da dor-de-cotovelo, da fossa, dos “fracassados do amor”. Com sua interpretação certeira, cantou a boemia, o preconceito, o amor e a mágoa e atingiu como ninguém o seu alvo: o coração daqueles que sofrem e que amam.

“Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia”