Francisco Alves ou Chico Viola: O Rei Da Voz

“A voz perdera a primitiva ferocidade e da sua garganta brotavam preces.” Murilo Rubião

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“Ao soar o carrilhão dando as doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, também os ouvintes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no programa Luís Vassalo, se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz!” Com essas palavras, Lúcia Helena o anunciava e sua voz grave e pesada logo tomava conta de todas as casas do país. Àquela altura ele já havia sido nomeado por César de Alencar, mas antes de poder desfrutar de toda a sua realeza havia trabalhado como motorista de táxi, engraxate e operário de fábrica de chapéus. Quando lhe foi oferecido pela primeira vez um microfone, a estréia se deu em um circo, cenário que jamais se repetiria depois de gravadas duas músicas do sambista Sinhô. Dali para frente sua vida seria repleta de glórias, dinheiro e muitos discos vendidos, ocupando sempre o lugar mais alto das paradas de sucesso, afinal de contas a coroa já era dele e o microfone há muito reverenciava-lhe. Francisco Alves foi o representante primeiro e mais importante de duas décadas que consagraram um estilo de cantar empostado e com dós de peito. Trajando ternos e smokings elegantes, carregando a voz e o violão, ele se tornou o grande fenômeno de massa da era de ouro do rádio brasileiro e foi peça fundamental na consolidação e no aprimoramento das técnicas elétricas das gravações de música no Brasil. Não houve brasão maior da música brasileira, mesmo que influenciada pelo bel-canto da ópera italiana, do que aquele que reinou absoluto nas décadas de 30 e 40, aclamado pelos radialistas e adorado por seu povo, o Rei da Voz, Francisco Alves.

“Onde o céu azul é mais azul
E uma cruz de estrelas mostra o sul
Aí, se encontra o meu país
O meu Brasil grande e tão feliz”

100 anos de João Petra de Barros: a voz de 18 quilates

“Não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.” Cícero

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Nem todo herói morre de overdose. E nem foi Cazuza o único a deixar a vida aos 32 anos. João Petra de Barros, um carioca da capital, de timbre parecido ao do grandiloquente Francisco Alves, foi apelidado por César Ladeira como “a voz de 18 quilates”. Ícone do rádio de seu tempo, as décadas de 1930 e 1940, o hoje esquecido cantor completaria seu centenário em 2014. Pouco festejado João Petra foi sinônimo de farra e sucesso na época em que atuou. Parceiro de boemia de Noel Rosa teve o privilégio de gravar Mário Lago, Ary Barroso, Ismael Silva, Orestes Barbosa, Custódio Mesquita, Peterpan, um iniciante Vinicius de Moraes, na música “Dor de uma saudade”, e claro, o amigo da Vila.

Uma dessas composições, “Até amanhã”, foi entregue por Noel para João Petra como uma pirraça a Francisco Alves, cansado que estava o poeta da Vila de ver suas músicas sempre associadas ao mesmo nome. “Linda pequena”, a primeira versão da histórica “As Pastorinhas”, mais exitosa parceria de Noel e Braguinha, o João de Barro, foi lançada, e com sucesso, por João Petra, sendo bisada no rádio por cerca de dois anos até a definitiva versão, lançada por Silvio Caldas um ano após a morte de Noel Rosa. Fato este que prenunciou a derrocada da carreira e vida de João Petra. Que em pouco tempo perdeu, para a mesma doença, a tuberculose, dois amigos do samba, Noel e Nílton Bastos.

Lupicínio Rodrigues: feliz poeta do amor triste

“Eu gostei tanto, tanto,
Quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar” Lupicínio Rodrigues

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Lupicínio Rodrigues nunca tocou nenhum instrumento musical, tocou simplesmente o mais musical de todos os instrumentos: o coração daqueles que choram pelo amor perdido.
Com os cotovelos apoiados no balcão derramou o whisky feito choro na canção e criou a dor-de-cotovelo, o samba-canção.
Cantou o remorso, a vingança, a loucura, o ódio e o amor.
O amor universal.
O amor comum a todos.
Aquele que nos faz sofrer e a gente continua amando.
Cantou a dor.
Uma dor agressiva que nos castiga sem piedade e com rancor.
A dor que bate pra se defender, pra tentar amenizar o sofrimento de apanhar do próprio amor.
“Naquele desespero
De perder o meu amor
Ofereci até um coração
Que não é meu”

O Samba Malandro De Wilson Batista

“acenda a lâmpada às seis horas da tarde
acenda a luz dos lampiões
inflame
a chama dos salões
fogos de línguas de dragões
vaga-lumes” Paulo Leminski

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Quem foi, afinal de contas, Wilson Batista? O homem por trás de sucessos que pouco colocou a voz para ser ouvida em disco? O profícuo compositor, do interior do Rio de Janeiro, que fez carreira como galante dos bares da Lapa e da Esquina do Pecado? O rival de Noel Rosa, com quem alimentou polêmica acima de conceituações musicais? Ou mesmo malandro de terno branco e navalha no bolso? Nenhuma dessas hipóteses corresponde inteiramente ao caráter do autor de “Emília”, “Bonde de São Januário”, “Mundo de Zinco”, “Acertei no Milhar”, “Balzaquiana”. Para se entender melhor Wilson Batista é preciso ir ao encontro de sua origem: acendedor de lampiões. Que com pedras batidas fez o fogo de sua existência. E ao encontro de personagens memoráveis, os percebeu lampiões. Disso, chamou depois samba.

Vicente Celestino: A Voz Orgulho Do Brasil

“Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.” Florbela Espanca

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Em meio à lona de um circo aos pedaços, o cantor entra, começa a cantar e é sumariamente vaiado. Recebido com apupos e desaforos, uma flor que cai sobre seus pés lhe serve como consolo. Quando então percebe que quem atirou a flor foi sua amada, os dois logo se casam e ele promete trazer-lhe, como prova de seu amor, o coração de sua mãe. No entanto ao regressar, já com o coração na mão, sangrando e com a perna partida, sua amada havia fugido com outro e deixara consigo apenas uma pequenina boneca de carne: sua filha, que passa a ser a única razão da sua vida e o único motivo que lhe resta para cantar, o que se desfaz quando Deus a leva para a eternidade. Ele então se entrega à bebida e os outros que passam em frente ao bar, ao vê-lo chamam-lhe: “Ébrio, Ébrio.” Essas cenas de tragédias repetidas nunca aconteceram na vida de Vicente Celestino, mas ele as adorava, e por muitas vezes as viveu com o coração na mão, dentro das telas do cinema ou em cima dos palcos de teatro, chopes e rádios. Vicente Celestino, aquela voz de tenor atravessando o corpo sofrido daquele pequeno descendente de italianos e a alma passional dos brasileiros que o adoravam: “A Voz Orgulho do Brasil!”

Rainha do Xaxado: Marinês E Sua Gente

“Mas são capazes de plantar banana,
Se a noite é das que chove canivete.
Porém se há sol ninguém se afana,
A turma não se mexe nem se mete,
Pois se poupa e prepara-se com gana
Que a Lua um Baile Jericó promete.” T. S. Eliot

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Quem disse que acabou-se a monarquia no Brasil é porque nunca ouviu Marinês, autêntica rainha do ritmo e das tradições nordestinas. Nascida em meio à Asa Branca e o pandeiro de ícones do forró, do xaxado e do baião como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Marinês deu seus primeiros passos na terra seca e amarelada do sertão pernambucano, mas foi em Campina Grande, no interior da Paraíba, que conheceu seu marido Abdias e formou com ele o “Casal da Alegria”. Logo, os dois se juntaram ao zabumbeiro Cacau, completando o conjunto que começaria excursionando pela região nordeste e em breve ganharia todo o Brasil, toda sua gente. Trazendo a sanfona, a zabumba, o agogô e o triângulo na sacola, Marinês tornou-se a primeira mulher a liderar com coroa de cangaceiro na cabeça um grupo de forró.

As Cordas Mágicas De Garoto

“Brilhantes deuses etéreos
Tocam-vos levemente,
Qual os dedos do artista
nas cordas santas
Sem destino, como a criança” Hölderlin

Anibal-Augusto-Sardinha-o-Garoto-e-o-Dia-do-Choro-Paulista

Prodígio já nasceu chorando. Não queria aquele nome. A mãe o chamou Aníbal. Os amigos o batizaram Moleque do Banjo. Seria sempre Garoto, aonde quer que fosse, arrastava suas cordas mágicas. Diziam serem encantadas, aquelas mãos. Saiu de São Paulo foi para o Rio de Janeiro. Depois, Estados Unidos. Voltou à cidade que o acolheu, descansou o coração, nos preparativos de mais uma viagem. Levou consigo as cordas. Deixou delas, uma pequena amostra, suficiente para alentar lembranças e saudades recolhidas.

Zé Kéti: A Voz Do Morro

“o sábio
deliciava-se na água
o homem humano tem amizade com os morros
enquanto a relva cresce nas represas” Ezra Pound

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Subindo as ruas íngremes de Bento Ribeiro, José Flores de Jesus lembra-se da sua adolescência, quando morava no subúrbio de Piedade, e de sua infância, que passara em Inhaúma, redutos conhecidos da malandragem do Rio de Janeiro. Ao passar pelas ruas do atual bairro, José Flores enxerga velas acesas, máscaras negras e pede licença para cantar o seu amor. Quando ele finalmente chega à roda de samba para a qual caminha, nem precisa se apresentar, todos já sabem que aquele sujeito de chapéu de aba pequena na cabeça, caixinha de fósforos na mão e andar sambado é o Zé Quietinho filho da dona Leonor, ou o Zé Kéti da Portela que hoje todos conhecem: a voz do morro, da opinião, da prece de esperança e do poema de botequim.

Entrevista: Marcos Paiva & a Era de Ouro da Música Instrumental

“Contar a alegria das duas irmãs ao se reconhecerem e jogarem uma nos braços da outra exigiria o acompanhamento de um muito afinado instrumento musical, encordoado com as próprias fibras de corações amorosos: com certeza, após tantas aventuras, mereciam a felicidade, que é muda.” Mallarmé

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Quem tem parceiros como Bibi Ferreira, Cauby Peixoto e Maria Alcina não pode reclamar da sorte. E muito menos de tocar o repertório de Pixinguinha, Edison Machado e Lupicínio Rodrigues. E Marcos não o faz, pelo contrário, acrescenta números autorais e transita com a mesma eficiência pela música instrumental e cantada. Os elogios de público e crítica não são por acaso. Nascido em Viçosa, interior de Minas Gerais, pretende, para 2014, andar cada vez mais com pernas próprias, sem dispensar as companhias ilustres. “Abri minha empresa recentemente, a ‘MP6 Arte e Sons’, para poder encampar as várias ideias que tenho. Estamos trabalhando para lançar neste segundo semestre o disco ‘Choroso Vol.1’ e mais dois livros de música: o ‘Songbook Choroso Vol.1’ e o livro ‘O Contrabaixo na Roda de Choro’ com 40 chorinhos adaptados para meu instrumento. Está tudo caminhando bem. Vamos ver”, diz.

Com três álbuns na carreira, o primeiro lançado em 2007, “Regra de Três”, ao lado de Bob Wyatt e Lupa Santiago, de repertório instrumental, o segundo no mesmo ano, “São Mateus”, e o terceiro em 2011, “Meu Samba No Prato”, em que homenageia o baterista Edison Machado, Marcos avisa ao público mineiro a possibilidade de conferir os números de perto. “Quanto a Belo Horizonte, estarei aí no ‘Savassi Festival’ no dia 24 de agosto. Bruno Golgher nos convidou, e é sempre um prazer participar dessa festa musical”, elogia e logo destrincha parte da nova agenda. “Estaremos no ‘Painel Musical’ de Tatuí, interior de São Paulo, no dia 25 de julho. E lançarei um projeto em duo com o acordeonista Cleber Silveira. Tem coisas pré-agendadas, mas que infelizmente não posso adiantar agora”, confessa. E como pra música boa esmola pouca é bobagem Marcos também presta tributo aos 40 anos da falta de Pixinguinha.

Elza Soares: Voz Que Toma Corpo

“noviça apaixonada aos vinte anos, puta de salão aos quarenta, rainha da Babilônia aos setenta, santa aos cem. Cantávamos duetos de amor de Puccini, boleros de Agustín Lara, tangos de Carlos Gardel, e comprovávamos uma vez mais que aqueles que não cantam não podem nem imaginar o que é a felicidade de cantar.” Gabriel García Márquez

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Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, intacta e assim permanece. Carrega a cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. É a mistura sem jeito, sem tato, aos barrancos, mancando ao sapato um tamanco de barro, suor e pilão. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida. Ela apenas destila o que chama de corpo é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene.