80 anos de Sylvinha Telles: só começando…

“Domingo
Canto dos passarinhos
Doce que dá para pôr no café” Paulo Leminski

Sylvinha-Telles

Sylvia Telles estava só começando a carreira quando, em 1955, cantou num Teatro, em Copacabana, o samba “Amendoim torradinho”, composição de Augusto Garcez e Ciro de Sousa de intrínseca sensualidade, depois reinventada por Ney Matogrosso. Nessa época ainda não chegava a ser Sylvinha, título que só apareceria em sua discografia em 1962, ainda assim sem o Y. Se mudou de nome muitas vezes na carreira, passando de Silvia a Silvinha e depois Sylvinha, a intérprete manteve ilesas duas características: a leveza e o refinamento. Claro que existem outras, mas cabe aqui eleger tais.

5 Sucessos do Quarteto em Cy

“para quê expressar-se melhor do que estes lótus, estas rosas, estes jasmins quietos, inapanhados: já não tinham dito tudo?” Mallarmé

quartetoemcy

A história do “Quarteto em Cy” é uma estória de mudanças. Da Bahia, no interior, em Ibirataia, para o Rio de Janeiro. Do Rio para os Estados Unidos. Dos Estados Unidos para a Europa e da Europa para o Japão. De Cyva, Cynara, Cybele e Cylene, as irmãs iniciais, para Sônia Ferreira, Dorinha Tapajós, Sandra Machado, Regina Werneck, Cymíramis e Keyla. Neste caminho passaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, MPB-4, Ivan Lins, e outros. Pois uma coisa é permanente, nessa história e nesta estória, o “Quarteto em Cy” não dá ponto sem nó, nem deixa sem pingo o Y. E a música flui sabiámente.

7 Músicas de Paulo Leminski

“um pouco de mao
em todo poema que ensina
quanto menor
mais do tamanho da china” Paulo Leminski

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O “samurai malandro”, como ficou conhecido o poeta de Curitiba Paulo Leminski, traduz, logo no codinome, a gama de contradições e opostos que atraíram o artista. Com descendência polonesa e africana, Paulo furou o umbigo do Paraná e de lá puxou oriente, Brasil e Europa. Cinema, judô e arte plástica. Aquele que com aparente superficialidade ia do raso ao profundo, do clássico ao populacho. E foi sendo “mínimo em matéria de máximo” que Paulo Leminski construiu uma obra cuja precisão e musicalidade o eternizou junto a gentes variadas. Pois como pede o mendigo da praça, sobre os poetas deixem os poemas falarem.

Entrevista: O Universo Cabeludo de Carlos Careqa

“Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.” Allen Ginsberg

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Rogério Skylab esquece de perguntar o assassino de Carlos Careqa em sua canção “Eu Quero Saber Quem Matou”, mas Cida Moreira, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Tetê Espíndola não deixaram de prestigiá-lo em seu CD de estreia, “Os Homens São Todos Iguais”, em 1993, com sugestiva capa recheada de ironia, e eis aí bom indício de por onde trafega o compositor, ainda que afirme em seu terceiro disco: “Não Sou Filho De Ninguém”, lançado em 2004. Dez anos depois contabiliza dez títulos na discografia, além de participações e trabalho como produtor. Muito longe desses números, ao acaso, redondos, Carlos traça seu caminho na inventividade. “O mercado não quer um cara rebelde como eu. Não quero ficar cantando a mesma música a vida toda”, afirma.

Nascido em Lauro Muller, interior de Santa Catarina, o intérprete mudou para Curitiba aos cinco anos, e lá se formou como artista frequentando grupos de teatro e participando de campanhas publicitárias. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição musical, define: “Importância Suprema. Tudo é cena. E a todo o momento tenho que prestar atenção no que está acontecendo, e isto vai virando música”. Já a possível “escolha” por uma carreira pautada no mercado independente é rechaçada. “Eu não optei. As coisas foram acontecendo. Tenho ideias, e assim vou caminhando. A música independente é isto, sem amarras, sem gente mandando. Faço o que quero, o que me der na telha. Não faço música experimental. Acho que eu faço coisas bem palatáveis, mas sou independente por que a vida me quis assim”.

100 anos de Aracy de Almeida: a jurada e a cantora

“Quis levar também um bom floreiro e um ramo de rosas amarelas para conjurar a sorte ruim trazida pelas flores de papel, mas não encontrei nada aberto e tive que roubar num jardim particular um ramo de recém-nascido amor-perfeito.” Gabriel García Márquez

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Engana-se quem pensa que a participação de Aracy de Almeida como jurada do programa de calouros do apresentador Chacrinha, e depois Silvio Santos, tenha distorcido a imagem da cantora. Basta ouvir as gravações de entrevista da intérprete contando de sua relação com Noel Rosa, o começo da carreira, e a forma despojada no uso da voz na canção para perceber que Aracy sempre teve uma personalidade ímpar, da qual não se podia descolar, a princípio, personagem e vida. Se muitos dos seus maneirismos pareciam caricaturais e provocavam o riso é porque ela nunca fez questão de enquadrar-se em “bons modos”, “princípios”, e é justo nisso que se diferenciou, na década de 1930, entre tantas cantoras do Brasil. Foi, ao lado de Carmen Miranda, um destaque.

Entrevista: A independente Selmma Carvalho lança festa própria

“ao ruído do rufar dos tambores, para devorar resíduos
para a festa de um usuário a fim de mudar o
valor de uma moeda” Ezra Pound

Selmma Carvalho foto Miguel Aun 4

Desde que foi indicada ao Prêmio Sharp na categoria “cantora revelação”, em 1997, muita coisa rolou na trajetória de Selmma Carvalho. Acompanhada, à ocasião, pelo amigo, jornalista, compositor e conterrâneo Ezequiel Neves – conhecido, sobretudo, pelas parcerias com Cazuza – a entrevistada lançara um ano antes o seu primeiro disco. Natural de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, hoje ela celebra o lançamento e os shows de “Minha Festa” no tom apropriado. “Um ano após a gravação do meu terceiro CD, ‘O que será que está na moda?’, eu já pensava no próximo, mas não sabia ao certo o que queria”, confessa. No repertório, além de quatro canções autorais, uma novidade na carreira, figuram composições de Samuel Rosa, Nelson Cavaquinho e parcerias com Sérgio Moreira, Vander Lee e Paulo Santos.

“Quando resolvi gravar, tinha somente umas quatro canções em mente e algumas composições próprias ainda por terminar. Por isso mesmo, a maior parte do repertório foi definida ao longo do processo de gravação”, contorna Selmma, que faz questão de ressaltar a importância do produtor Rogério Delayon. “Conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos convidados, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.”, afirma. Entre os participantes estão Chico César, Sérgio Pererê e Fred Martins. Com mais um CD lançado de forma independente, Selmma pretende seguir nesse caminho. “Sou independente desde o primeiro CD, portanto nem penso em procurar uma gravadora, somente meu segundo álbum tem o selo da CPCUMES, de São Paulo”.

Crítica: Tímida, “Cássia Eller” explode em direções diversas em “O Musical”

“Eu poderia ser um monge do Nepal
Um jardineiro, um marinheiro, etc e tal
E não há nenhuma outra hipótese que eu não considere, mas
O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller” Péricles Cavalcanti

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É difícil, num musical cheio de méritos, apontar um só. Então vamos por partes, como sentenciou Jack. Figura lendária na história da música brasileira, principalmente na renovação da imagem do rock a partir dos anos 1990, Cássia Eller tem a sua trajetória contada em espetáculo dirigido por João Fonseca, o mesmo de Cazuza, com a ajuda fundamental de Vinícius Arneiro na mesma função e outros nomes importantes, como Gustavo Nunes, que idealizou e produziu a empreitada, Lan Lan, percussionista que namorou e trabalho com Cássia, na direção musical, Fernando Nunes, outro que conviveu com a protagonista, na codireção musical, e Patrícia Andrade, responsável pelos textos. Mas entre tantos brilhos individuais a cena é dos atores.

Cássia Eller, mimetizada por Tacy de Campos, que já fazia cover da cantora antes de estrelar a peça, entra de costas, em escolha acertada que logo de saída apresenta traço importante de sua personalidade: a timidez excessiva, ou até, quem sabe, certo desinteresse e enfastiamento de convenções sociais. Convenções estas que a intrépida artista fazia questão de colocar abaixo quando, no palco, transformava-se numa poderosa Cássia pelo simples poder de sua voz, nem eram precisos atos extremos que, vez ou outra, apareciam, como a mania de exibir os seios que a marcou anos depois. Mas tudo isto, fica claro, sempre foi muito mais fruto de uma espontaneidade genuína e duma criança indígena que cultivou em si do que atos mercadológicos.

Entrevista: O poder do talento e do temperamento de Claudya

“E é o meu canto o fruto dessa espera.
Canto como quem risca a pedra. Te celebro
Na mais alta metamorfose da minha época.
Não cantarei em vão.” Hilda Hilst

claudya-cantora

Claudya agora assina o nome com “Y” e apesar do detalhe e da mudança no lugar do “I”, muitos ainda a reconhecem ao menor assobio. Dona de uma das belas e singulares vozes da música popular brasileira, a cantora contabiliza 19 títulos na discografia, sendo que o mais recente álbum foi lançado em 2011, “Senhor do Tempo – Canções Raras de Caetano Veloso”, parceria da gravadora Joia Moderna com a Tratore. “É sempre relevante gravar Caetano, pelo que representa como autor, e para a música popular”. A entrevistada afiança que a ideia partiu do produtor Thiago Marques Luiz e do DJ Zé Pedro. Por hora os que quiserem conferir mais novidades de Claudya terão que ir a seus shows. “Não pretendo gravar por enquanto. Tenho inúmeras músicas autorais, inéditas, mas estou esperando o momento certo”, adianta.

E o momento, para tristeza dos fãs da cantora, não parece estar próximo. Claudya esclarece seus pontos. “Infelizmente a música brasileira está nivelada por baixo. Não temos mais as grandes referências que tínhamos no passado. Vivemos outros tempos”, lamenta e endossa discurso proferido, há poucas semanas, pela também cantora Mônica Salmaso, rebatida pelo mais recente homenageado de Claudya, Caetano Veloso, que diz celebrar “a invasão do litoral pelo sertanejo, baile funk e axé music”, sendo o último seu “favorito”. Mas Claudya apresenta os seus argumentos. “Tempos esses em que se valoriza o descartável, o abominável, o banal, bem diferente dos nossos tempos de ouro em que o artista e a música eram sagrados, em que era preciso ter talento e conteúdo”, sublinha. Para ela, as épocas são diferentes e antagonizam.

Quem Há De Dizer: Os 100 Anos De Lupicínio Rodrigues Por Mauro Zockratto e Luísa Mitre

“Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou gozar da
vida; vocês poetas são uns intersexuais…
E por de japa ajuntou:
– Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor
de corno; por que não vai nela?” Manoel de Barros

mauro-zockratto-luisa-mitre

A expressão “dor de cotovelo” está tão impregnada no alfabeto de ditados brasileiros que mesmo quem nunca ouviu Lupicínio Rodrigues já a sentiu. Embora alocado na tradição e no aspecto mais conservador da cultura do país, tanto na forma quanto nas letras, Mauro Zockratto e Luísa Mitre oferecem à nova geração a oportunidade de conhecer este senhor gaúcho de bigode, paletó e gravata em “roupagem nova”, para usar outra expressão bem batida. Só que a batida desses três artistas não tem nada de “mais do mesmo”. Lupicínio Rodrigues é aquele que anda entre o “grotesco e o sublime”, como já dito por muitos, de uma maneira cuja adjetivação é impossível, restando-nos recorrer a seu nome e sua assinatura, melhor ainda, ao que ele mesmo criou e disse: dor de cotovelo. Enquanto Mauro Zockratto e Luísa Mitre desfilam em 16 músicas vários ritmos: choro, tango, guarânia, valsa e mais, muito mais.

O Lado B de CAÊ

“pensar que o mundo inteiro não passa do interior da Bahia.” Wally Salomão

caetano-veloso

Está certo que o disco não roda mais na vitrola como antigamente. E que muita gente talvez desconheça a expressão “lado b”. Mas para artistas que não respeitam o tempo isto não faz a menor diferença. A fim de reparar o destino e dar-lhe uma bela bordoada com a elegância devida, Mauro Zockratto decidiu que é hora de tirar do obscurantismo obras de um menino que via pela TV nos idos anos 70, berrar a “Alegria, Alegria” sem o menor desconcerto, ainda que atônitos e perplexos ficassem tanto os fãs quanto os críticos. Aí estão no roteiro “Força Estranha”, “Objeto não identificado”, “Muito Romântico”, “Janelas Abertas Número 2”, “Festa Imodesta”, e outros.