6 músicas brasileiras cheias de engajamento

“A cultura de massa (ou melhor seria dizer a política de massa) foi vista com toda a clareza por Borges como uma máquina de produzir lembranças falsas e experiências impessoais. Todos sentem a mesma coisa e recordam a mesma coisa, e o que sentem e recordam não é o que viveram.” Ricardo Piglia

O chocante assassinato da vereadora Marielle Franco (1979-2018) completa neste mês de março um ano, sem ter sido solucionado. Defensora dos direitos humanos, feminista, negra, bissexual e vinda da periferia, a socióloga e ativista tornou-se tema recorrente de canções e manifestações culturais desde a sua morte, transformando-se em um símbolo da luta contra as opressões. MC Carol dedicou música à vereadora, Criolo a citou no videoclipe “Boca de Lobo”, e, em 2019, o samba-enredo da Mangueira fará menção a Marielle.

A vereadora voltou a ser lembrada nas imagens de “Rumos e Rumores”. Lançada pelo rapper Vitor Pirralho com participação de Ney Matogrosso, a música apela contra a destruição dos povos indígenas. Por sinal, Ney esteve no centro de uma polêmica em 2017, ao ser criticado pelo cantor Johnny Hooker, que acusava o veterano de “desdenhar da causa gay” após uma entrevista em que o antigo vocalista do Secos & Molhados rejeitava ter se tornado um representante das minorias e se definia como “um ser humano”.

“Um single do Planet Hemp se chamaria ‘Ele Não, Ele Nunca’”, diz biógrafo

“Era o fim de uma época, clandestina e rebelde, porém carregada de criatividade, erotismo, lucidez e beleza.” Reinaldo Arenas

Antes de se tornar santa da Igreja Católica, Joana d’Arc (1412-1431) foi queimada na fogueira durante a inquisição promovida pela mesma instituição. Analfabeta e camponesa, a revolucionária francesa inspirou o nome de batismo de Dark. Os pais esperavam que fosse uma menina, mas o rebento nasceu menino e acabou herdando apenas a forma de se dizer o sobrenome da heroína. Anos depois chegava ao mundo o primeiro filho de Dark, hoje conhecido como Marcelo D2, um dos fundadores do Planet Hemp.

É a controversa trajetória da “banda mais perseguida do país” que o jornalista Pedro de Luna, 44, procura contar ao longo das quase 500 páginas de “Planet Hemp: Mantenha o Respeito” (editora Belas-Letras). “Nenhuma banda sentiu tanto na pele a repressão”, sublinha o autor. Dividida em 60 capítulos, a narrativa cronológica traça um perfil de cada integrante antes de entrar na história que eles construíram juntos. Assim, D2, Skunk (1967-1994), Formigão, Rafael Crespo e Bacalhau aos poucos se tornam íntimos do leitor.

Entrevista com Hamilton de Holanda: “O choro é como uma Mona Lisa”

“Ouvi-te e ouvi-a/ No mesmo tempo
E diferentes/ Juntas cantar.
E a melodia/ Que não havia.
Se agora a lembro,/ Faz-me chorar…” Fernando Pessoa

Representante da Era de Ouro do rádio, que consagrou os cantores de “dó de peito”, aqueles que cantavam até sem microfone, Nelson Gonçalves lançou, em 1962, “Seresta Moderna”, música de Adelino Moreira que dava um recado direto para João Gilberto, papa da bossa nova: “Um gaiato cantando sem voz/ Um samba sem graça/ Desafinado que só vendo”. Em 1966, foi a vez de Adoniran Barbosa se lamentar diante do sucesso da jovem guarda, com “Já Fui uma Brasa”: “Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro/ Tocava ‘Saudosa Maloca’”, cantava o autor da clássica “Trem das Onze”.

Um ano depois, em 1967, a Passeata contra a Guitarra Elétrica precedeu o álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, que concretizava musicalmente as bases do movimento capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. E, quando a Blitz invadiu as paradas de sucesso no ano de 1982, o discurso combativo e politizado da MPB começou a ser substituído por histórias cotidianas, de amores e dores, que se voltavam para os próprios umbigos daquela juventude imersa nos acordes do rock.

Alceu Valença: “Não abrimos mão de acreditar num país mais fraterno e solidário”

“O rio de minha terra é o A B C
de minha meninice, o meu passado
a correr para o mar
com todas as pedrinhas com que eu criança
brincava a fingir que eram bois.” Jorge de Lima

Geraldo Azevedo, 73, teve um início de carreira prodigioso. Autodidata, começou a tocar violão aos 12 anos. Com a mudança de Petrolina, no interior de Pernambuco, para o Rio de Janeiro, ele agarrou a chance de acompanhar Eliana Pittman (que gravou sua primeira música, “Aquela Rosa”, em 1968), Geraldo Vandré, Naná Vasconcelos e Teca Calazans. Tudo isso antes de unir sua travessia à do conterrâneo Alceu Valença, 72, na capital fluminense. Juntos, eles estreariam em disco no ano de 1972.

O sucesso de ambos, porém, só aconteceria ao toparem com outra nordestina que partira para o sudeste do país em busca de um lugar ao sol. Elba Ramalho, 67, tinha abandonado o curso de sociologia e economia na Universidade Federal da Paraíba para se dedicar aos sonhos da arte: ela cantava, interpretava e dançava balé. Ao lado do ator e amigo Carlos Vereza, batia ponto com frequência nos bares do Baixo Leblon, e foi lá que conheceu Alceu, de quem gravaria “Anunciação” (1983).

A música é uma das que aceleram seu coração, tanto que foi escolhida para a abertura de dois DVDs da cantora. A outra eleita é “Dia Branco” (1981), de Azevedo. Elba, por sinal, é recordista em dar voz a obras do autor de “Dona da Minha Cabeça”, “Quando Fevereiro Chegar” e “Moça Bonita”. “São canções que você escuta e já se vê cantando. Eu conheço muitas das histórias e fatos que estão por trás delas. E não vou apenas cantar, tenho algo a transmitir”, ressalta Elba.

23 músicas brasileiras com nomes de mulher

“O olhar singular de galante mulher
Que rumo a nós desliza como um branco raio
Que a lua vibrante envia ao lago a tremer,
Quando nele mergulha a beleza em desmaio” Charles Baudelaire

A expressão musa nasceu com a mitologia grega, e se refere às nove filhas do casal formado por Zeus e Memória. Posteriormente, o termo passou a ser empregado pelos poetas românticos para louvar aquelas que lhes despertavam os mais nobres sentimentos. As musas inspiradoras também pululam no que diz respeito à canção popular brasileira. Desde que o samba é samba a ala feminina passou a batizar inúmeras obras do cancioneiro nacional. Pautada pela diversidade, a prática não nega visto a nenhum ritmo, dando a nota certa tanto no axé quanto no rock, marcando o compasso do funk e da valsa. De Milton Nascimento a Chico Buarque, Cazuza, Nando Reis, Fausto Fawcett e Dorival Caymmi não há Janaína, Beatriz ou Eva que não fosse contemplada.

Silva: “O Brasil já foi muito mais relevante musicalmente do que é hoje”

“Não se deve tocar nos ídolos: o dourado acaba por ficar agarrado em nossas mãos.” Gustave Flaubert

Em 2015, o cantor Silva iniciou bem-sucedida turnê com o repertório de Marisa Monte. O carioca Qinho fez a mesma aposta com “Fullgás” (2018), calcado na obra de Marina Lima. No disco de estreia, “Galanga Livre” (2017), o rapper Rincon Sapiência convidou o veterano Sidney Magal. E mesmo aqueles com mais chão percorrido têm adotado a prática. Para 2019, Nando Reis prometeu um disco só com músicas de Roberto Carlos. Abaixo, Silva responde algumas das nossas curiosidades.

1 – O que o aproximou do repertório da cantora Marisa Monte? Quem era o seu grande ídolo musical na infância e qual a sua primeira lembrança musical?
Meus irmãos, que são um pouco mais velhos do que eu, me apresentaram Marisa. Lembro que fiquei apaixonado pelo (disco) “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000) e depois disso comecei a ouvir tudo dela. Hoje, tenho o prazer de ser amigo de alguém que sempre admirei. Meu ídolo musical da infância eu diria que era Tom Jobim, ouvi o álbum “Passarim” (1987) até furar. Minha primeira lembrança musical é de meu tio, que é um pianista que admiro muito, me colocando para tocar um pedaço de um concerto de (Robert) Schumann (compositor erudito alemão) que ele estava estudando. Eu era muito novo e é claro que tocava tudo errado, mas nunca me esqueço disso.

Zeca Baleiro: “O cenário artístico brasileiro é tomado de muita injustiça”

“Acabe com o apetite, e a geração atual não
Viveria um mês, e nenhuma geração futura existiria” Ezra Pound

No interior do Maranhão, em Arari, Zeca Baleiro ouvia discos de Martinho da Vila, Luiz Gonzaga e Mercedes Sosa. Antes mesmo de ser conhecido ele já tinha um ídolo: Fagner. O encontro dos músicos aconteceu quando o cearense foi levado pelo poeta Sergio Natureza a um show de Baleiro. “O que mais me instigou foi o fato de sermos de gerações diferentes”, afirma Baleiro. Juntos, os dois compuseram quase 20 canções, gravaram disco e DVD. “Até o conceito de geração está confuso. No passado, isso era uma afirmação de identidade estética e ideológica. Hoje, a ideologia é o mercado e a ideia de sucesso se antepôs a tudo”, lamenta Baleiro.

“Anitta e Nego do Borel são defensores da periferia ou reaças?”, questiona jornalista

“E nada como um tempo após um contratempo (…)
E como já dizia Jorge Maravilha prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão, do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta” Chico Buarque

Representante da Era de Ouro do rádio, que consagrou os cantores de “dó de peito”, aqueles que cantavam até sem microfone, Nelson Gonçalves lançou, em 1962, “Seresta Moderna”, música de Adelino Moreira que dava um recado direto para João Gilberto, papa da bossa nova: “Um gaiato cantando sem voz/ Um samba sem graça/ Desafinado que só vendo”. Em 1966, foi a vez de Adoniran Barbosa se lamentar diante do sucesso da jovem guarda, com “Já Fui uma Brasa”: “Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro/ Tocava ‘Saudosa Maloca’”, cantava o autor da clássica “Trem das Onze”.

Um ano depois, em 1967, a Passeata contra a Guitarra Elétrica precedeu o álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, que concretizava musicalmente as bases do movimento capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. E, quando a Blitz invadiu as paradas de sucesso no ano de 1982, o discurso combativo e politizado da MPB começou a ser substituído por histórias cotidianas, de amores e dores, que se voltavam para os próprios umbigos daquela juventude imersa nos acordes do rock.

Fabiana Cozza: “Juristas do mundo todo reconhecem Lula como um preso político”

“Me armo de samba e poesia
E a minha melancolia
Logo se desfaz
Me prendo à toda beleza
E solto amor em meu cantar” Dona Ivone Lara & Delcio Carvalho

Fabiana Cozza, 42, é paulistana, mas suas relações com Minas vêm de longe. Em 2008, ela estreou na sala principal do Palácio das Artes ao lado de Maurício Tizumba e Sérgio Pererê. Posteriormente, participou de DVD e gravou canções dos dois artistas. Já com o sambista Dé Lucas o encontro se deu no Quintal Divina Luz, que ela chama de “quilombo da resistência negra em BH”. Por fim, em 2017, foi a vez de receber o convite para ser preparadora vocal do espetáculo de estreia das Negras Autoras, dirigido por Grace Passô e que levava ao palco Elisa de Sena, Júlia Dias, Manu Ranilla, Nath Rodrigues e Vi Coelho.

Mestres e discípulos: 10 encontros entre gerações na música brasileira

“Não busco discípulos para comunicar saberes. Os saberes se encontram em livros. Busco discípulos para plantar neles as minhas esperanças.” Rubem Alves

Sabedoria e energia volta e meia se encontraram nos palcos da nossa canção, com a juventude recebendo o que de melhor poderia oferecer à velha guarda e vice-versa. Sem perder tempo com paradigmas, nossos artistas mostraram que idade é uma questão de estilo, muito mais do que de gênero, tanto que rock, samba, choro e baião se misturaram nesse caldo musical.