100 anos de Aracy de Almeida: a jurada e a cantora

“Quis levar também um bom floreiro e um ramo de rosas amarelas para conjurar a sorte ruim trazida pelas flores de papel, mas não encontrei nada aberto e tive que roubar num jardim particular um ramo de recém-nascido amor-perfeito.” Gabriel García Márquez

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Engana-se quem pensa que a participação de Aracy de Almeida como jurada do programa de calouros do apresentador Chacrinha, e depois Silvio Santos, tenha distorcido a imagem da cantora. Basta ouvir as gravações de entrevista da intérprete contando de sua relação com Noel Rosa, o começo da carreira, e a forma despojada no uso da voz na canção para perceber que Aracy sempre teve uma personalidade ímpar, da qual não se podia descolar, a princípio, personagem e vida. Se muitos dos seus maneirismos pareciam caricaturais e provocavam o riso é porque ela nunca fez questão de enquadrar-se em “bons modos”, “princípios”, e é justo nisso que se diferenciou, na década de 1930, entre tantas cantoras do Brasil. Foi, ao lado de Carmen Miranda, um destaque.

Entrevista: A independente Selmma Carvalho lança festa própria

“ao ruído do rufar dos tambores, para devorar resíduos
para a festa de um usuário a fim de mudar o
valor de uma moeda” Ezra Pound

Selmma Carvalho foto Miguel Aun 4

Desde que foi indicada ao Prêmio Sharp na categoria “cantora revelação”, em 1997, muita coisa rolou na trajetória de Selmma Carvalho. Acompanhada, à ocasião, pelo amigo, jornalista, compositor e conterrâneo Ezequiel Neves – conhecido, sobretudo, pelas parcerias com Cazuza – a entrevistada lançara um ano antes o seu primeiro disco. Natural de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, hoje ela celebra o lançamento e os shows de “Minha Festa” no tom apropriado. “Um ano após a gravação do meu terceiro CD, ‘O que será que está na moda?’, eu já pensava no próximo, mas não sabia ao certo o que queria”, confessa. No repertório, além de quatro canções autorais, uma novidade na carreira, figuram composições de Samuel Rosa, Nelson Cavaquinho e parcerias com Sérgio Moreira, Vander Lee e Paulo Santos.

“Quando resolvi gravar, tinha somente umas quatro canções em mente e algumas composições próprias ainda por terminar. Por isso mesmo, a maior parte do repertório foi definida ao longo do processo de gravação”, contorna Selmma, que faz questão de ressaltar a importância do produtor Rogério Delayon. “Conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos convidados, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.”, afirma. Entre os participantes estão Chico César, Sérgio Pererê e Fred Martins. Com mais um CD lançado de forma independente, Selmma pretende seguir nesse caminho. “Sou independente desde o primeiro CD, portanto nem penso em procurar uma gravadora, somente meu segundo álbum tem o selo da CPCUMES, de São Paulo”.

Crítica: Tímida, “Cássia Eller” explode em direções diversas em “O Musical”

“Eu poderia ser um monge do Nepal
Um jardineiro, um marinheiro, etc e tal
E não há nenhuma outra hipótese que eu não considere, mas
O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller” Péricles Cavalcanti

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É difícil, num musical cheio de méritos, apontar um só. Então vamos por partes, como sentenciou Jack. Figura lendária na história da música brasileira, principalmente na renovação da imagem do rock a partir dos anos 1990, Cássia Eller tem a sua trajetória contada em espetáculo dirigido por João Fonseca, o mesmo de Cazuza, com a ajuda fundamental de Vinícius Arneiro na mesma função e outros nomes importantes, como Gustavo Nunes, que idealizou e produziu a empreitada, Lan Lan, percussionista que namorou e trabalho com Cássia, na direção musical, Fernando Nunes, outro que conviveu com a protagonista, na codireção musical, e Patrícia Andrade, responsável pelos textos. Mas entre tantos brilhos individuais a cena é dos atores.

Cássia Eller, mimetizada por Tacy de Campos, que já fazia cover da cantora antes de estrelar a peça, entra de costas, em escolha acertada que logo de saída apresenta traço importante de sua personalidade: a timidez excessiva, ou até, quem sabe, certo desinteresse e enfastiamento de convenções sociais. Convenções estas que a intrépida artista fazia questão de colocar abaixo quando, no palco, transformava-se numa poderosa Cássia pelo simples poder de sua voz, nem eram precisos atos extremos que, vez ou outra, apareciam, como a mania de exibir os seios que a marcou anos depois. Mas tudo isto, fica claro, sempre foi muito mais fruto de uma espontaneidade genuína e duma criança indígena que cultivou em si do que atos mercadológicos.

Entrevista: O poder do talento e do temperamento de Claudya

“E é o meu canto o fruto dessa espera.
Canto como quem risca a pedra. Te celebro
Na mais alta metamorfose da minha época.
Não cantarei em vão.” Hilda Hilst

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Claudya agora assina o nome com “Y” e apesar do detalhe e da mudança no lugar do “I”, muitos ainda a reconhecem ao menor assobio. Dona de uma das belas e singulares vozes da música popular brasileira, a cantora contabiliza 19 títulos na discografia, sendo que o mais recente álbum foi lançado em 2011, “Senhor do Tempo – Canções Raras de Caetano Veloso”, parceria da gravadora Joia Moderna com a Tratore. “É sempre relevante gravar Caetano, pelo que representa como autor, e para a música popular”. A entrevistada afiança que a ideia partiu do produtor Thiago Marques Luiz e do DJ Zé Pedro. Por hora os que quiserem conferir mais novidades de Claudya terão que ir a seus shows. “Não pretendo gravar por enquanto. Tenho inúmeras músicas autorais, inéditas, mas estou esperando o momento certo”, adianta.

E o momento, para tristeza dos fãs da cantora, não parece estar próximo. Claudya esclarece seus pontos. “Infelizmente a música brasileira está nivelada por baixo. Não temos mais as grandes referências que tínhamos no passado. Vivemos outros tempos”, lamenta e endossa discurso proferido, há poucas semanas, pela também cantora Mônica Salmaso, rebatida pelo mais recente homenageado de Claudya, Caetano Veloso, que diz celebrar “a invasão do litoral pelo sertanejo, baile funk e axé music”, sendo o último seu “favorito”. Mas Claudya apresenta os seus argumentos. “Tempos esses em que se valoriza o descartável, o abominável, o banal, bem diferente dos nossos tempos de ouro em que o artista e a música eram sagrados, em que era preciso ter talento e conteúdo”, sublinha. Para ela, as épocas são diferentes e antagonizam.

Quem Há De Dizer: Os 100 Anos De Lupicínio Rodrigues Por Mauro Zockratto e Luísa Mitre

“Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou gozar da
vida; vocês poetas são uns intersexuais…
E por de japa ajuntou:
– Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor
de corno; por que não vai nela?” Manoel de Barros

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A expressão “dor de cotovelo” está tão impregnada no alfabeto de ditados brasileiros que mesmo quem nunca ouviu Lupicínio Rodrigues já a sentiu. Embora alocado na tradição e no aspecto mais conservador da cultura do país, tanto na forma quanto nas letras, Mauro Zockratto e Luísa Mitre oferecem à nova geração a oportunidade de conhecer este senhor gaúcho de bigode, paletó e gravata em “roupagem nova”, para usar outra expressão bem batida. Só que a batida desses três artistas não tem nada de “mais do mesmo”. Lupicínio Rodrigues é aquele que anda entre o “grotesco e o sublime”, como já dito por muitos, de uma maneira cuja adjetivação é impossível, restando-nos recorrer a seu nome e sua assinatura, melhor ainda, ao que ele mesmo criou e disse: dor de cotovelo. Enquanto Mauro Zockratto e Luísa Mitre desfilam em 16 músicas vários ritmos: choro, tango, guarânia, valsa e mais, muito mais.

O Lado B de CAÊ

“pensar que o mundo inteiro não passa do interior da Bahia.” Wally Salomão

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Está certo que o disco não roda mais na vitrola como antigamente. E que muita gente talvez desconheça a expressão “lado b”. Mas para artistas que não respeitam o tempo isto não faz a menor diferença. A fim de reparar o destino e dar-lhe uma bela bordoada com a elegância devida, Mauro Zockratto decidiu que é hora de tirar do obscurantismo obras de um menino que via pela TV nos idos anos 70, berrar a “Alegria, Alegria” sem o menor desconcerto, ainda que atônitos e perplexos ficassem tanto os fãs quanto os críticos. Aí estão no roteiro “Força Estranha”, “Objeto não identificado”, “Muito Romântico”, “Janelas Abertas Número 2”, “Festa Imodesta”, e outros.

10 Sucessos de Clara Nunes

“Clara como Cousa
Sob um feixe de luz
Num lúcido anteparo.” Hilda Hilst

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Enquanto o coro do samba lhe monta um altar, a sereia do mar de Minas faz evocar a mata, o povo, a prata, o céu do sabiá e as forças da natureza. Clara Nunes acende velas, meche os chocalhos, leva fé para os corações que batucam samba e se banham em manjericão. Espalha alegria da Bahia a Minas, passando pela Portela. Rodando seu vestido longo e branco, Clara segue o ritmo da morena de Angola com sua voz brasileira de profissão esperança. Uma voz que traz o ouro de Minas banhado pelo mar salgado da Bahia e acompanha um sorriso espontâneo coroado por flores e conchas que lhe enfeitam os cabelos. Um brilho mestiço que se encontra nos olhos, no sorriso e no canto místico de Clara Nunes. No folclore da sereia brasileira que iluminou as minas de ouro dos corações marejados.

Entrevista: Zezé Motta costura as linhas de atriz e cantora

“Ao fim de alguns dias, habituado a seus lábios, não pensava em outras delícias.” Raymond Radiguet

Zeze Motta - Credito rogerio ehrlich

Num banquete oferecido pelo produtor Guilherme Araújo, todos se sentaram à mesa para reverenciá-la. Entre os presentes estavam autoridades da música como Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira, Luiz Melodia, e outros. Algumas ausências sentidas como as de Chico Buarque e Francis Hime, mas nada que atrapalhasse o espetáculo. Essa história bem poderia ser a de Xica da Silva, mas é a de Zezé. “No começo incomodava um pouco, porque sonhava em imprimir meu nome na mídia: ‘Zezé Motta’. Mas depois percebi que ela era uma ótima madrinha!”, afirma, com a sonora gargalhada, ao relembrar os preparativos para o lançamento do seu primeiro LP e também o sucesso nas telas de cinema que a acompanha até hoje. “Ainda tem gente na rua que me chama de ‘Xica’”, confessa com o humor que é característico.

Hoje aos 70 anos, completados no último dia 27 de junho, Zezé Motta faz planos tanto para a carreira de atriz quanto para a de cantora. Em agosto retorna às novelas da Rede Globo, afastada desde “Sinhá Moça”, de 2006, em “Boogie Oogie”, nova atração do horário das 18h, onde viverá a empregada Sebastiana. Já em relação aos palcos, mantém certo mistério, mas continua dando voz a sucessos da carreira e em especial da seara do samba, deixando no ar um projeto inscrito na lei de incentivo à cultura em busca de patrocínio e gravadora. No último álbum lançado por Zezé, “Negra Melodia”, em 2011, pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, a artista cantou músicas de Jards Macalé e Luiz Melodia, e o processo de decisão por este repertório rendeu boas histórias e ótimas risadas, como de costume na trajetória de Zezé Motta.

Ismael Silva: o “verdadeiro pai musical” de Chico Buarque

“Orvalho só resta nos olhos” Juraildes da Cruz

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Ismael Silva é considerado por Chico Buarque seu “verdadeiro pai musical”. O sambista nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, no dia 14 de setembro de 1905, foi um dos fundadores da primeira escola de samba, no final da década de 20, a qual deu o nome de Deixa Falar. Tido por Vinicius de Moraes como um dos três maiores sambistas de todos os tempos, Ismael tem em seu currículo o nome de músicos famosos como parceiros, destacando-se entre todos eles Noel Rosa e Lamartine Babo. Descoberto por Francisco Alves em 1927, o inventor do samba carioca como se conhece hoje é o autor de várias canções célebres do nosso cancioneiro, entre elas “Se você jurar”, em parceria com Nilton Bastos, “Adeus”, parceria com Noel Rosa e “Antonico”, um de seus últimos sucessos. Depois de ser regravado por artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes e Cristina Buarque nos últimos anos de sua vida, Ismael Silva morreu no dia 14 de março de 1978, aos 72 anos, e para sempre será lembrado como um dos grandes nomes da música brasileira. Se estivesse vivo, ele completaria 105 anos nesse mês de setembro.

Toda a Bossa Nova de Tito Madi

“Suas cobiças, seus desgostos, a experiência do prazer e suas ilusões ainda jovens, como ocorre com as flores com o adubo, a chuva, os ventos e o sol, haviam-na gradativamente desenvolvido, e ela desabrochava enfim na plenitude de sua natureza.” Gustave Flaubert

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Sob uma luz mais baixa ele carrega flores e corteja a dama. Folhas se entregam ao chão pois é outono, no mesmo instante o vento sibila sob o mar que bate contra a areia na noite deserta e pressente o orvalho que irá molhar as flores na primavera. Tito Madi é um cavalheiro da canção que debaixo das poucas estrelas que pontilham um céu escuro e macio conforta-nos com sua dor. A chuva tenta em vão abafar a saudade lá fora enquanto Tito nos inebria com sua voz límpida e doce pontuada pelas notas de um piano ou regida por uma orquestra.

“A noite está tão fria, chove lá fora
E esta saudade enjoada não vai embora
Quisera compreender porque partiste
Quisera que soubesses como estou triste”