10 músicas para a falta d’água no Brasil

“Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.” Manoel de Barros

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O Brasil, um país de dimensões continentais, sempre atravessou situações inusitadas ao longo de sua história. Enquanto nas regiões norte e nordeste do país o problema da seca era uma constante, no sudeste se repetiam relatos de enchente e alagamentos. Enfim, as soluções encontradas por nossos compositores sempre foram mais inteligentes, divertidas e inspiradas que a dos governantes. Não por acaso frequentam essa galeria Caetano Veloso, Tom Jobim, Raul Seixas, Jorge Benjor, Gordurinha, Tito Madi, Jorge Mautner, Paquito, Romeu Gentil, Sebastião Fonseca, Cícero Nunes, Cassiano, Sílvio Rochael, Paulo Coelho e outros ilustres artistas que ao interpretar também contribuíram para criar estas canções. Já na política… Bem, é bom que chova canivete para uns e chuva de prata para os demais!

Crítica: Peça “Maxilar Viril”, da Maldita Cia., oferece momento único no teatro

“Na primeira noite, o lagarto lançou-se sobre sua esposa e devorou-a. Quando o sol despontou, no leito nupcial havia apenas um viúvo dormindo, rodeado de ossinhos.” Eduardo Galeano

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Uma das maneiras que o ser humano descobriu para mudar o mundo é através do humor. Mas não necessariamente o riso frouxo é o apropriado para a utopia. Antes, aquele de dentes rangentes, nervoso, que raspam e expelem faísca pode tomar conta melhor desse destino. Para se proteger da morte, para sobreviver à violência e a condições inóspitas, para aturar o breu sem saída e nem resposta da vida, lá está o humor, com sua gargantilha quebrada e sua aparência inofensiva. “Maxilar Viril”, da Maldita Cia. de Investigação Teatral, parte do conto “História do lagarto que tinha o costume de jantar suas mulheres”, e do livro onde está inscrito, a antologia sobre as mulheres da terra natal do autor de “As Veias Abertas da América Latina”, para contar essa história que, por ser o teatro uma arte de ação, se faz muito mais através do tato do que dos diálogos. Isso não significa que a companhia siga claramente os dogmas de sua arte, pelo contrário, a proposta, ousada, é a de reverter e oferecer ângulos, catetos e hipotenusas distintos daqueles da moral e dos bons costumes. Afinal, mesmo o teatro tem suas manias e lugares seguros.

A peça não se restringe ao conto do uruguaio Eduardo Galeano, mas acrescenta a este conteúdo elementos que ao interagir contribuem para ampliar o sentido da fábula. Essa estética absurda encontra suas referências no cinema marginal de Rogério Sganzerla – com a inserção de comerciais satíricos através de uma locução caricaturada que captura o modus operandi da indústria cultural do consumo – e na música de vanguarda de Arrigo Barnabé, baseada na mistura de mundos aparentemente opostos pela aceitação em camadas sociais diferentes, como as histórias em quadrinhos e as composições eruditas atonais. Não por acaso esses pontos cingem tanto na trajetória das influências do grupo quanto na apresentação. A direção sensível e bem cuidada é capaz de apresentar um universo de violência, explorações e situações degradantes com uma formulação mordaz, crítica e circense, sob a lente que penetra no inconsciente do espectador com menos pedantismo, agressividade, e por isso é a mais letal: o humor. As canções escolhidas e executadas por Admar Fernandes, Sérgio Andrade e Christiano de Souza, a irrequieta iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho e a aspereza do cenário proposto por Igor Godinho, Jônatas Campos e Camila Polatscheck embalsamam a atmosfera com o odor e o calor de uma América pulsante e que até hoje só se foi possível descrever com um único adjetivo: latinidade.

Sucessos das músicas de duplo sentido no Brasil

“A gente pensa numa coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa…e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.” Mario Quintana

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É de um intelectual a constatação de que o amplo entendimento do duplo sentido no Brasil remonta ao período da escravidão. Em outros países essa cultura não seria tão difundida. De acordo com a tese se vivia naquela época sob uma realidade de mentira, em que a hipocrisia era dominante e as pessoas, escravos preponderantemente, tinham que recorrer a artimanhas para se comunicar e expressar com seus companheiros. Já que não podiam falar abertamente, a exclusão da liberdade lhes foi o mote para criar o “duplo sentido”. Como muitas contribuições da cultura negra no país, o duplo sentido se estendeu para as artes, com especial alcance na música, principalmente a nordestina. Se o nome do intelectual se esqueceu, o sentido duplo permanece.

Crítica: Não foi o coração do Galo nem o Deus da Raposa

“Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos” Nelson Rodrigues

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Cruzeiro e Atlético conquistaram os dois títulos mais importantes do país na temporada 2014. As equipes mineiras dominaram, assim, o cenário nacional, já que fora do âmbito doméstico o ano não foi de protagonismo, com o vexame da Seleção Brasileira na Copa do Mundo em seus próprios domínios, ao sofrer goleada de 7 a 1 para a campeã Alemanha na semifinal, e a perda da Taça Libertadores da América para os argentinos do San Lorenzo e da Copa Sul-Americana, com a eliminação do São Paulo para os colombianos do Atlético Nacional. Logo, é bom desde o princípio localizar bem as duas conquistas, longe de desmerecê-las, mas houve também fracassos dos campeões.

Cruzeiro e Atlético não foram capazes de se colocarem como os melhores do continente, mas deixaram claro para quem quiser ver que no Brasil, no momento, não há páreo. No entanto, é bom prestar atenção ao discurso dos vitoriosos, e contestá-los. Não é verdade que foi o coração do Galo e o Deus da Raposa o preponderante para vencer os adversários. O que não impede de constatar características históricas das agremiações com as quais é possível se identificar e que as mascotes representam tão bem. O Galo de briga, de rinha, de raça prima pelo esforço, pela superação. A Raposa é hábil, inteligente, prima pelo talento e criatividade.

Crítica: “Chaves” é marco de resistência da cultura mexicana no Brasil

“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” Seu Madruga

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Durante praticamente duas décadas o Brasil respirou sob um ritmo mexicano. Foi nos anos 1940 e 1950, portanto muito antes da estreia do seriado “Chaves” em seu país natal. O bolero dominou a canção e o coração brasileiros, o que não é difícil constatar ao percebermos a quantidade de versões e vozes que o entoaram, para ficar em exemplos mais claros, o folclórico “Cielito Lindo”, (do refrão: ai, ai, ai, ai, está chegando a hora/o dia já vem, raiando meu bem/é hora de ir embora), e de “Bésame Mucho”, criação de Consuelo Velazquez popularizada pelo “Trio Los Panchos”, outro a fazer enorme sucesso na terra de palmeiras onde canta o sabiá. Logo a influência da cultura mexicana na nossa não se restringe aos personagens criados por Roberto Gómez Bolaños.

No entanto, não é segredo para ninguém, ou ao menos não deveria ser, que o plano imperialista do estado norte-americano passa, preponderantemente, pela cultura e propaganda. Foi com este intento que a terra de Walt Disney passou a enviar para o Brasil, entre outros, Nat King Cole – inclusive cantando (bem) em português – Louis Armstrong, e a importar Ary Barroso que criou canções para os clássicos desenhos com a participação de Zé Carioca. O que explica então que o bolero tenha sido varrido do mapa e o consumo de música, filme, literatura, artes plásticas, dança e produtos alimentícios vindos do Tio Sam não tenha sido capaz de eliminar a presença de Chaves e sua Bruxa do 71? Talvez algo relacionado ao poder que o humor tem de despistar o seu real combate.

10 músicas de Billy Blanco: da bossa nova ao sambalanço

“Ela é minha Tereza da praia!
Se ela é tua, é minha também.
O verão passou todo comigo.
Mas o inverno pergunta com quem?” Billy Blanco e Tom Jobim

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Se alguém disser de certo William Blanco, paraense da capital Belém, formado em arquitetura, poucos ligarão o nome à pessoa. Até por que Billy Blanco não era acostumado ao óbvio. Dono de uma dicção única na canção popular, tornou-se peça fundamental no quebra-cabeça da bossa nova, do sambalanço e do modo de falar carioca. Teve sucessos gravados por Dick Farney, Lúcio Alves, Dolores Duran, Isaurinha Garcia, Silvio Caldas, isto sem falar nas diversas regravações por nomes da geração posterior, como Elza Soares, Caetano Veloso e Roberto Carlos, só para citar alguns. Mas Billy Blanco foi, sobretudo, um homem da música do povo, que observou como poucos seus trejeitos e costumes, e a quem lançava um olhar carinhoso, crítico ou exaltado.

Crítica: “The Voice Brasil” anuncia técnica e vende entretenimento

“Esse espetáculo, que eu esperava que me angustiasse, que me causasse inveja, ou mesmo que me distraísse pelo contágio de um sentimento sublime, me entediou como a uma solteirona.” Raymond Radiguet

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É um engodo. Do princípio ao fim. Programas de auditório que se propõe a revelar talentos não configuram novidade. O Brasil se beneficiou deste molde, sobretudo, nas décadas de 1960 e 1970, conhecidas como “Era dos Festivais”. Há uma diferença fundamental, no entanto, entre este passado e o momento atual, que salta aos olhos não apenas pelo distanciamento histórico que nos permite elencar nomes como Chico Buarque, Elis Regina, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Tom Zé, Mutantes, Jair Rodrigues, que ganharam força ou se consagraram nestes programas. A estrutura era diferente, porque participavam dela nomes interessados na arte e não apenas no mercado, ou no que podemos chamar de entretenimento. É verdade que essas vertentes nem sempre divergem, mas no caso citado, sim, e de maneira dramática.

Entrevista: Coautor de “Elite da Tropa”, Luiz Eduardo Soares lança novo livro

“Trememos com a violência do conflito que está sendo travado dentro de nós, o combate entre o definido e indefinido, a batalha da substância com a sombra. Porém, se a luta chegou a este ponto, lutamos em vão, porque a sombra triunfará.” Edgar Allan Poe

Luiz Eduardo Soares

Os debates programados para o evento “A Política da Psicanálise – Na Era do Direito ao Gozo”, que acontece na capital na sexta-feira (26) e no sábado (27), no Espaço Cultural CentoeQuatro (praça Rui Barbosa, 104, Centro), também abrirão janelas para a cultura.

A presença do cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares é um exemplo. Um dos coautores do livro “Elite da Tropa” (que se transformou no sucesso cinematográfico “Tropa de Elite”, de José Padilha) é o mote não apenas para abordar os temas consumo de drogas e violência, mas também para apresentar sua mais recente investida no mercado editorial: “Tudo ou Nada” (Nova Fronteira).

90 anos de Monsueto: o multimídia da década de 50

“Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança, você não pesou
Botei na peneira, você não passou
Mora na filosofia
Pra quê rimar amor e dor?” Monsueto

Elisete Cardoso

“Ziriguidum”; “Castiga”; “Vou botar pra jambrar”! Se ele que inventou essas expressões porque não dizer que Monsueto já era um “multimídia” na década de 50, quando ainda não se usava o termo? Compositor, sambista, pintor, ator, cantor e instrumentista, natural do Morro do Pinto, no Rio de Janeiro, o homem de múltiplos talentos não se constrangia em abraçar a causa da diversidade, muito pelo contrário. Desfilou em várias escolas de samba, sem nunca se comprometer em definitivo com nenhuma, e era muito bem recebido por onde passasse, incluindo-se aí, as artes. Ganhou o prêmio do Museu Nacional de Belas Artes em 1965, por suas pinturas primitivistas. Quanto aos sucessos na música, foram reconhecidos tanto em seu tempo, com gravações de Linda Batista e Marlene, quanto depois, nas regravações de Caetano Veloso, Milton Nascimento e Alaíde Costa, em que se comprova, apesar da verve específica, o poder de transição explicitado nos diferentes parceiros. Já as expressões referidas na abertura do parágrafo, foram propagadas na televisão em um programa de humor, onde novamente dava extensão à personalidade: era o “Comandante”. E comandava com seriedade a gama de talentos que jorrava. Com batuques e o que mais pintasse.

Entrevista: Dóris Monteiro comemora os 80 anos em dó-ré-mi

“E é de você, é pra você, esta canção
É de você que vem a minha inspiração
Você é corpo e alma em forma de canção
Você é muito mais do que, em sonhos, eu já vi
Você é Dó, é Ré Mi Fá, é Sol Lá Si” Fernando César

Doris-Monteiro

No dia 23 de outubro de 2014, uma quinta-feira, Dóris Monteiro reuniu os amigos e familiares e comemorou o aniversário de 80 anos com “uma festa bonita e animada, um jantar, com muita alegria, foi ótimo”. Cantora de sucessos como “Mocinho Bonito” (de Billy Blanco), “Mudando de Conversa”, (de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho), “Dó-ré-mi” (de Fernando César), e vários outros, Dóris se apresentou recentemente em Belo Horizonte, em agosto do ano passado, através do projeto “Salve Rainhas”, idealizado por Pedrinho Madeira, mas não mantém uma agenda frequente de shows, atendendo a convites esporádicos. “Quando canto e o público me aplaude eu fico nas nuvens, fico eufórica. Minha vida se transforma. Independente dos problemas que tenha, ao entrar no palco eu flutuo. A energia do público faz você cantar”, declara emocionada. Natural do Rio de Janeiro, onde ainda mora, Adelina Dóris Monteiro logo adotou os sobrenomes como alcunha artística.

Mas não pense você que Dóris não dá seus palpites no atual cenário da música brasileira. Sempre atenta, ela destila uma fina e mordaz ironia. “Outro dia levei meu cachorro ao Pet Shop e tocava uma música. Perguntei: ‘que cantora é essa?’. E me responderam que era o Michel Teló. Olha que fora que eu levei! Não escuto esse rapaz, só escuto coisas que eu gosto. Quando aparece uma dupla sertaneja na televisão já mudo de canal. É um direito que eu tenho. As pessoas geralmente não admitem que os artistas tenham suas preferências, nos impõe esse castigo. Por isso, quando essas pessoas me perguntam, eu sempre digo que gosto, mas nunca sei quem é”, confessa. Dóris deflagra, com a própria história, a falta de personalidade das atuais vozes. “Quando eu apareci, minha voz era diferente de tudo. Hoje em dia estão todas iguais, todas as cantoras. A não ser uma Leny de Andrade, a Leila Pinheiro, que são excelentes cantoras, mas já não pertencem a essa juventude”, conclui.