Análise: Fernando Brant colocou em versos sentimentos universais

“Um menino existe em nós, e isso nada tem a ver com idade. Um menino é aquele que fez o que eu fiz e continua fazendo. É aquele pedaço de vida que ama a bola, a lama e a brincadeira. Pratica o impossível e o perigoso, e nada sofre. É o altar em que adulto que se preze deve rezar diariamente.” Fernando Brant

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Tão célebre quanto o “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, de Tolstoi, ficou o “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”, “todo artista tem de ir aonde o povo está”, “sou do mundo, sou Minas Gerais”, e outras máximas propagadas por Fernando Brant, autor, em parcerias com Milton Nascimento, de músicas como “Travessia”, “Canção da América”, “Nos Bailes da Vida”, “Bola de meia, bola de gude”, “Aqui é o país do futebol”, e uma infinidade de outras que não perdem a qualidade pela quantidade.

Se o compositor tende a ficar à sombra de seu intérprete, Brant teve para iluminar suas palavras a voz e a melodia de Milton Nascimento e a entrega incomparável da maior cantora do Brasil, Elis Regina, além de inspirados encontros afetivos e musicais com Lô Borges e Geraldo Vianna. A associação entre música e sentimento, afeto e literatura, aliás, é uma constante em sua obra. A luta pelos direitos autorais e a atividade de cronista corroboram com a imagem do sujeito simples preocupado com seu tempo e os seus companheiros.

Centenários 2015: Frank Sinatra, a elegância e calma dos clássicos

“…Quem me faz uma letra para a voz do vento?” Mario Quintana

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Sinatra é um mito. Tanto que nem é preciso citar seu primeiro nome. Capaz de ganhar um Oscar e ter a figura associada à máfia italiana, “A Voz” disse a que veio principalmente na música. A lendária inspiração para uma das personagens do clássico “O Poderoso Chefão” é praticamente uma nota de rodapé na trajetória de Frank Sinatra, o que sugere a medida de seus calcanhares. Com um fraco para a autopromoção, o cantor foi exemplo de charme, elegância e interpretação, e soube unir, como nenhum outro astro, as linhas que em geral separam indústria e arte.

Americano, filho de imigrantes italianos, sendo o pai boxeador e analfabeto e a mãe uma dona de casa, Sinatra surgiu na década de 1940, e experimentou um movimento vertiginoso na carreira, com raros momentos de estabilidade. O controle total do palco, dos gestos, do andamento da música, uma de suas marcas registradas, contrastava com o frenesi de suas jovens fãs, nada comparado, em escândalo, a Elvis Presley, e que beirava à histeria, mas no ritmo e complacência daquele que foi também conhecido como “Olhos Azuis”. A sensualidade em Frank Sinatra tem mais a ver com o flerte do que com o ato.

50 anos da Jovem Guarda: música feita para o público

“Os velhos acreditam em tudo, os de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo.” Oscar Wilde

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A “Jovem Guarda” começou com uma proibição; e não foi o “É proibido proibir” de Caetano Veloso nem o “É proibido fumar”, de Roberto e Erasmo Carlos. No segundo ano de instauração da ditadura militar no Brasil, em 1965, as transmissões de jogos de futebol ao vivo pela televisão estavam suspensas. Assim, com o horário vago, a TV Record de São Paulo colocou no ar o programa que trazia o nome de que se apoderou o movimento, ou, antes, tenha sido o contrário.

Surgida de maneira espontânea no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, por um grupo de garotos aficionados pela influência da música norte-americana e dos Beatles, as baladas singelas e românticas foram rapidamente captadas por barões da indústria, entre eles Carlos Imperial. Com uma lógica de mercado que incluía a diversificação de produtos ligados à música, como roupas, acessórios, expressões, brinquedos e reprodução em larga escala, a “Jovem Guarda” virou um produto de massa.

7 músicas raras de Cazuza

“Meu caminho nesse mundo, eu sei, vai ter um brilho incerto e louco…” Cazuza

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Cazuza é um dos mais prolíficos compositores brasileiros, principalmente no que tange a parcerias, não só a tempo de vida. Morto aos 32 anos, pelos efeitos da AIDS, o poeta exagerado praticou em vida a arte do encontro, e encarnou o ideal brasileiro da mistura, da mestiçagem, do liquidificador em segredos compartilhados com o público. Gregário e explosivo, lírico e desbocado, Cazuza passeia em raras parcerias ao lado de amigos como Léo Jaime, Fagner, Dulce Quental, Celso Blues Boy e o inseparável Roberto Frejat; e ídolos como Maysa e Belchior. 7 raridades dignas deste nome.

5 músicas cantadas por Zacarias

“Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
‘É tudo imaginação!’

Mas sei que tudo é memória…” Cecília Meireles

zacarias

Mauro Gonçalves já era conhecido nas rádios de Minas Gerais por suas locuções e imitações antes de levar para a segunda e mais conhecida versão do programa “Os Trapalhões” a personagem de Zacarias. Adornado com voz fina, risada característica, peruca, roupas e gestos infantis, Mauro era considerado pelos outros integrantes do quarteto o único “realmente ator”. Não só pela formação; Didi e Dedé são oriundos do circo, e Mussum do samba, mas especialmente pela gama de recursos que dominava.

Embora tenha se consagrado interpretando Zacarias, Mauro já demonstrara talento em mais de uma personagem no rádio, na TV Itacolomi, na “Praça da Alegria” e inclusive nos palcos de teatro, onde foi premiado com a peça “A Dama do Camarote”. Fazendo uso de sua voz bastante peculiar, criada, diga-se de passagem, especialmente para a personagem, Zacarias, mais de uma vez, interpretou músicas que ganharam todo um charme e humor em filmes ou programas dos “Trapalhões”. Não por acaso o nome da personagem era inspirado num galo que teve ainda na infância, morando em Sete Lagoas.

Centenários 2015: Palhaço Carequinha foi sinônimo de alegria

“Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor!
Hoje tem goiabada? Tem, sim senhor!
E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher!” Bide e Paulo Barbosa

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A origem da palavra palhaço vem de seu radical “palha”. Isso porque, na Itália, era dela que se constituía a roupa do palhaço. Em inglês, o termo é associado a camponeses e a seu meio rústico. De uma forma ou de outra o palhaço é ligado à simplicidade, e o sentimento que desperta não poderia ser menos complexo: alegria. Daí por que a infância seja a morada do palhaço. No Brasil, Carequinha, vivido por George Savalla, foi sinônimo de alegria para 7 gerações distintas, e reacendeu em adultos a inocência da infância, além de exacerbar essa formação nas crianças.

Carequinha foi um palhaço tradicional, que teve tempo de nascer no circo e ali se consagrar. Filho de uma trapezista e um acrobata que largou a batina por amor à mãe, órfão do pai aos dois anos, Carequinha foi criado pelo padrasto, que assim o rebatizou quando tinha cinco anos, ao colocar-lhe uma peruca sem cabelos na cabeça. Esta o acompanhou pelo resto da vida. Múltiplo, foi também conhecido pelo pioneirismo, e afirmava ter modificado a visão clássica da personagem. “Fiz do palhaço um herói, e não um bobo que só leva farinha na cara. Modifiquei o estilo. A intenção era fazer do palhaço ídolo e não mártir”.

5 cantadas de Jô Soares

“A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas.” Jô Soares

Institucional

O múltiplo Jô Soares é um artista que transita por cinema, televisão, literatura, pintura, música e teatro, sempre guiado por um fio único, mas não restrito: humor. Como ele próprio explica, através da metáfora, são os cinco dedos de uma mão. Sua faceta musical, no entanto, não é tão conhecida, especialmente como cantor. No programa de entrevistas que apresenta há décadas, invariavelmente Jô Soares dá as famosas “canjas” ao lado do “Sexteto”, com quem até já gravou disco. Mas antes disso Jô Soares já apresentava as suas “cantadas”, é o que vamos revelar através de 5 músicas.

Brasil, o país dos ditados

“tudo dito,
nada feito,
fito e deito” Paulo Leminski

Tarsila-do-Amaral-a-Cuca

A origem para a profusão de ditados entre os brasileiros tem uma explicação convincente no processo de colonização do país. Como os escravos não podiam se comunicar abertamente, estabeleceram uma linguagem codificada. A semelhança com a poesia, nesse aspecto, dá a medida exata do por que uma nação mestiça, influenciada pela cultura de portugueses, italianos, holandeses, japoneses, africanos, e outros mais, concebeu expressão tão rica e singular. A música é mais uma prova desse estilo. Por vias do samba, da marchinha, do rock e da vanguarda, e através das décadas de 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, até os dias atuais, o Brasil se estabeleceu como o país dos ditados. Tão populares que alguns já mereceram, inclusive, as páginas de dicionários.

Centenários 2015: Édith Piaf, o canto que aplacou as dores

“Canto o que vejo mas antes
Canto o que a alma deseja.” Hilda Hilst

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Édith Piaf talvez seja uma das primeiras cantoras a encarnar o ideal do mártir. Não é heresia detectar a sua influência no blues de Billie Holiday, na dor-de-cotovelo de Maysa e na música negra de Amy Winehouse. Com uma vida turbulenta e agitada, essas quatro personalidades jamais dissociaram a música de sua existência. Essa certamente é a maior contribuição de Piaf. A entrega total ao ofício proporcionou interpretações e “Hinos de Amor” que não guardam qualquer semelhança com uma atuação técnica ou cerebral. O coração de Piaf está em todas as letras que canta. Por isso até hoje pulsam suas canções.

Natural de Paris, filha de uma cantora de cabaré e um acrobata de rua, a pequenina Édith foi deixada aos supostos cuidados da avó materna, que não se importava com a criança. Mais tarde, levada de volta para a mãe morou em um bordel, onde se amigou das prostitutas que a salvaram de uma cegueira aos 8 anos, com orações no túmulo de Santa Teresinha, de quem Édith se tornou devota por toda a vida. Passou a acompanhar o pai nas ruas de Paris aos 14, onde cantou pela primeira vez em público, mas cansada da exploração e dos maus tratos, também o abandonou. Mãe aos 18, Édith perdeu sua única filha, Marcelle, fruto do relacionamento com o entregador Louis Dupont, que cuidou da criança até a morte, aos 2 anos, vítima de meningite.

8 músicas brasileiras sobre cachorros e gatos

“Devo, outra vez, lembrar-te deste fato:
Um cão é um cão, porém UM GATO É UM GATO.” T. S. Eliot

cachorro

Desde os anos 30 não há uma década na música brasileira que passe sem falar dos nossos bichos de estimação preferidos. O tipo de relação pode variar, mas há sempre um denominar comum a uni-las: o afeto. Se uns ainda reclamam ao serem tratados como cachorros é isso exatamente o que alguns outros querem. De madame, vira-lata, ou sem vergonha, muitos já disseram sobre ser o melhor amigo do homem, ao que Vinicius de Moraes completou: “o uísque é o cachorro engarrafado”. O gato não fica atrás, mesmo esguio e menos sociável está sempre nas rodas de samba, de choro, no rock e na Jovem Guarda a lamentar amores desfeitos. Tornou-se expressão de afeto e do galanteio: “gatinha”. Entre cachorros e gatos sai da tuba a música brasileira!