Crítica: “Miniconto” apresenta fusão inédita de dança, ginástica e música

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.” Fernando Pessoa [Ricardo Reis]

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Analisando a obra de Júlio Bressane o crítico de cinema Inácio Araújo afirma ser dispensável o entendimento para compreensão de uma obra de arte. Mais do que isto, muitas vezes a maneira como as pessoas buscam entender uma obra serve de barreira, e não colo ou aceitação, no sentido de entrar em contato, com o que o autor propôs; isto estando aberto, inclusive, às possibilidades inerentes ao repertório de cada espectador, anulando-se a perspectiva vertical, “de cima para baixo”, em prol da horizontalidade. Em certa medida é o que se constata no expediente do duo curitibano “Miniconto”, formado por Karla Díbia e Daniel Amaral, inclusive na característica mais concreta do trabalho, para a qual a música “Canto” ganhou clipe já em rotação.

Análise: Naná Vasconcelos foi músico da origem

“vento/que é vento/fica
parede/parede/passa
meu ritmo/bate no vento/e se
des pe da ça” Paulo Leminski

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Naná Vasconcelos foi um tipo raro na música brasileira. Não era pra qualquer um, e misturava, em seu caldo, todos os gostos, ciente da abordagem popular que sempre o caracterizou. Natural do Recife teve em seus primeiros anos as influências de Jimi Hendrix e Villa-Lobos, tão díspares quanto complementares para o estilo harmônico que criou. O percussionista, que brincou e reinventou tons e modalidades para diversos instrumentos, mas, sobretudo, o berimbau, tão caro e essencial aos nativos indígenas e povos africanos que aqui chegaram quanto da ocupação do país pelos portugueses, já era uma figura de destaque mundo afora, por diversas turnês que empreendeu pela Europa e América do Norte, fosse acompanhando as bandas de Gilberto Gil, Milton Nascimento e outros, ou como artista principal; quando gravou, com Jards Macalé, em 1994, uma espetacular jam session feita em uma tomada só, batizada, como o disco, de “Let´s Play That”, um marco de irreverência que deixa ainda mais claro o caráter inventivo e libertário da obra de Naná.

Centenários 2016: Silas de Oliveira pertence ao panteão do samba

“Sinto, abalada minha calma
Embriagada minha alma
Efeito da tua sedução” Silas de Oliveira & Joaquim Ilarindo

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Silas de Oliveira morreu e nasceu numa roda de samba. Embora o pai não tenha concordado, por suas convicções pastorais e protestantes, Silas começou a ser Silas quando fundou, junto de seus pares, dentre eles o inseparável Mano Décio da Viola, a Escola de Samba do Império Serrano, e para sempre foi batizado entre batuques, pandeiros e tamborins. Conhecido, sobretudo, pela atividade nos desfiles de carnaval, compositor arguto e perspicaz que era de temas históricos para os tradicionais sambas-enredo, também merecem destaque seus sambas de roda, tais como “Meu Drama”, popularmente chamado “Senhora Tentação”, “Cruel Paixão” e “Desprezado”. É destas canções que emergiram versos do quilate de “será que o amor por ironia/move esta fantasia, vestida de obsessão?”, regravados por ninguém menos do que Cartola; e “amanhece e anoitece/eu sei que nesse mundo tudo se fenece/então porque essa paixão/do meu coração não desaparece?”, e etc.

Crítica: “Amor & Sexo” é melhor quando não se leva a sério

“Amor é bossa nova/Sexo é carnaval” Arnaldo Jabor & Rita Lee

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Transmitido agora aos sábados à noite, o programa “Amor & Sexo”, comandado por Fernanda Lima na Rede Globo dá um respiro de liberdade na grade da sempre tão vigilante emissora. Longe de ser ousada, a atração atende ainda às premissas da nossa classe média, mas serve como aperitivo para dispersar nosso pedantismo anacrônico e o conservadorismo latente. Embora não chegue perto da transgressão com que programas da TV por assinatura já trataram do assunto para os padrões da nossa TV aberta é algo novo.

Fernanda Lima tem desenvoltura com o tema e, de acordo com a abordagem proposta, não incomoda ninguém, pelo contrário. Mas o melhor da festa são os comentaristas amadores, que garantem, senão rebeldia, ao menos alguma irreverência. São os casos de Xico Sá, Mariana Santos, José Loreto e Otaviano Costa, além de outros convidados que se revezam, e que não se levam absolutamente a sério, a grande consagração do programa, não sendo a única, mas certamente a mais efetiva. Nem tudo são flores nesse reino da Dinamarca.

Entrevista: A arte plural de Delia Fischer

“parti-me para o vosso amor
que tem tantas direções
e em nenhuma se define
mas em todas se resume.” Carlos Drummond de Andrade

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“Sou uma artista multifacetada, faço direção de espetáculos musicais, sou compositora e cantora. Já trabalhei como pianista, e acompanhei vários artistas. Tudo isso me influenciou a fazer e ser o que sou hoje. Não tenho nada que não me orgulhe de ter feito, embora o que me dê maior prazer seja mesmo gravar e realizar meus projetos. Todos os acontecimentos da vida me ajudaram e me amadureceram para me tornar a artista que sou hoje!”, para não precisar de legenda é a própria Delia quem se auto-define, com direito a exclamações e vírgulas. Acrescente-se o fato de ser uma carioca da gema, natural da capital carioca, sem nenhuma vocação pra monotonia. Não é força de expressão dizer que Fischer faz quase tudo. A artista apareceu na cena no final dos anos 1980.

À época, fazia parte do “Duo Fênix”, com Claudio Dauelsberg. A dupla, formada por pianistas, executava peças instrumentais, e lançou um único disco, em 1988. Depois disso Delia nasceu e renasceu muitas vezes como cantora, compositora, instrumentista e tudo mais, e já planeja, inclusive, a volta deste antigo trabalho, agora repaginado e com novo nome: FENIXDUO. Imersa nesses tempos novos, a artista tem uma boa definição para o presente momento da cultura. “O cenário atual é pulverizado, o que permite uma infinidade de gêneros e artistas habitando a rede. Vejo isso de forma positiva”, comemora. Claro que nem tudo são flores, mas Fischer, ávida pelo impulso criativo e não seu contrário adota uma posição proativa distante do comodismo.

5 parcerias raras de Supla

“Desconfio, pois, dos contrastes superficiais e do pitoresco aparente; eles sustentam sua palavra por muito pouco tempo. O que chamamos exotismo traduz uma desigualdade de ritmo, significativa no espaço de alguns séculos e velando provisoriamente um destino que bem poderia ter permanecido solidário.” Wally Salomão

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Batizado Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy, filho da sexóloga, apresentadora e política Marta Suplicy e de Eduardo Suplicy, um dos senadores mais atuantes da história do PT, Supla sempre foi uma figura exótica no cenário da música brasileira, provavelmente por se considerar, ele próprio, um “bicho estranho” nesse meio. Identificado com a cultura norte-americana desde cedo, foi um dos primeiros a adentrar o universo punk com o apoio da mídia. Ao longo da vida Supla fez de quase tudo, e não se pode afirmar a presença inconteste da qualidade, mas se estabeleceu como uma autêntica celebridade. Cantou com Cauby Peixoto e Roger, da banda “Ultraje a Rigor”, participou de filme com Angélica e “Os Trapalhões”, além de escrever música com Cazuza. Abaixo apresentamos um pouco dessas raras parcerias.

1 música para Dercy Gonçalves

“É a vida mais que a morte, a que não tem limites.” Gabriel García Márquez

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Dercy Gonçalves talvez seja das poucas artistas da história que conseguiu atravessar as décadas tornando-se cada vez mais popular. A imagem que ficou é a da senhora de mais de 100 anos, desbocada e irreverente, mas esse humor escrachado e cheio de improvisos já era uma das marcas da atriz quando ela surgiu para a chanchada brasileira na década de 1950, e atuou em peças e “teatros de revista” hilários ao lado de nomes como Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, seu par mais repetido nas telas de cinema. Dercy fez de si a própria personagem, uma mulher que rejeitou todos os estereótipos e limites que se impunham ao gênero e transformou a graça em receita de vida. Com sua voz peculiar e delirante foi tão livre que se aventurou, inclusive, na música.

Rosa dos Ventos

“O vento assovia de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se” Mario Quintana

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Centros culturais espalham-se no Brasil. Entre os espalhados, amontoados, aqueles que carregam no sobrenome a alcunha de favelados.

Centros culturais oferecem atividades que a escola deveria oferecer. Mas não há escola por aqui.

Pois se a escola muitas vezes deturpa, aqui deturpados são sem escola e sem oração.

Vemos aqui sujeitos no palco, da vida e do teatro. Sujeitos na pista, de dança e de corrida. Música para os ouvidos, mente e coração.
Tudo se une, se amontoa, espalha.

O palco invade a pista, que invade a cabeça que liga direto ao coração dos que assistem e participam.

É uma iniciativa fundamental para o país. Merece louros e aplausos. Surgida por conta da mais pura necessidade, da falta total, do abandono, da exclusão.

A Música & a Dança de Lennie Dale

“Mais: que ao se saber da terra/não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas/fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra/e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,/para vencer quem duvida.” João Cabral de Melo Neto

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Quando chegou ao Brasil, no início da década de 1960, trazido pelo produtor e diretor Carlos Machado para compor a coreografia de “Elas Atacam Pelo Telefone”, o ítalo-americano Lennie Dale, nascido Leonardo La Ponzina na periferia de Nova York; já desfrutara de relativo sucesso na terra natal. Era uma promessa cujo gênio ameaçava, desde cedo, as estruturas vigentes. Integrante do musical da Broadway “Amor, Sublime Amor”, foi barrado pelo diretor Jerome Robbins para a versão cinematográfica. Não deu outra, sem pensar duas vezes carregou as malas cheias de collant e brilho para Londres e passou a ensaiar em uma sala alugada com as portas abertas a fim de exibir seu rebolado.

Daí foi um pulo para participar de programa na televisão italiana com a presença do astro da dança e das telonas Gene Kelly e, logo em seguida, da coreografia do filme “Cleópatra”, protagonizado por ninguém menos que Elizabeth Taylor, de quem se tornou amigo e guardou histórias saborosas para contar entre os mais próximos. Anos depois, também encantou Liza Minelli, e a dirigiu em espetáculos. Tudo isso antes de desembarcar em terras brasilis. O que lhe deu mais do que a cancha necessária para fomentar o estilo de dança da bossa nova, e influenciá-la até no jeito de cantar. Ao registrar dois discos valia-se de estribilhos rítmicos e sonoros para compensar a ausência de voz.

2 marchinhas para o Carnaval de BH – 2016

“Me chame Baco ou Rei Momo
Do balacobaco eu tenho o trono
Mas se você quer ser mais direto e natural
Pode me chamar de Carnaval” Péricles Cavalcanti

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Vem aí o Carnaval de BH versão 2016, e para animar a folia apresentamos 2 marchinhas inéditas; uma de teor político, relembrando a velha prática satírica que teve e ainda tem como pano de fundo (ou principal) nossas sempre simpáticas, e ousadas, autoridades; a outra, de teor romântico, trazendo de volta à tona outra tradição brasileira, a de fazer troça do próprio sofrimento, e transformar a desilusão amorosa num motivo para deboche, ironia, e claro, aproveitar para rogar aquela praga em quem nos deixou de coração partido. Divirtam-se!

Marchinhas gravadas no Liquidificador Estúdio, em Belo Horizonte, no dia 22 de janeiro de 2016.
Voz – Giselle Couto / Violão – André Figueiredo / Técnico de som: Marcos Frederico / Produção: Raphael Vidigal