Mano Brown: “A prisão do Lula é racial, cultural e social, estou lá com ele”

“Sua palavra será sagrada somente quando for a resposta correta a uma pergunta do povo.” Brecht

Mano Brown tem fama de marrento, difícil, às vezes ácido. Esse personagem controverso do rap nacional, nascido no bairro de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, tem o seu nome cravado na história da música brasileira. Com o trabalho no grupo Racionais MC’s, onde versava sobre a dura realidade de pessoas excluídas por um sistema violento, racista e desigual, baseado na concentração de renda, ele apareceu pela primeira vez, nos anos 90. O histórico álbum “Sobrevivendo no Inferno”, lançado em 1997, é um dos capítulos dessa trajetória de lutas, mas Brown prova que ainda tem muito a dizer sobre um país cada vez mais dividido e polarizado, que nos últimos anos viu a desigualdade de renda aumentar após um longo período de bonança e estabilidade. Na entrevista abaixo, ele fala sem papas na língua, e com a costumeira habilidade de criar fortes metáforas e imagens impactantes, sobre o Brasil atual, o papel da música nesse contexto, o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva.

10 sucessos eternos de Nelson Gonçalves

“Sei, o teu coração sobeja
De amores velhos arrancados,
Como uma forja ainda flameja,
E na garganta tens guardados
Uns orgulhos dos condenados;” Charles Baudelaire

Nelson Gonçalves era um homem vaidoso, a ponto de dizer que ele mesmo se emocionava com as próprias interpretações. Nascido há cem anos, em Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul, o homem de voz potente, charmosa e grave acumulou polêmicas, quedas e reerguimentos ao longo dos 78 anos de vida que teve, a maior parte deles dedicados à música. Recordista de gravações da música brasileira, Nelson recebeu um prêmio da RCA-Victor por ter ficado 55 anos na gravadora. Além dele, só Elvis Presley obteve tal feito. Mas foi a aclamação popular a maior de todas as conquistas do intérprete, cuja obra continua ecoando. Em 2018, a gravadora Nova Estação lançou o álbum “Angela Maria e Nelson Gonçalves Ao Vivo”, em registro que permanecia inédito e enfileira os sucessos da carreira do cantor.

DJ Zé Pedro: “Os letristas de hoje são um retrato da educação que tiveram”

“Devo meu sucesso a ter sempre ouvido respeitosamente os melhores conselhos, e depois ter feito exatamente o oposto.” G. K. Chesterton

Caymmi, Gil, Veloso, Baby, Moraes, Nogueira, Bosco e Buarque podem ludibriar, numa primeira vista, quem liga o nome à pessoa ou adquire o livro pela capa. Se a sentença seguinte afirmar que os sobrenomes pertencem a Alice, Bem, Moreno, Pedro, Davi, Diogo, Julia e Clara, ninguém terá sido enganado. Herdeiros de artistas famosos, os citados pertencem a uma geração que, ao contrário das que vieram antes, que já chegavam tentando afastar o peso do sobrenome famoso, não só optam por seguir os passos profissionais dos pais, como têm se lançado em empreitadas capitaneadas pelo nome mais famoso do clã. Dono e idealizador da gravadora Joia Moderna, o DJ Zé Pedro dá seus pitacos sobre o cenário atual da música brasileira e alguns sucessos da última hora.

6 clipes bombados de K-Pop no mundo

“Vocês sabem tão bem quanto eu: as pessoas nunca podem dizer claramente o que pensam do dinheiro, da morte, da fama ou do casamento, vocês precisarão apanhá-las nas entrelinhas; vocês terão que adivinhar.” Thornton Wilder

Fogos de artifício, dois monumentais tigres de bronze e, em cada um dos sete microfones, uma cor do arco-íris. Subitamente, alguém sobrevoa a plateia. É Jungkook, que, a exemplo dos demais membros do BTS, veste um alinhado terno branco feito sob medida pela renomada grife francesa Dior. Esse é um aperitivo da turnê “Love Yourself: Speak Yourself”, que começou na Califórnia, nos Estados Unidos, e chega ao Brasil no próximo final de semana, com apresentações nos dias 25 (sábado) e 26 (domingo) de maio, no estádio Allianz Parque, em São Paulo, com capacidade para 55 mil pessoas.

Parte de uma série de oito apresentações que vai percorrer as Américas, a Europa e a Ásia, o anúncio do show avisa que se trata do “maior grupo de pop do planeta”. O esgotamento de todos os ingressos na capital paulista, que custavam entre R$ 205 (meia) e R$ 975 (inteira), torna a propaganda difícil de ser rebatida. Mas não é só isso. Depois de estrear em 2013 com o lançamento do single “No More Dream”, o conjunto de sete garotos sul-coreanos, que atualmente têm entre 21 e 26 anos, iniciou uma escalada impressionante e se consolidou como o maior expoente mundial de k-pop. A expressão é uma abreviação para korean pop, ou, em tradução literal, “música pop coreana”.

6 hits bombados da música brasileira

“O único sucesso está no fracasso.” Eugene O’Neill

Ninguém recusa o sucesso. Ou, talvez, seja melhor dizer que poucos perseguem o fracasso. Mas é difícil saber o que vai dar certo antes de o tiro acertar o alvo. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1936, quando Francisco Alves e Carlos Galhardo, na época os maiores cantores do rádio, não quiseram dar voz a “Rosa”, de Pixinguinha, e certamente se arrependeram um ano depois, com o estouro de Orlando Silva, que eternizou os versos rebuscados escritos pelo mecânico Otávio de Souza: “tu és divina e graciosa, estátua majestosa…”. Como “a história se repete como farsa”, assim disse o comunista Karl Marx, o episódio voltou a acontecer em 2018, envolvendo dois músicos de Minas Gerais.

Gusttavo Lima, nascido em Presidente Olegário, foi o primeiro a cantar a música sobre uma garota descoberta no Tinder (aplicativo de relacionamentos). E ficou nisso. Sem o registro do sertanejo, a música teve que achar uma nova boca para ganhar vida e atingir os ouvidos e o coração do público. O que a minoria sabe é que antes de Gabriel Diniz carregar no colo a canção “Jenifer”, recordista de execuções no ano passado, ela foi gestada por um time de oito compositores, entre eles o belo-horizontino Junior Avellar, criado no interior do Estado, em Santo Antônio do Amparo. Confira abaixo uma lista com esse e outros hits bombados da música brasileira.

5 tributos memoráveis da música brasileira, por Hugo Sukman

“É preferível ser alvo de um atentado do que de uma homenagem. É mais rápido e sem discurso.” Mario Quintana

Todas as noites, o pequeno segundo andar da boate Vogue se enchia de uma atmosfera sonora que condensava dores e amores do samba-canção, estilo predominante naquele período. Entre 1948 e 1952, havia uma estrela que era a dona absoluta do palco da boate carioca. Sem a mínima questão de agradar ao público como em cada gesto da contemporânea Carmen Miranda (1909-1955), a futura jurada de calouros Aracy de Almeida (1914-1988) não poupava maus-tratos e barbaridades contra os fãs (como cuspir e assoar o nariz), que ainda assim a aplaudiam.

O repertório que Aracy cantava nessas apresentações tinha um único astro e gerou dois álbuns em formato de 78 rotações, com as clássicas “Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”, “Último Desejo” e “Com Que Roupa?”, entre outras de autoria e em homenagem ao amigo Noel Rosa (1910-1937), falecido 13 anos antes e, desde então, esquecido. “Foi a primeira vez que se fez um tributo com critério no Brasil”, afirma o jornalista e crítico musical Hugo Sukman, 48. “Esse trabalho estabeleceu a obra do Noel e o transformou no maior compositor brasileiro”, completa.

6 orquestras lendárias de Minas Gerais

“Uma música na qual não somos eternos, mas nos tornaremos.” Emil Cioran

Fundada em 1976, a Sinfônica é a mais antiga das orquestras profissionais da cidade. Os ensaios e as apresentações acontecem no Palácio das Artes. Com um currículo invejável, a orquestra se notabilizou nos últimos anos por levar aos palcos óperas inéditas na capital mineira, casos de “Romeu e Julieta” (de Charles Gounod), “Porgy e Bess” (de George Gershwin), “Norma” (de Vincenzo Bellini) e a citada “O Holandês Errante” (de Richard Wagner).

A Filarmônica é a outra grande orquestra do Estado, tanto numericamente quanto no destaque. Regida por Fabio Mechetti desde sua criação, ela superou dificuldades na comemoração de seus dez anos de existência. Durante todo o 2018, a Filarmônica sofreu com a falta de verbas e o atraso de repasses da Secretaria de Cultura. O atual acordo com o governo expira no primeiro semestre de 2019, o que vai exigir um novo edital de seleção.

6 músicas brasileiras cheias de engajamento

“A cultura de massa (ou melhor seria dizer a política de massa) foi vista com toda a clareza por Borges como uma máquina de produzir lembranças falsas e experiências impessoais. Todos sentem a mesma coisa e recordam a mesma coisa, e o que sentem e recordam não é o que viveram.” Ricardo Piglia

O chocante assassinato da vereadora Marielle Franco (1979-2018) completa neste mês de março um ano, sem ter sido solucionado. Defensora dos direitos humanos, feminista, negra, bissexual e vinda da periferia, a socióloga e ativista tornou-se tema recorrente de canções e manifestações culturais desde a sua morte, transformando-se em um símbolo da luta contra as opressões. MC Carol dedicou música à vereadora, Criolo a citou no videoclipe “Boca de Lobo”, e, em 2019, o samba-enredo da Mangueira fará menção a Marielle.

A vereadora voltou a ser lembrada nas imagens de “Rumos e Rumores”. Lançada pelo rapper Vitor Pirralho com participação de Ney Matogrosso, a música apela contra a destruição dos povos indígenas. Por sinal, Ney esteve no centro de uma polêmica em 2017, ao ser criticado pelo cantor Johnny Hooker, que acusava o veterano de “desdenhar da causa gay” após uma entrevista em que o antigo vocalista do Secos & Molhados rejeitava ter se tornado um representante das minorias e se definia como “um ser humano”.

“Um single do Planet Hemp se chamaria ‘Ele Não, Ele Nunca’”, diz biógrafo

“Era o fim de uma época, clandestina e rebelde, porém carregada de criatividade, erotismo, lucidez e beleza.” Reinaldo Arenas

Antes de se tornar santa da Igreja Católica, Joana d’Arc (1412-1431) foi queimada na fogueira durante a inquisição promovida pela mesma instituição. Analfabeta e camponesa, a revolucionária francesa inspirou o nome de batismo de Dark. Os pais esperavam que fosse uma menina, mas o rebento nasceu menino e acabou herdando apenas a forma de se dizer o sobrenome da heroína. Anos depois chegava ao mundo o primeiro filho de Dark, hoje conhecido como Marcelo D2, um dos fundadores do Planet Hemp.

É a controversa trajetória da “banda mais perseguida do país” que o jornalista Pedro de Luna, 44, procura contar ao longo das quase 500 páginas de “Planet Hemp: Mantenha o Respeito” (editora Belas-Letras). “Nenhuma banda sentiu tanto na pele a repressão”, sublinha o autor. Dividida em 60 capítulos, a narrativa cronológica traça um perfil de cada integrante antes de entrar na história que eles construíram juntos. Assim, D2, Skunk (1967-1994), Formigão, Rafael Crespo e Bacalhau aos poucos se tornam íntimos do leitor.

Entrevista com Hamilton de Holanda: “O choro é como uma Mona Lisa”

“Ouvi-te e ouvi-a/ No mesmo tempo
E diferentes/ Juntas cantar.
E a melodia/ Que não havia.
Se agora a lembro,/ Faz-me chorar…” Fernando Pessoa

Representante da Era de Ouro do rádio, que consagrou os cantores de “dó de peito”, aqueles que cantavam até sem microfone, Nelson Gonçalves lançou, em 1962, “Seresta Moderna”, música de Adelino Moreira que dava um recado direto para João Gilberto, papa da bossa nova: “Um gaiato cantando sem voz/ Um samba sem graça/ Desafinado que só vendo”. Em 1966, foi a vez de Adoniran Barbosa se lamentar diante do sucesso da jovem guarda, com “Já Fui uma Brasa”: “Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro/ Tocava ‘Saudosa Maloca’”, cantava o autor da clássica “Trem das Onze”.

Um ano depois, em 1967, a Passeata contra a Guitarra Elétrica precedeu o álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, que concretizava musicalmente as bases do movimento capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. E, quando a Blitz invadiu as paradas de sucesso no ano de 1982, o discurso combativo e politizado da MPB começou a ser substituído por histórias cotidianas, de amores e dores, que se voltavam para os próprios umbigos daquela juventude imersa nos acordes do rock.