Entrevista: O caminho do rap de Marcelo D2 a Hungria Hip Hop

“É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos.” Ana Cristina Cesar

Encontros de astros do rap com artistas de outros segmentos ficaram comuns. Criolo gravou com Ivete Sangalo. Marcelo D2 se dedicou a cantar o samba de Bezerra da Silva. Renegado está em turnê com a Orquestra Ouro Preto. Enquanto isso, Emicida, Hungria Hip Hop e Karol Conka dividem a trilha sonora da atual temporada de “Malhação” com uma nova safra de funqueiros. “Ter uma música em novela da Globo é uma quebra de barreiras. O rap está alcançado lugares que nunca imaginamos”, afirma Hungria. Para completar, o rapper canadense Drake fez história ao se tornar o primeiro artista a bater os 50 bilhões de reproduções em streaming.

Marcelo D2

1 – Qual a importância para você de participar de um festival como o Saravá, que já traz no próprio nome uma ode às raízes negras e reúne um time de artistas como DJ Negralha, DJ Xeréu, Parceria Fina e outros, cuja trajetória esteve sempre voltada para o hip hop, reggae, rap e soul?
Esse lance de raiz é uma parada muito presente pra mim. Meu próximo trabalho, o “Amar é para os Fortes”, por exemplo, é todo produzido por um coletivo que chamamos de “mulato”. E, longe do significado pejorativo que muita gente associa ao termo, mulato é essa mistura que é indissociável ao brasileiro, é essa miscigenação de raízes que define a nossa identidade. Então, pra mim é uma honra participar da primeira edição de um festival como o Saravá. E dividir o palco com essa rapaziada é uma responsabilidade grande.

21 músicas brasileiras da polêmica rap raiz x rap Nutella

“Esses moleque arrastaram, causaram
Derrubaram as moto, bateram nos carro
Tretaram com as tia, zarparam
Festa é festa, fica na paz” Emicida & Rael

Desde os primórdios, o rap nacional bebia na fonte do samba e suas diversas intersecções com a música negra. Os próprios Racionais MC’s e Mano Brown já apresentavam influências trazidas por Jorge Benjor, assim como o rapper Athalyba Man se aproximava da canção de tradição romântica. Apesar disso, atualmente o gênero sofre com a febre do meme “Nutella x raiz”. O rap Nutella supostamente prioriza um discurso calcado nas relações afetivas e na ostentação de bens materiais, em detrimento do histórico engajamento político e da crítica social presente nas letras dos Racionais MC’s, Sabotage, MV Bill, Rappin’ Hood e Black Alien. Esse segundo time pertenceria ao chamado rap de raiz. Confira abaixo alguns clipes que traduzem esses dois estilos.

Entrevista: Projota, entre o rap Nutella e de raiz

“Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.” Paulo Leminski

Como muitos ditados populares, a origem é incerta. Fato é que a rivalidade criada por meio do meme “raiz x nutella” começou a se alastrar na internet em 2016. Curiosamente, dois anos antes, uma banda que hoje é vítima do termo já tinha se referido à marca especializada em creme de avelã com cacau e leite.

Foi em 2014 que os garotos do quarteto fluminense Oriente lançaram “O Vagabundo e a Dama”, que dizia: “Ele chegou da pista, viu a cama e foi cochilar/ Ela acordou, abriu a janela, e viu o sol nascendo no mar/ Ele abriu a geladeira, de novo pão com mortadela/ Ela comeu croissant, com Ovomaltine e Nutella”.

19 encontros incríveis entre música e literatura no Brasil

“– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Manuel Bandeira

A música “Língua” fechava o disco gravado por Caetano Veloso em 1984. “Velô” trazia parcerias com nomes ligados à literatura, casos dos poetas Augusto de Campos, Wally Salomão e Antonio Cícero. A faixa, em especial, era recheada de citações a escritores de variados gêneros, estilos e épocas: passava dos clássicos Luís de Camões e Olavo Bilac aos consagrados Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, chegando até ao contemporâneo Glauco Mattoso.

Mas, como numa ironia, ao fim Caetano determinava a superioridade musical quando o assunto era o idioma português: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão”, cantava o baiano, acompanhado por Elza Soares. Ele próprio lançaria, em 1997, o livro “Verdade Tropical”, espécie de ensaio que oferecia um olhar agudo sobre a cultura brasileira. Fato é que músicos de todas as gerações têm se arriscado cada vez mais a desmentir a máxima proferida pelo mentor tropicalista.

60 anos da Bossa Nova: 18 músicas e discos inesquecíveis do gênero

“No vosso rastro persiste/ o mesmo eterno poeta
Um poeta – essa coisa triste/ escravizada à beleza
que em vosso rastro persiste,/ levando a sua tristeza
no quadro da bicicleta.” Vinicius de Moraes

Tiete, o rapaz não titubeou ao avistar o poeta: o chamou de mestre, pediu um autógrafo e guardou a preciosidade num envelope pardo. Poucas horas depois, assim que chegou aos estúdios da gravadora Odeon, no Rio de Janeiro, largou displicentemente a assinatura de Carlos Drummond de Andrade em um canto qualquer, e nunca mais a avistou, tampouco se preocupou com o fato. A história é contada pelo músico mineiro Pacífico Mascarenhas, 83, que participou do episódio, e traz como personagem principal João Gilberto, 87, o inventor da batida de violão e voz diminuta que assombrou o país quando lançou, no dia 10 de julho de 1958, o compacto que trazia, de um lado, “Chega de Saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e, do outro, “Bim Bom”, de sua autoria. De lá para cá, a Bossa Nova manteve, ao longo desses 60 anos, o título de nobreza e a pompa de modernidade, com o aval de músicos internacionais e a reverência dos que vieram depois, ainda que uma renovação, em termos de repertório, não tenha ocorrido.

*DISCOS:

3 músicas apaixonadas de Alceu Valença

“Porquanto
como conhecer as coisas senão sendo-as?” Jorge de Lima

Salve a ‘Morena Tropicana’, e sua beleza de jabuticaba, viva ‘La Belle de Jour’, e sua francesa brasilidade, ‘Anunciação’ para a mãe do compositor, completa 98 anos nesta data, ‘Cavalo de Pau’ para os apressados, ‘Coração Bobo’ aos românticos esperançosos. Todos esperam que Alceu volte, e ele volta, volteia, sestrosa maneira de gingar, barba e cavanhaque, modos de um distinto cavalheiro do apocalipse a saborear, dengosa, o sumo da condensação, condução, condão, da tua varinha despontam maravilhas.

Prazer, orgasmo: 17 músicas feministas e brasileiras sobre sexo

“Meu bem você me dá água na boca
Vestindo fantasias, tirando a roupa
Molhada de suor, de tanto a gente se beijar
De tanto imaginar loucuras” Rita Lee

O Brasil ainda vivia sob o domínio de uma ditadura militar quando Gal Costa tornou-se a primeira mulher a cantar, com sucesso de dimensões nacionais, a palavra “sexo” na música brasileira. “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, era uma das faixas do icônico álbum “Fa-Tal: Gal a Todo Vapor” – paradigma do movimento tropicalista – e trazia em seu refrão o trecho “tente entender tudo mais sobre o sexo”. Decorridas décadas e até séculos dos acontecimentos descritos o prazer da mulher, especialmente aquele sexual, parece ainda ocupar o lugar de tabu na prateleira dos costumes, mas há quem insista em mudar o curso dessa história. São os casos de Karol Conka, Iza, Tulipa Ruiz, Flaira Ferro, Vanessa da Mata, Letrux, Iara Rennó e outras compositoras de uma cena ampla e diversa, que ultrapassaram o mero papel de intérpretes a que artistas de gerações anteriores estiveram relegadas.

Quando Carmen Miranda brincou com o duplo sentido na carnavalesca “Eu Dei”, de 1937, ela teve que se valer dos versos de Ary Barroso. O mesmo aconteceu com a cantora portuguesa Vera Lúcia, primeira intérprete da lânguida e sensual “Amendoim Torradinho”, obra de Henrique Beltrão lançada por ela em 1955, e que depois ganhou as vozes de Ney Matogrosso, Angela Maria, Alcione, Dóris Monteiro e Ivon Curi, entre outros. O fato ainda era comum no ano em que Maria Bethânia gravou, “O Meu Amor”, de Chico Buarque, em 1978.

10 faces artísticas do inesquecível Ivon Curi

“Acaso será que existe um autor capaz de indicar ‘como’ e ‘por que’ uma personagem lhe nasceu na fantasia? O mistério da criação artística é idêntico ao do nascimento natural” Luigi Pirandello

Ivon Curi já era, na década de 50, o que hoje se costuma chamar de artista plural. Além de cantar em vários idiomas, ele era capaz de interpretar – tanto na música, quanto no cinema – da comédia ao drama. Nessa dobradinha, sempre levava uma arte para a outra, ou seja, atuava musicalmente e cantava com dramaticidade. Mineiro de Caxambu, Ivon logo migrou para o Rio de Janeiro, então grande meca da cultura nacional. O legado, para além dos sucessos, foi a grandeza de carregar a sátira, a brincadeira e a impertinência charmosa para patamares, até então, jamais explorados. Gravou, ao todo, mais de 50 discos.

10 músicas eternas de Raul Seixas

“Sou apenas uma mistura confusa de todas as informações que recebi com o coração batendo assustado, hoje fumando maconha, amanhã apareço chupando pirulito.” Raul Seixas

Raul Seixas é um artista iminentemente político, talvez por esse poder de transformação associado à sua figura, tenha permanecido com tanta força como uma figura popular e lendária. Depois de lançar vivas e efetivamente fundar os preceitos de uma Sociedade Alternativa, além de pregar ensinamentos cósmicos e de rebeldia, o “Maluco Beleza” lançou, em 1987, as suas considerações sobre assumir um cargo público. Raul Seixas sempre foi um artista místico, mas essa característica atingiu seu pico quando do encontro com o escritor Paulo Coelho. O baiano Raul Seixas, que sempre gostou de mesclar o rock a ritmos brasileiros e idolatrava tanto Elvis Presley quanto Luiz Gonzaga, também entrou na onda do duplo sentido, bem à sua maneira. Todas essas facetas do conhecido músico aparecem na sequência em dez canções.

Beijar é uma arte! 15 manifestações culturais sobre o beijo

“Profundezas de rubi não drenadas
Escondidas num beijo para ti;
Faz de conta que esta é um beija-flor
Que ainda há pouco me sugou.” Emily Dickinson

Compositor, produtor e instrumentista mineiro, Geraldo Vianna colocou em todas as plataformas digitais seu mais novo trabalho, “O Beijo – Um poema musical”, na última quinta-feira (13), data em que se comemora o Dia Internacional do Beijo. O álbum apresenta 14 faixas que refletem sobre o tema, algumas em parceria, como no caso de “O Beijo”, assinada com Fernando Brant. Além disso, uma obra do compositor erudito Robert Schumann ganhou letra de Murilo Antunes. “O beijo é um gesto, uma atitude que atravessa a história da humanidade e representa momentos importantes em nossa vida, nos conduzindo a várias experiências e sentimentos. Desde o carinho, o respeito e a sensualidade, até o beijo histórico que induz à traição. Além de tudo isso ele nos dá várias formas de prazer”, infere Geraldo. O disco, que sofreu “influências literárias de Florbela Espanca, Castro Alves e García Lorca”, vai ser apresentado em show ainda no primeiro semestre deste ano, mas não tem previsão de ser lançado em edição física. Vianna define o trabalho como “uma declaração de que a música mora no meu coração”.