Correntes

“Mas os retratos nunca são reais. Devia-se tirar o retrato das pessoas como as flores, depois da tempestade. É quando são mais belas, depois de terem sofrido.” Augustina Bessa-Luís

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O nosso amor começou com Charlie Chaplin.
Depois de um tempo apareceu Oscar Wilde, e logo em seguida, Caio Fernando Abreu.
E nós ali, tateando no escuro, tentando ver o que era ficção e o que era eu você nós dois.
Nunca tivemos certeza, mas acho que por algum momento chegamos a sentir nós dois naquele dia.
Não foi quando sua perna tocou a minha nem quando eu ri nervosamente tentando disfarçar o meu estado já alterado no final da noite.
Talvez tenha sido na hora de ir embora.
De nos despedirmos.
E aquela mão ficou no céu entre nós tentando se prender a correntes invisíveis.
Correntes que depois nos aprisionariam e nos jogariam nisso que chamamos fim, acontecimento ou separação.
Ou mesma parte da vida. Prosseguimento da vida, eu diria.
A sua vida seguiu e eu nunca mais tive notícias.
Mas ainda guardo nesse céu invisível que há entre nós dois um pedaço de corrente que nos prendeu e infelizmente hoje só me resta liberdade.

O Estranho Desaparecimento do Procurado

“Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas.” Virginia Woolf

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O véu fulgurante e invisível esfola a planície nítida. A promessa de se voltar a isto. A confissão de que Tudo Não Passou Da Verdade. Um negro forte, sorridente, simples, de adjetivos laicos: dispostos um atrás do outro mais confundem, atrasam: a resignação da ignorância. A cabeça ao pender perpendicular revela a calvície histórica. A mão aperta com firmeza. Tensa, suada, o jeito meigo de impressionar com o tamanho dos dentes, a bravura do sorriso: desarma. Lembra o Negrinho do Pastoreio. Abonado com vestes trançadas e traçadas no próprio corpo ele sorri: um sorriso de gosto. Traças passeiam no paletó cinza-escuro. Baixo, torna-se ainda mais baixo, curva-se.

Roxo de susto: da visão da noite: não mais alado: no exato instante em que esta cor muda: não mais amarelo como a terra batida na qual insistem em bater: sem força, mas o tapa arde: nunca verde como os olhos escuros no friso de Ágata: nem roxo que agora mesmo fora de susto, de azedo, sufoco: sonhos incolores: cremos. A água é servida no copo quebrado na ponta. O negro é um búfalo. Os leões o cercam no mato, o capinzal é áspero. Porque nós outros a não sermos donos do terreno se tantos e ledos enganos foram proferidos à boca pequena que engoliu o trema, a lama, o lema, o limbo, o lodo, o Lundu. Ao som do farfalhar de hortaliças romenas, hinos de amor e medo, a revolver coloniais fantasias, o chifre como uma lápide de gesso, os ossos, as carnes, os pelos, afundam junto a todo resto.

Centenários 2016: Manoel de Barros deu grandeza infantil à poesia

“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores. (…) Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!” Manoel de Barros

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Não é fácil falar de um poeta quando ele mesmo é a matéria prima de seu trabalho e costuma dominar como ninguém as palavras. Longe de ser o escritor “sem estilo” como Millôr Fernandes se autodenominou, Manoel de Barros atingiu em sua obra o estado que Clarice Lispector usou para se referir a pintores como Joan Miró e Pablo Picasso, “tornar-se puro”. Para ele a poesia era a “infância da língua”, o que o levou a constatar os absurdos e contradições da existência sem o obscurantismo e desilusão de um Franz Kafka ou de Samuel Beckett, mas a partir da curiosidade de quem descobre e sente através do susto uma grande excitação. A aparente ingenuidade que emana de suas criações emerge de uma complexa percepção inerente à tenra idade, desfeita de conceitos, tabus, morais, certezas e aberta para a dúvida e o espanto, universo onde tudo é possível e nada se proíbe, nem o sórdido nem o sublime.

O Susto do Fantasma

“Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)” Cecília Meireles

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Urros de dentro colocam uma questão de desordem. Quanto de distorção há na percepção da história? Quando escapole o último degrau da escada, o silêncio instaura. A dúvida se sempre houve o silêncio ou se em algum momento urros partiram não do peito, mas de rostos grosseiros e machucados a agora olharem. Uma mulher magoada por traições do marido. Duas crianças brincam, correm, seguram o coração no palito. O sabor amargo, já a enganadora superfície: vermelha: doce. Melhor uma ilusão à verdade e o desastre. Como se pode ocorrer vez ou outra um esboço de lucidez, um borrão, um ensaio. Apesar da intenção de respeito, o cenário endiabrado.

Patuscada e carnaval dançam o enredo sobre mesas cuidadosamente recortadas por toalhas brancas e copos de plástico. Ainda há de se ver ali uma suntuosa e provocativa caixa de salgados. Como há de se ver sobre o manto de Santa Maria – amarelo, trapo, no correr dos anos – um novo, desta feita azul, a encobrir o verde – já se vê bege – na paisagem de pasto, eucalipto e fuligem em abundância. Então há de se vê-la pela última vez e todo seu atrevimento: de se enfiar feito rato na ratoeira: e sair com o pescoço intacto: ainda com o queijo entre as garrinhas espertas: o queijo que ela procura naquela terra: já tão amarelada, difícil de identificar: justamente pela cor, a mesma: claro, existem tonalidades de amarelo: assim a ironia é uma tonalidade: um jeito de dizer as mesmas ofensas entre amantes: sem o carinho de antes: restando apenas o desejo mórbido do ser humano em ferir e machucar-se vez ou outra se regozijando com o sofrimento alheio.

Entrevista: Dulce Quental lança disco de inéditas com músicas antigas

“Todo mundo é parecido, quando sente dor
Mas nu e só ao meio-dia, só quem está pronto pro amor” Dulce Quental

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Dulce Quental prepara uma surpresa. Um disco de músicas inéditas com gravações antigas. Habituada ao paroxismo, a cantora de carreira espaçada retorna ao mercado fonográfico em grande estilo. Um dos motivos da ausência sentida encontra-se na incursão por outras áreas do conhecimento artístico, em especial a literatura.  “Eu gosto de escrever a beça. E acho que no futuro quando estiver cansada dos palcos irei só escrever. Tenho um livro de crônicas publicado e um romance (na ordem ‘Caleidoscópicas’ e ‘Memória Inventada’). Tudo feito de forma independente. Está por aí. Na ‘Amazon’ (empresa de vendas online). Fiquei cinco anos trabalhando nele. Mas foi muito sofrido o processo. É difícil demais escrever bem. Difícil ser simples. Ora dessas, eu volto. Estou de férias da literatura. Agora quero colocar a boca no trombone e cantar pra subir”, avisa. Como de costume, é bom não duvidar de Dulce.

“Música e Maresia” compila 11 gravações realizadas entre 1991 e 1994, período em que Quental não lançou disco, mas que mesmo assim apareceu como a compositora de sucessos da banda “Barão Vermelho”, “Cidade Negra” e de Leila Pinheiro, Simone, Anna Carolina, Roberto Frejat e outros artistas. A artista explica porque só agora a cria verá a luz do dia. “Eu sempre tive o desejo de lançar um disco com essas gravações. Estava esperando o momento certo. Mas foi preciso um empurrão de amigos e colaboradores para acontecer. A gente não faz nada sozinho. Acho também que só estou conseguindo por causa do momento da indústria. A volta do vinil. A possibilidade de um artista independente lançar seu próprio selo e distribuir diretamente através de uma plataforma digital sem o intermédio de uma gravadora”, justifica. Muitas dessas canções permanecem inéditas apenas na voz de Dulce, já tendo sido lançadas por alguns dos nomes citados acima.

Conto do prefeito que virou cavalo

“Ela fitou-o com seus olhos brilhantes, irracionais, exatamente como os olhos de uma criatura não-humana.” D. H. Lawrence

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O cheiro de leite leva ao chafariz. De pestana baixa: como bode espia o sujeito dos olhares fáceis e cavanhaque. Visto na chegada: despercebido, abobalhado. Camuflagem dos fatos não sabe nem enxerga o cargo no rapaz sem modos. Mal acaso torna os homens bobos figuras poderosas. Ou seriam figuras poderosas a elegerem os bobos? Toda forma, anda distraído, despista, no entanto, o trevo de quatro folhas no bolso do paletó xadrez-quadriculado. Hipérbole e pleonasmo mastigam como luta inteira no pasto, como vaca, as vestes, o capim, de lado imita cigarro. O bordel da dor é a saudade. Sanha do animal bisonho e estranhamente lerdo, ao subir ao palco, de improviso um palanque, intenções de inveja cercam as leitosas tetas, a escorrer.

A Previsão da Cigana

“Ó meu corpo, protege-me da alma o mais que puderes.
Come, bebe, engorda, torna-te espesso para que ela
me seja menos pungente.” Marie Noël

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A placa indica o local. O marmanjo parrudo de óculos infantis e postura inconstante assegura: a natureza sobreviverá. Ao progresso e à devastação. Quase chora. A mulher de grampos prendendo os cabelos loiros por tintura da farmácia, mistura de água oxigenada, cai aos pedaços. Tolice estar mal cuidada, afinal o acervo possui exemplares raros. Ali estanques na estante poluída e gasta lembram uns carcereiros empoleirados. Sujos, revoltos, bagunçados, carregam o nome luminoso na capa. “Moby Dick”, de Herman Melville, “A Metamorfose”, de Franz Kafka, “Poesia Completa”, de Fernando Pessoa; sem dúvida, exemplares raros, deixam na boca o amargo por ser impossível tocá-los sem sentir o desprezo de estarem tão mal cuidados.

Silenciosa, sobrancelhas em circunflexo, a inquirir para a bonita dama: morena de seios fartos, curvas salientes nos quadros, boca polpuda, polpa de fruta escoa em íris característica: donzela de verdes olhos, Ágata. Ao ler a mão dispensa ensaios: estará presente nos fatídicos acontecimentos, corre perigo, sacrifícios e mortes presenciadas, animais jogados à vala, homens julgados, e o crepuscular engolir do mundo a rir qual hiena desdentada. Marina repele a doida com o descaso a repercutir na sombra maior ao pequeno porte distribuído numa mulher de idade há anos sabor de desejo e paparicos.

A mulher de José

“Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.” Adélia Prado

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O significado de mulher para José é uma rosa aberta. Nasce o sorriso na caveira do homem, por pouco iluminada como uma pintura de Caravaggio, com um feixe de luz direto e oblíquo, preto, porém branca luz. Por nunca ter ouvido nome igual àquele assovia como um menino ladrão de goiabas. Mas desde quando a realidade importa frente a um menino roubando goiabas? José é apenas josé, uma criança desperta, despedaçada, infeliz como a rosa da Rosa do buquê de rosas da dama do filme, da canção de Fellini. O agrado é um doce de rapadura e chá morno: fácil, direto, rápido. Zaira uma massa gorda, compacta, corpulenta, antipática, de óculos escuros prendendo as orelhas e o nariz respirando impune. O juiz desconhece a maleabilidade do caráter, muda rapidamente de opinião, como o cão diante do osso e de repente já é bumerangue.

As olheiras cansadas de Bukowski e Kerouac. Mal senta na cadeira começa a incomodar, igual a um cão sarnento, de pulga e ressaca, procura a laje para se perfumar, parede de vidro à coceira graúda. Todos explicam, ela pergunta. Finge a resposta, e se equivoca. Admira a mania dos polidos pelo artefato da interrogação. Distribui amargos sorrisos, e grita, esperneia, arfa a mulher grand-e-loquente. Todavia, sempre aquele sujeito devastado. Ao final das labutas exaustas está absorta nos pensamentos rocambolescos do final do século XV. Maneirismo em tudo o quanto era estátua, as pessoas ali paradas, movimentam as marcações do filho do Sonho, de Pasolini.

Os castelos de outrora

“Fitávamos as nuvens do espaço.
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!
E ficávamos horas a pensar
Se seriam castelos ou montanhas…” Florbela Espanca

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Reincide o sol áspero. A brisa roça nos cabelos e sonhos, entre eles, dedos – tentando tocar o intocável. Fica a brisa, fumegante e etérea, com labor. E o sorriso ocre, incolor e de incenso acena com a palma a preencher. Nunca se sabe até onde vai, qual lugar cai, a necessidade humana. Desprovidos ao celular reclamam do esgoto a céu aberto. Ralhou talhou o ranho uma aspa uma farpa uma casta cultura inválida. As palavras cansam. Mas a gente, as pessoas carregando frutas nas sacolas não se diz senão através do afeto. Após uma suada viagem de ônibus o refresco gelado seca os pelos encharcados por expectativas lânguidas. A capinar as lembranças cujo destino se encarregou de tornar fluidas, boné patrocinado sobre a cabeça oval, o velho.

José é nome comum, mas não menos poético afinal contemplado por Carlos Drummond. O bigode bem penteado pela armadura prateada apreendida em chuva, roça, café quente e biscoito polvilho. Como Admeto em sua caça ao javali. É incontável o bulir de dedos toscos amassando a cara rugosa qual ferro de passar sobre a camisa usada no dia de trabalho anterior, gasta de viver. Essa mania desaforada e interiorana de arraigar a espontaneidade ao charme. Minutos de conversa lesa, leda, prosa insuficiente. Na pausa da vida fragmentada o ocaso a transparecer rebela com a agressão primeira: aquela que fez do homem a fruta do pecado e circunstância de si mesmo.

Ginga da Capoeira no Brasil

“esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.” João Cabral de Melo Neto

Joga, luta e dança. Perna, braço e atabaque. Berimbau, Brasil e África. Da ponta do pé ao corte dos olhos. Madame Satã. Zumbi dos Palmares. Besouro, diabo. Lança por cima da cabeça, comprida, diáspora. Volta como bumerangue, chicote. Estala. Pandeiro, agogô, viola. Discípulo, mestre, canto das águas. Vem Janaína, rainha do Mar. Vem Iemanjá. Luta, dança e joga. Por cima, por baixo, por entre os escravos. Trazidos da África. Brasil, berimbau, atabaque. Perna, amuleto, braço. Capoeira cai fácil gaivota. Terras, palmeiras e sábia. Gorjeiam os pilares. Passo na areia, estilete, corta. Peito pra frente, tronco pra trás, a revolta. Palmeiras, palmares, madame. Besouro zumbi satã.