Televisão de cachorro

“E vi seus dedinhos magros seguindo os contornos do desenho, movimentando-se lentamente, como se sua imaginação os cobrisse de tinta.” Sebastião Vidigal

Obra do pintor Joan Miró

Pode ser fervorosa. Uma Messalina doidivana. O escafandro está enferrujado, encardido. O domador de cavalos da barba amarela-gema pratica quiromancia. Quixotesca: da cor creme: o Corcunda de Notre-Dame, desconfortável em sua França, aqui se estabeleceria. Da forquilha, dos pirilampos. Do mel melado, cor de canela, colher de chá: uma folha de camomila. Patos na lagoa: a fonte no meio da praça em alameda. O velho barbudo e gordo numa bicicleta imensa? Pequena para seu tamanho. A arara no poste da praça: a dama dos velhos em balcões de lata. Os moradores não ficam: praticam a arte da travessia: andam doentes: à deriva: navegam mares: rumam aos montes: a doença inflama.

Artigo: Por que só agora, Lula?

“Demonstrar-lhe que, para a vida, se nasce de tantos modos, de tantas formas… Árvore ou pedra, água ou borboleta… ou mulher… E que se nasce também personagem!” Luigi Pirandello

Lula é investigado pela Lava Jato

Uma das poucas coisas que se aprende com o jornalismo é que versões oficiais dificilmente interessam, pela natureza de seu caráter que as impede de alguma sinceridade para além das aparências. Logo, é preciso ser auspicioso e perspicaz a fim de estimar o que brasões e espelhos escondem. Noutras: quais interesses movem os envolvidos? Para investigar e planejar a derrubada de figuras poderosas é imperioso contar com o apoio e suporte de outras tão ou mais poderosas do que ela. Isso diz a história, as peças de Shakespeare e alguns filmes de Rossellini. Trocando em miúdos, não haveria o golpe militar de 1964 ou a eleição de Collor sem certo respaldo importante, global, robusto. Maquiavel diz que um príncipe não deve formar “exército de mercenários”, pois poder e dinheiro mudam de mãos, e aquelas que foram beijadas tendem a ser dispensadas com o escárnio e escarro citados pelo poeta Augusto dos Anjos.

Sonhos de uma tarde de primavera

“Estou sentido o martírio de uma inoportuna sensualidade. De madrugada acordo cheia de frutos. Quem virá colher os frutos de minha vida? Senão tu e eu mesma? Por que é que as coisas um instante antes de acontecerem parecem já ter acontecido? É uma questão da simultaneidade do tempo. E eis que te faço perguntas e muitas estas serão. Porque sou uma pergunta.” Clarice Lispector

Pintura de Anita Malfatti

Uma lua redonda e baixa. Ágata: uma carambola-estrela, flor de maracujá. Uma tartaruga nas pedras. Árido homem fuma um cigarro velho. No amarelo de Van Gogh, gira a roda giratória a velha. Folhas secas caem como borboletas foscas, pardas. Onças, pacas. Escamas azuladas de peixe e penas brancas: de patos: como sonhos humanos: patéticos, e reles. Dois cachorros malhados: um preto e branco: outro marrom caramelo. Vara de marmelo, doce de marmelo. Lerda, letárgica, gotejante: caem sobre as pipas as ceras de colmeias inteiras.

Como se o bicho diferenciasse da teia quando capturado: presa. Perdidinho, pergaminho, fuleiro. Pombas, roliças pombas sem dificuldade roubam o farelo da mão da velha. Na superfície supérflua do nada: a enxada, o capim: o desfecho. Corpos transparentes, alvos, de olhos azuis, cabelos claros, tão claros que parecem sumir no contato com o sol áspero. No mundo só há dois tipos de gente: rico e pobre. Mas o pobre é oitenta por cento, disse mascando chiclete ou palha. Vanessa: com luxo arrasta-pé, rococó, rocambole, caçarola é pudim de pobre.

Viver sem pressa, nem urgência de nada

“Em arte, só os preguiçosos são capazes de fazer alguma coisa.” Jagoda Buić

Obra do impressionista francês Renoir

Viver sem pressa, nem urgência de nada. Ouve o cortejo para Tadeu enquanto caminha. Estende a mão a Adílson. Chama-lhe pelo nome do falecido. Hesita, corrige o erro, despista. Manto de velório não serve para o altar. Odete pergunta com medo. Das Neves rejeita com uma expressão séria, em seguida cede. O manto está velho, mas o estado ainda é pleno, portanto da igreja, que cace um feio, furado, amarelo, para o enterro, Odete.

Que traz outro e mostra, à ranzinza Das Neves. De novo faz troça: está bem bonita, enterros são tristes. Então Odete passa um pano na velha, furada, horrorosa, Das Neves com orgulho, diz-lhe em segredo: está perfeita. Tadeu nem na vida, nem Adílson, na morte teria, uma melhor sorte. O homem passou. E passa o concreto. Por sobre os pilares da terra que é bege, gananciosa de tornar-se amálgama do progresso: Das Neves.

Análise: 80 anos de Rolando Boldrin, herói da memória nacional

“Êta país tão sinfônico
Que é da América, da América do Sul
Êta país biotônico
Que é do Jeca, do Jeca-Tatu” Rolando Boldrin

Rolando Boldrin apresenta o programa "Sr. Brasil"

Rolando Boldrin desmente duas máximas, uma brechtiana e outra tupiniquim. Pela ordem: “Infeliz a nação que precisa de heróis”; e “O Brasil é um país sem memória”. Rolando é o herói da memória nacional. Fácil provar a hipérbole. Contra a invasão de sertanejos pop, ele mantém, há mais de década no ar, pela valente TV Cultura, um programa de música caipira, não só na vestimenta, no sotaque, como, sobretudo, no espírito, na reverência aos ensinamentos dos simples, ao aprendizado empírico daqueles que creem acima de tudo “nos seus cinco sentidos, o testemunho os leve para onde for geralmente eles não têm medo”, para citar, desta vez com razão, mais uma frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Isto tudo porque Rolando não faz mais do que dar vazão e espaço a uma terra e, principalmente, a uma gente que ele conhece bem. Neste caso, tecer loas à tradição é provavelmente a maior ousadia de Boldrin.

O fim da cidade

“É uma hora irreal o cair da tarde. Não estamos vivos nem mortos. É a hora em que nos despedimos, nos arrependemos, ou esquecemos até o espírito de vingança, a grande nostalgia toma conta de nós, devia ser belo, e não é.” Augustina Bessa-Luís

Pintura de Paul Gauguin

Invadem a cidade, esterilizam os pais, abrem as vaginas, expulsam o clitóris de lá. Exilada exala um ocre odor vagabundo. Famintos cachorros devoram ossos. Uma dinâmica inocula a cólica. Bebem catre. A cidade entope: gente, cimento, animal. É-lhe peculiar e cúmplice: o incesto, o estupro. Pedra de néon: a vermelha flor: uma bromélia: o domo: lilases: povo: roxo. Querem parir as barrigas de nove meses querem partir as clandestinas visões de sêmen: creches engolem crianças: asilos internam velhos. Platina o tédio.

Há mais dinheiro. Há mais comida. Há nos canteiros arrotos de fibra. Há um prisioneiro na jaula torcida. Meu desejo é o de te ver o quanto antes, mas o relógio não é exato quando se tem: saudade: o ponteiro anda lento coração bate celerado a expectativa aumenta na medida em que a espera cansa vai chegando ao fim te amo. Saudade: essa palavra larga só comprime e não exprime o tamanho: do que sinto: falta nome apenas: grito: meu pedacinho doce de jabuticaba: geleia de framboesa: amora. Sacrificar o filho pelo bem do pai. A cidade afunda em banzo.

O destino das cartas de amor

“O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,” Florbela Espanca

"Vênus ao Espelho", do pintor espanhol Diego Velázquez

Com preconceito diz o pai de Maria que moça bonita só estuda para escrever carta ao namorado. Mas não há privilégios nessa categoria de declaração do amor: as feias também. Maria é uma enrustida senhora, pois não se sente ou veste-se como tal. Maria é, ainda, simplória, portanto as vestes não traduzem uma exibição. Maria o é assim: natural. E quantas pessoas são naturais? Tão difícil, umas dores áridas, umas esparsas falas falsas. Que mal assina o nome. Rabisca e também rabisco por semelhante analfabetismo, discípulos da fantasia. Lábios de Maria onde ardem promessas dos amantes que a abandonaram embuchada, farta de prole. Os filhos de Maria, estes estudaram. Mas Maria enxerga nas cartas escritas as cartas não escritas, os pretendentes espantados a espingarda e bombinha, o passado que não se deu por inteiro.

Prefácio: Amor de Morte Entre Duas Vidas

“na altura de dez polegadas ou mais
homem, terra : duas metades da talha
mas sairei disso sem conhecer ninguém
nem eles a mim” Ezra Pound

Capa do livro "Amor de Morte Entre Duas Vidas"

Quando da estreia de um poeta, a via mais usual de apresentá-lo é por meio do cotejo, dizendo a quem ele soa, mas não, necessariamente, como e o que ele soa – manifesta, expressa, exalta. Tentemos, diferentemente, pelo menos de início, o caminho pelas próprias faces deste livro de Raphael Vidigal, entre elas: a proposta da rapidez, na simbiose entre o artifício vagaroso e o texto velocíssimo, ou, como dito bem melhor por um outro autor, coisas de balística; o movimento nem sempre fácil, pois também no espaço (gráfico), de ancoragem entre as palavras e os sentidos, o que demanda engenho também por parte do leitor; um certo tom trágico, porém performático – logo, autoconsciente –, de equilibrista entre o biográfico, o sensível e o burlesco de um Lennie Dale, citado em “Iluminação ou Prefácio”. Afinal, cautela, pois como coloca ironicamente outro poema deste livro: “esse sentimento grego,/é a vontade de tomar um iogurte”.

A importância da presença feminina nos Jogos Olímpicos

“O que importa é a não-ilusão. A manhã nasce.” Frida Kahlo

Dupla brasileira no vôlei de praia, Ágatha e Bárbara conquistaram a prata

Num país em que a Presidenta sofre um golpe de Estado e o ministério formado exclusivamente por homens brancos do governo impostor distribui declarações do tipo “Os homens vão menos ao médico porque trabalham mais, são os provedores da família” e “O México é um perigo para os políticos brasileiros porque quase a metade das Senadoras são mulheres”, é um alívio ouvir a um time tão competente de comentaristas mulheres nessas Olimpíadas, ter acesso a elas, à suas falas embasadas sobre esportes que ignoramos por completo fora desse período. Para quem afirma que o brasileiro só gosta de ganhar a reação do público nas derrotas das seleções femininas de vôlei e de futebol nos prova o contrário. Ele gosta é de se identificar com os esportistas.

Três receitas infalíveis

“Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante?” Murilo Rubião

Pintura do expressionista alemão Edvard Munch

O cemitério convida a entrar: “Bem-Vindo!”. Ignora o pedido e a educação recebida em casa de tia Laura. Foge pela culatra o tiro no pé descalço. Não é possível um cemitério convidar com tamanha pompa. De certo um trocadilho, engano, piada. Na mesa ou janela… Sim, existem janelas em cemitérios, observe a lápide… Na mesa ou janela, havia um cardápio… Onde se lia fraco: “Bem-Vindo!”. E o garçom, um pouco constrangido, responde: “Vá à panela e tire um pedaço do bolo, sem muito esforço, a melhor fatia para a tua fome”. Foi aí que atolamos o carro. Presos pelos cipós das correntes telúricas não é possível seguir viagem.