Deus realize uma prece por mim

“Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão.” Clarice Lispector

El Greco ficou famoso por pintar imagens bíblicas

Uma prece. Deus realize uma prece. Ontem à noite. O espaço de um minuto retém as esperanças e covardes os que creem num Deus com clemência. Numa casca de maçã: donde menos se espera o escorregão: a cobra de Eva: a banana espichada e madura. O pressentimento está prestes a se cumprir. Recebe uma ligação, pensa: a voz da cigana. Desliga. Uma girafa tenta buscar: no último galho a penúria da folha erma. Corre perigo, sem jeito, nervoso: preces, rezas, gestos inúteis. Cambaleia, Ágata à frente: viva, morta: um fantasma: uma onça: uma cidade.

O Amor é Tóxico

“Lembre-se: pessoas sofridas são perigosas. Elas sabem que podem sobreviver.” Josephine Hart

Uma das mais belas pinturas de Pierre Bonnard

Flor de primavera misteriosa, só aparece com metade da saia pra fora. Os primeiros pontos do sol curvam teus quadris elásticos. Vermelha: e no premir flora e no rugir: fauna. E na vida encontra miséria, discórdia, colérica porta aberta aos anjos e demônios. Uma menina sem olhos sonhava ser: a menina dos olhos de Ágata. Não tinha timbre de voz, não falava, era cega. Surda e muda a menina conduzia o mesmo trajeto para a escola: reprimida, invisível. Ninguém a via. Nem os pais da menina? Nem os pais da menina. A menina não tinha paz. Não tinha nome, nem medo, nem mãe ou faca. Não tinha faca a menina e este era um presságio bolorento dos dias repugnantes a que era entregue. Não tinha faca para passar manteiga, não tinha mãos para passear: maquiagem.

O sonho de amor de Zé da Luz

“Rezam meus olhos quando contemplo a beleza.
A beleza é a sombra de Deus no mundo.” Helena Kolody

Modigliani é um dos pintores italianos mais reconhecidos

Zé da Luz afunda as botinas roxas na lama onde o carro morre, e também os sonhos. Qual detém o maior peso? O mais sublime peso? Maciço e irregular varia sob nossas patas, insetos ou aves, pouco importa, nada importa, voamos ao redor de luzes, e Zé com a sua lanterna de séculos ilumina nossas caras magras. Os dedos indicam povos, pivôs, palcos, perfídias e pururucas, mas é muita volta para pouco laço, muito cadarço e faltando sapato. O saber aristotélico aristocrático erótico asiático dessa gente de olhos claros, sotaque puxado para o alemão na roça, paulista na cidade, ribanceira duma enseada que inevitavelmente naufraga, ou naufragará rebentando o bucho o bicho a broa de fubá enrolada num papel jornal. Improvável. Tímido como uma tartaruga é difícil lhe arrancar palavra: Zé da Luz: e o sonho.

A Farra do Amor na cidade dos ratos

“Quando cheguei aqui o que havia estava no fim
e o que estava por vir andava disperso pelo sonho de alguns.
Mas a maioria vivia o seu dia-a-dia
e todos contentes por serem todos assim.
Eles não davam pelo fim
quanto mais pelo que já assomava mais além
– isto que já começava nos sonhos de alguém.” Almada Negreiros

Célebre pintura "Banhistas", de Georges Seurat

Dispensa o falar macio e exala rudeza rústica ruminando o pasto da vida agrária agradecida. Reles e mera, capataz, protagonista, do Teatro sem cortina: exibe o ventre, as nádegas, os seios, escapolem vergonhas da época da condessa húngara e de Lucrécia Bórgia. Não tem pudor essa tal violência: que esconde os corpos das vítimas. Do tráfico de sonhos: e do consequente consumo inconsequente. Da água purificada por menstruações e da pobreza a escandir a costela, o osso palita os dentes. Um homem, apenas. Veste camisa xadrez, abotoada, e o cigarro de palha na boca: amarela. Mas as palavras, mesmo desamparadas, desnutridas: acabam-se correlatas: e não explicam.

Análise: A relação estreita entre a política e a caricatura

“É uma imagem verdadeira, nascida de um espetáculo falso.” Jean Genet

Política nacional por Renato Aroeira

Para o político não há consagração maior do que tornar-se charge. Significa que o seu rosto é conhecido, e digno de nota. Muitos preferirão, neste caso, a morte à vida, pois é quando serão transformados em pontes, avenidas, ruas, teatros, arenas, estádios, com os devidos nomes cravados na língua e nos dentes dos cidadãos.  Já o artista costuma-se virar melhor como nome de gato, peixe, cachorro e outros animais mais simpáticos e estimáveis. No sentido em que é possível estimá-los. São animais de estimação. Não raro encontra-se uma cadela Frida e um gato Picasso. Mas é curiosa, para não dizer hilária, a íntima e estreita relação estabelecida através dos anos entre a política e a caricatura. Ofício que hoje em dia adquiriu traços realmente físicos e desenháveis já foi naqueles tempos de outrora função decorrente da sátira, daqueles que versavam em praça pública para debochar dos de toga, como é o caso conhecidíssimo de Gregório de Matos, aclamado como a Boca do Inferno.

De peruca não entendo nada

“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto, de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços,
ficando buracos irreversíveis…” Maria Antonia de Oliveira

Georges Braque passou por vários movimentos artísticos

Só se chega desacompanhado. Gênero, título ou brasão são formas insuficientes de conhecer uma profundidade. Caminha distante, sublime, desconfiado, altera turbulências e emoções à indiferente paz. Tão longe, igual e sonolenta como as demais pessoas? A não ser uma igreja: vazia: uma gente: sozinha: uma chuva: escorrida e metálica. Escovada e precária como as demais pessoas, os açoites cotidianos, as remadas na beira do lago. A falta, cada vez mais presente onde se anda solitário, não se chega sozinho, sai-se pasmo. E, no entanto, afoito, e no princípio verbo, e no finito gasto calendário de palavras para a primeira e pacífica intenção: nada me deu de novo, apenas uma fome não saciada pulando dentro do estômago.

Análise: 10 anos de Inhotim, museu reconecta arte à natureza

“A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.” Manoel de Barros

Inhotim é reconhecido como maior museu de arte a céu aberto da América Latina

Reconhecido como o maior museu de arte a céu aberto da América Latina, o instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, circula a sua, até aqui, exitosa trajetória ao comemorar 10 anos de história. Exitosa não apenas por que a efeméride é digna de aplausos, mas pelo fato de ter sabido construir, ao longo do tempo, um espaço de celebração da cultura quase sempre democrático. Além das exposições de arte contemporânea, principal cartão-postal do projeto conduzido pelo empresário Bernardo Paz, o instituto passou a produzir e oferecer também espetáculos de música, teatro, cinema, dança e a abrigar, inclusive, a literatura. Tudo isso, portanto, transformou o Inhotim em importante foco de debate e experiência cultural. Experiência esta, esteticamente, sempre ligada à natureza, verdadeiro diferencial da atração, para onde, de alguma forma, tudo converge, sempre. Obras célebres de Hélio Oiticica e Adriana Varejão têm por companhia tulipas, frondosas árvores e borboletas, além de uma infinidade de cantos de pássaros.

Escute seu coração…

“Nosso corpo é infinitamente mais sábio que a nossa cabeça. O corpo é sábio mesmo sem ter consciência da sua sabedoria. Inconsciente é o nome para a sabedoria do corpo.” Rubem Alves

Fitas da consciência alertam para prevenção de doenças

O uso de laços coloridos na área da saúde para ajudar na mobilização e conscientização da população sobre riscos e tratamentos começou ainda na década de 1990, com a tradicional fita vermelha da AIDS. Hoje em dia elas são várias, e se relacionam também com os meses. Em referência ao “Dia Mundial do Coração”, por exemplo, celebrado no dia 29 do mês, instituiu-se o “Setembro Vermelho”, com o intuito de prevenção a doenças cardíacas. Nessa linha a Oncocentro de Belo Horizonte oferece acompanhamento cardiológico especializado para pacientes em tratamento de câncer.

A doutora Ariane Macedo, fundadora e atual vice-presidente do Grupo de Estudos de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia desde 2014 esclarece que “o tratamento oncológico (rádio ou quimioterapia) pode afetar o coração a curto ou a longo prazo, por isso a importância do acompanhamento”. De acordo com Ariane “o tratamento oncológico pode causar em alguns pacientes uma intoxicação no sistema cardiovascular (no músculo cardíaco, no pericárdio – que é a membrana que envolve o coração -, ou nos vasos sanguíneos)”. A medida adotada pela Oncocentro de BH para prevenir complicações foi determinar a presença do médico cardiologista dentro da clínica e oferecer aos pacientes o tratamento. “Eu atendo a todos os pacientes, o que permite um acompanhamento preciso e imediato, além do contato direto com o oncologista para discussão dos casos”, sublinha Ariane.

Artigo: Como Temer entrará para a história do Brasil?

“Certamente não é alegre; há espetáculos mais joviais, leituras mais leves; mas o interesse não está na leveza nem na alegria. A tragédia é terrível, é pavorosa, mas é interessante. Depois, se é verdade que os mortos governam os vivos, também o é que os vivos vivem dos mortos.” Machado de Assis

Michel Temer chegou ao poder após a polêmica deposição de Dilma

Quando Cristo reuniu seus apóstolos para celebrar a Santa Ceia disse que seria traído por um deles, de acordo com as escrituras bíblicas. Joaquim José da Silva Xavier, também conhecido como o alferes Tiradentes não tinha a mesma consciência, tampouco o imperador romano Júlio César, apunhalado pelas costas pelo filho adotivo Brutus. De acordo com lógica vigente há quem diga que quem votou em Cristo votou em Judas, e quem votou em Tiradentes também votou em Joaquim Silvério, e assim por diante. Fato é que a história não costuma ser muito simpática a tais personagens, não por acaso malhadas em celebrações até hoje típicas nas cidades. Michel Temer, talvez, tenha calculado mal o peso do tempo, embotado pela fricção momentânea que a estimativa de poder é capaz de causar. Em cima agora, de baixo para sempre.

Ladainha do amor sem fim

“O que faz de nós o que somos é inatingível e incompreensível. Entregar-se ao amor dá alguma ideia do que é irreconhecível. Nada mais importa no final das contas.” Josephine Hart

Pintura Dois Amigos de Toulouse-Lautrec

A onça escapa ligeira como tua área. O estampido é um tiro de espingarda. O labor das nuvens cor de argila não contém a fúria do animal em perigo. Carente de sangue, fibra, sais minerais, proteína. Meses passam numa tarde, num dia. Revelam os ossos do corpo firme em carne da onça em perigo. O velho osso roído não é cachorro, gato ou passarinho. Uma onça: uma cigana: uma mulher: clandestina. Aonde quer que vá: clandestina. Ágata: uma rouquidão da mudança de tempo ou do cigarro: Maria: barba-ruiva cor da palmeira verde-água: uma vaca malhada: um cavalo: ao longe, salmos: preta e branca masca chiclete, mato, palha: o serro: a serragem: o cerrado. Mimosa cidade.

A bandeira gasta da ruína grega. Quem tem um bem de fato sabe que o tamanho importa pouco, pode ser uma ponta de agulha, uma lembrança, uma ausência: sempre renasce. Apenas um sinal, um presságio. Sabe que eles existem: e estes, sob cortina de fumaça tóxica: nenhuma: tornam-se transparentes. Sob o sol de couro, fibra, fios, tecido, tinta: brutalizam todos os dias: é preciso menos motivos para o lamento cotidiano, mais elementos para a esparsa alegria. Refletidos nos retrovisores, viram a vida passar a meio metro dos calcanhares de Aquiles. O orgulho não é conotação de elogio segundo premissas da boa convivência.