O sonho de amor de Zé da Luz

“Rezam meus olhos quando contemplo a beleza.
A beleza é a sombra de Deus no mundo.” Helena Kolody

Modigliani é um dos pintores italianos mais reconhecidos

Zé da Luz afunda as botinas roxas na lama onde o carro morre, e também os sonhos. Qual detém o maior peso? O mais sublime peso? Maciço e irregular varia sob nossas patas, insetos ou aves, pouco importa, nada importa, voamos ao redor de luzes, e Zé com a sua lanterna de séculos ilumina nossas caras magras. Os dedos indicam povos, pivôs, palcos, perfídias e pururucas, mas é muita volta para pouco laço, muito cadarço e faltando sapato. O saber aristotélico aristocrático erótico asiático dessa gente de olhos claros, sotaque puxado para o alemão na roça, paulista na cidade, ribanceira duma enseada que inevitavelmente naufraga, ou naufragará rebentando o bucho o bicho a broa de fubá enrolada num papel jornal. Improvável. Tímido como uma tartaruga é difícil lhe arrancar palavra: Zé da Luz: e o sonho.

A Farra do Amor na cidade dos ratos

“Quando cheguei aqui o que havia estava no fim
e o que estava por vir andava disperso pelo sonho de alguns.
Mas a maioria vivia o seu dia-a-dia
e todos contentes por serem todos assim.
Eles não davam pelo fim
quanto mais pelo que já assomava mais além
– isto que já começava nos sonhos de alguém.” Almada Negreiros

Célebre pintura "Banhistas", de Georges Seurat

Dispensa o falar macio e exala rudeza rústica ruminando o pasto da vida agrária agradecida. Reles e mera, capataz, protagonista, do Teatro sem cortina: exibe o ventre, as nádegas, os seios, escapolem vergonhas da época da condessa húngara e de Lucrécia Bórgia. Não tem pudor essa tal violência: que esconde os corpos das vítimas. Do tráfico de sonhos: e do consequente consumo inconsequente. Da água purificada por menstruações e da pobreza a escandir a costela, o osso palita os dentes. Um homem, apenas. Veste camisa xadrez, abotoada, e o cigarro de palha na boca: amarela. Mas as palavras, mesmo desamparadas, desnutridas: acabam-se correlatas: e não explicam.

Análise: A relação estreita entre a política e a caricatura

“É uma imagem verdadeira, nascida de um espetáculo falso.” Jean Genet

Política nacional por Renato Aroeira

Para o político não há consagração maior do que tornar-se charge. Significa que o seu rosto é conhecido, e digno de nota. Muitos preferirão, neste caso, a morte à vida, pois é quando serão transformados em pontes, avenidas, ruas, teatros, arenas, estádios, com os devidos nomes cravados na língua e nos dentes dos cidadãos.  Já o artista costuma-se virar melhor como nome de gato, peixe, cachorro e outros animais mais simpáticos e estimáveis. No sentido em que é possível estimá-los. São animais de estimação. Não raro encontra-se uma cadela Frida e um gato Picasso. Mas é curiosa, para não dizer hilária, a íntima e estreita relação estabelecida através dos anos entre a política e a caricatura. Ofício que hoje em dia adquiriu traços realmente físicos e desenháveis já foi naqueles tempos de outrora função decorrente da sátira, daqueles que versavam em praça pública para debochar dos de toga, como é o caso conhecidíssimo de Gregório de Matos, aclamado como a Boca do Inferno.

De peruca não entendo nada

“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto, de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços,
ficando buracos irreversíveis…” Maria Antonia de Oliveira

Georges Braque passou por vários movimentos artísticos

Só se chega desacompanhado. Gênero, título ou brasão são formas insuficientes de conhecer uma profundidade. Caminha distante, sublime, desconfiado, altera turbulências e emoções à indiferente paz. Tão longe, igual e sonolenta como as demais pessoas? A não ser uma igreja: vazia: uma gente: sozinha: uma chuva: escorrida e metálica. Escovada e precária como as demais pessoas, os açoites cotidianos, as remadas na beira do lago. A falta, cada vez mais presente onde se anda solitário, não se chega sozinho, sai-se pasmo. E, no entanto, afoito, e no princípio verbo, e no finito gasto calendário de palavras para a primeira e pacífica intenção: nada me deu de novo, apenas uma fome não saciada pulando dentro do estômago.

Análise: 10 anos de Inhotim, museu reconecta arte à natureza

“A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.” Manoel de Barros

Inhotim é reconhecido como maior museu de arte a céu aberto da América Latina

Reconhecido como o maior museu de arte a céu aberto da América Latina, o instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, circula a sua, até aqui, exitosa trajetória ao comemorar 10 anos de história. Exitosa não apenas por que a efeméride é digna de aplausos, mas pelo fato de ter sabido construir, ao longo do tempo, um espaço de celebração da cultura quase sempre democrático. Além das exposições de arte contemporânea, principal cartão-postal do projeto conduzido pelo empresário Bernardo Paz, o instituto passou a produzir e oferecer também espetáculos de música, teatro, cinema, dança e a abrigar, inclusive, a literatura. Tudo isso, portanto, transformou o Inhotim em importante foco de debate e experiência cultural. Experiência esta, esteticamente, sempre ligada à natureza, verdadeiro diferencial da atração, para onde, de alguma forma, tudo converge, sempre. Obras célebres de Hélio Oiticica e Adriana Varejão têm por companhia tulipas, frondosas árvores e borboletas, além de uma infinidade de cantos de pássaros.

Escute seu coração…

“Nosso corpo é infinitamente mais sábio que a nossa cabeça. O corpo é sábio mesmo sem ter consciência da sua sabedoria. Inconsciente é o nome para a sabedoria do corpo.” Rubem Alves

Fitas da consciência alertam para prevenção de doenças

O uso de laços coloridos na área da saúde para ajudar na mobilização e conscientização da população sobre riscos e tratamentos começou ainda na década de 1990, com a tradicional fita vermelha da AIDS. Hoje em dia elas são várias, e se relacionam também com os meses. Em referência ao “Dia Mundial do Coração”, por exemplo, celebrado no dia 29 do mês, instituiu-se o “Setembro Vermelho”, com o intuito de prevenção a doenças cardíacas. Nessa linha a Oncocentro de Belo Horizonte oferece acompanhamento cardiológico especializado para pacientes em tratamento de câncer.

A doutora Ariane Macedo, fundadora e atual vice-presidente do Grupo de Estudos de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia desde 2014 esclarece que “o tratamento oncológico (rádio ou quimioterapia) pode afetar o coração a curto ou a longo prazo, por isso a importância do acompanhamento”. De acordo com Ariane “o tratamento oncológico pode causar em alguns pacientes uma intoxicação no sistema cardiovascular (no músculo cardíaco, no pericárdio – que é a membrana que envolve o coração -, ou nos vasos sanguíneos)”. A medida adotada pela Oncocentro de BH para prevenir complicações foi determinar a presença do médico cardiologista dentro da clínica e oferecer aos pacientes o tratamento. “Eu atendo a todos os pacientes, o que permite um acompanhamento preciso e imediato, além do contato direto com o oncologista para discussão dos casos”, sublinha Ariane.

Artigo: Como Temer entrará para a história do Brasil?

“Certamente não é alegre; há espetáculos mais joviais, leituras mais leves; mas o interesse não está na leveza nem na alegria. A tragédia é terrível, é pavorosa, mas é interessante. Depois, se é verdade que os mortos governam os vivos, também o é que os vivos vivem dos mortos.” Machado de Assis

Michel Temer chegou ao poder após a polêmica deposição de Dilma

Quando Cristo reuniu seus apóstolos para celebrar a Santa Ceia disse que seria traído por um deles, de acordo com as escrituras bíblicas. Joaquim José da Silva Xavier, também conhecido como o alferes Tiradentes não tinha a mesma consciência, tampouco o imperador romano Júlio César, apunhalado pelas costas pelo filho adotivo Brutus. De acordo com lógica vigente há quem diga que quem votou em Cristo votou em Judas, e quem votou em Tiradentes também votou em Joaquim Silvério, e assim por diante. Fato é que a história não costuma ser muito simpática a tais personagens, não por acaso malhadas em celebrações até hoje típicas nas cidades. Michel Temer, talvez, tenha calculado mal o peso do tempo, embotado pela fricção momentânea que a estimativa de poder é capaz de causar. Em cima agora, de baixo para sempre.

Ladainha do amor sem fim

“O que faz de nós o que somos é inatingível e incompreensível. Entregar-se ao amor dá alguma ideia do que é irreconhecível. Nada mais importa no final das contas.” Josephine Hart

Pintura Dois Amigos de Toulouse-Lautrec

A onça escapa ligeira como tua área. O estampido é um tiro de espingarda. O labor das nuvens cor de argila não contém a fúria do animal em perigo. Carente de sangue, fibra, sais minerais, proteína. Meses passam numa tarde, num dia. Revelam os ossos do corpo firme em carne da onça em perigo. O velho osso roído não é cachorro, gato ou passarinho. Uma onça: uma cigana: uma mulher: clandestina. Aonde quer que vá: clandestina. Ágata: uma rouquidão da mudança de tempo ou do cigarro: Maria: barba-ruiva cor da palmeira verde-água: uma vaca malhada: um cavalo: ao longe, salmos: preta e branca masca chiclete, mato, palha: o serro: a serragem: o cerrado. Mimosa cidade.

A bandeira gasta da ruína grega. Quem tem um bem de fato sabe que o tamanho importa pouco, pode ser uma ponta de agulha, uma lembrança, uma ausência: sempre renasce. Apenas um sinal, um presságio. Sabe que eles existem: e estes, sob cortina de fumaça tóxica: nenhuma: tornam-se transparentes. Sob o sol de couro, fibra, fios, tecido, tinta: brutalizam todos os dias: é preciso menos motivos para o lamento cotidiano, mais elementos para a esparsa alegria. Refletidos nos retrovisores, viram a vida passar a meio metro dos calcanhares de Aquiles. O orgulho não é conotação de elogio segundo premissas da boa convivência.

Somos todos iguais?

“Nestas noites, na Itália inteira, há telescópios voltados para o céu. As luas de Júpiter não barateiam o leite. Mas nunca foram vistas, e agora existem. O homem da rua conclui que poderiam existir muitas outras coisas também, se ele olhasse melhor.” Bertolt Brecht

Os Operários, obra de Tarsila do Amaral

Um dos fundamentos da cultura, mas, sobretudo, da arte, é que ela gera perspectiva, te tira do lugar de conforto ou lhe permite colocar-se no tão famoso lugar dos outros. Mais do que isto, abre (não fecha) parênteses, expande as possibilidades, sublima e fricciona os horizontes, em suma, oferece a liberdade, pois a mortal função da arte é propor a liberdade, ou, ao menos, alguma libertação. Daí que as pessoas percam de vista sua importância, pois impalpável, afinal de contas ela age sobre os modos, comportamentos, visões, e, em última análise, sobre o coração, pois é seu dever transformar não através de teses elaboradas e argumentos com prazo científico de validade, mas através da emoção, tocando-nos. Tenho uma regra básica para definir se algo me comoveu no terreno da arte: é preciso arrepiar-me. A partir deste instinto, deste gesto, percebo e descubro se algo me agradou ou não, e, só depois disso, parto para elaborar a análise em cima da crítica das qualidades e falhas.

Entrevista: Bruna Kalil Othero, a voz e o corpo da nova poesia

“mastiguei
a poesia
com meus dentes civilizatórios
comi
as suas carnes
degustei-lhe
os ossos” Bruna Kalil Othero

Bruna Kalil publicou livro de poesias aos 20 anos

Embora exista quem diga que para o poeta o silêncio é um sinal de perfeição, Bruna Kalil Othero começa com palavras “anônimas por serem voz do povo”, como diria Jorge Amado, e que bem prescindiriam de aspas, mas que ela faz questão de assinar para se juntar ao coro. “Primeiramente, Fora Temer”, declara. Em seguida ao agradecimento pelo convite para a entrevista, a mineira da capital nascida numa primavera do ano de 1995 começa a traçar o próprio percurso por palavras que muitas das vezes nascem não se sabe de onde e vão para qualquer lugar, ou para todos os lugares, tal sua amplidão e sede de liberdade. “Eu já queria publicar desde os 15 anos de idade. Aos 19, já com a gaveta cheia, percebi que havia um livro ali. Encontrei uma estética norteadora – aqui, o quase – e organizei os poemas. Com a organização feita, fui à caça de editoras. Recebi alguns orçamentos, caríssimos inclusive, mas não queria publicar nesse esquema, que é o mais comum para autores iniciantes, infelizmente. Daí encontrei o Gustavo Abreu, editor da Letramento. Conversamos, ele gostou do projeto e seguimos parceiros até hoje”, celebra.

Como se constata, Bruna, aos 21 anos incompletos, publicou o primeiro livro aos 20, “Poétiquase”, no ano passado. Afora isso, sua experiência catalogada inclui também participação na antologia “Sarau Brasil”, de 2014, e nas publicações “O Emplasto” e “Germina – Revista de Literatura e Arte”. Com o poema “Memória Estéril” venceu recentemente, em julho, o prêmio Maria José Maldonado de Literatura, da Academia Volta-redondense de Letras.  Nele estão presentes os versos: “não insisto na memória/das coisas obsoletas/as cartas os namorados os poemas que escrevo/são filhos bastardos/sem colo/sem tetas”. Estudante de Letras na UFMG, a escritora empreende pesquisa que analisa a presença do corpo na poesia contemporânea brasileira de autoria feminina, publica em blogs, já escreveu peças de teatro, romance, contos e promete novo livro de poesias para o ano que vem. “Guardo um tanto de coisas novas na gaveta, leia-se Google Drive”, brinca. Para quem quiser encontrá-la, para além dos livros, Bruna também tem realizado e participado de diversos saraus e eventos ligado à literatura e as artes em geral na sua cidade.