Ressentimento

“Seguiu-se um silêncio que circulou pelo quarto como um pássaro encurralado.” Truman Capote

auto-retrato com colar de espinhos

Ondas de ressentimento o encontravam pronto ao choque. Nutria-se lentamente. Como o beija-flor que vinha a beijar a água colocada para ele nos reservadores da casa. Rapidamente encostava o bico, pegava o suprimento, arfava vôo.

Depois tornava, o reservatório à espreita, esperando. Para lhe dar sempre mais um gole do liquido que mantém o plano no ar. Galhofa. Arrepia-se. Sucede às asas. Era acusado dum humor permanente. Com a cabeça encostada em anzóis invisíveis, avistavam-no encurvado, soçobrando fundos, atrás de peixes, com minhocas nos lábios.

Produtos naturais

“no começo assim como quem cava um poço no deserto, depois, aos poucos, sentindo a areia mais úmida, uns filetes d’água brotando lentamente, até agora, quando me sinto na iminência de mergulhar o corpo nesse lago (talvez mar)-eu-os outros-cosmos, não sei.” Caio Fernando Abreu

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Claudete não é Soares, nem queria ser cantora. À verdade, desconheço-lhe sobrenome. Aviso sua profissão tão antiga quanto outras: servir aos homens. Pode-se identificá-la (Claudete, a secretária) facilmente como uma solteirona macilenta que fuma ou inala litros de cigarro entre telefones ocupados e surdos, crispados por um amarelo ocre.

Estes (os cigarros, não os telefones) Claudete pede ao velho pai que sempre a amola com questões sobre impotência, que os compre. Não que ele seja um velho tarado, nem que não seja. É que Claudete sem sobrenome trabalha vendendo produtos naturais que ajudam o homem (e a mulher) a ter desempenho melhor esperado na cama. Como já deve ter dado para perceber, são produtos energéticos e revigorantes.

Os Últimos Dias De Paganini

“Agora, a furtiva serpente desliza
Na dócil humildade
E o justo enfurece nos desertos
Onde vagam os leões.” William Blake

Paganini

Cansado dos boatos a seu respeito. Acalmar os nervos. Copo d’água com açúcar. Vê-se no espelho com ossos a intimidar a rotina. Frívolo, ferve numa xícara rosa a mistura. Prepara chá de amendoeiras. Sacode as ancas que ainda lhe restam. Pressionadas. Distendidas. Extensas. Recolhe as pernas compridas e largas à cadeira de palha a incinerar cortina defronte lareira aquecida. Febre. Gripe. Simulações esquisitas. Há o que não entendo.

O que sobrar ao manejo serve para cutucar risos, relva, raiva. Austero. Copo se quebra. Despedaça de sua mão fragilizada em ramos circulares. Outrora insano, agora contemplativo. Restabelece memórias no coração enferrujado. Capim, palha. Óleo acende tuas olheiras. Conduz eletricidade.

O escritor dos silêncios

“Tudo aquilo para que temos palavras é porque já ultrapassamos.” Nietzsche

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Nunca sequer disse uma palavra. Seus livros eram páginas em branco. Emanava.

Não alcançara nada porque sempre esteve todo. Chegara ao ponto máximo. Almejado por todos entre todos os escritores, sem nunca ter pronunciado: Não tinha o que dizer.

Não utilizava palavras, conjunções verbais, imagens, sons, metáforas, linguística, gramática: Ultrapassara.

Pérola da noite

“para um poeta, a fantasia é a realidade e a realidade nada significa.” Oscar Wilde

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Peça teatral: Gângsters. Discussão: o que arranjar com pérola da noite. Quantos: quatro. Características pessoais: todos armados. Fisionomia: um gordo, dois fortes, outro alto. Fumam: charutos. Bebem: em copos quadriculados. Substância: desconhecida. Relatório para futuras providências.

Pérola da noite está amarrada no sótão. Não no porão. O cheiro ralo atrapalharia seu penteado. São loiros seus finos fios de cabelos dourados. Entretida com um espelho, passa batom nos carnudos lábios (cor: vermelha) e se diverte ouvindo a discussão no andar de baixo. Possuidora de seios fartos e um traquejo infalível para diferenciar whisky de rum, é, no entanto, solitária.

Or(Leans)DEM e Bragança: Progresso (?)

“há um país lutando por baixo com a bola nos pés” Wally Salomão

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Estava aquele rapaz como outro qualquer, que nada tinha de especial, impressionado com aquela vista. Mansões enormes, dignas de serem comparadas aos castelos fabulosos que ele ouvira falar na infância e vira no cinema das comédias americanas. Três, quatro, cinco andares em um único espaço, quase tão ou mais impressionantes que a grandiosidade dos maiores prédios que já havia visto. Recheados de janelas, varandas, quintais, portas, portões, portais.

Homens de preto e cara amarrada fechavam-se em pequenas casinhas embutidas nos casarões. Jardins que não possuíam apenas o verde clássico que ele apreciara muitas vezes em filmes, livros e fotos de cartão postal. Não, ali naqueles jardins que pareciam florestas havia de todas as cores, tantas cores que eram inclusive mais cores que as cores do arco-íris. Tantas flores que eram inclusive mais flores que as flores do buquê de rosas da dama do filme.

Entrevista: Luís Capucho vai tirar você desse lugar

“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso!” Jack Kerouac

Luis-Capucho

Quando Cássia Eller o gravou em 1999 pouca gente procurou saber quem era o autor dos versos de “Maluca”. Quando Ney Matogrosso anunciou que o gravaria em 2013, muita gente foi atrás do homem do “Cinema Íris”. Por conta de versos sobre masturbação e mudanças no projeto, Ney não registrou a música de Luís Capucho. “O disco mudou de rumo, ele achou dificuldade no projeto e não sei se irá retomá-lo”, explica o entrevistado.

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, Capucho, que é cantor, músico, artista plástico e escritor, não vê ligação da arte que pratica com os outros filhos ilustres do município. “Não sou parte dessa tradição de artistas em Cachoeiro. Não sinto que eu faça parte de um núcleo que a cidade tenha produzido. É uma coincidência”, afirma. Além de Capucho, os músicos Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Raul Sampaio nasceram lá.

Nu colo

“Esta desmaterializava o compacto.” Clarice Lispector

Jacopo_Tintoretto_A Dama que descobre os seios

Uma mulher negra com um bebê branco no colo. Face coberta, não tem os olhos. Aranha de pelos e braços longos: gérmen gruda nu cólon. A aranha tece a teia rapta o inseto minúsculo. Só sei que ela morre. E o filhote sobrevive.

Porque aconteceu algo durante a noite. E eu estava lá. Mas era dia. Mas os carros não a deixavam passar. E ela nem se sabe se quer atravessar a rua. Ela uma mulher negra. NA RUA. Ele um bebê branco. NO COLO.

Inofensivo

“Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou
sublime.” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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– A conversa que nunca houve faz falta. As ondas assobiavam na sua passagem. Tia Sueli, a mulher traída. Uma pilhéria de ossos e fendas. Abriam pele e carne, onde encontraram apenas coração. Esferas nos olhavam aquela noite. Olham tudo que está morto, ladeado de feéricas atitudes passíveis amordacei a colmeia, como comédia de costumes e erros, quem pensa após o jantar na rotunda sesta. Sabor de hibisco lavrava a mor te. Aquiles, nosso herói grego, descansava em terras morenas, cantilenas indígenas, peito da mãe virgem. Queria tanto para mim um Ser sem compromisso. Um Deus que me negasse isso ou aquilo, mas no final das contas fizesse as pazes comigo. Nisso todos morremos, vivemos também. Levita a Cordilheira dos Andes onde trafegam carícias e cicatrizes.

Entrevista: O Grande Amor de Ana Terra

“Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras” Ana Terra

Ana-Terra

Não é por acaso que as letras de Ana Terra parecem cartas de amor. Embora muita gente não saiba é ela a mulher por trás de versos cantados na boca de Nana Caymmi, Milton Nascimento, Angela Ro Ro, e vários outros. Pois como num passe de mágica tudo começou de forma inesperada, até para a dona do condão. Tanto que ela tem dúvidas em considerar qual a primeira letra de música composta, mas nenhuma em apontar a mais especial dentre todas. “‘Meu menino’, por ter sido apenas um bilhete que deixei para Danilo Caymmi quando começamos a namorar, nunca imaginando que um dia ele musicaria e seria gravada por Nana e Milton”, revela.

Com a espontaneidade e despretensão dos grandes compositores, Ana desfia mais contornos dessa história. “Era apenas uma forma de dizer que adorava seu lado brincalhão de moleque e que meu amor não significava uma posse. Muitas pessoas me dizem que é tudo que uma mulher gostaria de dizer para um homem e que um homem gostaria de ouvir”. Como se não bastasse, além da aclamação popular, a canção recebeu o aval do sogro da letrista, aquele considerado o maior compositor da Bahia, e um dos imortais dentro do cancioneiro nacional. “Da minha parceria com Danilo, essa era a que Dorival mais gostava” orgulha-se.