Uvas maduras

“Flor de cactos – A flor de cactos é suculenta, às vezes grande, cheirosa e de cor brilhante: vermelha, amarela e branca. É a vingança sumarenta que ela faz para a planta desértica: é o esplendor nascendo da esterilidade despótica.” Clarice Lispector

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Cesto trançado por Baco. Flâmula fleuma a perscrutar narinas dispostas. Preguiçoso Deus Romano da Orgia, da Ebriedade, do Sexo, dos Excessos, das Uvas! Sim, das Uvas. Arrulhando sob pés descalços e cantarolantes. Inventar palavra, pode?

Falar que Baco é o Deus casto das Uvas, pode? Onde já se viu falar que Baco é o Deus do Vinho?

Antes do Vinho há a Uva, ébrios raros. Na origem está a maledicência descoberta: Uvas. A beleza de chupar Uvas maduras. Puras. Não modificadas pelo homem. Porque o Vinho é prazer Terreno, a Uva é prazer dos Céus. Genuína bola de gude leve, gostosa.

rosa azul

“Detesto coisas dignas, impecáveis, engomadas, lavadas com anil: aceito nos outros, levando em conta, inclusive, o tempo em que foram feitas. Mas não é mais tempo de solidez: a literatura tem que ser de transição, como o tempo que nos cerca.” Caio Fernando Abreu

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Uma rosa num copo d’água. Mesmo que não haja motivo, sombreei cravos presos, botões de rosa já sem vida. Abraça-me na minha carência. Estou me tornando cada noite mais cobra-coral. A gente está incrivelmente sozinho nosso mundo. Tenho os olhos hirtos, pedregulhos massageiam-me a barriga deslizante entre musgos e muros. Na hora do despedaçar da rosa, quando não flui o perfume. Amor já não adianta nada. Ou tudo.

Revelações

“Palavras, quero-as antes como coisas.” Adélia Prado

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Comportava. Sim, a amizade comportava declarações. Revelações, de fato não. Mas a tessitura estabelecida já se encaminhava para o destino trágico. Confissões, essas ocorriam mais raramente. Incrustados e jamais dizíveis no espaço tampouco se clamavam, mas um atendia pelo outro ao menor solfejo.

Juba gasta pinicando as bochechas era a maneira de aproximar-se. Abria-a lentamente as pétalas, como uma lata de leite condensado cortada, e entrava o muxoxo rouco. Sonoro, porém pouco.

Ressentimento

“Seguiu-se um silêncio que circulou pelo quarto como um pássaro encurralado.” Truman Capote

auto-retrato com colar de espinhos

Ondas de ressentimento o encontravam pronto ao choque. Nutria-se lentamente. Como o beija-flor que vinha a beijar a água colocada para ele nos reservadores da casa. Rapidamente encostava o bico, pegava o suprimento, arfava vôo.

Depois tornava, o reservatório à espreita, esperando. Para lhe dar sempre mais um gole do liquido que mantém o plano no ar. Galhofa. Arrepia-se. Sucede às asas. Era acusado dum humor permanente. Com a cabeça encostada em anzóis invisíveis, avistavam-no encurvado, soçobrando fundos, atrás de peixes, com minhocas nos lábios.

Produtos naturais

“no começo assim como quem cava um poço no deserto, depois, aos poucos, sentindo a areia mais úmida, uns filetes d’água brotando lentamente, até agora, quando me sinto na iminência de mergulhar o corpo nesse lago (talvez mar)-eu-os outros-cosmos, não sei.” Caio Fernando Abreu

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Claudete não é Soares, nem queria ser cantora. À verdade, desconheço-lhe sobrenome. Aviso sua profissão tão antiga quanto outras: servir aos homens. Pode-se identificá-la (Claudete, a secretária) facilmente como uma solteirona macilenta que fuma ou inala litros de cigarro entre telefones ocupados e surdos, crispados por um amarelo ocre.

Estes (os cigarros, não os telefones) Claudete pede ao velho pai que sempre a amola com questões sobre impotência, que os compre. Não que ele seja um velho tarado, nem que não seja. É que Claudete sem sobrenome trabalha vendendo produtos naturais que ajudam o homem (e a mulher) a ter desempenho melhor esperado na cama. Como já deve ter dado para perceber, são produtos energéticos e revigorantes.

Os Últimos Dias De Paganini

“Agora, a furtiva serpente desliza
Na dócil humildade
E o justo enfurece nos desertos
Onde vagam os leões.” William Blake

Paganini

Cansado dos boatos a seu respeito. Acalmar os nervos. Copo d’água com açúcar. Vê-se no espelho com ossos a intimidar a rotina. Frívolo, ferve numa xícara rosa a mistura. Prepara chá de amendoeiras. Sacode as ancas que ainda lhe restam. Pressionadas. Distendidas. Extensas. Recolhe as pernas compridas e largas à cadeira de palha a incinerar cortina defronte lareira aquecida. Febre. Gripe. Simulações esquisitas. Há o que não entendo.

O que sobrar ao manejo serve para cutucar risos, relva, raiva. Austero. Copo se quebra. Despedaça de sua mão fragilizada em ramos circulares. Outrora insano, agora contemplativo. Restabelece memórias no coração enferrujado. Capim, palha. Óleo acende tuas olheiras. Conduz eletricidade.

O escritor dos silêncios

“Tudo aquilo para que temos palavras é porque já ultrapassamos.” Nietzsche

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Nunca sequer disse uma palavra. Seus livros eram páginas em branco. Emanava.

Não alcançara nada porque sempre esteve todo. Chegara ao ponto máximo. Almejado por todos entre todos os escritores, sem nunca ter pronunciado: Não tinha o que dizer.

Não utilizava palavras, conjunções verbais, imagens, sons, metáforas, linguística, gramática: Ultrapassara.

Pérola da noite

“para um poeta, a fantasia é a realidade e a realidade nada significa.” Oscar Wilde

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Peça teatral: Gângsters. Discussão: o que arranjar com pérola da noite. Quantos: quatro. Características pessoais: todos armados. Fisionomia: um gordo, dois fortes, outro alto. Fumam: charutos. Bebem: em copos quadriculados. Substância: desconhecida. Relatório para futuras providências.

Pérola da noite está amarrada no sótão. Não no porão. O cheiro ralo atrapalharia seu penteado. São loiros seus finos fios de cabelos dourados. Entretida com um espelho, passa batom nos carnudos lábios (cor: vermelha) e se diverte ouvindo a discussão no andar de baixo. Possuidora de seios fartos e um traquejo infalível para diferenciar whisky de rum, é, no entanto, solitária.

Or(Leans)DEM e Bragança: Progresso (?)

“há um país lutando por baixo com a bola nos pés” Wally Salomão

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Estava aquele rapaz como outro qualquer, que nada tinha de especial, impressionado com aquela vista. Mansões enormes, dignas de serem comparadas aos castelos fabulosos que ele ouvira falar na infância e vira no cinema das comédias americanas. Três, quatro, cinco andares em um único espaço, quase tão ou mais impressionantes que a grandiosidade dos maiores prédios que já havia visto. Recheados de janelas, varandas, quintais, portas, portões, portais.

Homens de preto e cara amarrada fechavam-se em pequenas casinhas embutidas nos casarões. Jardins que não possuíam apenas o verde clássico que ele apreciara muitas vezes em filmes, livros e fotos de cartão postal. Não, ali naqueles jardins que pareciam florestas havia de todas as cores, tantas cores que eram inclusive mais cores que as cores do arco-íris. Tantas flores que eram inclusive mais flores que as flores do buquê de rosas da dama do filme.

Entrevista: Luís Capucho vai tirar você desse lugar

“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso!” Jack Kerouac

Luis-Capucho

Quando Cássia Eller o gravou em 1999 pouca gente procurou saber quem era o autor dos versos de “Maluca”. Quando Ney Matogrosso anunciou que o gravaria em 2013, muita gente foi atrás do homem do “Cinema Íris”. Por conta de versos sobre masturbação e mudanças no projeto, Ney não registrou a música de Luís Capucho. “O disco mudou de rumo, ele achou dificuldade no projeto e não sei se irá retomá-lo”, explica o entrevistado.

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, Capucho, que é cantor, músico, artista plástico e escritor, não vê ligação da arte que pratica com os outros filhos ilustres do município. “Não sou parte dessa tradição de artistas em Cachoeiro. Não sinto que eu faça parte de um núcleo que a cidade tenha produzido. É uma coincidência”, afirma. Além de Capucho, os músicos Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Raul Sampaio nasceram lá.