19 encontros incríveis entre música e literatura no Brasil

“– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Manuel Bandeira

A música “Língua” fechava o disco gravado por Caetano Veloso em 1984. “Velô” trazia parcerias com nomes ligados à literatura, casos dos poetas Augusto de Campos, Wally Salomão e Antonio Cícero. A faixa, em especial, era recheada de citações a escritores de variados gêneros, estilos e épocas: passava dos clássicos Luís de Camões e Olavo Bilac aos consagrados Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, chegando até ao contemporâneo Glauco Mattoso.

Mas, como numa ironia, ao fim Caetano determinava a superioridade musical quando o assunto era o idioma português: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão”, cantava o baiano, acompanhado por Elza Soares. Ele próprio lançaria, em 1997, o livro “Verdade Tropical”, espécie de ensaio que oferecia um olhar agudo sobre a cultura brasileira. Fato é que músicos de todas as gerações têm se arriscado cada vez mais a desmentir a máxima proferida pelo mentor tropicalista.

Beijar é uma arte! 15 manifestações culturais sobre o beijo

“Profundezas de rubi não drenadas
Escondidas num beijo para ti;
Faz de conta que esta é um beija-flor
Que ainda há pouco me sugou.” Emily Dickinson

Compositor, produtor e instrumentista mineiro, Geraldo Vianna colocou em todas as plataformas digitais seu mais novo trabalho, “O Beijo – Um poema musical”, na última quinta-feira (13), data em que se comemora o Dia Internacional do Beijo. O álbum apresenta 14 faixas que refletem sobre o tema, algumas em parceria, como no caso de “O Beijo”, assinada com Fernando Brant. Além disso, uma obra do compositor erudito Robert Schumann ganhou letra de Murilo Antunes. “O beijo é um gesto, uma atitude que atravessa a história da humanidade e representa momentos importantes em nossa vida, nos conduzindo a várias experiências e sentimentos. Desde o carinho, o respeito e a sensualidade, até o beijo histórico que induz à traição. Além de tudo isso ele nos dá várias formas de prazer”, infere Geraldo. O disco, que sofreu “influências literárias de Florbela Espanca, Castro Alves e García Lorca”, vai ser apresentado em show ainda no primeiro semestre deste ano, mas não tem previsão de ser lançado em edição física. Vianna define o trabalho como “uma declaração de que a música mora no meu coração”.

O chocalho da cobra

“Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!” Mario Quintana

O chocalho da cobra prepara seu bote

O escritor irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900) afirma que “nada é tão perigoso como ser moderna demais. Fica-se com uma tendência a virar antiquada de repente”. Por outro lado existe uma piada produzida para a televisão baseada em séculos tão passados que o protagonista garante que nada substitui o texto escrito sobre a pedra, pelo valor de toque e materialidade que essa experiência proporciona, até que ela cai e se espatifa no chão. Há ainda definições que um dia me vieram como forma de poesia livre: À frente do seu tempo é um homem ansioso. Um homem do seu tempo é um sujeito conformado. Um homem do passado, esse sim, é um clássico.

O caráter provocativo dos três exemplos serve para relativizar a discussão em torno dos suportes e determinar o quanto temporalmente as inovações tendem a uma natureza cíclica. Essa não reverência ao novo simplesmente por esse aspecto é o que pode levar a uma relação de profundidade com as tecnologias que se insurgem, mais destacadamente o virtual, cuja dimensão de fronteira entre definições limítrofes traz à tona outra máxima poética valorosa, desta feita do poeta gaúcho Mario Quintana (1906 – 1994): “o fato é um aspecto secundário da realidade”. O que significa aqui interpretar que a PRESENÇA do VIRTUAL é hoje, ironicamente, irrefutável.

Quem são os melhores?

“A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas ou gafanhotos. Ela não é uma deusa que possa gerar inquisidores de escalpelo e microscópio, pois devemos sempre julgá-la com a cartesiana dúvida permanente. Não podemos oprimir em seu nome.” Lima Barreto

O Grito, pintura de Edvard Munch

Por que tanto medo da subjetividade? A pergunta deveria estar direcionada ao próximo e semelhante, mas a guardei para mim. Chega a ser engraçada, para não dizer ridícula, a crença de alguns jornalistas sobre os adjetivos. Havemos de concordar num ponto: esse tal valor absoluto da qualidade já foi varrido, e não é de hoje. Se critérios elementares afeitos à técnica e circunstância nunca foram suficientes para julgar arte, e essa percepção instalou-se soberanamente sobre as cabeças desde a vanguarda (seja lá o que esta expressão alcance) só há um motivo para aqueles que se consideram especialistas no assunto se manterem presos a rédeas do passado. Ou melhor, dois: cisma de importância e defesa de mercado. Se toda opinião vale tanto quanto pesa a insustentável leveza do ser, qual seja: quase nada, logo, qual é o meu papel nesse mundo?

Música e poesia: 11 poetas que viraram disco no Brasil

“animal em extinção,
quero praticar poesia
– a menos culpada de todas as ocupações.” Wally Salomão

Poetas que viraram disco no Brasil

Desde o trovadorismo os caminhos da música e da poesia se cruzam. Dando continuidade à essa tradição o paulista Cristiano Gouveia e a mineira Irene Bertachini lançaram, no último domingo (12), o disco “Lili Canta o Mundo!”, em que musicaram poemas de Mario Quintana. E o movimento não é novidade na música brasileira, que tem, por hábito, levar os versos livremente pelas notas das canções.

7 Faces Musicais do Poeta Drummond

“A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.” Carlos Drummond de Andrade

Poesias de Drummond viram música

“parti-me para o vosso amor/que tem tantas direções/e em nenhuma se define/mas em todas se resume”. Para interpretar ao poeta – o dono dos versos – ninguém melhor do que ele próprio. No entanto, Carlos Drummond de Andrade teve sua escrita transformada não apenas na cabeça e coração dos leitores, como também através da música e do cinema. Sete faces que se transmudam em outras na obra daquele que tinha uma palavra de sua predileção: “taciturno”.

O Amigo da Onça

“O fantasma é um exibicionista póstumo.” Mario Quintana

Nem que a vaca tussa existe país no mundo mais pródigo em ditados do que esta terra de cego aonde quem tem um olho é rei. Dizem que este ouro em pó, tal diamante de sangue, como madeira de lei, é herança dos escravos trazidos da África, que não tomavam manga com leite e para tirar leite de pedra se comunicavam uns com os outros dessa maneira sem ter de engolir o sapo. Se quem veio antes, o ovo ou a galinha, não convém reclamar de barriga cheia, porque quem pega no pé ainda lhe puxam a orelha. São ossos do ofício, e dá pano pra manga tentar dar um nó em pingo d’água, coisa de quem tem um parafuso a menos. É muita cara de pau fazer um negócio da China a preço de banana. Segura que lá vem chuva de canivete. Já vi gente ficar tanto tempo com uma pulga atrás da orelha que acabou soltando os cachorros. Tinha o diabo no corpo. É como dizem, quem cedo madruga, Deus ajuda. Quem tarde se deita, o diabo aceita. Força de expressão, ou fraqueza do espírito de porco. Cada macaco no seu galho é a receita ensinada para não ter de pagar o pato.

Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

O Amor do Outro

“Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento.” Clarice Lispector

Salvador Dalí foi o mestre do surrealismo na pintura

Num movimento involuntário, que até então julgara incapaz, e infundado, escreve mais um acorde. Morosa vem a serpente a sibilar injúrias no teu ouvido, de marfim vêm as esculturas puxadas por pretos guindastes, pedras levadas à vida, cores levadas à tela, por Rafael: o virtuoso, o desbravador, o gênio. Ao que o artesão supera o artista, o maestro suprime toda uma orquestra e o discípulo ao redor do mestre profere palavras de esborro qual hélices desmilinguidas num liquidificador. Jorra o caldo para todos os lados, e eu, o único até o momento inconsolável, resolvo me juntar à esbórnia: danço sobre a velha mesa, rodopio os braços, caio de quatro, lambo o assoalho fedendo a cigarros e cerveja choca, dou aos ouvintes o que de mim querem: o vexame, a súplica mal feita, o ridículo.

Análise: Ferreira Gullar foi poeta de várias faces

“Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho – o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.” Ferreira Gullar

Ferreira Gullar foi poeta, ensaísta, crítico e compositor

Antes de tornar-se clássico, Ferreira Gullar percorreu trilha em movimentos importantes da poesia brasileira. Afora rótulos sua obra, marcadamente de acento grave, caracterizou-se, do início ao fim, pela passionalidade, que o diga sua mais célebre definição do ofício: “poesia nasce do espanto”. Quando de sua mais ambiciosa proposta estilística, ao desejar “explodir com a linguagem”, o que reportou acerca de “A Luta Corporal”, ainda assim Ferreira não foi capaz de desvencilhar-se, por completo, de certa lírica, certo lirismo. Natural do Maranhão Gullar despertou ao longo da existência sentimentos díspares: foi alvo da admiração de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto e do desprezo de Augusto de Campos e seus pares no neoconcretismo brasileiro. Nada que tenha influenciado, a rigor, o melhor de sua poesia, baseada entre as décadas de 1950 e 1980, período em que o país também mudou radicalmente.