Música e poesia: 11 poetas que viraram disco no Brasil

“animal em extinção,
quero praticar poesia
– a menos culpada de todas as ocupações.” Wally Salomão

Poetas que viraram disco no Brasil

Desde o trovadorismo os caminhos da música e da poesia se cruzam. Dando continuidade à essa tradição o paulista Cristiano Gouveia e a mineira Irene Bertachini lançaram, no último domingo (12), o disco “Lili Canta o Mundo!”, em que musicaram poemas de Mario Quintana. E o movimento não é novidade na música brasileira, que tem, por hábito, levar os versos livremente pelas notas das canções.

7 Faces Musicais do Poeta Drummond

“A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.” Carlos Drummond de Andrade

Poesias de Drummond viram música

“parti-me para o vosso amor/que tem tantas direções/e em nenhuma se define/mas em todas se resume”. Para interpretar ao poeta – o dono dos versos – ninguém melhor do que ele próprio. No entanto, Carlos Drummond de Andrade teve sua escrita transformada não apenas na cabeça e coração dos leitores, como também através da música e do cinema. Sete faces que se transmudam em outras na obra daquele que tinha uma palavra de sua predileção: “taciturno”.

O Amigo da Onça

“O fantasma é um exibicionista póstumo.” Mario Quintana

Nem que a vaca tussa existe país no mundo mais pródigo em ditados do que esta terra de cego aonde quem tem um olho é rei. Dizem que este ouro em pó, tal diamante de sangue, como madeira de lei, é herança dos escravos trazidos da África, que não tomavam manga com leite e para tirar leite de pedra se comunicavam uns com os outros dessa maneira sem ter de engolir o sapo. Se quem veio antes, o ovo ou a galinha, não convém reclamar de barriga cheia, porque quem pega no pé ainda lhe puxam a orelha. São ossos do ofício, e dá pano pra manga tentar dar um nó em pingo d’água, coisa de quem tem um parafuso a menos. É muita cara de pau fazer um negócio da China a preço de banana. Segura que lá vem chuva de canivete. Já vi gente ficar tanto tempo com uma pulga atrás da orelha que acabou soltando os cachorros. Tinha o diabo no corpo. É como dizem, quem cedo madruga, Deus ajuda. Quem tarde se deita, o diabo aceita. Força de expressão, ou fraqueza do espírito de porco. Cada macaco no seu galho é a receita ensinada para não ter de pagar o pato.

Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

O Amor do Outro

“Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento.” Clarice Lispector

Salvador Dalí foi o mestre do surrealismo na pintura

Num movimento involuntário, que até então julgara incapaz, e infundado, escreve mais um acorde. Morosa vem a serpente a sibilar injúrias no teu ouvido, de marfim vêm as esculturas puxadas por pretos guindastes, pedras levadas à vida, cores levadas à tela, por Rafael: o virtuoso, o desbravador, o gênio. Ao que o artesão supera o artista, o maestro suprime toda uma orquestra e o discípulo ao redor do mestre profere palavras de esborro qual hélices desmilinguidas num liquidificador. Jorra o caldo para todos os lados, e eu, o único até o momento inconsolável, resolvo me juntar à esbórnia: danço sobre a velha mesa, rodopio os braços, caio de quatro, lambo o assoalho fedendo a cigarros e cerveja choca, dou aos ouvintes o que de mim querem: o vexame, a súplica mal feita, o ridículo.

Análise: Ferreira Gullar foi poeta de várias faces

“Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho – o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.” Ferreira Gullar

Ferreira Gullar foi poeta, ensaísta, crítico e compositor

Antes de tornar-se clássico, Ferreira Gullar percorreu trilha em movimentos importantes da poesia brasileira. Afora rótulos sua obra, marcadamente de acento grave, caracterizou-se, do início ao fim, pela passionalidade, que o diga sua mais célebre definição do ofício: “poesia nasce do espanto”. Quando de sua mais ambiciosa proposta estilística, ao desejar “explodir com a linguagem”, o que reportou acerca de “A Luta Corporal”, ainda assim Ferreira não foi capaz de desvencilhar-se, por completo, de certa lírica, certo lirismo. Natural do Maranhão Gullar despertou ao longo da existência sentimentos díspares: foi alvo da admiração de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto e do desprezo de Augusto de Campos e seus pares no neoconcretismo brasileiro. Nada que tenha influenciado, a rigor, o melhor de sua poesia, baseada entre as décadas de 1950 e 1980, período em que o país também mudou radicalmente.

Um único lance de dados

“Poesia é um jogo onde o perdedor ganha tudo.” Jean-Luc Godard

Pintura revela genialidade de Pablo Picasso

Exijo um honrado fim. Mas ele não vem, ele não vem, ele não vem… Somente os três pontinhos, pontilhados, como farelos de polvilho… Exijo um honrado fim. Sim, exijo. Como o Rei, exijo uma roupa nova… E me vestiram nu, e debocharam da inteligência humana… Sou o Rei… Na roupa espetaculosa… A desfilar nas folhas deste livro… Inacabado… Espero os aplausos, que me recebam de braços erguidos, flores, em trapos… Gritem, urrem, se joguem na lama… Ergam vivas e salves… Admirem-me a elegância e o fluir das linhas a costurar a roupa desse Rei pelado… Sobre as palavras desrespeitarem… Ah, sobre as palavras desrespeitarem…

O Sonho da Vida

“Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!” Florbela Espanca

William Turner pintou os mares e tempestades de sua época

Arrancar pedaço? Arrancar pedaço. Todos querem arrancar pedaço. A mãe de João Cornélio na cama nova. Grilo entre frutas e doces. A senhora, um leve buldogue. O Gordo e o Magro. Tânia, a tabeliã. Das Neves e o manto furado. Maria, Marina e a cobra. Vanessa e o seu decote. Fernanda e Leonardo. Aline na beira do lago. Zaira uma massa gorda. Leva dinheiro, arranca estacas. Nada se prende, nada se afoga, nada é profundo. A flor no chão, atropelada, que convidou, serviu o chá. Não existe mais. A onça fanha, ou era flor? Ou era Ágata? Ou era Jade? Muda o nome, mudam os rostos, muda o enterro, e até o defunto, mas o cavalo ainda é um bode. Por entre casas, e cemitérios, e até cortinas, desejos feitos, e as meninas, tão comportadas, a virgindade, deixaram em casa, só para os pais, ainda são santas. Giram os peões. Giram os cachorros. Giram os ossos. Do velho padre: Homero bravo, batina roxa. E a berinjela, aos degradados: tosca, amarela. Uma cidade. E a tal cigarra? Mas as formigas a devoraram. Passa subterrânea, ninguém vai ver: o nosso estrago. Uma cigana previu o futuro. Hoje está morta. E tem certeza. De que a vida. É um grande sonho.

O menino ladrão de goiabas

“namoram na sombra da parede onde a árvore derrama sua chuvarada escura de flores.” Virginia Woolf

Obra de Giorgio Morandi retrata crônica de Raphael Vidigal

Se eu sou um mistério para mim, por que deixar de sê-lo para os outros? Há tártaro nas janelas. Existe tártaro nos poemas. O tártaro, onde quer que ele esteja, não é evasão de morte, mas impressão de vida. O tártaro dá plasticidade à cena. O tártaro suja o poema. O tártaro confere ao ambiente sua condição espessa. Eliminar todas as clemências, todas as luzes brandas, todas as preces. Para que reste a ausência consentida. Que existiu somente para o nosso descaso. Um poço de sabedoria afogado em tramas e veleidades. Passa: com desgosto, sem saber, ao largo. Passa: não tem queijo, garfo ou faca. Cascão, cascudo, casca. Tem problemas, sérios problemas, por isso riscaram-no do mapa. Mas é uma figura pacata, pequena, bonita, e necessitada. Igual a todas as outras.

A Novela de Sebastiana e do Coronel Bim Bim

“Minha mãe cozinhava precisamente: feijão-roxinho, batatinha e tomate. Mas cantava.” Adélia Prado

Robert Mapplethorpe criou obras instigantes e vivas

Proíba-me de falar. Embora lá estive, e estivarei. Entre cacos e rãs e anéis. A mão sobre a lã enrolada das ovelhas, do sono: e Vanessa: vermelha. Depois, proíba-me de contar os casos dos índios, dos mitos, dos bárbaros. Da mulher presa em casa enquanto a onça arranha a porta sentindo cheiro de gente: faminta. Onça só caça gente quando não há mais comida. Na natureza predomina o verde… Renasce exuberante, e bela, ostenta na mesa os quitutes disputados a tapas por crianças de todas as idades… O rio seco de um homem, ou menino, caminha na pedra à distância. Uma casinha, casebre, senzala, no meio do rio seco. O rio seco. A aura seca. A alma seca. Os hipopótamos nas fuças das tenebrosas pedras: e temerárias. Uma paisagem outrora desértica, precária, não mais idônea.