Prefácio para “O sol áspero” de Raphael Vidigal: Copo vazio

“Faça milagres se quiser desvendá-los. Só assim chegará lá.” Godard

Fiquei por muito tempo resistindo antes de escrever este prefácio. Pensava: qual a necessidade de fazê-lo se, aqui, tudo já está tão evidente e oculto? Qualquer coisa que escreva irá destoar dos ritmos, das sonoridades, das construções tão cuidadosamente armadas deste livro que é como um pequeno mundo circular e, ao mesmo tempo, aberto, com sua lógica própria e seus enigmas. O prefácio corre o risco de mitigar as linhas de sentido, de explicar, quando o livro não quer explicar nada, assim como a cidade que inventa não explica nada.

Mas, afinal, já comecei. Talvez seja interessante voltar um pouco. Raphael me pediu uma imagem para a capa. De uma primeira leitura ainda muito intuitiva, lembrei-me de um desenho que fiz há alguns anos. Tentei fazer outras ilustrações, mas esse desenho ainda insistia e, ao final, foi realmente o que Raphael mais gostou. Nele, uma luz fria artificial hospitalar ilumina uma cama de solteiro. A cama está coberta por uma pirâmide de folhas. Essa ilustração veio de um sonho que tive e cria um enigma. Há um frescor das folhas e a frieza da luz. Como o “tártaro que suja o poema”. Como a lembrança da finitude da vida no caracol que desliza entre as frutas da natureza morta. Como um vanitas.

Raphael Vidigal estreia no romance com “O Sol Áspero”

“Num mundo de cartas de amor e de analfabetismo, de cartas que não puderam ser entregues, de vidas que não se deram por inteiro. Num mundo de instantes concretos iluminados asperamente, sem redenção” (trecho do prefácio escrito por Clara Albinati)

Quatro anos depois de lançar o seu primeiro livro, com “Amor de Morte Entre Duas Vidas” (2014), que reunia 75 poesias, e de produzir e colocar letra em 12 chorinhos para o álbum “Waldir Silva em Letra & Música” (2016), no qual se tornou parceiro musical de Zé Ramalho, o jornalista, poeta e letrista Raphael Vidigal explora um novo formato para a sua escrita. Não bastaram poesia e a letra de música para sanar a curiosidade do autor com passagens pelo jornal Hoje em Dia, rádio Itatiaia, portal Uai e que desde 2012 mantém o blog Esquina Musical. Especializado na área cultural e pós-graduado em roteiro para cinema e televisão pela PUC Minas, Vidigal é repórter do jornal O Tempo desde 2017.

As primeiras linhas de “O Sol Áspero” começaram a nascer no ano de 2012, quando o autor trabalhava numa empresa de consultoria ambiental e foi contratado para escrever da forma mais lírica e livre possível sobre a experiência de visitar 16 pequenas cidades do interior de Minas Gerais, a maioria com média menor a 10 mil habitantes. Entre elas estavam nomes como JOANÉSIA, TUMIRITINGA, FERROS, AIMORÉS, SANTA MARIA DE ITABIRA, MESQUITA, AÇUCENA, ITANHOMI, NAQUE, BELO ORIENTE, CARMÉSIA, IAPU, FERNANDES TOURINHO, ENGENHEIRO CALDAS, dentre outras mais.

19 encontros incríveis entre música e literatura no Brasil

“– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Manuel Bandeira

A música “Língua” fechava o disco gravado por Caetano Veloso em 1984. “Velô” trazia parcerias com nomes ligados à literatura, casos dos poetas Augusto de Campos, Wally Salomão e Antonio Cícero. A faixa, em especial, era recheada de citações a escritores de variados gêneros, estilos e épocas: passava dos clássicos Luís de Camões e Olavo Bilac aos consagrados Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, chegando até ao contemporâneo Glauco Mattoso.

Mas, como numa ironia, ao fim Caetano determinava a superioridade musical quando o assunto era o idioma português: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão”, cantava o baiano, acompanhado por Elza Soares. Ele próprio lançaria, em 1997, o livro “Verdade Tropical”, espécie de ensaio que oferecia um olhar agudo sobre a cultura brasileira. Fato é que músicos de todas as gerações têm se arriscado cada vez mais a desmentir a máxima proferida pelo mentor tropicalista.

Beijar é uma arte! 15 manifestações culturais sobre o beijo

“Profundezas de rubi não drenadas
Escondidas num beijo para ti;
Faz de conta que esta é um beija-flor
Que ainda há pouco me sugou.” Emily Dickinson

Compositor, produtor e instrumentista mineiro, Geraldo Vianna colocou em todas as plataformas digitais seu mais novo trabalho, “O Beijo – Um poema musical”, na última quinta-feira (13), data em que se comemora o Dia Internacional do Beijo. O álbum apresenta 14 faixas que refletem sobre o tema, algumas em parceria, como no caso de “O Beijo”, assinada com Fernando Brant. Além disso, uma obra do compositor erudito Robert Schumann ganhou letra de Murilo Antunes. “O beijo é um gesto, uma atitude que atravessa a história da humanidade e representa momentos importantes em nossa vida, nos conduzindo a várias experiências e sentimentos. Desde o carinho, o respeito e a sensualidade, até o beijo histórico que induz à traição. Além de tudo isso ele nos dá várias formas de prazer”, infere Geraldo. O disco, que sofreu “influências literárias de Florbela Espanca, Castro Alves e García Lorca”, vai ser apresentado em show ainda no primeiro semestre deste ano, mas não tem previsão de ser lançado em edição física. Vianna define o trabalho como “uma declaração de que a música mora no meu coração”.

O chocalho da cobra

“Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!” Mario Quintana

O chocalho da cobra prepara seu bote

O escritor irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900) afirma que “nada é tão perigoso como ser moderna demais. Fica-se com uma tendência a virar antiquada de repente”. Por outro lado existe uma piada produzida para a televisão baseada em séculos tão passados que o protagonista garante que nada substitui o texto escrito sobre a pedra, pelo valor de toque e materialidade que essa experiência proporciona, até que ela cai e se espatifa no chão. Há ainda definições que um dia me vieram como forma de poesia livre: À frente do seu tempo é um homem ansioso. Um homem do seu tempo é um sujeito conformado. Um homem do passado, esse sim, é um clássico.

O caráter provocativo dos três exemplos serve para relativizar a discussão em torno dos suportes e determinar o quanto temporalmente as inovações tendem a uma natureza cíclica. Essa não reverência ao novo simplesmente por esse aspecto é o que pode levar a uma relação de profundidade com as tecnologias que se insurgem, mais destacadamente o virtual, cuja dimensão de fronteira entre definições limítrofes traz à tona outra máxima poética valorosa, desta feita do poeta gaúcho Mario Quintana (1906 – 1994): “o fato é um aspecto secundário da realidade”. O que significa aqui interpretar que a PRESENÇA do VIRTUAL é hoje, ironicamente, irrefutável.

Quem são os melhores?

“A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas ou gafanhotos. Ela não é uma deusa que possa gerar inquisidores de escalpelo e microscópio, pois devemos sempre julgá-la com a cartesiana dúvida permanente. Não podemos oprimir em seu nome.” Lima Barreto

O Grito, pintura de Edvard Munch

Por que tanto medo da subjetividade? A pergunta deveria estar direcionada ao próximo e semelhante, mas a guardei para mim. Chega a ser engraçada, para não dizer ridícula, a crença de alguns jornalistas sobre os adjetivos. Havemos de concordar num ponto: esse tal valor absoluto da qualidade já foi varrido, e não é de hoje. Se critérios elementares afeitos à técnica e circunstância nunca foram suficientes para julgar arte, e essa percepção instalou-se soberanamente sobre as cabeças desde a vanguarda (seja lá o que esta expressão alcance) só há um motivo para aqueles que se consideram especialistas no assunto se manterem presos a rédeas do passado. Ou melhor, dois: cisma de importância e defesa de mercado. Se toda opinião vale tanto quanto pesa a insustentável leveza do ser, qual seja: quase nada, logo, qual é o meu papel nesse mundo?

Música e poesia: 11 poetas que viraram disco no Brasil

“animal em extinção,
quero praticar poesia
– a menos culpada de todas as ocupações.” Wally Salomão

Poetas que viraram disco no Brasil

Desde o trovadorismo os caminhos da música e da poesia se cruzam. Dando continuidade à essa tradição o paulista Cristiano Gouveia e a mineira Irene Bertachini lançaram, no último domingo (12), o disco “Lili Canta o Mundo!”, em que musicaram poemas de Mario Quintana. E o movimento não é novidade na música brasileira, que tem, por hábito, levar os versos livremente pelas notas das canções.

7 Faces Musicais do Poeta Drummond

“A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.” Carlos Drummond de Andrade

Poesias de Drummond viram música

“parti-me para o vosso amor/que tem tantas direções/e em nenhuma se define/mas em todas se resume”. Para interpretar ao poeta – o dono dos versos – ninguém melhor do que ele próprio. No entanto, Carlos Drummond de Andrade teve sua escrita transformada não apenas na cabeça e coração dos leitores, como também através da música e do cinema. Sete faces que se transmudam em outras na obra daquele que tinha uma palavra de sua predileção: “taciturno”.

O Amigo da Onça

“O fantasma é um exibicionista póstumo.” Mario Quintana

Nem que a vaca tussa existe país no mundo mais pródigo em ditados do que esta terra de cego aonde quem tem um olho é rei. Dizem que este ouro em pó, tal diamante de sangue, como madeira de lei, é herança dos escravos trazidos da África, que não tomavam manga com leite e para tirar leite de pedra se comunicavam uns com os outros dessa maneira sem ter de engolir o sapo. Se quem veio antes, o ovo ou a galinha, não convém reclamar de barriga cheia, porque quem pega no pé ainda lhe puxam a orelha. São ossos do ofício, e dá pano pra manga tentar dar um nó em pingo d’água, coisa de quem tem um parafuso a menos. É muita cara de pau fazer um negócio da China a preço de banana. Segura que lá vem chuva de canivete. Já vi gente ficar tanto tempo com uma pulga atrás da orelha que acabou soltando os cachorros. Tinha o diabo no corpo. É como dizem, quem cedo madruga, Deus ajuda. Quem tarde se deita, o diabo aceita. Força de expressão, ou fraqueza do espírito de porco. Cada macaco no seu galho é a receita ensinada para não ter de pagar o pato.

Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.