Crítica: “Chaves” é marco de resistência da cultura mexicana no Brasil

“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” Seu Madruga

Chaves

Durante praticamente duas décadas o Brasil respirou sob um ritmo mexicano. Foi nos anos 1940 e 1950, portanto muito antes da estreia do seriado “Chaves” em seu país natal. O bolero dominou a canção e o coração brasileiros, o que não é difícil constatar ao percebermos a quantidade de versões e vozes que o entoaram, para ficar em exemplos mais claros, o folclórico “Cielito Lindo”, (do refrão: ai, ai, ai, ai, está chegando a hora/o dia já vem, raiando meu bem/é hora de ir embora), e de “Bésame Mucho”, criação de Consuelo Velazquez popularizada pelo “Trio Los Panchos”, outro a fazer enorme sucesso na terra de palmeiras onde canta o sabiá. Logo a influência da cultura mexicana na nossa não se restringe aos personagens criados por Roberto Gómez Bolaños.

No entanto, não é segredo para ninguém, ou ao menos não deveria ser, que o plano imperialista do estado norte-americano passa, preponderantemente, pela cultura e propaganda. Foi com este intento que a terra de Walt Disney passou a enviar para o Brasil, entre outros, Nat King Cole – inclusive cantando (bem) em português – Louis Armstrong, e a importar Ary Barroso que criou canções para os clássicos desenhos com a participação de Zé Carioca. O que explica então que o bolero tenha sido varrido do mapa e o consumo de música, filme, literatura, artes plásticas, dança e produtos alimentícios vindos do Tio Sam não tenha sido capaz de eliminar a presença de Chaves e sua Bruxa do 71? Talvez algo relacionado ao poder que o humor tem de despistar o seu real combate.

90 anos de Monsueto: o multimídia da década de 50

“Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança, você não pesou
Botei na peneira, você não passou
Mora na filosofia
Pra quê rimar amor e dor?” Monsueto

Elisete Cardoso

“Ziriguidum”; “Castiga”; “Vou botar pra jambrar”! Se ele que inventou essas expressões porque não dizer que Monsueto já era um “multimídia” na década de 50, quando ainda não se usava o termo? Compositor, sambista, pintor, ator, cantor e instrumentista, natural do Morro do Pinto, no Rio de Janeiro, o homem de múltiplos talentos não se constrangia em abraçar a causa da diversidade, muito pelo contrário. Desfilou em várias escolas de samba, sem nunca se comprometer em definitivo com nenhuma, e era muito bem recebido por onde passasse, incluindo-se aí, as artes. Ganhou o prêmio do Museu Nacional de Belas Artes em 1965, por suas pinturas primitivistas. Quanto aos sucessos na música, foram reconhecidos tanto em seu tempo, com gravações de Linda Batista e Marlene, quanto depois, nas regravações de Caetano Veloso, Milton Nascimento e Alaíde Costa, em que se comprova, apesar da verve específica, o poder de transição explicitado nos diferentes parceiros. Já as expressões referidas na abertura do parágrafo, foram propagadas na televisão em um programa de humor, onde novamente dava extensão à personalidade: era o “Comandante”. E comandava com seriedade a gama de talentos que jorrava. Com batuques e o que mais pintasse.

“Jardim Urgente” é destaque em “Tá no ar: a TV na TV” ao criticar comportamento policialesco

“(…) o ridículo é a tragédia sem grandeza.” Mario Quintana

Jardim-Urgente-Humor

Welder Rodrigues é um capítulo à parte na composição do personagem Jorge, o apresentador do programa “Jardim Urgente”, mais um dentre os quadros de “Tá no ar: a TV na TV” que parodiam a mídia brasileira. Merece destaque, não apenas por imitar todos os cacoetes, os exageros e as esquizofrenias, como pela alta crítica que carrega em cada gesto, seja milimétrico ou expansivo. Um dos momentos auge é a transição da pretensa indignação com a “bandidagem” para a hora do merchandising, em que é preciso “falar de coisa boa”.

Ponto que indica o quanto tudo não passa de atuação, não neste humorístico em especial, mas no original. É óbvia e hilária a alusão a José Luís Datena, certamente o principal nome do gênero que incita e estimula o comportamento policialesco, e a seus repórteres. A sacada de ambientar os “crimes” em maternais e creches, onde os “infratores” são “menores”, e alguns até bebês também é de rara inspiração.

A Graça & A Música De Ivon Curi

“Se tem uma coisa que detesto nesse mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres” Gabriel García Márquez

Ivon-Curi

Lá vem o mineiro distinto de Caxambu, rodando uma bengala da tradição francesa, com o sotaque apaziguado de bobo da corte. Engana-se quem julga a primeira aparência e não confere a peruca, o sujeito dito é um lorde, mímico das canções que não dispensa a fala e os gestos para acrescentar riquezas ao que canta e salienta.

Ivon Curi, assim meio discreto, meia cachaça, meio pão de queijo, firmou-se como um dos grandes nomes da era de ouro do rádio por saber explorar o que tinha de melhor, e mais, encontrar praticamente um nicho virgem à sua espera. Ali, no território da sátira, da brincadeira, e da impertinência charmosa, ele conquistou milhares de fãs, ouvintes assíduos, clamorosos por sua presença, enfim, fez o que se esperava de um grande artista: plantou a semente da eternidade.

O Desenho Original Da Música De Nássara

“leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura” Paulo Leminski

nassara

Antônio Nássara, ou simplesmente Nássara, nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 11 de novembro de 1910 e faleceu no dia 11 de dezembro de 1996. Compositor e caricaturista, Nássara foi vizinho de Noel Rosa, e compôs com ele a marcha “Retiro da Saudade”, gravada por Francisco Alves e Carmen Miranda em 1934. Nássara completaria em 2010, 100 anos de vida, e foi o autor de sucessos como “Alá lá ô”, com Haroldo Lobo, “Mundo de Zinco” e “Balzaquiana” com Wilson Batista, “Formosa”, com J. Rui, “Periquitinho verde”, com Sá Róris, entre outros. Autor do primeiro jingle do rádio brasileiro, Nássara tinha como uma de suas marcas registradas parodiar e utilizar versos de outras músicas em suas composições. Além disso, foi ele o ilustrador da capa do LP “Polêmica”, que trazia caricaturas de Noel Rosa e Wilson Batista. Por sua irreverência afiada de traços melodiosos e firmes, Antônio Nássara será sempre lembrado como um dos grandes artistas brasileiros, tanto na música, como no desenho, e merece todas as homenagens nesse centenário do seu nascimento.

5 Músicas Cantadas Por Grande Otelo

“Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir” Hilda Hilst

Grande-Otelo

Nas palavras de Herivelto Martins, Grande Otelo tinha “mania de compositor”. O pequeno Sebastião Prata que nasceu em Uberlândia transformou-se num dos maiores atores cômicos do Brasil, e morreu como o inconfundível Grande Otelo no aeroporto de Paris, quando se preparava para receber uma homenagem. Imortalizado na alma brasileira de Mário de Andrade, ao interpretar Macunaíma no cinema e receber o prêmio de melhor ator, Otelo também se destacou como cantor e compositor de grandes sambas.

Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo
Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que esse o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai…”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

5 Músicas Cantadas Por Mussum

“Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Mussum

Um dos trunfos do programa “Os Trapalhões”, que ficou no ar de 1977 a 1993 com quadros inéditos, além de um sem número de filmes, é que os personagens interpretavam a si próprios. O protagonista Renato Aragão de fato o cearense, retirante nordestino na cidade grande. Dedé Santana o suburbano carioca. Mauro Gonçalves, o Zacarias, o único com formação de ator através do rádio, sugeria piadas de homossexualidade, e não raro usava vestimentas, gestos e vozes femininas e infantilizadas. E Mussum, o sambista do morro.

Se Didi e Dedé formaram seu humor principalmente através do circo e tinham uma veia prioritariamente espontânea e de improviso, mais ainda se pode dizer desta naturalidade em Antônio Carlos Gomes. O gosto pelo samba, pela bebida, pelos dizeres invocados e a paixão pelo Flamengo eram reais. Mussum vivia na tela o que vivia nos palcos de asfalto, nas mesas de bar e nas arquibancadas. O próprio apelido sugeria uma maneira lisa e escorregadia de escapar de enrascadas, característica do peixe que inspirou Grande Otelo nesse batizado.

O Reino do Samba de Carlos Imperial

“E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.” Cecília Meireles

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O pilantra que se auto-glorificava, Carlos Imperial, era mestre para advogar elogios em causa própria. Seus pupilos foram sempre dignos de receberem “Dez, nota dez!”, bordão que ele inventou para o carnaval carioca e que espalhava aos borbotões, infiltrando-se nos espaços mais obscuros com as ferramentas mais suspeitas que um rei pode utilizar. Seu Império subiu à superfície na base de muita esperteza, pilantragem e tino para a coisa, como ele próprio sugeria. O que ficou para a posterioridade? A imagem mal afamada de um sujeito querido por suas composições, cheias de suingue e ritmo balanceado, e contestado pela exibição barata de sua cafajestagem.

Mamãe passou açúcar em mim (pilantragem, 1966) – Carlos Imperial
Sem vergonha de utilizar métodos artificiais para promover seus objetivos, o Gordo, apelido de Carlos Imperial por sua postura corpulenta e despachada no comando de seus programas de TV ou no cinema, teve fundamental importância na criação do chamado rock jovem na música brasileira, que mais tarde ele rebatizaria de “pilantragem”. Depois de tentar lançar sem sucesso o ícone da Jovem Guarda que viria a ser Roberto Carlos e de participar da produção do primeiro álbum de Elis Regina, posta para rivalizar com Celly Campelo, Imperial viu no mulato Wilson Simonal sua mina de ouro descoberta. Foi pensando nele que o apresentador, cantor e agitador cultural mais aplaudido e vaiado nos anos 60, compôs a convencida “Mamãe passou açúcar em mim”, em 1966:

“Eu era neném, não tinha talco
Mamãe passou açúcar em mim
Mamãe passou açúcar em mim”

Crítica: O melhor e o pior do humor no Brasil

“‘os flamingos e a mostarda são picantes. E a moral disso é… ‘Pássaros da mesma plumagem andam em bando’.” Lewis Carroll

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Não é fácil praticar humor e manter a elegância. Muitos já disseram se tratar esta da mais difícil arte dramática. Se vários conseguem alcançar o mérito, outros patinam e até afundam no gelo e na lama por pura falta de talento, a que ingenuamente denominam “liberdade de expressão”. A discussão sobre a comédia no Brasil precisa ultrapassar a barreira do correto e errado e chegar ao que realmente importa: o que tem graça e o que não tem.

Claro que se trata de um corte subjetivo, mas assim como existem piadas prontas, ditados populares, que só repetem o óbvio, há as que surpreendem e exigem do telespectador certa dose de ironia, audácia, sarcasmo, e dispensam a grosseria simples com que se acostumaram certos nomes como Danilo Gentili, Rafinha Bastos, e outros cujo repertório baixo representa o que há de pior no humor do Brasil. Não são atores, nem coringas, mas celebridades.

Reginaldo Rossi: o orgulho da vergonha

“Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

virada cultural largo do arouche reginaldo rossi

O poeta de língua portuguesa mais aclamado do mundo disse em versos estar farto de semideuses, a procura de gente que tivesse levado porrada, sido ridículo, cômico, passado vergonha, amar sem ter sido amado. Fernando Pessoa é um nome que, para quem conhece pouco, ainda sustenta uma frase, a da “dor que deveras sente”. Assim como Reginaldo Rossi, pois que ao bastante distraído não escapa a epígrafe de “Garçom”, em português claro, música de corno.

De um jeito ou de outro, embora um seja natural de Lisboa e outro de Recife, em Pernambuco, os dois espalharam em síntese os sentimentos que atingem a todos, e com uma postura diversa à da hipócrita sociedade: não esconderam os defeitos, as falhas, ao contrário, cada um a seu modo, o primeiro com elegância, o segundo de forma direta, simples, tosca, escancararam o orgulho da vergonha. O que sustenta a obra de Reginaldo Rossi é o tratamento que ele dá aos valores.