Crítica: peça “O Marido da Minha Mulher” sustenta papéis consagrados

“As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.” Groucho Marx

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Datada de 1987 a peça “O Marido da Minha Mulher” conta a história linear do homem que morre em um acidente e volta para atazanar a vida da viúva, do amigo e de um potencial desafeto. Com mudanças pontuais no enredo que contextualizam e se valem de bordões e situações contemporâneas e simpáticas ao espectador da cidade, o período de lançamento do espetáculo tem muito a nos dizer sobre ele. Os quase 30 anos em cartaz são parte importante para analisar o nível de transformação social que ocorreu no país, e, preponderantemente, a falta de uma política efetiva de educação e incentivo à cultura, que a modificasse na essência, não a que se atém às suas margens.

O texto de Sérgio Abritta, que também dirige, reforça e sustenta papéis consagrados na sociedade brasileira, em que o machismo e a homofobia, além de costumes de praxe, eram práticas comuns e bem aceitas, referendadas entre todas as classes. Se naquela época a história já buscava afrouxar e modificar esses estereótipos, para os tempos de hoje eles soam ainda mais inconvenientes e conservadores. Nesse sentido, o riso que desperta soa como um assentimento da montagem a esses papéis outrora bem mais estabelecidos. Há um sentido moral da peça que representa nichos ainda bastante protuberantes na sociedade moderna, e que se incomoda de ter que dividir cada vez mais espaço com as novas tendências.

2 marchinhas para o Carnaval de BH – 2016

“Me chame Baco ou Rei Momo
Do balacobaco eu tenho o trono
Mas se você quer ser mais direto e natural
Pode me chamar de Carnaval” Péricles Cavalcanti

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Vem aí o Carnaval de BH versão 2016, e para animar a folia apresentamos 2 marchinhas inéditas; uma de teor político, relembrando a velha prática satírica que teve e ainda tem como pano de fundo (ou principal) nossas sempre simpáticas, e ousadas, autoridades; a outra, de teor romântico, trazendo de volta à tona outra tradição brasileira, a de fazer troça do próprio sofrimento, e transformar a desilusão amorosa num motivo para deboche, ironia, e claro, aproveitar para rogar aquela praga em quem nos deixou de coração partido. Divirtam-se!

Marchinhas gravadas no Liquidificador Estúdio, em Belo Horizonte, no dia 22 de janeiro de 2016.
Voz – Giselle Couto / Violão – André Figueiredo / Técnico de som: Marcos Frederico / Produção: Raphael Vidigal

Centenários 2016: Clóvis Bornay representou elite carioca de sua época

“Mãe dos jogos latinos e gregas orgias,
Lesbos, dos beijos lânguidos e dos fogosos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancias;
São o ornato das noites e dias gloriosos;” Baudelaire

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Num quadro satírico o comediante Agildo Ribeiro o apresenta como “um dos raros brasileiros alegres desse país”. Clóvis responde com bom humor, sua principal característica. Museólogo por formação e folião por farra, Bornay foi personagem carnavalesco fundamental na transição da música para a fantasia, dos adereços sonoros para os visuais, embora não tenha feito feio como intérprete de deliciosas e maledicentes marchinhas, tais como “Vamos furunfar”, “Dondoca” e “Fla Gay”, e como jurado de Chacrinha e Silvio Santos. Foi partícipe e emblema maior da tal “Cultura da Imagem”, fundada, sobretudo, nas aparências. Tanto que o diretor do “Cinema Novo” Glauber Rocha o utilizou no filme “Terra em Transe” para dar conta desse caráter alegórico.

Centenários 2015: Zé Trindade consagrou o tipo ordinário

“O que é a natureza…” Zé Trindade

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Zé Trindade está na música do Skank. Está na fala do comentarista esportivo José Trajano. Está na boca do povo. Zé Trindade é a boca do povo. Difícil determinar onde começa a personagem e termina o intérprete. O próprio se valia de referências da vida pessoal, autodenominando-se “baiano e muito vivo!”. Num dos inúmeros bordões que perpetrou, tirava sarro da aparência: “É chato ser gostoso”. “Baixinho, feio e sempre safado”, nas palavras do crítico de cinema Inácio Araújo, aliás, os tais bordões servem de principal esteio às atuações de Trindade que, diferente de outros comediantes, não se agarrou a um, mas criou inúmeros deles. Judiado pelas mulheres, o comediante sempre arranja uma saída criativa para as confusões que arruma. Talvez seja este o principal ponto de aproximação de Zé Trindade com o seu povo.

Análise: 80 anos de Woody Allen, cineasta do diálogo

“O coração é um músculo muito elástico.” Woody Allen

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Que as influências de Woody Allen variam e passam por nomes como Groucho Marx até Fellini é ponto pacífico. Mesmo por que a citação literal e solta são uma das marcas de seus filmes, impregnados, sobretudo, pela personagem do diretor, inclusive quando não é ele o protagonista; mas um dos que aceitam o desafio de reviver o seu alter ego na grande tela. Acontece que o decorrer desses 80 anos de vida, quase a totalidade deles dedicados à arte, garantiram ao diretor uma marca maior do que a de suas personagens, suas referências e os próprios filmes. Essa característica é fruto tanto do pensamento elaborado de Woody Allen quanto da maneira singular de filmagem (embora destaque-se em outras áreas como a música e a literatura, o grande público o reconhece no cinema). Ponto que melhor revela suas contradições, as fraquezas e méritos.

2 músicas cantadas por Marília Pêra

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.” Mario Quintana

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Embora tenha se destacado, principalmente, como atriz, Marília Pêra foi uma artista de múltiplos talentos, o que comprovam sua formação prática e teórica. Iniciou a trajetória como bailarina e integrou o corpo de peças de teatro em que reverenciava e vivia Carmen Miranda. A influência musical na carreira e na vida de Marília pode ser sentida por duas circunstâncias. Em primeiro lugar, os discos que gravou e dos quais participou como intérprete, e em segundo a busca por uma dicção para suas personagens que, para os mais atentos trazia sempre algo de musical, e mais do que isso, de ritmo, de tempo, de respiração. Atributos fundamentais para a comédia, onde se destacou, mas também em outras vertentes como o drama e o romance. Marília foi uma atriz completa.

Análise: Tutuca foi um artista do tempo em que o humor tinha marca

“deve deixar o povo desempenhar comédias
e os historiadores registrarem os fatos
deve deixar os pobres falarem mal dos impostos.” Ezra Pound

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Tutuca pertenceu a uma categoria de intérpretes que se distinguiu por imprimir uma marca às suas personagens, o que se convencionou chamar de “bordões”. Artifício que mais tarde caiu no limbo, embora outros atores tenham voltado a se destacar ao colocar sua personalidade em cena, casos de Al Pacino, Jack Nicholson e Paulo César Peréio. A criação de uma personagem acoplada ao intérprete perdeu o costume em tempos recentes, onde a capacidade de se camuflar indistintamente e de maneira variada garante os aplausos do ofício. O intérprete que dá vazão a um sem número de performances, a histórias e personagens que vão muito além dele próprio. No tempo da chanchada o astro era o ator de um papel só, e o que se revezava, o coadjuvante. Basta reparar em Zé Trindade, Oscarito, Zezé Macedo, e etc.

Análise: 70 anos de Leila Diniz, mulher sem cortes

“Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.” Leila Diniz

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Carlos Drummond de Andrade a homenageou em poesia. Martinho da Vila, Erasmo Carlos, Rita Lee, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro e Taiguara o fizeram em canções. Milton Nascimento se valeu de um delicado poema de Leila para criar a música “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, título oriundo de frase da protagonista, que ajuda a entender um pouco de sua personalidade. Não bastasse isso, a histórica entrevista para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e em que pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar em vigência, e a censura prévia à imprensa ganhou, à boca pequena, o nome popular de “Decreto Leila Diniz”.

Análise: Luiz Carlos Miele combinou arte e entretenimento

“Nunca confie no artista. Confie na história.” D. H. Lawrence

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Para Miele é difícil dizer o que vinha primeiro, arte ou entretenimento. Com um jeito despretensioso, descolado e bonachão, parecia priorizar, sempre, a brincadeira, a diversão da plateia e, principalmente, a sua. Foi daquelas personagens em que não se distingue com clareza onde começa o ator e termina o músico, sempre reinterpretando a própria imagem. Miele esteve presente nos acontecimentos mais relevantes da música popular brasileira, em especial no período de explosão da bossa nova e da classificada MPB quando, como fiel escudeiro do jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, criou programas de televisão e apresentações em teatro para Elis Regina, Wilson Simonal, Pery Ribeiro, Leny Andrade e outros nomes de peso. Mas Miele não se contentou em ficar apenas atrás das cortinas.

Crítica: nova temporada de “Pé na Cova” combate preconceitos com didática

“nem vida nem morte é a resposta.
E do homem buscando o bem,
fazendo mal. (…)
onde andavam os mortos
e os vivos eram feitos de cartão.” Ezra Pound

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Miguel Falabella conta que a inspiração para a série “Pé na Cova” veio com a experiência da própria velhice. Com o envelhecimento do ator e criador, a série chega também à sua quarta temporada em 2015, que será a penúltima. A última está prevista para 2016. Não muito diferente das anteriores, a atração busca combater preconceitos, mas resvala invariavelmente no didatismo.

Falta para os diálogos uma construção que torne as frases mais naturais e menos ensaiadas, ou seja, a alusão pode ser feita ao esporte ou ao humor clássico, de esquetes e quadros, quando o dito “escada” prepara a jogada para que o artilheiro “corte”. O problema nesse tipo de humor é a previsibilidade e a noção de distanciamento com o espectador, como se ele assistisse a uma aula.