Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.

Análise: 90 anos de Jerry Lewis, o rei da comédia

“A graciosa besta humana perde o bom humor, ao que parece, toda vez que pensa bem; ela fica ‘séria’!” Nietzsche

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Para se ter uma ideia da força de Jerry Lewis basta uma estória verídica contada por Orlando Senna, à época diretor da “Escola de Cinema” cubana. Diz o brasileiro que embora a “linha dura” do regime fosse terminantemente contra, o governo decidiu por permitir a exibição de um filme do ator e humorista norte-americano, mas tomou as devidas providências. “Como era uma comédia deslavada, instruiu os militantes a lotarem as salas, mas com uma condição, que não rissem durante todo o filme, pois desta forma a atração ficaria desmoralizada”, recorda e completa que estes se esforçaram sinceramente para conter a atração de cair na gargalhada. Porém, foi em vão.

Crítica: “Papo de Segunda” lança olhar cômico e enviesado para qualquer assunto

“Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.” G. K. Chesterton

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Um dos conceitos básicos implementados pela dramaturgia clássica foi a criação de tipos. Ou seja, a congregação de características ao mesmo tempo diversas e complementares. É possível percebê-la, sobretudo, na comédia, de que são exemplos os filmes dos Irmãos Marx e dos Trapalhões, em que se distingue nitidamente na versão brasileira a presença marcada do nordestino, do negro e sambista do morro, do carioca metido a galã e do homossexual infantil. Conformação que atende às novelas românticas e até as chamadas “mesas redondas”, inventadas na televisão brasileira para o debate esportivo. Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira protagonizaram uma das mais emblemáticas do gênero. O “Papo de Segunda”, transmitido pelo canal fechado GNT na segunda-feira das 22h às 23h, não foge a esse contexto.

Crítica: “Amor & Sexo” é melhor quando não se leva a sério

“Amor é bossa nova/Sexo é carnaval” Arnaldo Jabor & Rita Lee

Amor-Sexo

Transmitido agora aos sábados à noite, o programa “Amor & Sexo”, comandado por Fernanda Lima na Rede Globo dá um respiro de liberdade na grade da sempre tão vigilante emissora. Longe de ser ousada, a atração atende ainda às premissas da nossa classe média, mas serve como aperitivo para dispersar nosso pedantismo anacrônico e o conservadorismo latente. Embora não chegue perto da transgressão com que programas da TV por assinatura já trataram do assunto para os padrões da nossa TV aberta é algo novo.

Fernanda Lima tem desenvoltura com o tema e, de acordo com a abordagem proposta, não incomoda ninguém, pelo contrário. Mas o melhor da festa são os comentaristas amadores, que garantem, senão rebeldia, ao menos alguma irreverência. São os casos de Xico Sá, Mariana Santos, José Loreto e Otaviano Costa, além de outros convidados que se revezam, e que não se levam absolutamente a sério, a grande consagração do programa, não sendo a única, mas certamente a mais efetiva. Nem tudo são flores nesse reino da Dinamarca.

5 parcerias raras de Supla

“Desconfio, pois, dos contrastes superficiais e do pitoresco aparente; eles sustentam sua palavra por muito pouco tempo. O que chamamos exotismo traduz uma desigualdade de ritmo, significativa no espaço de alguns séculos e velando provisoriamente um destino que bem poderia ter permanecido solidário.” Wally Salomão

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Batizado Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy, filho da sexóloga, apresentadora e política Marta Suplicy e de Eduardo Suplicy, um dos senadores mais atuantes da história do PT, Supla sempre foi uma figura exótica no cenário da música brasileira, provavelmente por se considerar, ele próprio, um “bicho estranho” nesse meio. Identificado com a cultura norte-americana desde cedo, foi um dos primeiros a adentrar o universo punk com o apoio da mídia. Ao longo da vida Supla fez de quase tudo, e não se pode afirmar a presença inconteste da qualidade, mas se estabeleceu como uma autêntica celebridade. Cantou com Cauby Peixoto e Roger, da banda “Ultraje a Rigor”, participou de filme com Angélica e “Os Trapalhões”, além de escrever música com Cazuza. Abaixo apresentamos um pouco dessas raras parcerias.

1 música para Dercy Gonçalves

“É a vida mais que a morte, a que não tem limites.” Gabriel García Márquez

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Dercy Gonçalves talvez seja das poucas artistas da história que conseguiu atravessar as décadas tornando-se cada vez mais popular. A imagem que ficou é a da senhora de mais de 100 anos, desbocada e irreverente, mas esse humor escrachado e cheio de improvisos já era uma das marcas da atriz quando ela surgiu para a chanchada brasileira na década de 1950, e atuou em peças e “teatros de revista” hilários ao lado de nomes como Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, seu par mais repetido nas telas de cinema. Dercy fez de si a própria personagem, uma mulher que rejeitou todos os estereótipos e limites que se impunham ao gênero e transformou a graça em receita de vida. Com sua voz peculiar e delirante foi tão livre que se aventurou, inclusive, na música.

Crítica: peça “O Marido da Minha Mulher” sustenta papéis consagrados

“As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.” Groucho Marx

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Datada de 1987 a peça “O Marido da Minha Mulher” conta a história linear do homem que morre em um acidente e volta para atazanar a vida da viúva, do amigo e de um potencial desafeto. Com mudanças pontuais no enredo que contextualizam e se valem de bordões e situações contemporâneas e simpáticas ao espectador da cidade, o período de lançamento do espetáculo tem muito a nos dizer sobre ele. Os quase 30 anos em cartaz são parte importante para analisar o nível de transformação social que ocorreu no país, e, preponderantemente, a falta de uma política efetiva de educação e incentivo à cultura, que a modificasse na essência, não a que se atém às suas margens.

O texto de Sérgio Abritta, que também dirige, reforça e sustenta papéis consagrados na sociedade brasileira, em que o machismo e a homofobia, além de costumes de praxe, eram práticas comuns e bem aceitas, referendadas entre todas as classes. Se naquela época a história já buscava afrouxar e modificar esses estereótipos, para os tempos de hoje eles soam ainda mais inconvenientes e conservadores. Nesse sentido, o riso que desperta soa como um assentimento da montagem a esses papéis outrora bem mais estabelecidos. Há um sentido moral da peça que representa nichos ainda bastante protuberantes na sociedade moderna, e que se incomoda de ter que dividir cada vez mais espaço com as novas tendências.

2 marchinhas para o Carnaval de BH – 2016

“Me chame Baco ou Rei Momo
Do balacobaco eu tenho o trono
Mas se você quer ser mais direto e natural
Pode me chamar de Carnaval” Péricles Cavalcanti

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Vem aí o Carnaval de BH versão 2016, e para animar a folia apresentamos 2 marchinhas inéditas; uma de teor político, relembrando a velha prática satírica que teve e ainda tem como pano de fundo (ou principal) nossas sempre simpáticas, e ousadas, autoridades; a outra, de teor romântico, trazendo de volta à tona outra tradição brasileira, a de fazer troça do próprio sofrimento, e transformar a desilusão amorosa num motivo para deboche, ironia, e claro, aproveitar para rogar aquela praga em quem nos deixou de coração partido. Divirtam-se!

Marchinhas gravadas no Liquidificador Estúdio, em Belo Horizonte, no dia 22 de janeiro de 2016.
Voz – Giselle Couto / Violão – André Figueiredo / Técnico de som: Marcos Frederico / Produção: Raphael Vidigal

Centenários 2016: Clóvis Bornay representou elite carioca de sua época

“Mãe dos jogos latinos e gregas orgias,
Lesbos, dos beijos lânguidos e dos fogosos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancias;
São o ornato das noites e dias gloriosos;” Baudelaire

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Num quadro satírico o comediante Agildo Ribeiro o apresenta como “um dos raros brasileiros alegres desse país”. Clóvis responde com bom humor, sua principal característica. Museólogo por formação e folião por farra, Bornay foi personagem carnavalesco fundamental na transição da música para a fantasia, dos adereços sonoros para os visuais, embora não tenha feito feio como intérprete de deliciosas e maledicentes marchinhas, tais como “Vamos furunfar”, “Dondoca” e “Fla Gay”, e como jurado de Chacrinha e Silvio Santos. Foi partícipe e emblema maior da tal “Cultura da Imagem”, fundada, sobretudo, nas aparências. Tanto que o diretor do “Cinema Novo” Glauber Rocha o utilizou no filme “Terra em Transe” para dar conta desse caráter alegórico.

Centenários 2015: Zé Trindade consagrou o tipo ordinário

“O que é a natureza…” Zé Trindade

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Zé Trindade está na música do Skank. Está na fala do comentarista esportivo José Trajano. Está na boca do povo. Zé Trindade é a boca do povo. Difícil determinar onde começa a personagem e termina o intérprete. O próprio se valia de referências da vida pessoal, autodenominando-se “baiano e muito vivo!”. Num dos inúmeros bordões que perpetrou, tirava sarro da aparência: “É chato ser gostoso”. “Baixinho, feio e sempre safado”, nas palavras do crítico de cinema Inácio Araújo, aliás, os tais bordões servem de principal esteio às atuações de Trindade que, diferente de outros comediantes, não se agarrou a um, mas criou inúmeros deles. Judiado pelas mulheres, o comediante sempre arranja uma saída criativa para as confusões que arruma. Talvez seja este o principal ponto de aproximação de Zé Trindade com o seu povo.