Entrevista: Toni Garrido

“Morre e transforma-te!” Goethe

Toni Garrido

Elba Ramalho tornou icônica música composta por Dominguinhos e Nando Cordel, a versar sobre a saudade do lar. “De volta pro meu aconchego” reflete o temor de andar de avião, que obriga o sanfoneiro nordestino a percorrer longas distâncias de ônibus.

Arnaldo Antunes também avistou o tema, com a raivosa e política “Volte para o seu lar”, na qual difama a polícia, a doença, a miséria, e recolhe-se a uma casa esquecida, mas que ainda abriga confraternizações sinceras, quando todos se sentam na mesa para comer com a mão.

Entrevista: Leandro Sapucahy

“Alguns procuram os padres, outros a poesia, eu, os amigos.” Virginia Woolf

Leandro Sapucahy

“Tenho a consciência de que o público, ás vezes, nem presta atenção, está lá, no show, só para azarar”, confirma Leandro Sapucahy, ao repercutir o estilo do trabalho “Baile do Sapuca – Sapucapeta”, posto no mercado em formato DVD pela gravadora Sony Music.

Gravado no Rio de Janeiro, na casa de shows Marina da Glória, o baile nasceu “despretensiosamente, de maneira muito espontânea”, e acabou se transformado em verdadeiro fenômeno de proporções nacionais, lotando espaços em Brasília, Maranhão, Piauí, Natal, Salvador e São Paulo.

Entrevista: Trio Triz

“Com celeste golpe nos fere
E não lhe achamos a cicatriz,
Apenas uma diferença interna,
Lá, onde jazem os sentidos.” Emily Dickinson

Trio Triz

O “Conexão Vivo no Inimá” encerra sua edição 2012 hoje, às 20h, no Museu Inimá de Paula (rua da Bahia, 1.201), com apresentação do elogiado projeto Triz, formado por André Mehmari, Chico Pinheiro e o mineiro Sérgio Santos. Os ingressos custam R$10 e R$5 (meia).

O fato de os três serem compositores, conta Sérgio, teria sido um facilitador da união. “Privilegiamos a criação. A música precisa de uma elaboração harmônica, melódica e rítmica”. No palco, o repertório será basicamente o presente no primeiro CD do trio.

Entrevista: Ritchie

“A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada.” Emily Dickinson

Ritchie

“Cansamos de ouvir que o rock jamais decolaria no Brasil”, avisa Ritchie, inglês radicado no país há quatro décadas, responsável pelo sucesso pop “Menina Veneno”, que, agora, ao completar 60 anos (o aniversário foi em 6 de março), grava pela primeira vez um disco em que utiliza a língua mãe. “Todos os vocais foram registrados na primeira tomada, sem precisar de segundos ‘takes’, isso nunca tinha acontecido antes”, orgulha-se.

A celebrada data serviu de mote para que o cantor intitulasse o novo trabalho de ’60’, não apenas alusivo à particular primavera, mas como especial homenagem à efervescente década que mostrou ao mundo sucessos dos The Beatles, Rolling Stones, Beach Boys, The Animals, e outros. Todos estes estão fora do disco de Ritchie, não porque não tenham feito parte de sua adolescência musical, pelo contrário.

Entrevista: Saulo Laranjeira + Clara Becker + Gereba

“Luiz, respeita Januário, Luiz, respeita Januário
Luiz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Luiz! Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai” Luiz Gonzaga

Saulo Laranjeira

Cem anos após o nascimento, num dia 13 de dezembro de 1912, Luiz Gonzaga é celebrado com homenagens de norte a sul do país. Gereba Barreto, compositor baiano que conviveu com o mestre, afirma o incômodo que Luiz sentia com o rótulo de “forrozeiro”. “Era o sonho dele ser reconhecido também como compositor”.

O CD “Luas do Gonzaga”, lançado de forma independente pelo compositor, conta com a participação de Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Lenine e outros, e joga luz sobre esse lado menos conhecido de Gonzagão, o de compositor de valsas, choros e mazurcas. “A música de Luiz Gonzaga está no DNA do brasileiro”, opina Gereba a respeito da permanência da obra de Gonzagão.

Entrevista: Edson Cordeiro + Toninho Horta

“Mas acima de tudo atiraste uma pedra
Turvando esta água
Esta água que um dia, por estranha ironia
Tua sede matou” Herivelto Martins

show Herivelto Martins

“Até para lavar a roupa suja, trazia beleza”, detém-se Edson Cordeiro, que entre uma pausa e outra, completa: “Dos momentos mais delicados da vida ele tirou poesia”. O retratado por essas palavras é Herivelto Martins, compositor homenageado na noite desta terça-feira, às 20h, no projeto Compositores.BR que acontece no Sesc Palladium.

Autor de inúmeros sucessos como “Ave Maria no Morro”, “Praça Onze”, “Cabelos brancos”, “A Bahia Te Espera”, “Bom Dia” e “Segredos”, todos presentes no roteiro da apresentação, o compositor, que viveu atribulado romance com a cantora Dalva de Oliveira na década de 50 – e esteve à frente do Trio de Ouro em várias formações diferentes – tem o centenário de nascimento celebrado este ano.

Entrevista: Rodrigo Faour

“Tem amor de raça e amor vira-lata
Amor com champanhe, amor com cachaça
Amor nos iates, nos bancos de praça (…)
Mas não interessa, o negócio é amar!” Dolores Duran

Autor da biografia de Dolores Duran

“Um prodígio, um gênio, dessas personalidades difíceis de explicar”. Essas adjetivações são usadas com recorrência por Rodrigo Faour, autor da biografia de Dolores Duran (A noite e as canções de uma mulher fascinante; editora Record; 558 páginas; R$49,90), para salientá-la, e acrescenta: “Ela tinha um bom gosto impressionante, detestava cafonices”.

Esse bom gosto pode ser atestado através das parcerias que a cantora e compositora, morta aos 29 anos em virtude de uma parada cardíaca, empreendeu ao longo da carreira. Rodrigo destaca com propriedade (produziu em 2010 caixa com todos os álbuns de carreira da intérprete), as uniões musicais com Tom Jobim, Carlos Lyra e Billy Blanco, que foi também namorado de Dolores.

Entrevista: Elisa Freixo

“caixas vazias, flores secas dentro de um livro,
chamam em circunstâncias solitárias
e deve-se abrir, e ouvir o que não tem voz,
deve-se ver as coisas que não existem.” Pablo Neruda

Organista da Sé de Mariana

A distância entre Alemanha e Brasil parece pequena para Elisa Freixo. Igualmente acontece o feito entre a música de concerto e a arquitetura histórica de cidades como Mariana, Ouro Preto e Tiradentes. “O repertório está ligado à história dos instrumentos, foi na segunda metade do século XVIII que os órgãos mineiros foram instalados”, afirma.

Organista consagrada e requisitada, a musicista apresenta neste final de semana e no próximo dia 7 de dezembro, nas cidades citadas, as músicas do novo disco, gravado no país da capital Berlim, convidada pela igreja Waltersdorf, onde ocorreu o registro. “Eles querem dar início a uma série chamada ‘Monographien’, com várias gravações feitas em órgãos históricos dessa região”, diz.

Entrevista: Elza Soares

“Ai, minhas blusas de linha!
Ai, meus quadris de amapola!
Com a água das cotovias,
Soledad, teu corpo molha,
e deixa o teu coração
em paz, Soledad Montoya.” García Lorca

Entrevista com a cantora do milênio

“Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, intacta e assim permanece. Carrega a cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. É a mistura sem jeito, sem tato, aos barrancos, mancando ao sapato um tamanco de barro, suor e pilão. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida. Ela apenas destila o que chama de corpo é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene”, declama a cantora, ao telefone, os versos que lhe escrevi em homenagem.

Emocionado, confabulo outras considerações elogiosas, a respeito da voz performática de Elza Soares, extremamente intocável e física, mas  logo sou interrompido. Ninguém melhor do que a intérprete, que se apresenta amanhã, dia 2, às 15h, na Savassi, com o show “Deixa a Nêga Gingar”, em razão do Dia Nacional do Samba, para falar da própria garganta. “É um presente de Deus, com ela faço tudo que quero, pois tem malícia, dengo, força, é rouca, agressiva e jocosa”, enumera.

Entrevista: Geraldo Azevedo

“Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.” Hilda Hilst

Bicho de Sete Cabeças II

“O ser humano é maluco, cria coisas contra ele”, diz o compositor Geraldo Azevedo, autor do infindável sucesso “Bicho de Sete Cabeças II” (ao lado de Zé Ramalho e Renato Rocha), recentemente revisitado por Ney Matogrosso no espetáculo “Beijo Bandido”, assistido de perto pelo entrevistado na estreia carioca. “O Ney é impressionante, valorizou ainda mais o que já era maravilhoso, aquela performance é o gol!”, entusiasma-se.

O que não anima Geraldo é o rumo das águas no mundo, antes acostumadas a peixes, limpeza e ar puro. “As pessoas não acreditam que o planeta pode mudar, as iniciativas de revitalização são todas muito tímidas, enquanto o desmatamento, a poluição, e os maus tratos são contínuos”, desabafa.