Entrevista: O livro de músicas de Célia, intérprete dramática

“e no zumbido do aeroplano a voz do céu de verão murmurava sua alma impetuosa.” Virginia Woolf

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Os olhos são de Maysa e o humor tem a sagacidade de uma Angela Ro Ro. Apesar das semelhanças com uma que veio antes e outra depois, Célia é cantora peculiar no universo da canção brasileira, a começar pelos “bons modos” com os quais prefere ser conhecida. “Não me conformo em ser o quinto músico de uma banda. Sou a solista interpretando a palavra”, diz. Por isso a alcunha de “intérprete” lhe cai melhor que a de cantora, afinal de contas, “a voz pode ser só um instrumento, como baixo, guitarra, bateria, piano”, ou o “algo mais” que em 42 anos de carreira ela procura, e não raro encontra.

Para 2014 o projeto ambicioso da paulista nascida na capital, mas criada em São Bernardo do Campo, prossegue nesse rumo. Ao lado do ator Marco Ricca e com direção de Jorge Takla – famoso por trabalhar, inclusive, com óperas – ela unirá música e teatro num espetáculo em que “o ator terá que saber cantar e o cantor que interpretar”, afiança. Com “mais de 40 canções no repertório e trechos interligados em que as respostas serão faladas e cantadas”, Célia adianta a presença de “Fala baixinho” de Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho, unida a “Speak Low”, do alemão Kurt Weill, num mesmo número.

Entrevista: O Teatro Sonoro de Vânia Bastos

“A luz do sol pingava sobre a casa como tinta dourada em uma jarra artisticamente decorada, e os pontos de sombra que caíam como sardas aqui e ali apenas intensificavam o rigor do banho de luz.” F. Scott Fitzgerald

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Arrigo Barnabé e Edu Lobo podem não ter nada a ver um com o outro, ao olhar primeiro e desatento. Mas numa coisa eles concordam: Vânia Bastos. A cantora paulista, nascida no interior, em Ourinhos, começou a carreira acompanhando o paranaense na banda “Sabor de Veneno”, com o lançamento em 1980 do histórico álbum “Clara Crocodilo”, e dedicou o último trabalho registrado em disco ao compositor carioca identificado, sobretudo, com a bossa nova.

Com discografia de onze títulos autorais, sem contar as participações em bandas e projetos especiais, e mais de trinta anos de carreira, Vânia não para de inovar. Um exemplo recente é a criação de personagem interpretada por ela durante espetáculos. “Eu estava esquentando a voz no camarim e tinha um eco bem bom, a voz ia longe! Comecei a brincar com ‘Upa Neguinho’ (de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) usando uma voz erudita, de farra! O Ronaldo Rayol (arranjador e violonista) achou que era alguma cantora alemã ensaiando ópera! Rimos muito quando descobriram que era eu, e então o Passoca (cantor e compositor), deu a idéia do nome: Ardah, de Eduarda, e Wolff, que é lobo, em alemão”, explica.

Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

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Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

Rei da Embolada, Manezinho Araújo é 100!

“Alegres trópicos: bagana – papanata – ponta
firme – campar com a pururuca – encher a moringa
de fumaça – buchicho – xarope – muquirana.” Wally Salomão

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Um homem que teve sucessos gravados por Gilberto Gil e Jackson do Pandeiro, conheceu Noel Rosa e despertou o encanto de Carmen Miranda completaria cem anos de vida em 2013. A sentença condicional deve-se tanto ao falecimento (em 23 de maio de 1993) quanto à incerteza da efeméride. Afinal Manezinho Araújo afirma em entrevista a Fernando Faro para o programa “Ensaio” ter nascido em 27 de setembro de 1910, enquanto o Dicionário da Música Popular Brasileira de Ricardo Cravo Albin, e outros veículos de imprensa, o desmentem, determinando o choro do menino a vir ao mundo em 1913.

Pernambucano, natural de Cabo, no interior, “Manezinho Araújo escreveu uma importante página na história da música brasileira. Uma página de muita originalidade e de uma simplicidade que ás vezes pode ser confundida com algo raso, descartável, mas a música dele tinha fundas raízes”, depõe o cantor e compositor Geraldo Maia, que homenageou seu conterrâneo no álbum “Ladrão de Purezas”, lançado em 2011 pela Biscoito Fino, com pérolas pouco conhecidas mescladas a inegáveis êxitos. Conhecido como “Rei da Embolada”, Manezinho é da dinastia de “monarcas” do nordeste, como Luiz Gonzaga (“Rei do Baião”) e Jackson do Pandeiro (“Rei do Ritmo”).

Entrevista: Fátima Guedes caminha sensual entre música e poesia

“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.” Carlos Drummond de Andrade

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O escritor colombiano Gabriel García Márquez afirma que todo autor passa a vida burilando o mesmo livro, e no caso dele seria o da “solidão”. Maria de Fátima Guedes, conhecida nacionalmente a partir do segundo nome como cantora, compositora e instrumentista nascida e moradora do Rio de Janeiro, afiança: “Toda a síntese da minha obra está na canção ‘Condenados’”.

De versos como “ah, meu amor, estamos condenados/nós já podemos dizer que somos um/e nessa fase do amor em que se é um/é que perdemos a metade cada um”, a música foi lançada no segundo álbum da artista, em 1980, intitulado apenas com o seu nome. Dona de discografia com onze títulos, fora coletâneas e participações, Fátima prepara novidades para 2014, inclusive uma volta a Belo Horizonte.

Entrevista: Eliana Pittman revisita sucessos da carreira no projeto “Salve Rainhas”

“Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto.
Só falando, faz perder
Todo o juízo a um santo.” Florbela Espanca

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Quem a vê assim como a empregada Chica, “num papel totalmente anti-glamour”, ela própria diz, pouco imagina que Eliana Pittman, antes de participar da novela “Sangue Bom” na rede Globo, muito cantou por esse planeta, e acumulou farta bagagem de sucessos e histórias inusitadas, sempre munida do charme e exuberância de sua voz.

REPERTÓRIO
É parte dessa trajetória que Eliana irá apresentar ao público que comparecer neste domingo (29/09) à Funarte, 19 horas, acompanhada do pianista mineiro Dudu Viana, no projeto “Salve Rainhas”, numa espécie de bate-papo musical que promete reunir fatos marcantes e os êxitos inquestionáveis de carreira iniciada em 1963 ao excursionar para a Argentina ao lado do padrasto famoso, o saxofonista Booker Pittman, de quem também herdou o nome artístico.

O Humor Romântico de Eduardo Dussek

“Escutar é uma coisa perigosa, sabe. Quem escuta pode ser convencido, e um homem que se deixa convencer por um argumento é uma pessoa completamente insensata.” Oscar Wilde

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Eduardo Dussek é um dos astros do espetáculo “Sassaricando – E O Rio Inventou A Marchinha”, posto em cena, há sete anos, por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral. O elenco reúne, na atualidade, Inez Viana, Juliana Diniz, Pedro Paulo Malta, Beatriz Faria e Pedro Miranda. Isso porque desde a estréia o musical não saiu mais de cartaz. A recente temporada começou no dia 10 de janeiro e fica até 3 de março. A grande novidade é o local, uma casa de shows reaberta no Rio de Janeiro, o “Imperator”, também chamado Centro Cultural João Nogueira, no Méier, zona norte da cidade.

“O subúrbio foi o principal responsável pela sobrevivência do carnaval de rua”, afirma Dussek, que cita os tradicionais blocos carnavalescos e os conhecidos “clóvis”, palhaços cujo nome teria surgida de uma confusa leitura da palavra em inglês “clown”, tradução literal para os animadores de circo. A experiência tem lhe proporcionado um reencontro com as origens. “Embora tenha nascido em Copacabana, fui criado na Tijuca, e sempre freqüentei carnaval de periferia. Eu adoro aquela animação suburbana, típica das grandes agremiações, escolas, blocos, como o ‘Bafo de Onça’, ‘Cacique de Ramos’, e tantos outros”.

Entrevista: Leny Andrade

“iluminada por luzes roxas dispostas nos cantos, ofuscava os olhos com uma brancura que só podia ser comparada consigo mesma, algo que ultrapassava o desejo e o sonho humanos.” F. Scott Fitzgerald

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Ela se intitula “queridinha dos músicos”. Não por acaso. Como faz questão de ressaltar, além de cantora profissional é formada em piano clássico. Leny Andrade chega aos 70 anos de idade no dia 25 deste mês, com a força e o vigor de quem está só começando. E uma agenda de colocar inveja em qualquer iniciante. Nova York, nos Estados Unidos, Trancoso, na Bahia, e Rio de Janeiro estão no roteiro.

O primeiro voo é para a cidade americana. De 13 a 17 de fevereiro, a intérprete se apresentará no palco do Dizzy’s Club Coca-Cola, acompanhada do “Nilson Matta’s Black Orpheus”, formado por Nilson Matta (baixo), Steve Wilson (saxofone), Klaus Mueller (piano), Alex Kautz (bateria) e Fernando Saci (percussão). O repertório é centrado na peça ‘Orfeu da Conceição’, de Vinicius de Moraes. Da lavra do ‘poetinha’, cujo centenário de nascimento é celebrado este ano, Leny destaca a “paixão por ‘Valsa de Eurídice'”.

Entrevista: Folashade Ogunlade

“Uma gota suspensa e cintilante,
límpida e imóvel como um desafio…
Tua ausência, – é a presença triunfante
daquela gota que ficou no fio…” J. G. de Araújo Jorge

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Há um mito africano, especificamente de Máli, que conta como o mundo foi criado a partir de uma gota de leite. Após sucessivas transformações, que passam por fogo, ar, terra e água, o tédio vence a morte, e a eternidade redime a existência humana.

Talvez Folashade Ogunlade aspire, com sua arte, a uma eternidade. Mas é inegável que em seu trabalho o que importa é a “origem”, como ela faz repetir em palavras traduzidas por Olu Akinruli, representante do projeto que une Brasil e África.

Entrevista: Eliana Pittman

“Pois a imagem não existe. É só um jogo de luz. Pelo fascínio de uma imagem refletida nos olhos da mulher amada, um homem fica belo. Pelo fascínio de uma imagem refletida numa fonte, Narciso se transformou numa flor.” Rubem Alves

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Musa da bossa nova. Rainha do ritmo alucinante do Pará. Os mais antigos irão apostar em Nara Leão. Os novos, em Gaby Amarantos. No entanto, o rosto surpreendente apresenta-se ao nome de Eliana Pittman. Carioca, natural do Rio de Janeiro, cantora, atriz, filha adotiva do clarinetista e saxofonista de jazz Booker Pittman, falecido em 1969. Rebento legítimo da música brasileira.

“Para entrar em meu repertório é imprescindível ter letra e melodia bonitas. Adoro trabalhos com ritmos, preciso sentir o que estou cantando”, avisa ela que, recentemente, estreou o show ‘Soul Bossa Jazz’, no teatro do Sesc, em Sorocaba. Durante a quarta música, porém, um acontecimento inusitado por pouco não pôs fim à apresentação.