Entrevista com Arnaldo Antunes: “Lula é um político brilhante”

“O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” Fernando Pessoa [Bernardo Soares]

Uma das obras mais perturbadoras do espanhol Francisco Goya (1746-1828), pintada diante de seu horror com as guerras napoleônicas, traz a inscrição “O sono da razão produz monstros”. Foi “tomado por esse mesmo estado de perplexidade” que Arnaldo Antunes, 59, compôs, logo após o segundo turno das últimas eleições, “O Real Resiste”.

A música dá nome a seu mais novo disco, já disponível nas plataformas digitais. Lançada como single em dezembro, ela teve o seu videoclipe retirado, sem explicações, da grade de programação da TV Brasil. A letra, ácida, afirma em tom de ironia: “Miliciano não existe/ Torturador não existe/ Fundamentalista não existe/ Terraplanista não existe/ Monstro, vampiro, assombração/ O real resiste/ É só pesadelo, depois passa/ Múmia, zumbi, medo, depressão”.

Majur: “Hoje sabemos com quem estamos lutando”

“exalando de todo seu corpo um perfume de seiva, de verdura e de ar livre.” Gustave Flaubert

Majur, 23, que se define como não binária, ambientou o clipe de “Africaniei” na sua cidade natal, Salvador. “É uma aula sobre a história do nosso povo. Somos um país laico que tem a diversidade como qualidade”, informa Majur, que, aliás, é uma das atrações mais aguardadas do Planeta Brasil, assim como seu “padrinho”, Caetano. Levada por Maria Gadú à casa dele, ela logo despertou o interesse do músico, que escreveu um texto para enaltecer suas qualidades. “Caetano é uma das minhas maiores referências, e estar com ele hoje me traz um sentimento de gratidão”, agradece Majur, que começou a cantar aos 5 anos, no coral da Orquestra Sinfônica da Juventude de Salvador. Em junho de 2019, ela gravou com Emicida e Pabllo Vittar o clipe de “AmarElo”, que considera “um ‘start’ para o mundo”. “Nós três temos histórias de luta e resistência e encontramos um jeito de deixar uma mensagem de ânimo, utilizando a música como tecnologia de afeto”, afirma Majur.

Samuel Rosa: “Esse governo neoliberal combate tudo que é transformador”

“Há bem aventurança em duvidar; eu me pergunto por quê.” Brecht

Samuel Rosa, 53, se lembra com nitidez da época em que tocava nas noites de Belo Horizonte e recebeu, em um desses bares que serviam de palco para o Skank, uma letra do futuro parceiro Chico Amaral. “Réu & Rei” foi a primeira música que a dupla compôs para o conjunto, cuja separação foi anunciada em novembro, após quase três décadas de estrada. Na época, Samuel falou com Amaral de sua “ambição de formar uma banda com acento de reggae, mas que misturasse também música brasileira e rock”, recorda ele. A canção mais recente dessa trajetória é “Algo Parecido”, que, ao ser lançada, em novembro de 2018, rapidamente alcançou o topo das paradas de sucesso. Com ela, o vocalista conta que “ousou voltar a escrever letras, algo que tinha deixado de lado” e que pretende retomar agora. “Foi uma experiência incrível, porque essa música se tornou uma das de maior apelo do Skank nos últimos anos. Digo que ela é um pouco autobiográfica, porque se passou comigo uma experiência que acontece com milhares de pessoas quando elas começam um relacionamento”, entrega.

Milton Nascimento: “Nunca precisamos tanto de música, amor e educação”

“Não é possível adiar a vida.” Caio Fernando Abreu

Milton Nascimento começou a correr o país com a turnê “Clube da Esquina” em março, partindo de Juiz de Fora, onde ele vive atualmente. Além de capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Brasília e outras cidades mineiras, caso de Tiradentes, o esperado sucesso da empreitada o levou a extrapolar fronteiras, subindo em palcos de Paris, Berlim, Madri, Amsterdã, Lisboa, Porto, Londres, Zurique e Tel Aviv. “O carinho das pessoas nesses nove países diferentes mexeu muito comigo, a emoção é a mesma em todos os lugares. Eu nunca curti tanto uma temporada”, confessa o cantor. A ideia de revisitar o repertório dos dois álbuns duplos que formataram a identidade do movimento, que unia influências da música barroca mineira ao insurgente fenômeno dos Beatles, veio com as efemérides: os 45 anos do primeiro disco e os 40 do segundo.

Toquinho explica parceria com Chico Buarque sobre “perseguidos pela ditadura”

“Assim, hoje, passados dez anos, percebo que para um exilado não existe nenhum lugar onde possa viver; não existe nenhum lugar, porque aquele com o qual sonhamos, onde descobrimos uma paisagem, lemos nosso primeiro livro, tivemos a primeira aventura amorosa, continua sendo o lugar sonhado. No exílio, ele não passa de um fantasma, a sombra de alguém que nunca consegue alcançar sua completa realidade. Deixei de existir desde que cheguei no exílio; a partir de então, comecei a fugir de mim mesmo.” Reinaldo Arenas

Ao lado de Vinicius de Moraes, Toquinho aprendeu a cultivar, na década de 70, a prática de estar sempre bem acompanhado por uma intérprete de peso da música brasileira. Maria Creuza foi a primeira, e Miúcha, uma das mais recorrentes. Na Argentina, em 1971, eles levaram a então iniciante Maria Bethânia que, segundo Toquinho, “dispensa rótulos”. Com Clara Nunes, em 1973, realizaram uma extensa temporada nos circuitos universitários. “Clara tinha leveza na voz e muita graciosidade em cena, além de uma explosão no limite exato”, elogia Toquinho.

Badi Assad: “Momento político é caótico e humanamente despreparado”

“Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.” Pablo Neruda

Na beira do mar, Badi Assad, 52, sente a “brisa a acariciar o seu corpo” e sequer precisa sair de casa. A compositora paulista conta que é “transportada” para esse ambiente toda vez que escuta “Tarde em Itapoã”, um dos clássicos do conterrâneo Toquinho, 73, em parceria com Vinicius de Moraes. Apesar de nascidos no mesmo Estado, a diferença de gerações adiou o encontro entre eles, que finalmente se apresentam juntos em Belo Horizonte pela primeira vez. Mas a intimidade de Badi com a obra de Toquinho data de um tempo anterior.

1 – Quando foi que você tomou conhecimento da música do Toquinho pela primeira vez?
Como muitos brasileiros, o conheci através de ‘Aquarela’. Na época, eu tinha começado a tocar violão e achei incrível um cantor tocar violão daquele jeito enquanto cantava. Eu estava com 14 ou 15 anos mais ou menos, e com certeza ele plantou esta semente de possibilidades em meu jovem coração.

Lenine: “Vibrei com a soltura do ex-presidente Lula”

“Num país de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo.” T. S. Eliot

A filipeta anunciava, no alto da página, que haveria xote, maracatu e baião naquela noite no Circo Voador, icônico espaço cultural do Rio de Janeiro, localizado na Lapa. A informação de um show-baile com Lula Queiroga, Lenine e Tadeu Martins aparecia logo acima da atração principal, destacada em negrito com os dizeres: “E a presença muito especial do Rei do Baião Luiz Gonzaga”. Lenine, 60, guarda suas memórias daquele sábado de 1984, quando o país já vivia a ebulição do movimento Diretas Já, que culminou com a eleição, por um colégio eleitoral, de Tancredo Neves (1910-1985) à Presidência da República. “Uma multidão que estava do lado de fora do show quebrou o alambrado para invadir o espaço e nos ouvir”, recorda Lenine.

Zeca Baleiro: “O governo Lula brigou pela justiça social e merece respeito”

“Sabei que tal mensagem
Não me surpreende nem me assusta. Há muito
A esperava. Conheço os meus juízes.
Compreendo que não queiram conceder-me
A liberdade após tantos ultrajes.
O que se quer, sei bem, é sequestrar-me
Em perpétua prisão e o meu direito,
Minha vingança soterrar nas trevas
Do calabouço.” Friedrich Schiller

Durante o primeiro turno das últimas eleições presidenciais, Zeca Baleiro chegou a divulgar uma sátira musical em suas redes, dando pitaco nas candidaturas de João Amoêdo, Ciro Gomes, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. Participante do festival Lula Livre, ele aproveita a ocasião para deixar clara a sua posição política. “Quem me conhece de perto sabe o quanto sou crítico de Lula e do PT. Erraram muito. Erraram onde não podiam errar. Mas não me parece admissível que o Lula tenha sido preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por causa de um sítio mequetrefe e um triplex cafona, enquanto gângsteres da política nacional, como Aécio Neves e o próprio Marcelo Odebrecht, estão soltos por aí, desfrutando de suas fortunas roubadas”, critica. “Não me resta nenhuma dúvida de que a prisão do Lula faz parte de um plano político da direita para ocupar o poder”, completa ele, que não poupa críticas ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, alvo de um julgamento no Supremo Tribunal Federal que deve decidir se o ex-juiz foi parcial ao condenar o ex-presidente Lula. “O Sergio Moro é um juiz arrivista e jeca, posando de guardião da moral e da retidão. Um pateta, a serviço da sordidez desse atual governo. E o Bolsonaro é um retardado completo. O que esperar desse povo?”, dispara.

Alceu Valença: “A filosofia transformou a minha maneira de ver o mundo“

“Quanto mais desconfiança, mais filosofia.” Nietzsche

Um trauma marcou as primeiras relações de Alceu Valença, 73, com as artes. Nascido em São Bento do Una, no agreste meridional de Pernambuco, o músico viveu na cidade até os 7 anos, antes de se mudar, com a família, para a capital Recife. No pequeno município de 5 mil habitantes, havia dois cinemas, três grupos de teatro e uma banda de música. “Era uma cidade amiga da arte”, descreve. “E havia também a cultura popular dos cantadores, poetas, cordelistas, violeiros, coquistas e improvisadores; dos cegos cantores de feira e dos aboiadores que tangiam o gado com sua cantigas de forte influência mourisca. Tudo isso faz parte da minha formação primal, são os mesmos elementos que Luiz Gonzaga utilizou para formatar, por exemplo, o forró e o baião”, conta.

“É um grito de liberdade contra tudo que oprime”, diz diretor de “Bixa Travesty”

“Não respondo de medo. De medo da pressa dos inteligentes que arrematam a frase antes que ela acabe. E porque não tem resposta. Qual o segredo por trás disso tudo? Como te digo que desejo sim meu cônjuge, meu par, que não proclamo mas meu corpo pêndulo nessa direção? Que meu par é quem quer saber e dá, a bênção, as palavras: em nome do pai, e da filha, qual é o endereço? o interesse? o alvo do raio? a vida secreta do sr. Morse? Alguém viu – o sossego do urso? Alguém ficou fraco diante de sua mãe? Alguém disse que é para você que escrevo, hipócrita, fã, cônjuge craque, de raça, travestindo a minha pele, enquanto gozas?” Ana Cristina Cesar

Uma luva metálica de unhas pontiagudas usada por Ney Matogrosso na época do grupo Secos & Molhados é apresentada no documentário “Bixa Travesty” como um amuleto dado pela amiga e parceira Jup do Bairro para Linn da Quebrada, 29. A revelação do encontro entre ídolo e fã, no entanto, só acontece ao final do longa-metragem. “Ser recebida pelo Ney com tanto carinho e generosidade representa muito. A importância se dá, justamente, por ser um encontro de gerações, entre o que eu venho propondo na música agora e o que o Ney continua realizando com o seu corpo, sua força e sua coragem”, exalta Linn.

Focado na trajetória de Linn, que também participou da roteirização, “Bixa Travesty” estreia em BH, no Cine Belas Artes, no dia 28 de novembro. Mas o caminho, até aqui, não foi fácil. Lançado no Festival de Berlim no ano passado, ele recebeu o prêmio Teddy de melhor documentário. No Festival de Brasília, foi novamente premiado, dessa vez na categoria melhor filme de público, concedido pela Petrobras para fomentar a distribuição. No entanto, com a eleição de Jair Bolsonaro e a troca de governo, a premiação foi suspensa, como conta Kiko Goifman, que dirigiu o filme ao lado de Claudia Priscilla.