Toquinho explica parceria com Chico Buarque sobre “perseguidos pela ditadura”

“Assim, hoje, passados dez anos, percebo que para um exilado não existe nenhum lugar onde possa viver; não existe nenhum lugar, porque aquele com o qual sonhamos, onde descobrimos uma paisagem, lemos nosso primeiro livro, tivemos a primeira aventura amorosa, continua sendo o lugar sonhado. No exílio, ele não passa de um fantasma, a sombra de alguém que nunca consegue alcançar sua completa realidade. Deixei de existir desde que cheguei no exílio; a partir de então, comecei a fugir de mim mesmo.” Reinaldo Arenas

Ao lado de Vinicius de Moraes, Toquinho aprendeu a cultivar, na década de 70, a prática de estar sempre bem acompanhado por uma intérprete de peso da música brasileira. Maria Creuza foi a primeira, e Miúcha, uma das mais recorrentes. Na Argentina, em 1971, eles levaram a então iniciante Maria Bethânia que, segundo Toquinho, “dispensa rótulos”. Com Clara Nunes, em 1973, realizaram uma extensa temporada nos circuitos universitários. “Clara tinha leveza na voz e muita graciosidade em cena, além de uma explosão no limite exato”, elogia Toquinho.

Badi Assad: “Momento político é caótico e humanamente despreparado”

“Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.” Pablo Neruda

Na beira do mar, Badi Assad, 52, sente a “brisa a acariciar o seu corpo” e sequer precisa sair de casa. A compositora paulista conta que é “transportada” para esse ambiente toda vez que escuta “Tarde em Itapoã”, um dos clássicos do conterrâneo Toquinho, 73, em parceria com Vinicius de Moraes. Apesar de nascidos no mesmo Estado, a diferença de gerações adiou o encontro entre eles, que finalmente se apresentam juntos em Belo Horizonte pela primeira vez. Mas a intimidade de Badi com a obra de Toquinho data de um tempo anterior.

1 – Quando foi que você tomou conhecimento da música do Toquinho pela primeira vez?
Como muitos brasileiros, o conheci através de ‘Aquarela’. Na época, eu tinha começado a tocar violão e achei incrível um cantor tocar violão daquele jeito enquanto cantava. Eu estava com 14 ou 15 anos mais ou menos, e com certeza ele plantou esta semente de possibilidades em meu jovem coração.

Lenine: “Vibrei com a soltura do ex-presidente Lula”

“Num país de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo.” T. S. Eliot

A filipeta anunciava, no alto da página, que haveria xote, maracatu e baião naquela noite no Circo Voador, icônico espaço cultural do Rio de Janeiro, localizado na Lapa. A informação de um show-baile com Lula Queiroga, Lenine e Tadeu Martins aparecia logo acima da atração principal, destacada em negrito com os dizeres: “E a presença muito especial do Rei do Baião Luiz Gonzaga”. Lenine, 60, guarda suas memórias daquele sábado de 1984, quando o país já vivia a ebulição do movimento Diretas Já, que culminou com a eleição, por um colégio eleitoral, de Tancredo Neves (1910-1985) à Presidência da República. “Uma multidão que estava do lado de fora do show quebrou o alambrado para invadir o espaço e nos ouvir”, recorda Lenine.

Zeca Baleiro: “O governo Lula brigou pela justiça social e merece respeito”

“Sabei que tal mensagem
Não me surpreende nem me assusta. Há muito
A esperava. Conheço os meus juízes.
Compreendo que não queiram conceder-me
A liberdade após tantos ultrajes.
O que se quer, sei bem, é sequestrar-me
Em perpétua prisão e o meu direito,
Minha vingança soterrar nas trevas
Do calabouço.” Friedrich Schiller

Durante o primeiro turno das últimas eleições presidenciais, Zeca Baleiro chegou a divulgar uma sátira musical em suas redes, dando pitaco nas candidaturas de João Amoêdo, Ciro Gomes, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. Participante do festival Lula Livre, ele aproveita a ocasião para deixar clara a sua posição política. “Quem me conhece de perto sabe o quanto sou crítico de Lula e do PT. Erraram muito. Erraram onde não podiam errar. Mas não me parece admissível que o Lula tenha sido preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por causa de um sítio mequetrefe e um triplex cafona, enquanto gângsteres da política nacional, como Aécio Neves e o próprio Marcelo Odebrecht, estão soltos por aí, desfrutando de suas fortunas roubadas”, critica. “Não me resta nenhuma dúvida de que a prisão do Lula faz parte de um plano político da direita para ocupar o poder”, completa ele, que não poupa críticas ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, alvo de um julgamento no Supremo Tribunal Federal que deve decidir se o ex-juiz foi parcial ao condenar o ex-presidente Lula. “O Sergio Moro é um juiz arrivista e jeca, posando de guardião da moral e da retidão. Um pateta, a serviço da sordidez desse atual governo. E o Bolsonaro é um retardado completo. O que esperar desse povo?”, dispara.

Alceu Valença: “A filosofia transformou a minha maneira de ver o mundo“

“Quanto mais desconfiança, mais filosofia.” Nietzsche

Um trauma marcou as primeiras relações de Alceu Valença, 73, com as artes. Nascido em São Bento do Una, no agreste meridional de Pernambuco, o músico viveu na cidade até os 7 anos, antes de se mudar, com a família, para a capital Recife. No pequeno município de 5 mil habitantes, havia dois cinemas, três grupos de teatro e uma banda de música. “Era uma cidade amiga da arte”, descreve. “E havia também a cultura popular dos cantadores, poetas, cordelistas, violeiros, coquistas e improvisadores; dos cegos cantores de feira e dos aboiadores que tangiam o gado com sua cantigas de forte influência mourisca. Tudo isso faz parte da minha formação primal, são os mesmos elementos que Luiz Gonzaga utilizou para formatar, por exemplo, o forró e o baião”, conta.

“É um grito de liberdade contra tudo que oprime”, diz diretor de “Bixa Travesty”

“Não respondo de medo. De medo da pressa dos inteligentes que arrematam a frase antes que ela acabe. E porque não tem resposta. Qual o segredo por trás disso tudo? Como te digo que desejo sim meu cônjuge, meu par, que não proclamo mas meu corpo pêndulo nessa direção? Que meu par é quem quer saber e dá, a bênção, as palavras: em nome do pai, e da filha, qual é o endereço? o interesse? o alvo do raio? a vida secreta do sr. Morse? Alguém viu – o sossego do urso? Alguém ficou fraco diante de sua mãe? Alguém disse que é para você que escrevo, hipócrita, fã, cônjuge craque, de raça, travestindo a minha pele, enquanto gozas?” Ana Cristina Cesar

Uma luva metálica de unhas pontiagudas usada por Ney Matogrosso na época do grupo Secos & Molhados é apresentada no documentário “Bixa Travesty” como um amuleto dado pela amiga e parceira Jup do Bairro para Linn da Quebrada, 29. A revelação do encontro entre ídolo e fã, no entanto, só acontece ao final do longa-metragem. “Ser recebida pelo Ney com tanto carinho e generosidade representa muito. A importância se dá, justamente, por ser um encontro de gerações, entre o que eu venho propondo na música agora e o que o Ney continua realizando com o seu corpo, sua força e sua coragem”, exalta Linn.

Focado na trajetória de Linn, que também participou da roteirização, “Bixa Travesty” estreia em BH, no Cine Belas Artes, no dia 28 de novembro. Mas o caminho, até aqui, não foi fácil. Lançado no Festival de Berlim no ano passado, ele recebeu o prêmio Teddy de melhor documentário. No Festival de Brasília, foi novamente premiado, dessa vez na categoria melhor filme de público, concedido pela Petrobras para fomentar a distribuição. No entanto, com a eleição de Jair Bolsonaro e a troca de governo, a premiação foi suspensa, como conta Kiko Goifman, que dirigiu o filme ao lado de Claudia Priscilla.

Maria Rita: “Até onde a gente vai apanhar enquanto povo?”

“mergulha no sonho/ anterior às artes,
quando a forma hesita/ em consubstanciar-se.
Canta os elementos/ em busca de forma.
Entretanto a vida/ elege semblante.” Carlos Drummond de Andrade

Maria Rita, 42, não força a barra quando diz que passou “muito mal de emoção”. A expressão é literal. “Me escondi no banheiro, porque achei que fosse desmaiar”, conta. O apuro aconteceu na cerimônia de entrega do Prêmio da União Brasileira dos Compositores (UBC) para Milton Nascimento, laureado pelo conjunto da obra na sede da associação, no Rio de Janeiro, em outubro. Durante a homenagem, Maria Rita cantou “Morro Velho”, lançada no primeiro álbum de Bituca, em 1967. “Essas composições mexem muito comigo. Sou suspeita para falar do Clube da Esquina, tenho um envolvimento próximo, e essa atemporalidade das canções me choca até hoje. É arrebatador”, enaltece. Há cerca de sete anos, a intérprete gravou, com Seu Jorge, uma versão para “Vento de Maio” (Telo e Márcio Borges), eternizada no canto de Elis Regina. O dueto chegou à internet em abril.

Entrevista: Raphael Vidigal fala sobre “O Sol Áspero”

“Acho que o mundo não tem sentido final, mas sei que algo nele tem sentido, e é o homem, porque é o único ser que reclama um sentido.” Albert Camus

É tudo mentira, tudo inventado, esclarece o autor Raphael Vidigal. “Como digo em determinada passagem, é um ‘livro da mentira, do enfeite’”, acrescenta o jornalista, referindo-se a “O Sol Áspero” (Gentil Editora). A empreitada de agora insere-se num formato de “romance experimental”, segundo o autor, letrista e repórter de O TEMPO, para acrescentar, na sequência: “Um pouco na linha do que Paulo Leminski propôs com o ‘Catatau’ (1975), ao chamá-lo de ‘romance ideia’”. “O Sol Áspero”, na verdade, deriva de um projeto para o qual Vidigal foi convidado em 2012.

“É necessário ter conteúdo para não gerar uma música vazia”, diz cantora Lívia Itaborahy

“Mas o amor nascente aguçou nela o senso da beleza e ela jamais esquecerá aquela música. Toda vez que a ouvir, ficará emocionada. Tudo o que acontecer em torno dela nesse momento ficará aureolado com o brilho daquela música, e será belo.” Milan Kundera

Estreante no mercado fonográfico, a cantora Angélica Duarte decidiu homenagear Caetano Veloso em seu primeiro EP. “Odara” apresenta três músicas do irmão de Maria Bethânia. Apesar do caráter de tributo, Angélica garante o vigor e a atualidade do trabalho. “A gente homenageia os músicos que os nossos pais escutavam porque eles são importantes para o que a gente faz agora. A Tropicália abriu muitas portas para que a gente continue se reinventando”, declara a cantora.

O mineiro Octavio Cardozzo seguiu a mesma linha. Em 2019, ele coloca na praça o seu segundo álbum. “Sertão Elétrico” é baseado no show homônimo, onde cantou músicas de Bethânia. “Hoje estamos mais perto dos artistas e poderíamos dividir o line-up de um festival com Caetano e Gil, por exemplo”, afirma Cardozzo. Também mineira, Lívia Itaborahy dedicou show a Ivan Lins. “Reverenciar um trabalho, apesar de não romper, traz um novo olhar, que é dado a partir do recorte que se faz daquele artista”, afiança Lívia.

“Asterix sempre foi um cultor da diversidade”, diz chargista Renato Aroeira

“A cabra deu ao nordestino
esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.” João Cabral de Melo Neto

Eles são apreciadores inveterados de carne de javali, com a qual se empanturram em animados banquetes noturnos, veneram os deuses celtas, exclamam “por Tutatis!” sempre que algo os surpreende e têm um único medo: que o céu caia sobre suas cabeças. Criados há 60 anos pela dupla de quadrinistas franceses René Goscinny e Albert Uderzo, as histórias de “Asterix” se transformaram em um símbolo nacional capaz de ultrapassar barreiras geográficas e até espaciais, com direito a um satélite batizado de “Asterix”. Ouvimos o chargista belo-horizontino Renato Aroeira e o tradutor português Pedro Bouças sobre os irredutíveis gauleses.