Crítica: “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô” e encontra caminho num “TRIZ”

“o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam) ” e. e. cummings

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Companhia de dança de Belo Horizonte com maior prestígio o “Grupo Corpo” volta à capital mineira para apresentar dois espetáculos em uma única noite. No primeiro deles, “onqotô”, a presença de uma dramaturgia bem definida e as canções de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik são o ponto de ressalva. Bailarinos, iluminação e cenário conduzem a um mundo de estupefação, encantamento e deboche, dependendo do mote, com habilidade e presença física inquestionável. Porém o pensamento exposto não explora na totalidade a força do discurso que pode debandar para certo pedantismo distante, dependendo de como se encara.

A canção que aborda a teoria do “BIG-BANG”, por exemplo, ganharia em ironia em vozes de tom mais provocativo, que contribuiriam para uma personalidade mais incisiva e menos posada, como a de Zeca Baleiro. Por vezes, da maneira como foi colocado, Caetano corre o risco de soar com certo ar de superioridade. Por essa sintonia atravessada o “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô”, na força e na beleza da dança, dos passos, das imagens e do som instável, e encontra o caminho num “TRIZ”. Desta vez, com uma dramaturgia solta e menos definida, com um tema mais subjetivo e nada concreto, o grupo explora a beleza na totalidade, em todos os seus contornos, limites e céus.

Valesca Popozuda no Museu de Paris

“A maioria das gentes vive de convicções e não de ideias.” Mario Quintana

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É daquele célebre desconhecido a frase sobre “o que falamos dos outros revelar mais de nós mesmos”. A recente celeuma provocada pela inclusão de uma pergunta sobre Valesca Popozuda numa prova de filosofia tem muito a esclarecer sobre esta tese. Parece-me mais revelador analisar a reação da sociedade em sua pretensa maioria do que a questão propriamente dita que é, sem dúvida nenhuma, mal formulada.

Em todo caso, lembra-me uma atitude um tanto mais ousada e bem empregada, que data do século passado, quando o artista plástico e poeta francês Marcel Duchamp enviou um urinol para o “Salão dos Artistas Independentes” de Nova York, na tentativa de exposição. À época rejeitada hoje a obra que confunde e prejudica muitos “artistas considerados modernos” figura entre as peças mais cobiçadas de um museu em Paris.

Crítica: Espetáculo “Jovens Hermanos” do Ballet Jovem Palácio das Artes converte poesia em dança

“Dance, dance, senão estamos perdidos.” Pina Bausch

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Percebe-se que é uma dança quando o movimento das cores explode no quadro. Logo de cara, percebe-se que é uma dança. No entanto a dúvida permanece até o fim do ato. Percebe-se que é uma dança das cores, das tintas, no quadro. Portanto são bailarinos ou borrões de guaxe, acrílica, látex? Entre o azul da Argentina e o vermelho Portugal uma rã Brasil pula em verde, mancha as patas, escorre a língua entre uma perna e outro braço.

E uma cabeça, e quadris e um quadro: cores de véus, de vens, de vais. Aplausos. Risca no sol um chão, que racha. Escondem-se as cores, a luz se afasta, a escuridão é que toma conta. Cai o pendão, anuncia a morte, tão solitária, que ainda dança uma cor covarde. Toda amarela ela ri e chora, ela limpa as lágrimas, ela então implora: que volte o quadro. E então à noite aparece a lua, ainda brilham, milhões de anos, as estrelas mortas.

Crítica: espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui” incorre em excessos e não envolve espectador

“‘Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?’, e ás vezes: ‘Morcegos comem gatos?’, pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava.” Lewis Carroll

Nowhereland - Agora estamos aqui

Há boas referências ao universo do cineasta Tim Burton, que o coletivo “Movasse” se propõe a homenagear no espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui”, como às personagens de Beetlejuice, Edward Mãos de Tesoura, Alice no País das Maravilhas, Sweeney Todd – o Barbeiro de Sevilha, e outros. No entanto, a primeira parte do título em inglês já é prenúncio do distanciamento com o público e a incapacidade de envolvê-lo com uma dramaturgia que se perde, confusa, quanto mais se pretende explica-la. A inserção de falas em meio à dança nada acrescenta, pelo contrário, gera momentos constrangedores e despropositados à montagem, como na cena em que uma das atrizes emposta a voz com grossura e depois dirige graças à plateia.

Por outro lado, há os belos e mínimos movimentos de dança que almejam expressar o esquisito, grotesco e incômodo do ser humano tanto explorado pela lente aguda de Tim Burton. Andréa Anhaia, Carlos Arão, Ester França e Fábio Dornas acertam seus chutes à meta. O instante em que uma das protagonistas despe-se externamente e depois do coração, o acompanhamento pelos braços da música ao piano e principalmente o delicado arrumar de cabelo num canto do palco, enquanto outros acontecimentos se sucedem, mostra que a atração tem acertos pontuais, o que não é o bastante para arrebanhar o espectador, que a esta altura, em razão dos outros erros do espetáculo, já tem a exata noção de que tudo não passa de teatro.

Crítica: Espetáculo de dança da Cia. Mimulus, “Por um fio” produz encanto e riso

“Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move” Pina Bausch

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Com passagem por Itália, Bélgica e França o espetáculo “Por um fio”, da companhia de dança Mimulus, se propõe a interpretar sentimentos a partir da experiência do artista plástico Arthur Bispo do Rosário, que viveu recluso por mais de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, um instituto psiquiátrico do Rio de Janeiro da década de 40, acusado de loucura por se considerar um enviado de Deus. Fato é que o homenageado produziu beleza através da dor, do sofrimento e do que era lixo para outras pessoas, assim como os dançarinos evocam luz e brilho através dos fios, da escuridão, movimento pela pausa e encanto que parte dos corpos de memória, silêncio e som.

No entanto, ainda que subverta a lógica de fios que não estão ali para aprisionar, mas sim para libertar os indivíduos, como quando a música se funde nas linguagens de Carlos Careqa e Adoniran Barbosa, o ruído incômodo mescle-se a obras clássicas, Wally Salomão declame poemas cheios de um confuso lirismo, e por aí, ele nunca rompe com a tradicional forma de condução, pelo contrário, reforça o papel do homem como detentor do desejo e vontade a que as mulheres como marionetes são submetidas com tristeza, graça ou indiferença. Com uma narrativa intrincada e sinuosa a única constância é o corte, o rompimento e um começo novo a cada iluminação.

Enredo da Polca na Polônia

“Amáveis
Mas indomáveis
O poeta e seu cavalo.
Um arcabouço pensado
Para limitar-se ao pouso
E do voo, alimentar-se.” Hilda Hilst

Polca-Polonia

O véu de neve cobre a planície, as folhas o de orvalho, o homem com seu cachimbo e chapéu de palha está sentado. A barba ruiva lhe coça, de luvas é um feito inábil, observa a fria Polônia. No entanto um potro chacoalha, maltrata o vento e um bafo, das duas bocas escapa. O homem jaz abobado e o animal desaforado. Ante o martírio negro, a depressão, o cansaço, o potro alegria espalha. Um simples subir de patas, dois coices à nuvem ingrata.

A seiva ainda mais se esgarça, o homem outra vez se assusta, pois eis que bem de volúpia, o grilo impulsiona as patas. Inseto tão pequenino, e ainda assim ouriçado, afronta o corpo sentado, afundado em montes de palha. Não teme o frio, a Polônia, as nuvens e seus maciços rastros, às gotas que lhe procuram envia o adeus e ganha os ares. O grilo qual um menino parece de peito de aço, tem fôlego inviolável.

História do Balé na Rússia

“Eis toda a minha vida despida de anedotas, ao invés do que vêm repisando há tanto tempo os grandes jornais, nos quais sempre passei por muito estranho: esquadrinho e não vejo mais nada, exceto dificuldades cotidianas, alegrias, lutos interiores. Algumas idas onde quer que se apresente um balé, que se toque órgão, minhas duas paixões de arte quase contraditórias, mas cujo sentido irá manifestar-se, e é só.” Mallarmé

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O compasso gira. Dança, Constelação e Geometria. As perninhas finas, esticadas e rígidas. Uma eleva-se, sublima, a outra, como estaca, finca. Um círculo imaginário ao redor suspira; leve brisa, bruma, mar, assopra-se, e ele finda. Vejo no cocuruto uma fita: pode ser de pó ou de chita. Rápido evapora, mas é colorida. Qual a estação de canto da Bailarina?

Verão está sob os olhos. Perto do nariz, sardas em pleno ensaio, pintam aqui e ali, o rosto borbulha e ruivos cabelos fixam-se em boldrié. Outono na enseada, o corte do quadril, onde uma leve saia aborda o vento e folhas, e homens, a cair. Da Primavera os saltos, o estouro, o inesperado, apenas num segundo o inseto agora voa, a proa abriga fada.

Invenção do Mambo em Cuba

“Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sordido horror tiene su encanto.” Reinaldo Arenas

Mambo-Dança

Um chute na terra tremeu o mar. Do topo, perto ao céu, o coqueiro da ilha abaixou as folhas para melhor sombrear o sujeito. Este, íntimo do sol, de tez parda e olhar esverdeado, com um cigarro de palha pendendo molemente dos lábios. Esticou horizontalmente os braços, mal se cabendo em Cuba. A seguir o ricocheteio dos quadris perpetrou a impressão de que desmancharia sobre aquele lance de azuis, vermelhos e brancos.

Um senhor de chapéu de nylon, aproximando-se, perguntou: estás mambo? Como que desconfiado do percentual alcoólico ingerido em noite anterior. Desfez da atenção ao velho, e, revigorando-se por inteiro, inflamou tanto o peito a ponto de lisonjear damas de passagem com o porte atlético. Girou em torno de si, mal se recompôs e lançou novo naipe de espadas, cortando nuvens, ventos e ares.

Origem do Flamenco na Espanha

“Oh cidade dos ciganos!
Quem te viu e não te lembra?
Cidade de dor e almíscar,
com as torres de canela.” García Lorca

Flamenco

A chama estendia-se involuntária. A chama era uma mulher aflita, e acuada. Por sobre as palhas a mortalha envolvia-os em Terror e Desespero. Os primeiros, ungidos pelo cascalho anil da Salvação, traziam os violões. Bem atrás, distinguidas somente após forçar-se a vista contra o sol, surgiriam, sob mantos negros do luto; mulheres despidas de suas vestes, levadas em meio às rajadas de fogo e as labaredas da ostentação. Crianças agarravam-se afobadas às mãos, não se importando se referentes a tias, mães ou avós.

As pequenas criaturinhas, quase migalhas oferecidas aos abutres que por Fome e Esperança aproximavam-se mexendo com hostilidade as asas, trataram de apressar os passos, e com isso foram soltando pouco a pouco as pedras, indiferentes ao fogo e presas ao solo. Como as senhoras lhes puxassem orelhas, por desrespeito ímpar a Deus e ao Natural, rapidamente treparam nas castanheiras e juraram virar, naquela noite, refeição para abutre. Não existiu alma viva a ignorar petulante pirraça.

Dança: Cancan

“Louca, a tarde de figueiras
e de rumores ardentes
cai desmaiada nas coxas
machucadas dos ginetes.
E negros anjos voavam
através do ar poente.
Anjos de compridas tranças
e de corações de azeite.” García Lorca

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Há um ambiente reservado, no fundo de uma sala escura, destinado a mulheres e homens. Polidos, os cavalheiros passam panos por sobre óculos embaçados. Descontraídas, mulheres em vermelhos vestidos vulgares erguem as pernas à altura de cabelos castanhos. A saia está ali para ser levantada. A brisa, a rigor, uma cócega, em minutos expande-se. O furacão alça coxas, canelas, rumores. No varal, a cinta-liga desprendeu-se.

Apertadas por baixo de seios, barrigas, tremores, as pernas não mais resistem à tentação libidinosa. Gorjeiam a liberdade. A tentativa logo se entrosa a um debochado jogo de copas. Aos corações, atarantados, emulam sonhos, desejos, camas. Mas é no palco que desenrola-se, a carícia de dedos e unhas. Bem costurados, os vestidos das moças. Antes, vulgares. Agora, damas. Homens carregam-nas pelas coxas, que apenas voam para as masmorras.