Análise: Luiz Carlos Miele combinou arte e entretenimento

“Nunca confie no artista. Confie na história.” D. H. Lawrence

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Para Miele é difícil dizer o que vinha primeiro, arte ou entretenimento. Com um jeito despretensioso, descolado e bonachão, parecia priorizar, sempre, a brincadeira, a diversão da plateia e, principalmente, a sua. Foi daquelas personagens em que não se distingue com clareza onde começa o ator e termina o músico, sempre reinterpretando a própria imagem. Miele esteve presente nos acontecimentos mais relevantes da música popular brasileira, em especial no período de explosão da bossa nova e da classificada MPB quando, como fiel escudeiro do jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, criou programas de televisão e apresentações em teatro para Elis Regina, Wilson Simonal, Pery Ribeiro, Leny Andrade e outros nomes de peso. Mas Miele não se contentou em ficar apenas atrás das cortinas.

POP-PÓS-ART (COM TOQUES DE SURREALISMO): A NOVA (PÓS) ARTE DA COLAGEM

“Mas é que eu não sabia que se pode tudo!” Clarice Lispector

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Pop-pós-art não é um movimento, nem alistamento, nem chamada. Até porque essas degenerações já estão passadas. Pop-pós-art pode ser entendida como um novo gênero, ou pra ficar mais bonito ainda, nova arte da colagem.
Sua influenciadora, a pop-art criava leituras novas através da imagem de ícones populares. A pop-pós-art não descarta nem limita populares, eruditos ou celebridades. Cria leituras e imagens novas a partir de frases, citações, textos, poemas, figuras, figurinhas e figurões pop e cult.
A matéria prima do processo é a colagem, que redimensiona o material ao deslocá-lo de seu lugar de origem, criando assim um novo (ou novos) significado (s) para ele.
A idéia da crítica depende do estilo do autor, podendo ser cínica ou feroz. Dessa forma, a utilização das colagens funciona não apenas como crítica àquele que está sendo referido, mas também como homenagem, e mais ainda, como explicitação das referências do autor, mostrando de onde partiu a idéia daquela sentença. (conferindo teor confessional ao gênero)

Liberdade e intolerância na internet

“Ele é um cidadão livre e seguro da Terra, pois está atado a uma corrente suficientemente longa para dar-lhe livre acesso a todos os espaços terrenos e, no entanto, longa apenas para que nada seja capaz de arrancá-lo dos limites da Terra. Mas é, ao mesmo tempo, também um cidadão livre e seguro do céu, uma vez que está igualmente atado a uma corrente celeste calculada de maneira semelhante. Assim, se quer descer à Terra, a coleira do céu o enforca; se quer subir ao céu, enforca-o a coleira da Terra. A despeito de tudo, tem todas as possibilidades e as sente, recusando-se mesmo a atribuir o que acontece a um erro cometido no primeiro ato de acorrentar.” Franz Kafka

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Sim, Chuck Berry fields forever, mas rock não é mais nosso tempo, como o ex-ministro e eterno tropicalista Gilberto Gil cantou. A rumba, o mambo, o samba e o rhythm ´n´blues são filhos de Xangô, mas e o pai do nosso virtual tempo? Será que já chegou? A internet, um dos suportes mais utilizados pelo virtual promove em certa escala uma inversão, na medida em que altera a relação entre produtor e consumidor, colocando-os numa disposição anárquica em referência à produção e escolha de conteúdo. Isso em parte, pois os filtros desses mecanismos ainda são controlados pelos mesmos, mas não apenas por eles, e essa é a grande novidade da internet, mais gente envolvida na produção e na recepção de conteúdo.

A internet não destrói os nichos geográficos e sociais construídos no território físico pelo homem, nem deixa de construir novos deles, posto que é notório que esse tal ser humano, em via de regra, sempre se sentiu mais confortável quando posto em contato com seu semelhante. O diferente tende a gerar um certo desconforto e desemboca algumas vezes pro que se costuma chamar de preconceito e discriminação. Assim sendo, têm-se uma coletividade individualista, ou um individualismo coletivo, gerado não pela internet, mas pelo homem desde que se viu como gente. É difícil determinar se a internet contribuiu para uma maior individualidade ou não, posto que estabelece-se um paradoxo a partir do momento que ela se propõe a e permite uma grande interação entre os agentes participantes, além de vasta diversidade de estética e conteúdo.

Artigo: fim do Ballet Jovem Palácio das Artes é tiro no pé

“Naturalmente, existem situações que deixam você sem palavras. Você tem apenas uma noção das coisas. Também as palavras não ajudam muito, elas apenas evocam as coisas. É aí que entra a dança.” Pina Bausch

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O encerramento das atividades do Ballet Jovem Palácio das Artes pertence ao comboio que também determinou o fim da Big Band Palácio das Artes, do Grupo de Choro Palácio das Artes e do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Medidas que desalentam os que acreditaram num governo mais preocupado com a cultura, o primeiro do PT no estado. Se esse foi o motivo do choro de Fernando Pimentel na posse, o certo é que abre-se uma orfandade cultural em Minas Gerais e Belo Horizonte.

Cada um dos projetos encerrados tinha sua importância referendada por casas lotadas, prêmios recebidos, prestígio junto a público e crítica. O Grupo de Choro dava conta de uma velha guarda, da preservação da história, da memória. Já o Ballet Jovem era fundamental na formação de novos bailarinos, muitos bolsistas, e representava o sonho, a esperança, a perspectiva, como na educação de base, não um paliativo para o profissional já maduro, entre virtudes e vícios, mas justamente o que mais se discute no Brasil, em todos os seus problemas amplos de saúde, educação, transporte e segurança: a raiz, o início.

Crítica: grupo de dança “Sarandeiros” investe na descrição do folclore

“Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço,
Eu quero ver novamente ‘Vassouras’ na rua abafando,
Tomar umas e outras e cair no passo” Alceu Valença

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É com alegria e gestos expansivos que o grupo mineiro de dança “Sarandeiros” apresenta o espetáculo “Coup de Coeur”. O título, alusivo ao prêmio de destaque do público recebido no Canadá em 2014, denota um certo olhar estrangeiro, o que justifica a escolha pela caricatura, outra arte tão popular quanto o folclore. Figurinos e cenário, além da presença de um apresentador, seguem nesse estilo. Em tradução literal, trata-se de “Golpe no Coração”.

Não por acaso as canções e a coreografia recebem a levada do axé, ritmo nascido na Bahia que, ao se apropriar de manifestações típicas e históricas da música e da religião, como o samba de roda, o merengue, o maracatu e o candomblé, entre muitos outros, criou uma designação pop, largamente assimilada pela indústria, e por isso bastante alicerçada numa noção mercantil. Os números são executados por uma banda ao vivo.

Crítica: espetáculo de dança “Entre o céu e as serras” bule linguagens mineiras

“E diante da boca do inferno; árida planície
e duas montanhas;
Sobre uma delas, uma forma fluente,
e outra
No tornear do outeiro; em aço rijo
O caminho como uma lenta espiral de parafuso,
O ângulo quase imperceptível,
de modo que o circuito parecia árduo de seguir;
E a forma fluente, despojada, Blake,” Ezra Pound

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Os movimentos de luz são uma personagem à parte no espetáculo “Entre o céu e as serras”, e olha que concorrer com os bailarinos da “Companhia de Dança do Palácio das Artes” não é fácil. Estes se amalgamam e dissolvem, sem prejuízo para nenhuma das partes. Há uma relação de cumplicidade, como nos amantes das pinturas do austríaco Egon Schiele, unidos por uma força carnal e divina. A vida é símbolo. Os envolvidos nesse projeto ambicioso de recontar a história da criação das Minas Gerais entendem.

As cores, de terra batida, e as cantilenas místicas evocam a nossa origem barroca, a sensação de pertencimento. Somos puxados pra dentro. Por linhas tortas anunciam rios, baldeações, ouro, sangue. Não fica claro se a mão de Deus ou o contorno dos corpos: passa o movimento; elidem palavras de origem. O tempo atua de maneira direta na narrativa. A linguagem oscila. Da sensualidade. Do escárnio à religião. Da violência. Da tradicional família. Mas, sobretudo, há uma alegria. A dança típica remonta a memórias. Ao sono doce da lembrança.

Crítica: musical “Madame Satã” aponta o dedo pra plateia

“O mulato é de fato, e sabe fazer frente
A qualquer valente
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita
Sei que ele anda agora aborrecido
Por que vive perseguido” Noel Rosa

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Toda arte é política, diz a máxima. Mas poucas vezes tão vigorosa quanto em “Madame Satã”. Apresentado pelo “Grupo dos Dez”, o musical com direção de João das Neves e codireção de Rodrigo Jerônimo – que também atua no espetáculo e assina a dramaturgia com Marcos Fábio de Faria – usa a história de João Francisco dos Santos, nome de batismo do protagonista, como ponto de partida para abordar uma série de outras questões. A proximidade com a plateia, quando a ação começa ainda na rua, e a destruição do muro que separa a fantasia da verdade, desmontam a possibilidade de qualquer distanciamento, pois o grupo anuncia de cara estar falando do nosso cotidiano, nosso dia a dia, nossa política mais casual e rasteira, nosso quintal, e aponta o dedo. Tudo é política, toda arte é política, mas esse é o teatro da nossa realidade mais próxima, nossa formação social.

O método escolhido para desenvolver a narrativa é o tempo, estratégia que permite refletir como o passado ainda influencia no nosso presente e também sobre preconceitos que, aparentemente, estariam superados. A peça não se equivoca em provar o contrário. Essa conotação temporal ganha forma na linguagem, que varia, como os intérpretes das personagens, entre o chulo, o incisivo, o poético e o rebuscado. Além de fugir do didatismo cronológico e conferir maior poder de intensidade às cenas, tal mecanismo amplia o poder de síntese dos gestos, capazes de desenvolver aquele arrepio na espinha sobre o qual se irá pensar antes de dormir. O cenário e o figurino de Cícero Miranda e Débora Alves, outras duas fontes de deslumbre, acompanham essas mudanças, assim como os objetos cênicos explorados, em sua simplicidade, com a mesma magia que o especialista manipula o cubo mágico e oferece soluções diversas e inesperadas. Vale dar créditos para a maquiagem e os cabelos cuidadosamente arrumados por Xisto Lopes.

Crítica: espetáculo de dança “Rasante” enfrenta Kafka com o pensamento

“Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente.” Franz Kafka

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Uma arte que não te emociona não te faz pensar. Por essência. Artistas não necessariamente são intelectuais, antes a característica primordial de sua atividade é desafiar a lógica, o raciocínio exato, a ordem natural e a previsibilidade, por isso grande parte de seu arcabouço deve-se não somente à aquisição de conhecimento como por aquelas palavras de encanto: instinto, intuição, criatividade, imaginação. Propor algo novo e experimental não basta, o princípio básico é emocionar. Logo nos primeiros minutos de “Rasante” o espaço vazio e amplo, de uma imensidão escura, é condensado de forma sublime pela iluminação afiada, precisa, de Wladimir Medeiros. O desafio de invadir o abismo literário de Kafka promete. Essa primeira impressão é completa com a presença dos dançarinos, a luz sobre eles tem ainda mais efeito, mas não é a que fica. Infelizmente, quando a iluminação apenas compõe a cena, ela perde o charme.

O escritor tcheco padece, muitas vezes, de leituras equivocadas a seu respeito. Tornou-se consenso definir o seu universo como algo repetitivo, monótono, tenso, absurdo, sim, mas, sobretudo, incômodo. Parte é verdade. O fato de suas personagens apresentarem indiferença e enfado não significa que a linguagem, concisa e elegante do escritor, repita esse tom cinza e bege com que frequentemente é pintado. Pelo contrário, as sensações provocadas diante de tal reação das criaturas pitorescas de Kafka frequentemente são de espanto, dilaceramento, delírio, êxtase, perturbação, tudo por conta do caráter visceral e vivaz dos textos. O estranhamento e a constante temática da incapacidade em pertencer a uma ordem fazem parte de uma dentre as muitas dimensões da obra. “Rasante” apresenta ótimos momentos, mas também cai na armadilha.

Crítica: Peça “Maxilar Viril”, da Maldita Cia., oferece momento único no teatro

“Na primeira noite, o lagarto lançou-se sobre sua esposa e devorou-a. Quando o sol despontou, no leito nupcial havia apenas um viúvo dormindo, rodeado de ossinhos.” Eduardo Galeano

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Uma das maneiras que o ser humano descobriu para mudar o mundo é através do humor. Mas não necessariamente o riso frouxo é o apropriado para a utopia. Antes, aquele de dentes rangentes, nervoso, que raspam e expelem faísca pode tomar conta melhor desse destino. Para se proteger da morte, para sobreviver à violência e a condições inóspitas, para aturar o breu sem saída e nem resposta da vida, lá está o humor, com sua gargantilha quebrada e sua aparência inofensiva. “Maxilar Viril”, da Maldita Cia. de Investigação Teatral, parte do conto “História do lagarto que tinha o costume de jantar suas mulheres”, e do livro onde está inscrito, a antologia sobre as mulheres da terra natal do autor de “As Veias Abertas da América Latina”, para contar essa história que, por ser o teatro uma arte de ação, se faz muito mais através do tato do que dos diálogos. Isso não significa que a companhia siga claramente os dogmas de sua arte, pelo contrário, a proposta, ousada, é a de reverter e oferecer ângulos, catetos e hipotenusas distintos daqueles da moral e dos bons costumes. Afinal, mesmo o teatro tem suas manias e lugares seguros.

A peça não se restringe ao conto do uruguaio Eduardo Galeano, mas acrescenta a este conteúdo elementos que ao interagir contribuem para ampliar o sentido da fábula. Essa estética absurda encontra suas referências no cinema marginal de Rogério Sganzerla – com a inserção de comerciais satíricos através de uma locução caricaturada que captura o modus operandi da indústria cultural do consumo – e na música de vanguarda de Arrigo Barnabé, baseada na mistura de mundos aparentemente opostos pela aceitação em camadas sociais diferentes, como as histórias em quadrinhos e as composições eruditas atonais. Não por acaso esses pontos cingem tanto na trajetória das influências do grupo quanto na apresentação. A direção sensível e bem cuidada é capaz de apresentar um universo de violência, explorações e situações degradantes com uma formulação mordaz, crítica e circense, sob a lente que penetra no inconsciente do espectador com menos pedantismo, agressividade, e por isso é a mais letal: o humor. As canções escolhidas e executadas por Admar Fernandes, Sérgio Andrade e Christiano de Souza, a irrequieta iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho e a aspereza do cenário proposto por Igor Godinho, Jônatas Campos e Camila Polatscheck embalsamam a atmosfera com o odor e o calor de uma América pulsante e que até hoje só se foi possível descrever com um único adjetivo: latinidade.

Crítica: “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô” e encontra caminho num “TRIZ”

“o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam) ” e. e. cummings

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Companhia de dança de Belo Horizonte com maior prestígio o “Grupo Corpo” volta à capital mineira para apresentar dois espetáculos em uma única noite. No primeiro deles, “onqotô”, a presença de uma dramaturgia bem definida e as canções de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik são o ponto de ressalva. Bailarinos, iluminação e cenário conduzem a um mundo de estupefação, encantamento e deboche, dependendo do mote, com habilidade e presença física inquestionável. Porém o pensamento exposto não explora na totalidade a força do discurso que pode debandar para certo pedantismo distante, dependendo de como se encara.

A canção que aborda a teoria do “BIG-BANG”, por exemplo, ganharia em ironia em vozes de tom mais provocativo, que contribuiriam para uma personalidade mais incisiva e menos posada, como a de Zeca Baleiro. Por vezes, da maneira como foi colocado, Caetano corre o risco de soar com certo ar de superioridade. Por essa sintonia atravessada o “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô”, na força e na beleza da dança, dos passos, das imagens e do som instável, e encontra o caminho num “TRIZ”. Desta vez, com uma dramaturgia solta e menos definida, com um tema mais subjetivo e nada concreto, o grupo explora a beleza na totalidade, em todos os seus contornos, limites e céus.