Crítica: “Chacrinha, o Musical” diverte, mas não avança na história do protagonista

“Cada produto da fantasia, cada criação da arte deve, para existir, levar em si o seu próprio drama, isto é, o drama do qual e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser da personagem. É sua função vital, necessária para que ela possa existir.” Luigi Pirandello

Chacrinha, o Musical, com Stepan Nercessian

De volta aos palcos para celebrar o centenário de nascimento de Abelardo Barbosa, o espetáculo “Chacrinha, o Musical” deixa claro, desde o princípio, quais são os motivos do seu sucesso: ele está ali para divertir, e investe pesado em atrações que tragam riso e leveza ao público, tal como o protagonista homenageado, que imortalizou bordões do tipo: “eu não vim para explicar, vim para confundir”. Essa noção de que o que interessava a Chacrinha era a fantasia, e a ideia de que ele constituía sua personagem, sobretudo, no palhaço, é a responsável por um dos grandes trunfos da montagem. Logo na abertura, o cenário inspirado por cordéis pernambucanos (terra de nascimento do apresentador, natural de Surubim) sustém sobre a cena uma aura mágica, possibilitando ao espectador, justamente, fugir da realidade tacanha, obsoleta e pragmática a que a mera objetividade o relega. Cada núcleo de artistas que sobe ao palco – este disposto para reconstituir o esquema de auditório consagrado por Chacrinha – envolve a cena com coreografias bem ensaiadas, mas que em determinado ponto ficam monótonas.

Os 5 videoclipes brasileiros mais visualizados

“À glória sucede/o que sucede à água:
por mais água que beba,/qual lhe sacia a sede?
Diverso o sucesso,/basta-lhe um verso
para essa desgraça/que se chama dar certo.” Paulo Leminski

Anitta vai lançar um clipe a cada mês

Após um relativo hiato vivido entre a era de ouro da MTV – nas décadas de 80 e 90 era o único canal cuja programação se resumia a transmitir vídeos musicais 24 horas por dia – e o boom das plataformas digitais, o videoclipe retomou seu protagonismo. A argumentação ganha força quando se constata que os artistas mais populares do país nos últimos anos lançaram mais videoclipes do que álbuns. Os principais gêneros a apostar no formato são o funk e o sertanejo universitário. Anitta, por exemplo, contabiliza quatro discos e 31 vídeos. Em janeiro, a sertaneja Marília Mendonça lançou três clipes de uma só tacada, enquanto a dupla Simone & Simaria mantém o posto de clipe brasileiro mais visto na história do YouTube, feito alcançado no primeiro mês de 2017.

12 videoclipes que já fizeram história

“A imagem inteligente é uma das formas que o cinema tem de ser profundo.” Luis Fernando Veríssimo

Videoclipes históricos no Brasil e no mundo

Aquele do Michael Jackson virando zumbi, do Freddie Mercury com roupas femininas ou, ainda, o do Raul Seixas cercado por relógios são exemplos de casos onde as músicas podem ser mais lembradas pelas imagens do que pelos sons. “Thriller”, “I Want to Break Free” e “Tente Outra Vez” continuam sendo belas canções, mas fica difícil avaliar se o impacto seria o mesmo se não fosse pelos videoclipes.

Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

Crítica: “Cheiro de Manga” saúda o corpo como a um estado de espírito

“A pele trans (luz). Si/dá. A carne é mansa. E den
tro o hirto centro: semen/te do existir e hi
fen do prazer. Não vi?/E é fruta. E ou é fruto
do inconsciente? Abrupto/estar, não-ser-aí?
Ou é silêncio ou gri/to? Ou é sumo ou suma
teológica? Uma/fruta? Fruto-em-si?” Heládio Brito

Laura de Castro protagoniza Cheiro de Manga

“Cheiro de Manga” nasce após uma experiência de Laura de Castro na África. Ou é possível conceber que o espetáculo é gerido durante a viagem, e que a sua permanência no corpo de Laura o trazem agora a outras plagas. Pois uma das capacidades do teatro é a de alargar tempo e espaço; outro fato pelo qual seria redutor restringir a atração à dança. “Cheiro de Manga” tem por princípio propor muito mais do que movimentos coreografados, embora a partir deles dispare suas noções de estupor e identidade – mas eles, aqui, são ponto de partida (disparador) e não chegada, não conclusão, longe de aspirar a algo retilíneo e determinado. Os elementos cênicos como o cenário, o figurino, a trilha sonora e as pontuais inflexões da luz corroboram na direção da mesma frequência de despojamento e encontro propostos pelo corpo de Laura. Ele respira, escuta, fala, cheira, toca, e expande suas sensações interiores para fora. Assim, a experiência ocorre na acepção da palavra, de assimilação no gesto, no ato, na sensibilidade da pele que através de caminhos encontra alma.

Crítica: Espetáculo “Nuvens de Barro” assimila poeta ao absurdo

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.” Manoel de Barros

Nuvens de Barro se inspira em textos de Manoel de Barros

É desafiador transpor uma obra rica imageticamente para outro campo de imagem. No caso: quando a imagem contida numa palavra passa a estar contida num corpo. Esse ambicioso projeto foi encarado, por exemplo, por dois cineastas, o austríaco Michael Haneke e o britânico Alfred Hitchcock, que adaptaram textos de Kafka para a tela grande. O espetáculo “Nuvens de Barro”, encenado pela Cia. de Dança Palácio das Artes, escolhe a obra de Manoel de Barros para a empreitada. Se fatores importantes da poesia do pantaneiro aparecem na montagem o cerne lhes escapa. Lá estão a liberdade, a brincadeira, a audácia e a proximidade, porém, aquele que pretendeu “monumentar as miudezas” transformava o absurdo em simplicidade, já a peça o compreende ao contrário. Com uma linguagem pura, infantil, quase arcaica, Barros eliminava excessos formais para que a exuberância resplandecesse ali, na palavra, na imagem. Ao expor os versos do poeta em sua condição literal, o espetáculo retira da obra o vigor e a contundência que residem, justamente, em sua alma figurada. Para Manoel, absurdo era o mundo prático, e não o avesso. Nos melhores momentos os gestos e elementos cênicos alcançam a singeleza.

Crítica: “Não existe vida no talvez” dispara gestos a favor da coragem

“Humildade de amar só por amar. Sem prêmio
que não seja o de dar cada dia o seu dia
breve, talvez: límpido, às vezes; sempre isento.
Ir dando a vida até morrer.” Cecília Meireles

"Não existe vida no talvez" é espetáculo de dança contemporânea

O título autoexplicativo não inibe a criatividade da Cia. Cena Alternativa. No espetáculo “Não existe vida no talvez”, levado à cena no Espaço Cultural Meia Ponta, a prerrogativa serve como disparador para que, através da dança contemporânea, os artistas desfilem sobre o tablado gestos nutridos de beleza e, sobretudo, necessidade. Há uma fina noção estética a conduzir todo o espetáculo que jamais se perde ou retrai-se, sendo responsável por marcar as movimentações sem com isto amarrá-las, vista tanto na escolha da trilha, a se acoplar com suavidade aos passos, quanto em outras opções fundamentais, preponderantemente figurino e cenário. Tanto isto que um se fundirá ao outro. Essa organicidade é observada junto a todos os elementos que compõe a dramaturgia, fato admirável quando se trata de tema tão vasto. Vastidão esta que não se ignora, mas, ao contrário, ganha amplitude pelos textos da dança.

Crítica: “Pai Contra Mãe” exacerba poder de resistência e cultura negra

“Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade?” Machado de Assis

Cia. Fusion apresenta espetáculo Pai contra Mãe

Não é por acaso que um espetáculo tão moderno como “Pai Contra Mãe”, da Cia. FUSION de Danças Urbanas, tenha suas raízes fincadas em um conto ambientado no século XIX – por sinal cujo autor, Machado de Assis, negro nascido no Morro do Livramento, pouco frequentou escolas públicas e jamais teve acesso à universidade – já nessa aparente contradição a montagem almeja dizer algo. Aliás, nada é por acaso nesse espetáculo em que cada movimento nunca se descola do texto, que opta por uma linguagem simbólica e não descritiva, artifício que amplia ainda mais o impacto descarregado sobre a plateia. Outra escolha importante é a de não ignorar a presença da plateia, e, novamente, sem referir-se diretamente a ela amarrar um canal de comunicação que permite aos dançarinos encará-la como quem encara a realidade. Aquela realidade que, exposta aos olhos em suas feridas e profundidades, alcança com brilho e vigor as pontas que unem o passado escravocrata aos dias atuais.

Crítica: Espetáculo de dança “Terreiro” conta histórias de Minas à sua maneira

“Primeiro vêm as flores brancas perfumadas, do rés do chão até a ponta dos galhos. Depois vêm as abelhas. Finalmente estufam-se do tronco, dos galhos, as frutas negras, túrgidas de um leite doce que explode com um estalo dentro da boca quando mordidas. Depois da chuva as jabuticabeiras de bolinhas pretas faíscam ao sol. Jabuticaba é Minas Gerais…” Rubem Alves

Companhia Primeiro Ato lança o espetáculo Terreiro

Com 35 anos de estrada o grupo mineiro de dança “Primeiro Ato” preza pela diversidade em sua composição, valor que contamina toda a concepção do espetáculo “Terreiro”. Se o ponto de partida tem a intenção de explorar e revelar as manifestações populares, e o histórico cultural das Minas Gerais, a montagem não se prende a esse matiz somente, ao contrário. Com uma narrativa que dispensa a descrição, a linguagem metonímica enriquece o desempenho de bailarinos e bailarinas em cena. Os momentos se sucedem e passam pela tensão, o agito, a dolência, a sutileza e até a lascívia. Nem sempre a transição de um estado a outro ocorre de maneira fluida, e a própria direção alterna fases em que é muito bem conduzida com outras em que se perde, provocando alguma confusão na plateia. A tentativa de abarcar um número elevado de assuntos e perspectivas confere certa irregularidade à peça, cujo impacto poderia ser maior caso o cenário fosse menos descarnado.

Crítica: Espetáculo “A-Corda Que é Real!” delineia limites da intolerância

“Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo” Conceição Evaristo

Espetáculo é protagonizado por Cyntia Reyder

A arte como exercício político é uma das premissas do espetáculo “A-Corda Que é Real!”, que coloca em cena a dançarina Cyntia Reyder e a instrumentista Gal Duvalle. Não é por acaso que as duas mulheres, negras, exercem tal protagonismo, pois, aqui, opta-se pela narrativa simbólica. E é através de suaves e preciosos simbolismos – qual o corte de uma tesoura – que ambas tecem sua travessia pela origem, para buscar, afinal de contas, esse tesouro da identidade: que se revelará múltipla ainda que reverente à ancestralidade. Inexiste novidade em inferir que é a partir da pergunta “de onde viemos” que começamos a conscientemente nos construir. Mas este movimento se afeta tanto de fora para dentro quanto em seu refluxo, como pondera a apresentação. Nada, logo, está imóvel; o menor gesto realça o todo. A dança se instaura com desenvoltura e sensibilidade pelos climas desejados.