10 lembranças inesquecíveis dos anos 90

“O menino é hoje um homem douto que trata
com física quântica.
Mas tem nostalgia das latas.” Manoel de Barros

Para descolar uma balada e zoar era de lei estar antenado no que fosse pintar. Estiloso ou grunge, não andar na pindaíba ajudava. E se quisesse ficar com uma mina, pedir conselhos ao brother estava em alta. É possível que hoje em dia essas gírias não sejam mais tão íntimas de uma geração nascida no século XXI. Mas nos anos 90 elas eram pura lacração. Apesar disso, só agora o período recebe apreciação de um dos nossos produtos culturais mais populares. Nessa terça, a novela “Verão 90” estreia na rede Globo com o propósito de repetir o revisionismo que tramas como “Anos Dourados” (1986), “Estúpido Cupido” (1976) e “Boogie Oogie” (2014) fizeram sobre os anos 50, 60 e 70, respectivamente, e que o filme “Bingo: Rei das Manhãs” (2017) realizou com os anos 80.

10 músicas brasileiras para o Dia de Reis

“Vi Jesus Cristo descer à terra
Tornado outra vez menino.
Tinha fugido do céu.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
Hoje vive na minha aldeia comigo.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Tradicionalmente, é em 6 de janeiro que se desmontam os principais artigos da decoração natalina, como a árvore e o presépio. A data simboliza o dia em que os Três Reis Magos teriam visitado o menino Cristo e oferecido a ele ouro, incenso e mirra. No Brasil, essas ofertas ganharam os tons de fitas coloridas, tambores e muita musicalidade, e se tornou a Folia de Reis, cantada por vários compositores.

Crítica: peça “Josephine Baker: a Vênus Negra” conta história de dançarina com graça e didatismo

“Como disciplina,/Passa o lírio pelo solo negro;
Seu alvo rizoma não se abala/E sua fé nada teme.
Mais tarde, por entre a erva,/Balança a campânula de berilo;
A vida, entre torrões, esquecida agora,/Em êxtase e precipício.” Emily Dickinson

Quem procurar fotos de Josephine Baker (1906-1975) na internet vai encontrar de tudo: desde caretas a poses sensuais, com muita nudez e roupas extravagantes, algo que não era assim tão comum de ser registrado na década de 1920. Essa dicotomia entre o sublime e o ridículo marcou toda a trajetória da cantora e dançarina norte-americana, que foi uma das pioneiras na libertação feminina, mas que, em sua época, teve de travar ainda uma outra batalha: aquela contra o racismo que, a despeito dos que pregam alguns, permanece incrustado em nossa sociedade.

Entrevistas: especialistas debatem o cenário do funk em BH

“a poesia
me chupa gostoso
prova o meu
gosto
me provoca me
morde me dá o
gozo” Bruna Kalil Othero

“Pulsos e camadas sutis que se acumulam, como um pano de fundo misterioso, uma camada de suspense que é liderada por um ponto minimalista, sinuoso, causando uma sensação estranha, um ritmo deslizante, solto, um tanto imprevisível”. Com essas palavras, o pesquisador e jornalista Gabriel Albuquerque, natural do Recife, procura desvendar a marca de um gênero que, não raro, é tachado de pobre, violento e pornográfico.

“O funk mineiro tem um toque espacial, evanescente, atmosférico e fragmentado. Eu diria que é um funk espectral”, completa Albuquerque, que faz referência ao uso de um beat (andamento rítmico) conhecido pelo nome de “panela”, “latinha” ou “garrafa”, em músicas como “Viciei Nessa Garota”, de MC Dennin, “Nóis É Bandido Vida Loka”, de MC L da Vinte, e “Bota Tudo Nela”, de MC Kaio, expoentes da nova cena belo-horizontina. Confira abaixo o depoimento de três especialistas sobre esse tema que está cada vez mais quente!

Entrevista: Funkeiro MC Papo vai da Piriguete ao Texas

“quero gozar da comida: quero gozar da bebida: quero ser bom quero ser amante quero ser amigo mas não consigo: sobre o tatami, os gusanos me servem de coberta.” Wally Salomão

“Pulsos e camadas sutis que se acumulam, como um pano de fundo misterioso, uma camada de suspense que é liderada por um ponto minimalista, sinuoso, causando uma sensação estranha, um ritmo deslizante, solto, um tanto imprevisível”. Com essas palavras, o pesquisador e jornalista Gabriel Albuquerque, natural do Recife, procura desvendar a marca de um gênero que, não raro, é tachado de pobre, violento e pornográfico. Um dos precursores do funk mineiro, MC Papo, responsável pelos hits “Piriguete” e “BH É O Texas”, analisa o cenário atual do gênero na cidade. Confira a entrevista completa na íntegra abaixo.

10 sucessos inesquecíveis do funk de BH

“Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou gozar da
vida; vocês poetas são uns intersexuais…” Manoel de Barros

Não é apenas de pesquisadores e jornalistas que o funk produzido nas Gerais tem chamado atenção e despertado curiosidade. O público foi quem mais comprou a ideia. Uma prova é o sucesso nacional alcançado por MC Papo e MC Delano, graças aos hits “Piriguete” (2006) e “Na Ponta Ela Fica” (2015). Confira abaixo uma seleção com dez sucessos do funk de BH, feita por Kdu dos Anjos, poeta, professor e coordenador do centro cultural Lá da Favelinha, localizado no Aglomerado da Serra.

Entrevista: Valesca Popozuda exalta a liberdade sexual da mulher

“Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.” Adélia Prado

Na linha evolutiva da música sexual brasileira, é possível dizer que, entre Rita Lee e Karol Conka, o funk de Tati Quebra-Barraco, Deize Tigrona e Valesca Popozuda se impôs como ponto nevrálgico. No começo dos anos 2000, Tati foi a responsável por entoar os versos “se eles quer que você mame/ manda eles te chupar”, invertendo a lógica estabelecida pelo universo machista. Valesca Popozuda, intérprete de “Quero Te Dar”, fala de sua experiência: “A liberdade feminina sempre existiu, só que era medrosa. Eu quis libertar as mulheres. Por que não falar do nosso órgão genital?”, questiona a artista. Confira a entrevista com Valesca na íntegra. 

Crítica: Musical “O Fantasma da Ópera” é clássico ultrapassado

“pode escapar-nos, porventura, e desvanecer-se, porque não confiamos em fantasmas.” Virginia Woolf

A parafernália em torno de “O Fantasma da Ópera” justifica sua grandiosidade. Cumprindo a premissa dos musicais da Broadway, a nova versão brasileira do musical aposta numa estrutura que impressiona pelos atributos físicos. O cenário não deixa de destacar os itens que terão papel narrativo no desenrolar da trama, em especial o gigantesco lustre colocado sobre a cabeça dos espectadores. A reprodução de um coral de anjos e um brinquedo de um macaco instrumentista também chama atenção pela beleza dos objetos. A atuação da orquestra é outro ponto alto.

Mas, como de praxe, afora o que se impõe pela presença física ou sonora, todo o resto fica a dever. Um musical é, por mania, grandiloquente, ainda mais quando se encontra com o universo operístico. A expansão de gestos, vozes e cores é tamanha que chega ao nível da pirotecnia, o que não anula a capacidade do time de intérpretes líricos, em especial a do protagonista, cuja voz se destaca. Thiago Arancam compõe um Fantasma ao gosto dos fãs: ele toma a cena com vigor, pela força de sua garganta e a rudeza de seu gestual.

Entrevista: O caminho do rap de Marcelo D2 a Hungria Hip Hop

“É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos.” Ana Cristina Cesar

Encontros de astros do rap com artistas de outros segmentos ficaram comuns. Criolo gravou com Ivete Sangalo. Marcelo D2 se dedicou a cantar o samba de Bezerra da Silva. Renegado está em turnê com a Orquestra Ouro Preto. Enquanto isso, Emicida, Hungria Hip Hop e Karol Conka dividem a trilha sonora da atual temporada de “Malhação” com uma nova safra de funqueiros. “Ter uma música em novela da Globo é uma quebra de barreiras. O rap está alcançado lugares que nunca imaginamos”, afirma Hungria. Para completar, o rapper canadense Drake fez história ao se tornar o primeiro artista a bater os 50 bilhões de reproduções em streaming.

Marcelo D2

1 – Qual a importância para você de participar de um festival como o Saravá, que já traz no próprio nome uma ode às raízes negras e reúne um time de artistas como DJ Negralha, DJ Xeréu, Parceria Fina e outros, cuja trajetória esteve sempre voltada para o hip hop, reggae, rap e soul?
Esse lance de raiz é uma parada muito presente pra mim. Meu próximo trabalho, o “Amar é para os Fortes”, por exemplo, é todo produzido por um coletivo que chamamos de “mulato”. E, longe do significado pejorativo que muita gente associa ao termo, mulato é essa mistura que é indissociável ao brasileiro, é essa miscigenação de raízes que define a nossa identidade. Então, pra mim é uma honra participar da primeira edição de um festival como o Saravá. E dividir o palco com essa rapaziada é uma responsabilidade grande.

3 músicas apaixonadas de Alceu Valença

“Porquanto
como conhecer as coisas senão sendo-as?” Jorge de Lima

Salve a ‘Morena Tropicana’, e sua beleza de jabuticaba, viva ‘La Belle de Jour’, e sua francesa brasilidade, ‘Anunciação’ para a mãe do compositor, completa 98 anos nesta data, ‘Cavalo de Pau’ para os apressados, ‘Coração Bobo’ aos românticos esperançosos. Todos esperam que Alceu volte, e ele volta, volteia, sestrosa maneira de gingar, barba e cavanhaque, modos de um distinto cavalheiro do apocalipse a saborear, dengosa, o sumo da condensação, condução, condão, da tua varinha despontam maravilhas.