Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

Crítica: “Cheiro de Manga” saúda o corpo como a um estado de espírito

“A pele trans (luz). Si/dá. A carne é mansa. E den
tro o hirto centro: semen/te do existir e hi
fen do prazer. Não vi?/E é fruta. E ou é fruto
do inconsciente? Abrupto/estar, não-ser-aí?
Ou é silêncio ou gri/to? Ou é sumo ou suma
teológica? Uma/fruta? Fruto-em-si?” Heládio Brito

Laura de Castro protagoniza Cheiro de Manga

“Cheiro de Manga” nasce após uma experiência de Laura de Castro na África. Ou é possível conceber que o espetáculo é gerido durante a viagem, e que a sua permanência no corpo de Laura o trazem agora a outras plagas. Pois uma das capacidades do teatro é a de alargar tempo e espaço; outro fato pelo qual seria redutor restringir a atração à dança. “Cheiro de Manga” tem por princípio propor muito mais do que movimentos coreografados, embora a partir deles dispare suas noções de estupor e identidade – mas eles, aqui, são ponto de partida (disparador) e não chegada, não conclusão, longe de aspirar a algo retilíneo e determinado. Os elementos cênicos como o cenário, o figurino, a trilha sonora e as pontuais inflexões da luz corroboram na direção da mesma frequência de despojamento e encontro propostos pelo corpo de Laura. Ele respira, escuta, fala, cheira, toca, e expande suas sensações interiores para fora. Assim, a experiência ocorre na acepção da palavra, de assimilação no gesto, no ato, na sensibilidade da pele que através de caminhos encontra alma.

Crítica: Espetáculo “Nuvens de Barro” assimila poeta ao absurdo

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.” Manoel de Barros

Nuvens de Barro se inspira em textos de Manoel de Barros

É desafiador transpor uma obra rica imageticamente para outro campo de imagem. No caso: quando a imagem contida numa palavra passa a estar contida num corpo. Esse ambicioso projeto foi encarado, por exemplo, por dois cineastas, o austríaco Michael Haneke e o britânico Alfred Hitchcock, que adaptaram textos de Kafka para a tela grande. O espetáculo “Nuvens de Barro”, encenado pela Cia. de Dança Palácio das Artes, escolhe a obra de Manoel de Barros para a empreitada. Se fatores importantes da poesia do pantaneiro aparecem na montagem o cerne lhes escapa. Lá estão a liberdade, a brincadeira, a audácia e a proximidade, porém, aquele que pretendeu “monumentar as miudezas” transformava o absurdo em simplicidade, já a peça o compreende ao contrário. Com uma linguagem pura, infantil, quase arcaica, Barros eliminava excessos formais para que a exuberância resplandecesse ali, na palavra, na imagem. Ao expor os versos do poeta em sua condição literal, o espetáculo retira da obra o vigor e a contundência que residem, justamente, em sua alma figurada. Para Manoel, absurdo era o mundo prático, e não o avesso. Nos melhores momentos os gestos e elementos cênicos alcançam a singeleza.

Crítica: “Não existe vida no talvez” dispara gestos a favor da coragem

“Humildade de amar só por amar. Sem prêmio
que não seja o de dar cada dia o seu dia
breve, talvez: límpido, às vezes; sempre isento.
Ir dando a vida até morrer.” Cecília Meireles

"Não existe vida no talvez" é espetáculo de dança contemporânea

O título autoexplicativo não inibe a criatividade da Cia. Cena Alternativa. No espetáculo “Não existe vida no talvez”, levado à cena no Espaço Cultural Meia Ponta, a prerrogativa serve como disparador para que, através da dança contemporânea, os artistas desfilem sobre o tablado gestos nutridos de beleza e, sobretudo, necessidade. Há uma fina noção estética a conduzir todo o espetáculo que jamais se perde ou retrai-se, sendo responsável por marcar as movimentações sem com isto amarrá-las, vista tanto na escolha da trilha, a se acoplar com suavidade aos passos, quanto em outras opções fundamentais, preponderantemente figurino e cenário. Tanto isto que um se fundirá ao outro. Essa organicidade é observada junto a todos os elementos que compõe a dramaturgia, fato admirável quando se trata de tema tão vasto. Vastidão esta que não se ignora, mas, ao contrário, ganha amplitude pelos textos da dança.

Crítica: “Pai Contra Mãe” exacerba poder de resistência e cultura negra

“Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade?” Machado de Assis

Cia. Fusion apresenta espetáculo Pai contra Mãe

Não é por acaso que um espetáculo tão moderno como “Pai Contra Mãe”, da Cia. FUSION de Danças Urbanas, tenha suas raízes fincadas em um conto ambientado no século XIX – por sinal cujo autor, Machado de Assis, negro nascido no Morro do Livramento, pouco frequentou escolas públicas e jamais teve acesso à universidade – já nessa aparente contradição a montagem almeja dizer algo. Aliás, nada é por acaso nesse espetáculo em que cada movimento nunca se descola do texto, que opta por uma linguagem simbólica e não descritiva, artifício que amplia ainda mais o impacto descarregado sobre a plateia. Outra escolha importante é a de não ignorar a presença da plateia, e, novamente, sem referir-se diretamente a ela amarrar um canal de comunicação que permite aos dançarinos encará-la como quem encara a realidade. Aquela realidade que, exposta aos olhos em suas feridas e profundidades, alcança com brilho e vigor as pontas que unem o passado escravocrata aos dias atuais.

Crítica: Espetáculo de dança “Terreiro” conta histórias de Minas à sua maneira

“Primeiro vêm as flores brancas perfumadas, do rés do chão até a ponta dos galhos. Depois vêm as abelhas. Finalmente estufam-se do tronco, dos galhos, as frutas negras, túrgidas de um leite doce que explode com um estalo dentro da boca quando mordidas. Depois da chuva as jabuticabeiras de bolinhas pretas faíscam ao sol. Jabuticaba é Minas Gerais…” Rubem Alves

Companhia Primeiro Ato lança o espetáculo Terreiro

Com 35 anos de estrada o grupo mineiro de dança “Primeiro Ato” preza pela diversidade em sua composição, valor que contamina toda a concepção do espetáculo “Terreiro”. Se o ponto de partida tem a intenção de explorar e revelar as manifestações populares, e o histórico cultural das Minas Gerais, a montagem não se prende a esse matiz somente, ao contrário. Com uma narrativa que dispensa a descrição, a linguagem metonímica enriquece o desempenho de bailarinos e bailarinas em cena. Os momentos se sucedem e passam pela tensão, o agito, a dolência, a sutileza e até a lascívia. Nem sempre a transição de um estado a outro ocorre de maneira fluida, e a própria direção alterna fases em que é muito bem conduzida com outras em que se perde, provocando alguma confusão na plateia. A tentativa de abarcar um número elevado de assuntos e perspectivas confere certa irregularidade à peça, cujo impacto poderia ser maior caso o cenário fosse menos descarnado.

Crítica: Espetáculo “A-Corda Que é Real!” delineia limites da intolerância

“Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo” Conceição Evaristo

Espetáculo é protagonizado por Cyntia Reyder

A arte como exercício político é uma das premissas do espetáculo “A-Corda Que é Real!”, que coloca em cena a dançarina Cyntia Reyder e a instrumentista Gal Duvalle. Não é por acaso que as duas mulheres, negras, exercem tal protagonismo, pois, aqui, opta-se pela narrativa simbólica. E é através de suaves e preciosos simbolismos – qual o corte de uma tesoura – que ambas tecem sua travessia pela origem, para buscar, afinal de contas, esse tesouro da identidade: que se revelará múltipla ainda que reverente à ancestralidade. Inexiste novidade em inferir que é a partir da pergunta “de onde viemos” que começamos a conscientemente nos construir. Mas este movimento se afeta tanto de fora para dentro quanto em seu refluxo, como pondera a apresentação. Nada, logo, está imóvel; o menor gesto realça o todo. A dança se instaura com desenvoltura e sensibilidade pelos climas desejados.

Crítica: “Trilhante” percorre os caminhos da atualidade em três tempos

“o tempo que de nós se perde
sem que lhe armemos alçapão,
nem mesmo agora que parece
passar ao alcance da mão,” João Cabral de Melo Neto

Trilhante é espetáculo da Cia. Sesc de Dança

Cada vez mais tenho a impressão que o objetivo da dança contemporânea é se aproximar, além do indivíduo, da realidade. Nisso, dispensa o tom solene. Mas esta aproximação se dá no sentido de representá-la, e não imitá-la, o que nos levava, diante do balé clássico, rapidamente a associá-la à pintura figurativa. Agora seu espelho é o teatro. Pois não nos enganemos, incautos, o canto, ainda que falado, não deixa de ser canto, como a dança, mesmo que inspirada no andar, mantém sua natureza. Estamos no território da arte, sobretudo. O novo e inédito espetáculo da Cia. SESC de Dança, “Trilhante”, enfileira três apresentações de curta duração. Fica claro que “I. MEDI. ATOS”, coreografado por Joelma Barros, para além da realidade pretende abarcar o atual, e consegue, com louvas. Através, essencialmente, da luz e do trabalho do corpo de bailarinos que, aqui, mescla mulheres a homens, considera o feminismo, a tecnologia, questões de gênero, o uso de drogas, entre outras ilações possíveis, de maneira rica e vasta, sem reduzir o espectro de atuação. O figurino também contribui para que os movimentos ganhem em ressonância.

Memória: Josephine Baker simbolizou liberdade feminina nos anos 1920

“Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.” Emily Dickinson

Josephine Baker foi símbolo de exotismo e popularidade

Há um século e uma década nascia para o mundo Freda McDonald, que para sempre permaneceria desconhecida dele. Porém sua personagem é ainda lembrada. Josephine Baker, junção do próprio sobrenome com o do marido é referência imediata para o universo da dança, dos costumes, da luta pelos direitos da mulher, dos negros e de todas as minorias perseguidas. Sua contribuição artística, ao contrário do percebido pela extensa maioria em sua época, portanto, transcendeu aos critérios momentâneos orientados pela estética a fim de alcançar aquele valor concedido às obras-primas: marcou profundamente a maneira de pensar da humanidade; ou, ao menos, sugeriu novas aberturas para ela. Natural do meio-oeste dos Estados Unidos, quando chegou à maioridade migrou para Paris, onde, dizia-se, respirava-se vanguarda e liberdade; naqueles “Loucos Anos 20” por lá passavam pintores como Picasso e escritores do porte de Hemingway e Gertrude Stein, considerada mentora intelectual de muitos deles. Mas não havia nada como o exotismo de Josephine Baker. Trazia, ao seu lado, Chiquita, uma guepardo de estimação.

Análise: “Estação Plural” exalta a diversidade sexual e de gênero

“Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário nobre do adultério. Separatista protestante. Melindrosa basca com fissura da verdade. Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco (…) Não olho para trás. Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta.” Ana Cristina Cesar

Atração é comandada por trio de apresentadores

Tendo como princípio a diversidade sexual e de gênero, o programa “Estação Plural”, exibido nas segundas-feiras a partir das 22h na TV Brasil, amplia o leque para a raiz e o radical inerente ao tema: diversidade de vida que almeja à tolerância e ao respeito. No elogio ao múltiplo a descoberta de que a riqueza concentra-se no que é vário, e não singular. São paradoxos esmiuçados com consciência, experiência e conhecimento: somos todos únicos e iguais em alguma medida, e é pela identificação humana que devemos reconhecer no outro todas as diferenças que nos propiciam uma existência passível de exuberância. No comando da atração Ellen Oléria, Fefito Oliveira e Mel Gonçalves exibem personalidades tão distintas quanto complementares, não no sentido limitador, mas na coesão que os tons encontram por serem de diferentes peças, para além do quebra-cabeça, mas, por ora, uma sinfonia, aonde a música foge e se oferece harmônica justamente pela impalpabilidade.