Cinema: Para Roma, Com Amor

“Porque criar uma obra de arte, se sonhar com ela é tão mais doce?” Giotto (Pasolini – Boccaccio)

Woody Allen

Woody Allen é contumaz usurário em esfregar nas fuças com pano de chão torcido e pia pingando uma única gota: o absurdo, crível e ridículo da sobriedade nossa de cada dia. Sim, não há nada de alucinante no homem cantando ópera debaixo do chuveiro, no mísero desconhecido sendo atacado por repórteres como migalhas por roliças pombas, nem nos desfechos e fechos a tetra-chave dos relacionamentos amorosos.

Para Roma, Com Amor – cartão postal timbrado a água da Fontana di Trevi, só pode ser subversivo porque decide colocar essas situações sobre o pano da caixa sem fundo do mágico de araque. Bingo! Araponga perfeita para o ataque do escrutínio do diretor: o homem debaixo do chuveiro cantando ópera debocha da moderna arte; o mísero desconhecido fugindo qual pomba desdenha das célebres celebridades; e entre outras veleidades o amor perfeito e convicto de fábulas é tão superficial quanto comer sopa de garfo.

Cinema: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha

“Quero rasgos de lirismo tão incoerentes no meio da lama que cheguem a soar absurdos, com momentos de loucura.” Caio Fernando Abreu

Na luz vermelha cometem-se crimes no Brasil a torto e direito. Jornais cinzas e amassados repercutem os fatos em calhamaços pouco gastos. Locuções empostadas ecoam nas rádios azuis recompondo a gravidade do sangue coagulado. Ah mas por Arrigo Barnabé vocês não esperavam…

O tempo antigo da trama é soberba duma diretriz pensada para homenagear o pai da criança. Toma, o filho é teu, Rogério. Helena Ignez dirige o conversível com aliança de prata e revólver de borracha. Turva qual uma lacraia, alimenta-se dos ratos desesperados na fuga da sarjeta.

Cinema: James Dean

“Não é a violência que eu procuro mas uma força ainda não classificada que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove.” Clarice Lispector

Juventude Transviada

James Dean me abordou na rua, pediu dinheiro, sacou o canivete, colocou-o rente à minha goela. Parecia galinha em dia de abate. O escritor não deve ter vaidade, pudor nem vergonha. Virou as costas e começou a meter. Sinto falta de porrada. Inspiração de resíduos.

Os cabelos despenteados, loiros e rebeldes. Em seguida, entrou no carro e acelerou. Naquele acidente de percurso, ele morreria. Numa explosão grandiosa. Nunca mais o vi. Deixei cair um lenço na visagem. Seus olhos intermitentes ainda acenaram a agonia.

Cinema: Audrey Hepburn

“Eu queria te dar a lua, só que pintada de verde
Te dar as estrelas, de uma árvore de Natal
E todo o dinheiro falso do mundo, eu queria te dar” Cazuza

Cinema

Nasce um fiapo de idéia. Magrela, como uma bicicleta de criança que eu não aprendi a andar. Mas veja só, sou criança e ainda não aprendi a andar. Estou mesmo perdido, muito sozinho, esquecido. Ela não. Reside nos sonhos de nuvens de algodão, bolhas de sabão, que se espetam e estouram com o atrevimento infantil.

Magia do cinema. Esta eu aprendi, em pouco tempo, a pedalar. Aquém, sozinho, como não? Mas criança sadia. Enquanto não cresci, as doenças, torturas, maldades de que sou capaz, não me alcançam. Acredite que nem tenho pés de anjo, não ando de bicicleta, ao que plano, flutuo, com sua presença, aquela mão sobre o pescoço me sufocando em êxtase, estupor e agonia, na tela.

Cinema: Tropa de Elite

Uma reflexão sobre os valores imprimidos no sucesso nacional de bilheteria

Cinema nacional

Diariamente jovens são presos no Morro e estampam a capa de jornais por posse de drogas ou crimes mais ilegais. Morro geográfico, conhecido como favela ou aglomerado, e morro que dá nome à causa.

Jovens que por vezes são estudantes de classe média a alta, cursam Odontologia, outros Gestão Ambiental, e talvez estivessem fazendo alguma pesquisa para a faculdade ligada ás ervas provenientes do seio da Mãe Natureza. Capturados pela Polícia prestam depoimento e são liberados.

Entrevista: Ataídes Braga

Entrevista com o cineasta, historiador, pesquisador, roteirista e professor Ataídes Braga.

1- Qual o grande diferencial do cinema brasileiro para os demais cinemas que se praticam no mundo?

Toda cinematografia tem importância mas o que difere cada uma delas é o registro de sua identidade, sua cultura, seus valores, a representação de seu povo, enfim, o caráter do brasileiro não pode ou não deveria ser apresentado senão pelo brasileiro com riscos de serem caricaturados.

2- Qual movimento mais influenciou o cinema brasileiro?

Cada época teve uma marca e vários registros de influências são notados, por exemplo, o nosso primeiro cinema foi muito influenciado pelas vivências de muitos pioneiros que eram estrangeiros, italianos, portugueses; já as tentativas industriais pelo modelo americano e italiano; o cinema novo e um cinema independente dos anos 50/60 claramente pelo neorealismo italiano e pela nouvelle vague francesa; as pornochanchadas pelo cinema erótico italiano e depois vários cineastas, a partir dos anos 80, por todo mundo de fora e de dentro do Brasil.

Cinema: A Retomada

Movimento que retomou o cinema nacional teve Fernanda Montenegro

A Retomada Cinema Nacional

Da mesma forma que Carlota Joaquina não queria aportar no Brazil, ninguém queria ter o cinema brasileiro nos braços no final do governo Collor, em 1992, maltrapilho e mal tratado. Mas assim como a princesa casou-se obrigada com Dom João VI e tornou-se “Princesa do Brazil”, o cinema brasileiro deu mostras de poder deslanchar apesar das inúmeras barreiras que lhe dificultavam a vida. Com a queda do “Presidente Mauricinho” (na música de Lobão) por via dos caras pintadas que invadiam a avenida, Itamar Franco assumiu a presidência do país e deu o aval para que projetos que incentivassem a produção de conteúdo e imagem na telona voltassem com todo vigor. Ou nem tanto, o início foi claudicante, e há quem afirme que ainda seja. Mas é inegável a qualidade técnica que o cinema brasileiro alcançou a partir da criação da Globo Filmes, com todo o padrão de qualidade da monopolista emissora televisiva.

Cinema: Marginal

Rogério Sganzerla e Júlio Bressane deram irreverência ao cinema nacional

Cinema Marginal

O Cinema Marginal era o noviço irreverente do Cinema Novo. Desobrigado de engajamentos, se dava ao direito de fazer gracinhas, e com direito adquirido pela inventiva criatividade de seus diretores. Muito mais ligados ao cinema na essência do que os primos políticos, o cinema que construíram surgiu justamente dessa dissidência provocada por rivalidades conceituais e estéticas. Não sendo de todo discordante nem pretendendo tal mérito, buscou referências nas assumidas influências estrangeiras e se esgueirou de qualquer tentativa pretensiosa de produzir uma arte pura, nova.

Cinema: Novo

Glauber Rocha revolucionou o cinema brasileiro com sua proposta realista

O Cinema Novo trouxe a marca de “uma câmera na mão, e uma idéia na cabeça”. E câmera na mão treme, incomoda, de preferência, revoluciona. Essa era a idéia dos idealizadores do movimento, políticos que gritavam contra a injustiça através da estética da fome. E se era estética, era arte. Portanto livre de compromissos com o público, as grandes empresas, o lucro, a bilheteria. Havia um quê vermelho sangue naquelas produções ideológicas e contestadoras. A novidade era tamanha, que os participantes do inicial cinema faziam questão de repudiar tudo que já havia sido feito. Era novo mesmo.

Cinema: A Erva do Rato

Último filme de Julio Bressane impressiona pela beleza incômoda

Júlio Bressane

Júlio Bressane segue fiel à marginalidade. O gosto amargo que amianto seduz em suas películas corre longe do vagão maquinário da indústria. Em direção quase sempre perpendicular e composta por quadros vagos, parados, extrapola uma beleza radiante.

É louvável o modo com que o diretor utiliza de artifícios toscos para gerar sensações de estranhamento. No seu caso a simplicidade roça com a boca aberta a natureza e se orgulha disso. Dando ao espectador prazer indizível.