Marcellino, Pão e Vinho

“Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.” Cecília Meireles

marcellino-vinho

Partiu-o ao meio. Não notou a natureza amedrontada do objeto estático. Mal lhe escapara o pé descalço a obstruir luz para couves e verduras outrem, quanto mais a natureza estática do objeto amedrontado. Feriu-lhe o bojo desprovido de pudor. Arregaçou as mangas encardidas do fiapo que protegia o próprio cadavérico corpo e iniciou o calvário da natureza inapta. Em momento algum se precipitou, nem se demorou além do necessário, a morte recolheu-se ao abrigo num acordo tácito.

A tigela, em frente, borbulhava com o leite fresco colhido das tetas da mais gorda vaca durante os primeiros raios daquela manhã. Calor e angústia aperfeiçoavam a pagã caminhada a desembocar no rito obrigatório. Aquela abatida de intrigas e indispensável desordem à fome terrena do menino magro. Agora, enquanto descia o líquido fresco que esquentava boca, pulmão, estômago, possuía nome, e um branco bigode, invisível e risonho, da infância apressada.

Autor de “Noites Felinas”, Cyril Collard foi poeta, músico, ator e cineasta

“As verdades da vida são sempre ditas na cama.” Cazuza

Cyril-Collard

Bissexual, experimentado em drogas, vítima fatal da AIDS na década de 90, antes de completar 40 anos. Poeta, compositor, ator, músico e cineasta. Dedicado, sobretudo, à arte. História comum às de Cazuza, Caio Fernando Abreu, Reinaldo Arenas e Renato Russo, entre outros. As semelhanças são várias, mas o que distingue o francês Cyril Collard (morto há 20 anos, em 5 de março de 1993) entre seus pares é, por exemplo, certa veemência aliada à insolente poesia com que registrou a própria vida.

Se do compositor carioca podemos destacar a acidez, do escritor gaúcho o lirismo, do poeta cubano a rebeldia e do cantor criado em Brasília o sentimentalismo, todas essas características aparecem em Cyril de maneira ainda mais petulante, num vulnerável desdém com que conciliou inseparavelmente tudo o que lhe despertava interesse. Assim ele anuncia no filme “Noites Felinas”, no que parece ser um poema e depois cantarola-se quase aos assovios: “dizer não ao canto das sereias ou rugir como um leão na arena?”

Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

Luis-Lobianco-entrevista

Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

Jorge Dória: o primeiro ator brasileiro

“Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.” Rilke

Jorge-Doria-primeiro-ator-brasileiro

É do mais polêmico dramaturgo nacional a frase de que Jorge Dória era um canastrão. Nelson Rodrigues, numa de suas sandices graciosas afirmava com todas as letras que “o primeiro ator brasileiro tinha que ser canastrão”. Na continuidade da história contada por Antônio Abujamra a Paulo César Peréio no programa “Provocações” a revelação de que, dez anos mais tarde, ao assistir o mesmo Dória em cena, Nelson entrava chorando no camarim para corrigir-se: “Você não é mais o primeiro ator brasileiro!”.

Intérprete essencialmente cômico, com incursões marcantes por cinema, teatro e televisão, deu-se ao luxo de experimentar gêneros, tipos e de usar e abusar do carisma e principalmente do improviso. No palco Jorge Dória deixava “baixar o santo”, nas próprias palavras, e como de hábito defendia os princípios do humor, da graça e da liberdade. Do Lineu da primeira versão de “A Grande Família”, na década de 70, ao pai que não sabe onde errou em Zorra Total, nos anos 2000, a forma simples e enigmática de provocar o riso no povo.

O Baile, um filme apaixonante de Ettore Scola

“E de repente o silêncio,
Com os passos da ilusão
Perseguem a criança-sonho
Pelas terras da invenção,
Falando a seres bizarros…
Uma verdade, outra não.” Lewis Carroll

o-baile-ettore-scola

O vento soprou à porta uma confissão tímida. Esta se abriu na hora, desqualificando a presença das janelas e os outros indiscretos hóspedes: cadeiras, torneira, copos; acomodados preguiçosamente ao bar. À reação inesperada o vento embaralhou-se, e o crescimento da vergonha tomou-o por vermelhidão, tosse, engasgo e finalmente o salto. Como para impedir o tombo a porta lançou-se ao garçom, e ordenou: toque as músicas do baile.

Surpreso, mas nem tanto, com o fato; afinal há muito adormeciam vento, porta, cadeira, torneira, copos; o garçom repetiu o gesto regido pelo automatismo inexistente nos tempos de antes. Os tempos de antes, então, retornaram, com o vigor e a força de quem espera, em hibernação forçada, um novo chamado. À frente do esquadrão vinha o espelho, pela nítida determinação de alcançar o melhor lugar para apreciar, bem de perto, o baile.

Um Método Perigoso, de David Cronenberg

“Por vezes, o olhar dos dois homens se encontrava; o do jovem, taciturno e sombrio, inalterável em sua obstinação; o do velho, escarnecendo com um desprezo incansável.” D. H. Lawrence

Um-Metodo-Perigoso

A madeira crepitava insistentemente. Como lascas soltando-se do corpo roliço da árvore e alcançando a mortal liberdade em toras de fumaça dobradiças a definhar. O cheiro das cinzas empanzinava o ambiente em igual modelo a pneus inúteis recheados por água podre. O barulho, no entanto, e os sentimentos correlatos estavam imperceptíveis ante a agrura de Freud. O sofrimento do homem de nervoso charuto detivera-se no chão como prego.

À sua frente, coaxando feito sapo em noite de lua que para a espécie é orgia, o protestante Jung avolumava-se em contrações na medida exata da madeira a crepitar de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, o ritual resultou numa esfera de paralelas estanques. O medo recusou-se a surgir na cabeça de Freud, enquanto os pés de Jung não eram capazes, sequer, de encostar-se sem temerem as faíscas.

Tentação Proibida, com Nastassja Kinski

“Tanto o seu estar, rubro e quieto, quanto o meu que se faz e desfaz o ar destas paredes – é queda.” Ferreira Gullar

Tentacao-Proibida-Nastassja-Kinski

O jardim dava para a estátua de marfim e ouro. Para onde quer que fosse a estátua parava à frente. Impossível desviar-se daquele caminho. Preso em tal condição, notou, primeiramente, o nariz. Conformava uma insatisfação adolescente, não querendo estar onde jazia a obrigação de fornecer ao corpo o direito de respirar. A rota cíclica da vital atividade trazia um indisfarçável enfado à dona do nariz. Desabafava através das íris.

Estas eram de um verde abacate, algo um tanto inusitado para uma estátua. Acostumado a observar colorações geralmente cinzas, mortas, paralisadas, não teve forças para contentar o espanto que se assombrou sobre sua imagem de respeitável patriarca quando a figura mexeu os olhos. Enfastiados por uma mistura de rebelião e abatimento profundo, os olhos tentavam, em vão, escapar à moldura de cimento e gesso que mantinha a estátua no primeiro ato.

Tess – Uma Lição de Vida, de Roman Polanski

“o tempo que passava em um relógio invisível, a veia vermelha de um termômetro, a luz filtrada em tênues filamentos pelas cortinas de filó, uma gota d’água suspensa na torneira e que nunca pingava: ela pegou esses objetos e com eles ergueu uma parede: mas a parede era fina demais, frágil demais, e incapaz de eliminar o som da voz” Truman Capote

Tess-Uma-Licao-De-Vida.jpg

Uma parede branca antecede a desgraça da camponesa família. Por que acreditar em melhor futuro é o perigo inescapável ao ser humano. A parede no futuro estará manchada de sangue. O sangue pinga das vestes da menina. Quando colhia morangos no campo, colocaram-lhe rosas no busto. Espinhos debruçaram-se em seios brancos, e estes logo tomaram o formato da mão do carrasco. Desejos vãos, insígnias das bravatas e aspirações.

Dançavam genuinamente quando um tufão irrompeu das mansões. O velho pai que despenca da velha carroça, afirmando a condição superior, mais lembra o palhaço a esperar os aplausos da cética platéia de bretões. A tenda murcha está prestes a desabar sobre as cabeças: umas carecas, outras cobertas por polacos chapéus: todas à espreita, todas confusas: consideram arriscar a vida por um inferno de céu. A luz de lampiões imanta as fuças.

Cinema: Zózimo Bulbul

“O sol caía quase a pino sobre a areia e o seu brilho no mar era insustentável.” Albert Camus

Zozimo-Bulbul.jpg

Da argila surgiram cabelos. Cabelos crespos, avolumados, em chumaços. Uma tira inteira com dentes de peixe foi retirada do bolso. Usou-a para penteá-los, embora desobedecesse à ordem da retina acesa, os olhos esbugalhados, as mãos cravejadas por estúpidas bolhas. Estourou-as uma a uma. Então notamos os braços: grossos e algemados.

“- Zózimo Bulbul”, emitiu o som solene e áspero. Na fronte, havia resquício de aparição antiga. Lembrava uma profecia, sombras, antepassados. “Africano”. Com única palavra compreendeu a dúvida, e nos revolveu em próprios enigmas. Não demorou a notar a espera de nossas atitudes, retirou o restante do corpo debaixo da lama, avançou rápido.

Cinema: Charlie Chaplin

“Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida.
Passar os dedos no rosto branco… não, na superfície branca.
Certos papéis são sensíveis, certos livros nos possuem.
Mas só o homem te compreende. Acostuma-te, beija-o.” Carlos Drummond de Andrade

Luzes da Cidade

Os calcanhares encostam-se desaforados. Aquiles, o herói, os mantinha escondidos. Porque o vagabundo não teme que sejam vistos assim? Chamam a atenção dos outros. E se o homem mais forte do mundo possuía os calcanhares fracos, imaginem o desastrado, infantil, tolo e débil ladrão de quentinhas da bengala imunda.

O passo frouxo, indecoroso e hesitante não deixa mentir. É mesmo um sujeito desprezível, pobre de alma e bens materiais. Pertence aos mendigos, vem do colo dos famintos, divide a trouxa e a cama com cachorros de rua. Não há um sorriso, um resquício de felicidade no rosto de lua atabalhoada, lua sem iluminação, nem minguante, minguada.