A Graça & A Música De Ivon Curi

“Se tem uma coisa que detesto nesse mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres” Gabriel García Márquez

Ivon-Curi

Lá vem o mineiro distinto de Caxambu, rodando uma bengala da tradição francesa, com o sotaque apaziguado de bobo da corte. Engana-se quem julga a primeira aparência e não confere a peruca, o sujeito dito é um lorde, mímico das canções que não dispensa a fala e os gestos para acrescentar riquezas ao que canta e salienta.

Ivon Curi, assim meio discreto, meia cachaça, meio pão de queijo, firmou-se como um dos grandes nomes da era de ouro do rádio por saber explorar o que tinha de melhor, e mais, encontrar praticamente um nicho virgem à sua espera. Ali, no território da sátira, da brincadeira, e da impertinência charmosa, ele conquistou milhares de fãs, ouvintes assíduos, clamorosos por sua presença, enfim, fez o que se esperava de um grande artista: plantou a semente da eternidade.

5 Músicas Cantadas Por Grande Otelo

“Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir” Hilda Hilst

Grande-Otelo

Nas palavras de Herivelto Martins, Grande Otelo tinha “mania de compositor”. O pequeno Sebastião Prata que nasceu em Uberlândia transformou-se num dos maiores atores cômicos do Brasil, e morreu como o inconfundível Grande Otelo no aeroporto de Paris, quando se preparava para receber uma homenagem. Imortalizado na alma brasileira de Mário de Andrade, ao interpretar Macunaíma no cinema e receber o prêmio de melhor ator, Otelo também se destacou como cantor e compositor de grandes sambas.

Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo
Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que esse o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai…”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

5 Músicas Cantadas Por Mussum

“Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Mussum

Um dos trunfos do programa “Os Trapalhões”, que ficou no ar de 1977 a 1993 com quadros inéditos, além de um sem número de filmes, é que os personagens interpretavam a si próprios. O protagonista Renato Aragão de fato o cearense, retirante nordestino na cidade grande. Dedé Santana o suburbano carioca. Mauro Gonçalves, o Zacarias, o único com formação de ator através do rádio, sugeria piadas de homossexualidade, e não raro usava vestimentas, gestos e vozes femininas e infantilizadas. E Mussum, o sambista do morro.

Se Didi e Dedé formaram seu humor principalmente através do circo e tinham uma veia prioritariamente espontânea e de improviso, mais ainda se pode dizer desta naturalidade em Antônio Carlos Gomes. O gosto pelo samba, pela bebida, pelos dizeres invocados e a paixão pelo Flamengo eram reais. Mussum vivia na tela o que vivia nos palcos de asfalto, nas mesas de bar e nas arquibancadas. O próprio apelido sugeria uma maneira lisa e escorregadia de escapar de enrascadas, característica do peixe que inspirou Grande Otelo nesse batizado.

Zé Wilker: o imortal Vadinho

“Quero
Ser o riso e o dente.
Quero ser o dente
E a faca.
Quero ser a faca
E o corte.
Em
Um só beijo
Vermelho.” Tom Zé

Ze-Wilker

Dois dos personagens mais marcantes da carreira do ator José Wilker protagonizaram triângulos que se não eram exatamente amorosos são certamente cheios de humor. O papel título conseguido na novela “Roque Santeiro” e a interpretação de Vadinho na primeira versão cinematográfica de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” exploram o absurdo da existência com pouco ou nenhum grau de profundidade.

Era aí que Zé Wilker deitava e rolava. Pois de uma forma sisuda, elegante, contida, sempre aproveitava as brechas para explicitar o cinismo, desencanto e ironia com que assistia a vida. E assistia do lado de dentro do copo, com uma predileção pela maneira pop de caminhar sobre os trilhos da mídia de grande massa em elementos descombinados, espalhafatosos na cor dos óculos e dos sapatos, rindo do culto à afetação, aos maneirismos.

As Músicas Que Clodovil Cantou

“Em assuntos de vital importância, o estilo, e não a sinceridade, é o verdadeiramente vital.” Oscar Wilde

Clodovil

O falar empolado e as idiossincrasias da personalidade tornaram Clodovil uma figura caricata. Infelizmente, a imagem que cristaliza o tempo nem sempre é a mais próxima da realidade. Estilista consagrado, após estrondoso sucesso passou a se dedicar menos à alta costura e mais àquilo que considerava a realidade da maioria da população de seu país, oposta à dele, já incorporado a uma privilegiada minoria da elite financeira do Brasil. Astuto, Clodovil tanto se ofereceu às artes como estas a ele. Criou moda para peças teatrais e filmes.

Nos palcos não apenas interpretou personagens, inclusive na televisão, quase unicamente sendo o próprio ou algo muito próximo disto – com algum disfarce de troca de nome, quando muito – como se deleitou a soltar a voz com o rigor e a elegância que pautaram suas costuras e alfinetadas, em canções tarimbadas. Além da pecha de barraqueiro, polêmico e briguento, alcunhas construídas pelo apresentador ao longo dos anos em programas muito populares, Clodovil foi um homem com talento e dom para a cultura e a arte.

Alain Resnais: cinema “sem tempo”

“Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.” Albert Camus

Alain-Resnais

O francês Alain Resnais optou por um tipo de cinema que influenciou e recebeu influência não apenas do próprio meio, mas estendeu-se à literatura, à fotografia, às artes plásticas e ao teatro. Basta ver em seus filmes como os atores e os planos se comportam. Como outro exemplo concreto o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, amante do cinema declarado, escreveu um conto em que usava o nome da que provavelmente seja a mais famosa e enigmática película de Resnais, “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961.

É impossível passar por Resnais incólume, como prova o sucesso de bilheteria “Medos Privados em Lugares Públicos”, de 2006, mais de um ano em cartaz em São Paulo, e o aclamadíssimo “Hiroshima, Meu Amor”, de 1959. Seja pelo incômodo que o cineasta provoca, ou até pela beleza que emergem das cenas filmadas e das falas que entremeiam o desconexo à precisão, não à toa o homem que viveu 91 anos escreveu o nome na história do cinema mundial, com decisiva participação no movimento da Nouvelle Vague.

O Reino do Samba de Carlos Imperial

“E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.” Cecília Meireles

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O pilantra que se auto-glorificava, Carlos Imperial, era mestre para advogar elogios em causa própria. Seus pupilos foram sempre dignos de receberem “Dez, nota dez!”, bordão que ele inventou para o carnaval carioca e que espalhava aos borbotões, infiltrando-se nos espaços mais obscuros com as ferramentas mais suspeitas que um rei pode utilizar. Seu Império subiu à superfície na base de muita esperteza, pilantragem e tino para a coisa, como ele próprio sugeria. O que ficou para a posterioridade? A imagem mal afamada de um sujeito querido por suas composições, cheias de suingue e ritmo balanceado, e contestado pela exibição barata de sua cafajestagem.

Mamãe passou açúcar em mim (pilantragem, 1966) – Carlos Imperial
Sem vergonha de utilizar métodos artificiais para promover seus objetivos, o Gordo, apelido de Carlos Imperial por sua postura corpulenta e despachada no comando de seus programas de TV ou no cinema, teve fundamental importância na criação do chamado rock jovem na música brasileira, que mais tarde ele rebatizaria de “pilantragem”. Depois de tentar lançar sem sucesso o ícone da Jovem Guarda que viria a ser Roberto Carlos e de participar da produção do primeiro álbum de Elis Regina, posta para rivalizar com Celly Campelo, Imperial viu no mulato Wilson Simonal sua mina de ouro descoberta. Foi pensando nele que o apresentador, cantor e agitador cultural mais aplaudido e vaiado nos anos 60, compôs a convencida “Mamãe passou açúcar em mim”, em 1966:

“Eu era neném, não tinha talco
Mamãe passou açúcar em mim
Mamãe passou açúcar em mim”

Nada além de Mário Lago

“Fiz um acordo com o tempo, nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra” Mário Lago

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Não à toa chamam Mário Lago poeta. Além da função literária, ele desempenhava os serviços de ator, compositor, radialista e teatrólogo. Tudo com poesia. Sem mencionar que por desvios dessa vida que a gente não imagina, formou-se em advocacia, embora procurasse algumas vezes, esconder o diploma adquirido. Fonte de suas escritas eram as mulheres, Auroras e Amélias. E também o fracasso, condição existencial do homem. Por fim, nada além, Mário Lago somente poeta.

Ai, que saudades da Amélia (samba, 1942) – Mário Lago e Ataulfo Alves
Mário Lago disse a vida inteira que Amélia não era mulher submissa, mas solidária, companheira, amiga nas horas difíceis. As feministas não o perdoaram por tais liberdades poéticas concedidas: “ás vezes passava fome ao meu lado, e achava bonito não ter o que comer”. A beleza do sofrimento retratada por Mário Lago, versos, e Ataulfo Alves, música, sobre a mulher idealizada, sinalizavam na realidade a dependência da atual esposa, segundo o próprio poeta: “Você não sabe o que é consciência, não vê que eu sou um pobre rapaz, você só pensa em luxo e riqueza, tudo que você vê você quer.” Lançada no carnaval de 1942, dividiu a preferência do público com “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo, e o prêmio teve mesmo destino. No entanto, “Amélia” penou para conquistar garantida sumidade na música brasileira. Foi recusada por todos os cantores as quais se ofereceu, até que o próprio Ataulfo Alves resolveu gravá-la, com a companhia de Jacob do Bandolim tocando a introdução. A trajetória da protagonista não foi das mais suaves, mas ao final, estava consagrada. E olha que Amélia existiu de verdade.

Philip Seymour Hoffman: um tormento delicado

“Dentre as muitas magias que há, uma delas é olhar um ser amado dormindo: a salvo dos olhos e da consciência, por um delicioso instante tem-se nas mãos sua parte mais íntima; indefeso, ele nesse instante é tudo, por mais irracional que fosse, que sempre se teve a certeza de que seria, puro como um homem, terno como uma criança.” Truman Capote

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Philip Seymour Hoffman tinha talento para tornar qualquer personagem exótica e interessante. Talvez porque escolhesse papéis para tal, ou talvez porque conferisse a elas certo tormento delicado que sua figura frágil e seus gestos inusitados imprimiam na tela grande do cinema com raro poder de encantamento, arremate e perturbação.

Um exemplo é a interpretação do não menos exótico, talentoso e perturbado escritor norte-americano Truman Capote, na adaptação em que se explora o gênio do protagonista e também a tumultuosa relação com os assassinos que entrevistou para formatar o livro “A Sangue Frio”, sucesso de público e crítica e alvo de contestações ferozes.

Eduardo Coutinho: cineasta da liberdade

“Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus – um porque é eterno, o outro porque vai morrer.
O olhar do poeta é como o olhar de um condenado…
como o olhar de Deus…” Mario Quintana

Rio de Janeiro, 10/11/2011. Eduardo Coutinho. Foto: Guillermo Giansanti

Em Eduardo Coutinho tudo o que é excesso, enfeite e cenário desaparece para dar amplidão ao que lhe importa: o que tem a dizer homens e mulheres em situações limite, de conflito, e antes que o espanto ocorra: as mais simples, e básicas, o que compreende a existência não é nada de estapafúrdio ou mirabolante, embora num primeiro momento o seja e num segundo ainda mais. Eduardo Coutinho estava interessado em investigar a vida, e descobriu que para a pessoa que ele era isso se fazia através do silêncio e do olhar fraterno.

Em muitos de seus documentários é possível escutar em um ou outro momento um sussurro ou uma pergunta indiscreta, que logo é atravessada pela personagem à frente de suas lentes, afinal para o cineasta era indispensável oferecer questionamentos e dispensar as absolutas verdades, derrubando o tabu de que a imagem oferece o retrato fiel e incontestável. Na busca não abriu mão de costurar as finas teias da variedade, do contraditório e do indefinido, como no clássico “Jogo de Cena” em que não se distingue a ação do ensaio.