5 Músicas Cantadas Por Mussum

“Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

Mussum

Um dos trunfos do programa “Os Trapalhões”, que ficou no ar de 1977 a 1993 com quadros inéditos, além de um sem número de filmes, é que os personagens interpretavam a si próprios. O protagonista Renato Aragão de fato o cearense, retirante nordestino na cidade grande. Dedé Santana o suburbano carioca. Mauro Gonçalves, o Zacarias, o único com formação de ator através do rádio, sugeria piadas de homossexualidade, e não raro usava vestimentas, gestos e vozes femininas e infantilizadas. E Mussum, o sambista do morro.

Se Didi e Dedé formaram seu humor principalmente através do circo e tinham uma veia prioritariamente espontânea e de improviso, mais ainda se pode dizer desta naturalidade em Antônio Carlos Gomes. O gosto pelo samba, pela bebida, pelos dizeres invocados e a paixão pelo Flamengo eram reais. Mussum vivia na tela o que vivia nos palcos de asfalto, nas mesas de bar e nas arquibancadas. O próprio apelido sugeria uma maneira lisa e escorregadia de escapar de enrascadas, característica do peixe que inspirou Grande Otelo nesse batizado.

Zé Wilker: o imortal Vadinho

“Quero
Ser o riso e o dente.
Quero ser o dente
E a faca.
Quero ser a faca
E o corte.
Em
Um só beijo
Vermelho.” Tom Zé

Ze-Wilker

Dois dos personagens mais marcantes da carreira do ator José Wilker protagonizaram triângulos que se não eram exatamente amorosos são certamente cheios de humor. O papel título conseguido na novela “Roque Santeiro” e a interpretação de Vadinho na primeira versão cinematográfica de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” exploram o absurdo da existência com pouco ou nenhum grau de profundidade.

Era aí que Zé Wilker deitava e rolava. Pois de uma forma sisuda, elegante, contida, sempre aproveitava as brechas para explicitar o cinismo, desencanto e ironia com que assistia a vida. E assistia do lado de dentro do copo, com uma predileção pela maneira pop de caminhar sobre os trilhos da mídia de grande massa em elementos descombinados, espalhafatosos na cor dos óculos e dos sapatos, rindo do culto à afetação, aos maneirismos.

As Músicas Que Clodovil Cantou

“Em assuntos de vital importância, o estilo, e não a sinceridade, é o verdadeiramente vital.” Oscar Wilde

Clodovil

O falar empolado e as idiossincrasias da personalidade tornaram Clodovil uma figura caricata. Infelizmente, a imagem que cristaliza o tempo nem sempre é a mais próxima da realidade. Estilista consagrado, após estrondoso sucesso passou a se dedicar menos à alta costura e mais àquilo que considerava a realidade da maioria da população de seu país, oposta à dele, já incorporado a uma privilegiada minoria da elite financeira do Brasil. Astuto, Clodovil tanto se ofereceu às artes como estas a ele. Criou moda para peças teatrais e filmes.

Nos palcos não apenas interpretou personagens, inclusive na televisão, quase unicamente sendo o próprio ou algo muito próximo disto – com algum disfarce de troca de nome, quando muito – como se deleitou a soltar a voz com o rigor e a elegância que pautaram suas costuras e alfinetadas, em canções tarimbadas. Além da pecha de barraqueiro, polêmico e briguento, alcunhas construídas pelo apresentador ao longo dos anos em programas muito populares, Clodovil foi um homem com talento e dom para a cultura e a arte.

Alain Resnais: cinema “sem tempo”

“Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.” Albert Camus

Alain-Resnais

O francês Alain Resnais optou por um tipo de cinema que influenciou e recebeu influência não apenas do próprio meio, mas estendeu-se à literatura, à fotografia, às artes plásticas e ao teatro. Basta ver em seus filmes como os atores e os planos se comportam. Como outro exemplo concreto o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, amante do cinema declarado, escreveu um conto em que usava o nome da que provavelmente seja a mais famosa e enigmática película de Resnais, “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961.

É impossível passar por Resnais incólume, como prova o sucesso de bilheteria “Medos Privados em Lugares Públicos”, de 2006, mais de um ano em cartaz em São Paulo, e o aclamadíssimo “Hiroshima, Meu Amor”, de 1959. Seja pelo incômodo que o cineasta provoca, ou até pela beleza que emergem das cenas filmadas e das falas que entremeiam o desconexo à precisão, não à toa o homem que viveu 91 anos escreveu o nome na história do cinema mundial, com decisiva participação no movimento da Nouvelle Vague.

O Reino do Samba de Carlos Imperial

“E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.” Cecília Meireles

carlos-imperial

O pilantra que se auto-glorificava, Carlos Imperial, era mestre para advogar elogios em causa própria. Seus pupilos foram sempre dignos de receberem “Dez, nota dez!”, bordão que ele inventou para o carnaval carioca e que espalhava aos borbotões, infiltrando-se nos espaços mais obscuros com as ferramentas mais suspeitas que um rei pode utilizar. Seu Império subiu à superfície na base de muita esperteza, pilantragem e tino para a coisa, como ele próprio sugeria. O que ficou para a posterioridade? A imagem mal afamada de um sujeito querido por suas composições, cheias de suingue e ritmo balanceado, e contestado pela exibição barata de sua cafajestagem.

Mamãe passou açúcar em mim (pilantragem, 1966) – Carlos Imperial
Sem vergonha de utilizar métodos artificiais para promover seus objetivos, o Gordo, apelido de Carlos Imperial por sua postura corpulenta e despachada no comando de seus programas de TV ou no cinema, teve fundamental importância na criação do chamado rock jovem na música brasileira, que mais tarde ele rebatizaria de “pilantragem”. Depois de tentar lançar sem sucesso o ícone da Jovem Guarda que viria a ser Roberto Carlos e de participar da produção do primeiro álbum de Elis Regina, posta para rivalizar com Celly Campelo, Imperial viu no mulato Wilson Simonal sua mina de ouro descoberta. Foi pensando nele que o apresentador, cantor e agitador cultural mais aplaudido e vaiado nos anos 60, compôs a convencida “Mamãe passou açúcar em mim”, em 1966:

“Eu era neném, não tinha talco
Mamãe passou açúcar em mim
Mamãe passou açúcar em mim”

Nada além de Mário Lago

“Fiz um acordo com o tempo, nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra” Mário Lago

Mario-Lago

Não à toa chamam Mário Lago poeta. Além da função literária, ele desempenhava os serviços de ator, compositor, radialista e teatrólogo. Tudo com poesia. Sem mencionar que por desvios dessa vida que a gente não imagina, formou-se em advocacia, embora procurasse algumas vezes, esconder o diploma adquirido. Fonte de suas escritas eram as mulheres, Auroras e Amélias. E também o fracasso, condição existencial do homem. Por fim, nada além, Mário Lago somente poeta.

Ai, que saudades da Amélia (samba, 1942) – Mário Lago e Ataulfo Alves
Mário Lago disse a vida inteira que Amélia não era mulher submissa, mas solidária, companheira, amiga nas horas difíceis. As feministas não o perdoaram por tais liberdades poéticas concedidas: “ás vezes passava fome ao meu lado, e achava bonito não ter o que comer”. A beleza do sofrimento retratada por Mário Lago, versos, e Ataulfo Alves, música, sobre a mulher idealizada, sinalizavam na realidade a dependência da atual esposa, segundo o próprio poeta: “Você não sabe o que é consciência, não vê que eu sou um pobre rapaz, você só pensa em luxo e riqueza, tudo que você vê você quer.” Lançada no carnaval de 1942, dividiu a preferência do público com “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo, e o prêmio teve mesmo destino. No entanto, “Amélia” penou para conquistar garantida sumidade na música brasileira. Foi recusada por todos os cantores as quais se ofereceu, até que o próprio Ataulfo Alves resolveu gravá-la, com a companhia de Jacob do Bandolim tocando a introdução. A trajetória da protagonista não foi das mais suaves, mas ao final, estava consagrada. E olha que Amélia existiu de verdade.

Philip Seymour Hoffman: um tormento delicado

“Dentre as muitas magias que há, uma delas é olhar um ser amado dormindo: a salvo dos olhos e da consciência, por um delicioso instante tem-se nas mãos sua parte mais íntima; indefeso, ele nesse instante é tudo, por mais irracional que fosse, que sempre se teve a certeza de que seria, puro como um homem, terno como uma criança.” Truman Capote

Philip-Seymour-Hoffman

Philip Seymour Hoffman tinha talento para tornar qualquer personagem exótica e interessante. Talvez porque escolhesse papéis para tal, ou talvez porque conferisse a elas certo tormento delicado que sua figura frágil e seus gestos inusitados imprimiam na tela grande do cinema com raro poder de encantamento, arremate e perturbação.

Um exemplo é a interpretação do não menos exótico, talentoso e perturbado escritor norte-americano Truman Capote, na adaptação em que se explora o gênio do protagonista e também a tumultuosa relação com os assassinos que entrevistou para formatar o livro “A Sangue Frio”, sucesso de público e crítica e alvo de contestações ferozes.

Eduardo Coutinho: cineasta da liberdade

“Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus – um porque é eterno, o outro porque vai morrer.
O olhar do poeta é como o olhar de um condenado…
como o olhar de Deus…” Mario Quintana

Rio de Janeiro, 10/11/2011. Eduardo Coutinho. Foto: Guillermo Giansanti

Em Eduardo Coutinho tudo o que é excesso, enfeite e cenário desaparece para dar amplidão ao que lhe importa: o que tem a dizer homens e mulheres em situações limite, de conflito, e antes que o espanto ocorra: as mais simples, e básicas, o que compreende a existência não é nada de estapafúrdio ou mirabolante, embora num primeiro momento o seja e num segundo ainda mais. Eduardo Coutinho estava interessado em investigar a vida, e descobriu que para a pessoa que ele era isso se fazia através do silêncio e do olhar fraterno.

Em muitos de seus documentários é possível escutar em um ou outro momento um sussurro ou uma pergunta indiscreta, que logo é atravessada pela personagem à frente de suas lentes, afinal para o cineasta era indispensável oferecer questionamentos e dispensar as absolutas verdades, derrubando o tabu de que a imagem oferece o retrato fiel e incontestável. Na busca não abriu mão de costurar as finas teias da variedade, do contraditório e do indefinido, como no clássico “Jogo de Cena” em que não se distingue a ação do ensaio.

Marcellino, Pão e Vinho

“Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.” Cecília Meireles

marcellino-vinho

Partiu-o ao meio. Não notou a natureza amedrontada do objeto estático. Mal lhe escapara o pé descalço a obstruir luz para couves e verduras outrem, quanto mais a natureza estática do objeto amedrontado. Feriu-lhe o bojo desprovido de pudor. Arregaçou as mangas encardidas do fiapo que protegia o próprio cadavérico corpo e iniciou o calvário da natureza inapta. Em momento algum se precipitou, nem se demorou além do necessário, a morte recolheu-se ao abrigo num acordo tácito.

A tigela, em frente, borbulhava com o leite fresco colhido das tetas da mais gorda vaca durante os primeiros raios daquela manhã. Calor e angústia aperfeiçoavam a pagã caminhada a desembocar no rito obrigatório. Aquela abatida de intrigas e indispensável desordem à fome terrena do menino magro. Agora, enquanto descia o líquido fresco que esquentava boca, pulmão, estômago, possuía nome, e um branco bigode, invisível e risonho, da infância apressada.

Autor de “Noites Felinas”, Cyril Collard foi poeta, músico, ator e cineasta

“As verdades da vida são sempre ditas na cama.” Cazuza

Cyril-Collard

Bissexual, experimentado em drogas, vítima fatal da AIDS na década de 90, antes de completar 40 anos. Poeta, compositor, ator, músico e cineasta. Dedicado, sobretudo, à arte. História comum às de Cazuza, Caio Fernando Abreu, Reinaldo Arenas e Renato Russo, entre outros. As semelhanças são várias, mas o que distingue o francês Cyril Collard (morto há 20 anos, em 5 de março de 1993) entre seus pares é, por exemplo, certa veemência aliada à insolente poesia com que registrou a própria vida.

Se do compositor carioca podemos destacar a acidez, do escritor gaúcho o lirismo, do poeta cubano a rebeldia e do cantor criado em Brasília o sentimentalismo, todas essas características aparecem em Cyril de maneira ainda mais petulante, num vulnerável desdém com que conciliou inseparavelmente tudo o que lhe despertava interesse. Assim ele anuncia no filme “Noites Felinas”, no que parece ser um poema e depois cantarola-se quase aos assovios: “dizer não ao canto das sereias ou rugir como um leão na arena?”