5 filmes marcantes sobre a ditadura militar no Brasil

“Na bagagem, uma esperança desmedida.” José Carlos Oliveira

Batismo-de-Sangue

A ditadura militar no Brasil que durou 21 anos, de 1964 a 1985, é, certamente, um dos períodos mais nefastos e turbulentos da nossa história. O regime que instituiu a censura, o assassinato e a tortura também foi retratado através da arte do cinema em obras que, com a indignação e revolta dos que sofreram no período ou as consequências dele, produziram um retrato fiel, definitivo e de suma importância para quem pretende entender e respeitar o valor de uma democracia e da liberdade. Abaixo 5 filmes marcantes sobre a ditadura.

Análise: Zé Bonitinho foi expressão da fantasia

“Zé Bonitinho, o perigote das mulheres!” Jorge Loredo

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Oscarito é Oscarito, Grande Otelo é Grande Otelo, Al Pacino é Al Pacino e Ronald Golias é Ronald Golias, independente do papel que eles representem. Assim foi com Jorge Loredo, refém e cúmplice de seu Zé Bonitinho. Não há como dissociar a imagem do ator de sua mais aclamada personagem. Loredo participou de filmes no auge das companhias Atlântida e Vera Cruz, representantes da chanchada no Brasil, e inclusive estrelou “Sem essa, Aranha!”, protagonista com nome no título. Mas a força do público foi maior do que as suas vontades. Diagnosticado com osteomielite e tuberculose durante a juventude, foi incentivado pelos médicos a procurar uma companhia teatral para melhorar os ânimos. Em busca de um “papel sério”, passou, na primeira audição, para o monólogo cômico “Como Pedir Uma Moça em Casamento”. Zé Bonitinho não teve escolha, nascera fadado a fazer os outros rirem.

O documentário “Câmera, Close!”, dirigido por Susanna Lira em 2005, traça um sensível retrato de intérprete e personagem. Ao se valer de um dos bordões propagados por Zé Bonitinho no título, a diretora tenta se aproximar, sobretudo, de Jorge Loredo, e temos revelada uma personalidade reservada, muitas vezes amarga, e até certo ponto triste. Repete-se a crônica do palhaço que não consegue arrancar de si o próprio riso, tema explorado com propriedade por Selton Mello em seu longa-metragem de 2011, que generosamente concedeu espaço a referências do estilo; além de Loredo aparecem Moacyr Franco, Ferrugem, Teuda Bara e Tonico Pereira. Percebemos no documentário a frustração de Jorge, por estar confinado a Zé Bonitinho. Ator de múltiplos recursos, demonstrados na tela, exercia ainda a profissão de advogado. Imagine-se numa audiência com Zé Bonitinho.

O chocolate na cultura popular

“e por toda a calma latente e infinitamente doce,” Salvador Dalí

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Desde que se tem notícia do seu aparecimento ainda na era pré-colombiana dos países da América Central, o chocolate não serve apenas como alimento. Claro, a sua função principal é essa, até por ser difícil negar suas qualidades tão atrativas ao paladar. Mas é sobretudo por outros sentidos como visão, tato e olfato, que o chocolate atende a diversas intenções. Não por acaso está associado a celebrações como a Páscoa e o Dia dos Namorados. No universo da cultura popular é difícil uma arte que tenha escapado ao seu charme.

No cinema certamente a iniciativa mais marcante em relação ao tema é “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, de 1971, baseado no livro de Roald Dahl. O filme eternizou a figura excêntrica de Willy Wonka, vivido nesta versão por Gene Wilder e depois interpretado por Johnny Depp no longa-metragem lançado por Tim Burton em 2005. A ideia de um ambiente repleto e coberto por chocolate sensibilizou e encheu de água na boca a adultos e crianças. Outras duas obras marcantes são a mexicana “Como Água Para Chocolate”, de 1992, e “Chocolate”, com Juliette Binoche no papel principal, de 2000.

A nudez no cinema brasileiro

“e o charme da novidade caía pouco a pouco, como uma vestimenta, deixando ver nua a eterna monotonia da paixão, que sempre tem as mesmas formas e a mesma linguagem.” Gustave Flaubert

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A pornochanchada talvez tenha sido a época de maior popularidade do cinema brasileiro. Certamente não a de maior prestígio. Concorre, no auge, com o sucesso do seu antecessor de quem herdou parte do nome, as chanchadas nacionais. Essa designação atende à conhecida comédia de costumes. A diferença de uma para outra está, justamente, na inserção de um dos elementos responsáveis pelo aumento do público: a nudez. Curioso notar que embora tenha grande parte da cultura de massa influenciada pelo modelo norte-americano, neste ponto o cinema nacional se diferenciou bastante. Não é segredo que a tolerância dos Estados Unidos hollywoodiano com a violência é inversamente proporcional ao sexo.

Neste período de intensa repressão decorrente da ditadura militar instaurada no Brasil, a pornochanchada valeu-se de carta branca para mostrar o sexo. Afinal de contas, as preocupações eram com as mensagens engajadas dos artistas tropicalistas, do cinema novo e do teatro oficina, para focar em alguns exemplos, em temas que exploravam questões mais abrangentes e menos particulares que as ligadas ao amor e ao sexo. Este estilo criou alguns ícones e se apropriou de outros. Por exemplo, Nelson Rodrigues, um dos autores mais adaptados para as telonas, e os atores Paulo César Peréio, Sônia Braga, Darlene Glória, Lucélia Santos. A intensa exploração do corpo, sobretudo das mulheres, nas filmagens, levou algumas a renegarem a participação nesses clássicos.

O sadomasoquismo no cinema

“Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. (…) Sexo é o susto de uma criança.” Clarice Lispector

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A obra surrealista do espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel, e que por anos viveu na França, certamente recebeu influência do artista plástico Salvador Dalí. Mas também atuou de maneira assertiva sobre outros nomes. Por exemplo, o pernambucano Alceu Valença se vale do título de um dos filmes mais controversos de Buñuel para batizar uma popular canção. “La Belle de Jour” do compositor é transportada para a tropical praia de Boa Viagem, enquanto a película de Buñuel passa-se em dois campos distintos. O primeiro diz respeito a um frio interior francês, já o segundo, aparentemente na imaginação da protagonista, não economiza na temperatura. O tema do sadomasoquismo, além da conotação de tabu moral, servia para espezinhar a hipocrisia burguesa, o ideário religioso e a tênue linha entre prazer e dor. Não mudou muito até agora.

Nessa década de 2010, quem puxa a fila do assunto chega pela indústria como best-seller, produção americana com recorde de arrecadação no cinema, pontos que nos permitem notar, de cara, o diferencial entre as duas obras. “50 Tons de Cinza” é também baseada em livro, o que parece ser a única ligação com “A Bela da Tarde”, de Buñuel e que tem Catherine Deneuve no papel principal, tirada das páginas de Joseph Kessel. Além de preocupações estéticas, a intenção provocativa, e o habitual misto entre delírio e realidade, justamente por essas características Buñuel ergue com unhas e dentes a bandeira da reflexão, o que lhe impede concessões à rápida assimilação mercadológica. E. L. James, ao contrário, é um produto de mercado feito para o mercado. Está intrinsicamente ligada a ele. Se Buñuel criticava o moralismo, o folhetim contemporâneo só o reforça.

Análise: Sr. Spock, a força de uma marca

“Desculpa, não entendo piadas humanas.” Spock

Spock

Mussum, Seu Madruga e Che Guevara têm algo em comum. Assim como o símbolo do movimento hippie. Todos se tornaram marcas tão fortes que a indústria logo se apropriou e espalhou suas imagens em ímãs, camisas, cervejas. Outro deste clã é o Sr. Spock, personagem da série “Star Trek”, ou “Jornada nas Estrelas”. Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas certamente entenderá se alguém lhe fizer o gesto com a mão em riste e os dedos separados, formando um V no meio. Embora não seja exatamente cômico ou revolucionário como os outros, o personagem aspirava a ambas.

Interpretado por Leonard Nimoy na televisão e no cinema, sua contribuição ao mundo do entretenimento é um pouco diversa. A semelhança é que, sustentados por uma enorme popularidade, todos se transformaram em cult, essa expressão para denominar o que era banal e tornou-se elegante. A diferença é que Spock sempre foi ídolo de uma parcela a que hoje se atribui a alcunha nerd. Mas em seu tempo de aparecimento, a década de 1960, o tema da viagem espacial cativava um público mais abrangente. Já com a franquia encerrada, o Vulcano apareceu em capítulos de “The Big Bang Theory”, “Simpsons” e “Futurama”.

Crítica: “O Senhor do Labirinto” persegue Arthur Bispo do Rosário

“A fantasia não é exatamente uma fuga da realidade. Mas um modo de entende-la.” Lloyd Alexander

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Arthur Bispo do Rosário é um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros. Apesar de confinado durante cerca de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, sua arte, de característica irrestrita, alcançou outras plagas, como a Europa e grande parte do território nacional. Mas essa não era uma preocupação do artista. Diagnosticado como esquizofrênico paranoico, e por isso levado ao hospício, se considerava Cristo e dedicava as obras a Deus. Mantos, bordados, estandartes, navios, coleções de colheres, copos, e vários tipos de artesanato eram construídos a partir de matéria prima colhida no lixo, antes que qualquer preocupação sobre reciclagem existisse no país de maneira institucional ou individualizada. Bispo do Rosário era natural de Japaratuba, interior do Sergipe.

A sua ligação com uma chamada arte conceitual ou de vanguarda parece encontrar pouca recepção em Bispo, sendo muito mais elucubração de analistas. O caráter passional de seus gestos e do comportamento o liga a um movimento de intuição, magia, na beira da inconsciência entre o transe do ser desdobrável na própria linha que o veste e é obra-prima. No que há algo de Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas por outros caminhos. Bispo constrói um mundo no qual ele está inserido, do qual olha de dentro, completamente imerso. São os teus objetos que o acolhem, e não há qualquer distanciamento ou a visão habitual do artista diante da obra. Conduzido por anjos, Bispo flutua em seu céu de feitios, com a aura que somente ele e os escolhidos para a salvação eram capazes de enxergar.

Crítica: “Whiplash – Em Busca da Perfeição” revela poder de destruição do trabalho

“Não tenha medo de erros. O erro não existe.” Miles Davis

Left to right: Miles Teller as Andrew and J.K. Simmons as Fletcher Photo by Daniel McFadden, Courtesy of Sony Pictures Classics

Embora tenha essa ambição, a arte não necessariamente melhora o mundo e a vida das pessoas. É esta a tese do diretor e roteirista de “Whiplash – Em Busca da Perfeição”. Ao retratar o poder de destruição, ganância, inveja, dor, ciúme, vaidade, indiferença, egoísmo, intolerância, sordidez, mágoa e outros adjetivos pouco simpáticos, Damien Chazelle inverte as imagens usualmente atribuídas à prática artística. À medida que o protagonista vivido por Miles Teller cresce no ofício, pior se torna como ser humano. Ambos, intérprete e personagem, se entregam a tal ponto a uma pretensa luz que acabam, como na lenda de Ícaro, queimados pelo sol.

J. K. Simmons, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante, é o grande atrativo da produção. Ele encarna com complexidade um carrasco cuja função é justamente incentivar e expor a face maníaca de seu pupilo, para retirar às entranhas uma excelência no fazer, na produção, na obra a ser legada, no gênio. Crítica que atende ao modelo de concepção educacional tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, onde busca-se a fortuna e o sucesso individualista, o tal plano de carreira, antes de qualquer preocupação cidadã. Portanto essa relação com o trabalho é também questionada, assim como a coqueluche da vaidade artística: a de que a obra é eterna, logo mais valiosa que a vida humana.

Crítica: “O Grande Hotel Budapeste” usa humor para a vaidade

“Só goza a vida aquele que viva para viver e se lhe entregue livre e prodigamente. Todo aquele que fixa uma meta apenas a toca. O artista plasma, geralmente, o que não chega a viver.” Stefan Zweig

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É com humor que Wes Anderson tira a importância da pintura, da poesia e do ser humano em “O Grande Hotel Budapeste”. No entanto, esse artifício é usado para a crítica de forma branda, e fartamente como um exercício de linguagem. Ao apresentar as suas personagens através do maneirismo e da superficialidade o diretor não apenas demonstra a própria falta de afeição como impede que nos aproximemos e haja a criação de algum vínculo afetivo.

Protagonistas e coadjuvantes de luxo são esvaziados a tal ponto que o fascínio só ocorre em razão dos efeitos técnicos: em figurinos, cenários e maquiagem extravagantes. O excesso também é medido no ritmo frenético da história, que, embora remonte a tempos idos, está em consonância com a contemporaneidade. Todos esses elementos, porém, garantem à película estilo e afetação, premiando a vaidade do diretor. Era Millôr Fernandes quem dizia de si: “Finalmente um escritor sem estilo”. Esse não é o caso de Wes Anderson.

Crítica: Vencedor do Oscar, “Birdman” coloca em cheque papel da arte

“uma coisa é uma coisa, não o que é dito dela” Alejandro Iñárritu

Birdman

Diferente de outras atividades a prática da arte não é funcional. O que oferece são sentimentos, sensações, mensagens, nada de físico ou material, embora se utilize de plataformas; o produto da arte segue flutuante, impalpável: uma música, um poema ou um filme não se podem tocar. São os mesmos algozes e ases de qualquer comunicação, afinal outro fundamento da arte é a expressão de algo que, submerso, almeja colocar a cabeça para fora, ou outro membro ainda menos mostrável. No entanto há diferenças entre passar uma informação e, a partir dela, interferir no panorama. Alejandro Iñárritu, diretor e roteirista de “Birdman”, faz um corte bastante nítido entre o que considera arte e o que relega ao plano do entretenimento, da cultura de massa. Ainda que se possa alegar que essa visão pertence ao sistema, Iñárritu não deixa de compra-la. Mas tem como mérito contestar as duas, embora não consiga escapar de um dos caprichos da profissão. Ao caricaturar e usar de forma saborosa o humor negro atinge em cheio o primeiro alvo: o de um universo banal, grosseiro, tosco, onde os mais “geniais artistas” não passam de pessoas patéticas, egoístas e egocêntricas.

Mas é quando tece a discussão mais complexa que o diretor mexicano acaba enovelado na própria teia. Emerge uma certa pretensão, de quem fala “de cima para baixo”, presente, inclusive, no subtítulo da película, “A Inesperada Virtude da Ignorância”, tudo porque é difícil desmontar essa estrutura hierárquica. O que é fruto, paradigmaticamente, desta consciência e inquietação existencial pouco comum na população quando observada em massa. Ao rejeitar a maçante narrativa super-realista do modelo cultural norte-americano em vigência e propor uma construção lúdica, surreal em alguns momentos, Alejandro sai do campo da contestação e parte para a proposta, ou seja, busca caminhos novos para essa arte da qual ele mesmo ainda tem dúvidas se serve. E se é para servir, assim como a existência humana, a um número maior de indivíduos, como solucionar a conta que nunca fecha entre uma cultura onde somente uma parcela restrita da sociedade se interessa e tem acesso e outra que atrai milhões? Qual das duas pode ser mais irrelevante? Daí considera-se o problema da hierarquia, pois é preciso que pessoas influentes e, em tese, mais abastadas em termos de consciência, sempre transmitam essa mensagem, ou essas sensações, de cima para baixo.