“Asterix sempre foi um cultor da diversidade”, diz chargista Renato Aroeira

“A cabra deu ao nordestino
esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.” João Cabral de Melo Neto

Eles são apreciadores inveterados de carne de javali, com a qual se empanturram em animados banquetes noturnos, veneram os deuses celtas, exclamam “por Tutatis!” sempre que algo os surpreende e têm um único medo: que o céu caia sobre suas cabeças. Criados há 60 anos pela dupla de quadrinistas franceses René Goscinny e Albert Uderzo, as histórias de “Asterix” se transformaram em um símbolo nacional capaz de ultrapassar barreiras geográficas e até espaciais, com direito a um satélite batizado de “Asterix”. Ouvimos o chargista belo-horizontino Renato Aroeira e o tradutor português Pedro Bouças sobre os irredutíveis gauleses.

10 gringos que foram adotados pela música brasileira

“E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.” Pablo Neruda

António Joaquim Fernandes morreu em setembro, aos 67 anos, vítima de câncer de pele. Com estas informações, poucos o reconheceriam. Foi no Brasil, para onde se mudou aos 11 anos, que o cantor nascido em Macedo de Cavaleiros, em Portugal, adotou o nome artístico de Roberto Leal, alcançando um enorme sucesso ao popularizar os fados de seu país. Assim como Roberto Leal, outros músicos vindos de fora escolheram o Brasil para expressar sua arte. Listamos alguns deles.

14 featurings que deram o que falar na música brasileira

“Todos eles eram bastante famosos, mas se apresentavam no palco como se fossem muito mais famosos: isto é, com modéstia.” Brecht

Levada à casa de João Nogueira pelo amigo Paulo César Pinheiro, a cantora Elis Regina ganhou de presente a música “Bolero de Satã”, com letra de Pinheiro e melodia de Guinga. Elis decidiu convidar para a faixa, gravada no álbum “Essa Mulher” (1979), Cauby Peixoto, que ela considerava o melhor cantor do Brasil.Como se sabe, Elis tinha um temperamento competitivo e era avessa a dividir os holofotes.

Ela não gostava de duetos. De fato, o que se viu foi outra coisa, mesmo com seu ídolo maior. Ao longo dos 3 min 25s da canção, a presença de Cauby se resume a 32 segundos, sendo que em boa parte deles Elis faz vocalises ao fundo, e, nos cinco segundos finais, os dois, enfim, unem suas belas vozes. O que na época era conhecido como “participação especial”, hoje, seria chamado de “featuring”, ou, até, pela abreviação do termo, “feat”. Abaixo, selecionamos alguns dos mais bombados atualmente, com direito a uma licença poética para homenagear os precursores.

80 anos de “Aquarela do Brasil” em 10 curiosidades

“Quando o almirante Cabral/Pôs as patas no Brasil/O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris./Quando ele voltou da viagem/O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:/‘Não faz mal, isto é boa gente,/Vou arejar outra vez.’
O anjo transpôs a barra,/Diz adeus a Pernambuco,/Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim/Mas deu um vento no anjo,/Ele perdeu a memória…
E não voltou nunca mais.” Murilo Mendes

A rabugice de Ary Barroso (1903-1964) era conhecida, tanto que na biografia do compositor, escrita pelo jornalista Sérgio Cabral, conta-se o seguinte episódio: em seus últimos dias de vida, Ary telefona, do hospital, para o amigo David Nasser, e avisa: “- Estou me despedindo, vou morrer”. “Como é que você sabe?”, retruca Nasser. “- Estão tocando as minhas músicas no rádio”, devolve Ary.

Paródia
De tão lendário, o comportamento ranzinza acabou dando trela para um quadro no espetáculo do comediante José Vasconcellos, que imitava Ary no aguardado instante em que, durante o seu programa radiofônico e de TV “Calouros em Desfile”, ele recebia um participante. Sucedia-se o diálogo:

Michel Melamed: “É hora de dizer não aos nazistas, e sim aos nossos artistas”

“A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.” Thomas Mann

A primeira vez que ouvi falar em Michel Melamed foi na Faculdade de Comunicação e Artes, durante o curso de jornalismo, em 2008. O professor Márcio Serelle, que mais tarde escreveria o prefácio do meu primeiro livro (“Amor de Morte Entre Duas Vidas”), falava entusiasmado sobre o trabalho “Regurgitofagia”, um marco da dramaturgia nacional que unia diversas linguagens, como poesia, teatro e artes plásticas, e propunha uma radical interação com a plateia, onde cada reação sonora emitida por esta era captada por microfones e transformada em descargas elétricas que atingiam em cheio o corpo de Melamed. Como as aulas do professor Serelle me impressionavam, a partir deste momento ambos passaram a me impressionar.

O encontro “pessoal” com Melamed se daria pouco tempo depois, quando o ator, escritor, poeta, diretor teatral e futuro apresentador de televisão apresentou uma palestra para lá de performática na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. Da cadeira onde eu estava, a poucos metros de distância do convidado, as provocações de uma palestra que nada afirmava, mas, ao contrário, lançava questões uma atrás da outra, borrando e rompendo as barreiras entre representação e realidade, confirmaram definitivamente a admiração pela personalidade artística de Melamed. Ao ter a oportunidade de entrevista-lo, também busquei as memórias remotas do personagem. Antes de ser contratado pelo Canal Brasil, ele foi espectador da emissora.

A reflexão feminista e autobiográfica de Agnès Varda

“A aranha traz uma bola de prata/ Nas mãos que não se vêem / E ao dançar, leve e sozinha,
Desata seu perolado novelo./ Com artes imateriais,/ De nada em nada vai tecendo;
Sua trama supera as nossas,/ Na metade do tempo./ Rapidamente levanta/ Territórios luzidios,
Pendentes depois de uma vassoura –/ Seus limites, esquecidos.” Emily Dickinson

O diagnóstico de câncer atemoriza a personagem principal. A espera pelo resultado do exame é o mote para o filme “Cléo das 5 às 7”, que catapultou o nome da diretora Agnès Varda (1928-2019) ao estrelato em 1962. Mas essa história de fundo nada teria de especial se a diretora belga não seguisse os princípios da Nouvelle Vague francesa, da qual muitos a acusam de ter sido a principal artífice. Fato é que a paternidade desse movimento revolucionário no cinema recaiu sobre os ombros de Jean-Luc Godard e François Truffaut (1932-1984), mais um indício do machismo vigente naqueles tempos idos que insiste em perdurar. Formada em fotografia, Varda era a única mulher da turma.

Além de brincar com o tempo da narrativa nesse longa-metragem protagonizado por uma hipnotizante Corinne Marchand, a também roteirista Varda literalmente inventa com as imagens e, com isto, consegue extrair planos e quadros fascinantes, onde o gestual mais simples dá conta de expressar toda uma angústia humana. Existencialista no sentido da relação com a passagem do tempo, tema, por si só, atemporal, não se pode deixar passar em branco outra característica menos apontada da produção: a trama gira em torno de uma mulher, a cantora que, para atenuar a fricção dessa agonia procura se distrair com as frivolidades do dia a dia numa cidade como Paris. Mas é ao se encontrar com o seu semelhante que ela experimenta breves momentos de alívio.

10 casos de assédio sexual no cinema e na TV

“A força não pode tudo. E a violência não pode tornar não vista uma coisa que foi vista.” Brecht

Ao receber o prêmio de melhor atriz no Oscar por sua atuação em “Três Anúncios Para um Crime”, Frances McDormand discursou em favor da “inclusion rider”, uma cláusula de contrato existente nos Estados Unidos que pode ser exigida por atrizes e atores para que sets, filmes e seriados tenham representatividade próxima a uma equidade racial e de gênero. Meses antes, o Globo de Ouro havia sido palco de um protesto inédito, quando atrizes como Meryl Streep, Emma Stone e Elisabeth Moss compareceram de preto para demonstrar sua indignação contra os atos de abuso sexual cometidos por atores, diretores e produtores. Embora tenham ganhado vulto e repercussão principalmente a partir do movimento #MeToo, os casos de denúncias de assédio no cinema não vêm de hoje, e abarcam diferentes gerações, assim como nacionalidades. As consequências também variam, indo da condenação à impunidade. Veja na lista abaixo alguns dos casos mais conhecidos.

Entrevistas: Diretoras, atrizes, produtoras e pesquisadoras debatem sobre assédio

“arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.” Clarice Lispector

Uma menina de 13 anos havia sido abusada sexualmente e contou a história para Tarana Burke. Na hora, a ativista afro-americana nascida no Bronx, nos Estados Unidos, não soube o que dizer. Mais tarde, ela entendeu que queria ter dito apenas “eu também”. Esse foi o gatilho para que Tarana criasse, em 2006, o movimento Me Too (tradução literal de “eu também”, em inglês), a fim de promover a empatia entre mulheres negras que foram vítimas de abuso sexual. A primeira plataforma digital a disseminar a campanha foi o Myspace, naquela época uma das mais populares redes sociais.

Passados 11 anos, o movimento voltou à tona, em 2017, com a força de uma ressaca marítima. Publicada no “The New York Times” no dia 5 de outubro daquele ano, a reportagem intitulada “Harvey Weinstein pagou os acusadores de assédio sexual por décadas” começou a minar um cruel império de silêncio, ao revelar o que parcela considerável da indústria cinematográfica norte-americana já sabia: o poderoso produtor de filmes de Hollywood era um contumaz abusador sexual.

Entrevistas: Simone Zuccolotto e Paulo Mendonça celebram 20 anos do Canal Brasil

“Se quiser, banco o francês
Quase tão bem como ele.
Sou brasileiro, bem sei,
Mas sou mais universal.” Murilo Mendes

Malabarismos automobilísticos e consultas de ocultismo. Foi assim que o Canal Brasil “começou”, há 20 anos, num dia 18 de setembro de 1998. A descrição corresponde à sinopse do primeiro filme exibido pela emissora. “Sonho Sem Fim”, dirigido por Lauro Escorel, não por acaso contava a história de um dos precursores do audiovisual no país: o gaúcho Eduardo Abelim, que, para conseguir produzir seus filmes, subia em veículos em movimento e jogava cartas para adivinhar o futuro. Como o protagonista, a trajetória do Canal Brasil também se firmou nesses três pilares: pioneirismo, resiliência e coragem. Confira abaixo as entrevistas com a apresentadora Simone Zuccolotto e o diretor-geral do canal, Paulo Mendonça.

22 programas marcantes na história do Canal Brasil

“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil” Manuel Bandeira

Para comandar um programa na emissora é preciso ter estilo. Esse parece ser o principal recado que o canal enviou ao longo de uma história em que se dedicou a fomentar a cultura nacional, abarcando cinema, música, teatro, literatura e as artes plásticas, sem deixar o humor de lado e priorizando, sempre, a liberdade criativa. Listamos abaixo 20 programas inesquecíveis dessas duas décadas no ar.