Memória: Josephine Baker simbolizou liberdade feminina nos anos 1920

“Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.” Emily Dickinson

Josephine Baker foi símbolo de exotismo e popularidade

Há um século e uma década nascia para o mundo Freda McDonald, que para sempre permaneceria desconhecida dele. Porém sua personagem é ainda lembrada. Josephine Baker, junção do próprio sobrenome com o do marido é referência imediata para o universo da dança, dos costumes, da luta pelos direitos da mulher, dos negros e de todas as minorias perseguidas. Sua contribuição artística, ao contrário do percebido pela extensa maioria em sua época, portanto, transcendeu aos critérios momentâneos orientados pela estética a fim de alcançar aquele valor concedido às obras-primas: marcou profundamente a maneira de pensar da humanidade; ou, ao menos, sugeriu novas aberturas para ela. Natural do meio-oeste dos Estados Unidos, quando chegou à maioridade migrou para Paris, onde, dizia-se, respirava-se vanguarda e liberdade; naqueles “Loucos Anos 20” por lá passavam pintores como Picasso e escritores do porte de Hemingway e Gertrude Stein, considerada mentora intelectual de muitos deles. Mas não havia nada como o exotismo de Josephine Baker. Trazia, ao seu lado, Chiquita, uma guepardo de estimação.

Análise: “Estação Plural” exalta a diversidade sexual e de gênero

“Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário nobre do adultério. Separatista protestante. Melindrosa basca com fissura da verdade. Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco (…) Não olho para trás. Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta.” Ana Cristina Cesar

Atração é comandada por trio de apresentadores

Tendo como princípio a diversidade sexual e de gênero, o programa “Estação Plural”, exibido nas segundas-feiras a partir das 22h na TV Brasil, amplia o leque para a raiz e o radical inerente ao tema: diversidade de vida que almeja à tolerância e ao respeito. No elogio ao múltiplo a descoberta de que a riqueza concentra-se no que é vário, e não singular. São paradoxos esmiuçados com consciência, experiência e conhecimento: somos todos únicos e iguais em alguma medida, e é pela identificação humana que devemos reconhecer no outro todas as diferenças que nos propiciam uma existência passível de exuberância. No comando da atração Ellen Oléria, Fefito Oliveira e Mel Gonçalves exibem personalidades tão distintas quanto complementares, não no sentido limitador, mas na coesão que os tons encontram por serem de diferentes peças, para além do quebra-cabeça, mas, por ora, uma sinfonia, aonde a música foge e se oferece harmônica justamente pela impalpabilidade.

Análise: 30 anos da morte de Andrei Tarkovsky, cineasta do tempo

“Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E no entanto essa é a única maneira de compreender…” Andrei Tarkovsky

Tarkovsky é um dos maiores cineastas da Rússia

Há pessoas que morrem para tornarem-se eternas, e há outras que nascem para isso. Andrei Tarkovsky viveu somente 54 anos, o suficiente para determinar-se como um dos mais relevantes cineastas já surgidos na Terra. Natural de uma aldeia do interior da Rússia, sua morte precoce, em Paris, é, até hoje, cercada de controvérsias, tendo-se atribuído o câncer que ele, sua esposa, e o ator principal do filme, Anatoli Solonitsyn desenvolveram a uma contaminação química adquirida nos locais de gravação do longa-metragem “Stalker”, um dos mais enigmáticos do diretor. Aliás, a película é exemplar no que tange às características preponderantes do cinema de Andrei. A capacidade para realizar através de imagens pensamentos críticos e complexos, permeados por uma adesão poética do espaço sem, com isto, anular aspectos inerentes a condições por definição matemáticas, e que buscam explicar a nossa existência, como expressões da física e das ciências.

Entrevista: Ana Cecília Costa cria mundos com sua arte

“Uma mulher que ama poderá desejar muito ser mãe, porém, o desejo apenas, embora profundo e intenso, não é suficiente. Entretanto, um dia ela se tornará mãe, sem, contudo, ter-se apercebido do momento em que isso se deu. O mesmo acontece com o artista: vivendo, ele reúne em si um sem-número de germes de vida e nunca poderá afirmar ‘como’ e ‘por que’, num determinado momento, um desses germes vitais penetrou a sua fantasia para tornar-se, também ele, uma criatura viva, no plano da vida superior, acima da volúvel existência de todos os dias.” Luigi Pirandello

Atriz Ana Cecília Costa é protagonista da peça "A Língua em Pedaços"

Ana Cecília Costa não nasceu ontem, mas também não se atrela ao tempo para determinar os próximos passos. Com ganas e energia de quem está sempre começando, ela segue em cartaz com o projeto “A Língua em Pedaços”, do qual foi mentora e onde interpreta a protagonista Santa Teresa D’Ávila, que tem partes de sua vida contadas no espetáculo dirigido por Elias Andreato com texto de Juan Mayorca e atuação de Joca Andreazza. “Esse é um espetáculo que desejo levar por muito tempo, porque Teresa D’Ávila é uma personagem inesgotável, atemporal, me faz muito bem interpretá-la, e percebo que também faz bem ao público ouvi-la. Temos tido uma recepção maravilhosa por onde passamos. Possivelmente, voltaremos com a peça em São Paulo ano que vem no Mosteiro de São Bento”, anseia. Mas não para por aí, ao contrário.

Análise: 10 anos de Inhotim, museu reconecta arte à natureza

“A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.” Manoel de Barros

Inhotim é reconhecido como maior museu de arte a céu aberto da América Latina

Reconhecido como o maior museu de arte a céu aberto da América Latina, o instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, circula a sua, até aqui, exitosa trajetória ao comemorar 10 anos de história. Exitosa não apenas por que a efeméride é digna de aplausos, mas pelo fato de ter sabido construir, ao longo do tempo, um espaço de celebração da cultura quase sempre democrático. Além das exposições de arte contemporânea, principal cartão-postal do projeto conduzido pelo empresário Bernardo Paz, o instituto passou a produzir e oferecer também espetáculos de música, teatro, cinema, dança e a abrigar, inclusive, a literatura. Tudo isso, portanto, transformou o Inhotim em importante foco de debate e experiência cultural. Experiência esta, esteticamente, sempre ligada à natureza, verdadeiro diferencial da atração, para onde, de alguma forma, tudo converge, sempre. Obras célebres de Hélio Oiticica e Adriana Varejão têm por companhia tulipas, frondosas árvores e borboletas, além de uma infinidade de cantos de pássaros.

Análise: A herança das Carmen’s na música brasileira

“Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.” Florbela Espanca

Carmen Costa, Carmen Silva e Carmen Miranda, cantoras do Brasil

Com a morte de Carmen Silva encerra-se, ao menos em vida, a dinastia deste nome na música brasileira. A herança das três, no entanto, permanece, em seus diferentes espectros e singularidades. A mais conhecida delas, Carmen Miranda, representa também o maior número de paradoxos. Símbolo de brasilidade, nascida em Portugal, alçou o país à fama internacional ao se apresentar nos palcos e participar de filmes emblemáticos na terra do Tio Sam, os Estados Unidos da América.

Carmen Costa guarda mais semelhanças com a outra xará, exemplo o fato de ambas terem trabalhado como empregada doméstica, o que expõe também traço marcante da sociedade brasileira. Também participou de chanchadas nacionais e gravou sucessos carnavalescos, cujo mais expressivo continua sendo “Cachaça”, que tem entre seus compositores Mirabeau.

Entrevista: Brasileiro Fred Oliveira participa de filme favorito ao Oscar

“A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.” Allen Ginsberg

Fred Oliveira atua como engenheiro de áudio em Los Angeles

Vale apostar que pouca gente sabe que um brasileiro nascido em Porto Alegre e criado em Belo Horizonte deu a sua contribuição para um dos filmes favoritos a levarem o Oscar em 2017. Para além da polêmica envolvendo a retaliação ao longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, “Aquarius”, na categoria filme estrangeiro, a imprensa especializada tem se deleitado em tecer elogios e cravar uma estatueta na bolsa de apostas que sempre precede tal acontecimento. Trata-se de “LA LA LAND”, musical dirigido por Damien Chazelle que conta com Emma Stone e Ryan Gosling no elenco. E conta também com Fred Oliveira, músico, guitarrista, produtor musical e engenheiro de som que integra a equipe de mixagem do longa-metragem. “Foi um experiência extremamente gratificante e de muito aprendizado. Tradicionalmente, quando um longa-metragem dessa dimensão chega ao estágio de pós-produção, ou seja, quando o trabalho de mixagem se inicia, já existe uma edição finalizada do vídeo, e a música que acompanha o filme já foi composta e gravada”, diz. O filme tem previsão de lançamento para dezembro.

Para entender melhor qual foi exatamente o papel de Fred no processo ele o explica de maneira didática e, ao fazê-lo, deixa claro o quanto funções aparentemente técnicas contribuem para a estética e o conteúdo da produção, motores de toda obra de arte. “O trabalho do engenheiro de mixagem, descrevendo de maneira simplificada, consiste em coletar todo o material de áudio disponível, como música, diálogos, efeitos sonoros, e sons de ambiência, combiná-lo em uma sessão única, no caso sessão se refere a um conjunto de arquivos gerados pelo software de mixagem, que combina áudio e vídeo, geralmente se utiliza o Pro Tools (ferramenta recorrentemente utilizada para dublagem), e reorganizá-lo de maneira que cada elemento ocupe seu lugar, e fique em destaque em determinados momentos para dar vida ao filme. O diálogo não deve competir com a música, que por sua vez, não deve competir com o vídeo. O objetivo é atingir um equilíbrio para que tudo soe natural, mas, ao mesmo tempo, intensificar o efeito emocional do filme”, sublinha. O musical já garantiu o prêmio de “Melhor Atriz” para Emma Stone no Festival de Veneza.

Somos todos iguais?

“Nestas noites, na Itália inteira, há telescópios voltados para o céu. As luas de Júpiter não barateiam o leite. Mas nunca foram vistas, e agora existem. O homem da rua conclui que poderiam existir muitas outras coisas também, se ele olhasse melhor.” Bertolt Brecht

Os Operários, obra de Tarsila do Amaral

Um dos fundamentos da cultura, mas, sobretudo, da arte, é que ela gera perspectiva, te tira do lugar de conforto ou lhe permite colocar-se no tão famoso lugar dos outros. Mais do que isto, abre (não fecha) parênteses, expande as possibilidades, sublima e fricciona os horizontes, em suma, oferece a liberdade, pois a mortal função da arte é propor a liberdade, ou, ao menos, alguma libertação. Daí que as pessoas percam de vista sua importância, pois impalpável, afinal de contas ela age sobre os modos, comportamentos, visões, e, em última análise, sobre o coração, pois é seu dever transformar não através de teses elaboradas e argumentos com prazo científico de validade, mas através da emoção, tocando-nos. Tenho uma regra básica para definir se algo me comoveu no terreno da arte: é preciso arrepiar-me. A partir deste instinto, deste gesto, percebo e descubro se algo me agradou ou não, e, só depois disso, parto para elaborar a análise em cima da crítica das qualidades e falhas.

Artigo: Por que só agora, Lula?

“Demonstrar-lhe que, para a vida, se nasce de tantos modos, de tantas formas… Árvore ou pedra, água ou borboleta… ou mulher… E que se nasce também personagem!” Luigi Pirandello

Lula é investigado pela Lava Jato

Uma das poucas coisas que se aprende com o jornalismo é que versões oficiais dificilmente interessam, pela natureza de seu caráter que as impede de alguma sinceridade para além das aparências. Logo, é preciso ser auspicioso e perspicaz a fim de estimar o que brasões e espelhos escondem. Noutras: quais interesses movem os envolvidos? Para investigar e planejar a derrubada de figuras poderosas é imperioso contar com o apoio e suporte de outras tão ou mais poderosas do que ela. Isso diz a história, as peças de Shakespeare e alguns filmes de Rossellini. Trocando em miúdos, não haveria o golpe militar de 1964 ou a eleição de Collor sem certo respaldo importante, global, robusto. Maquiavel diz que um príncipe não deve formar “exército de mercenários”, pois poder e dinheiro mudam de mãos, e aquelas que foram beijadas tendem a ser dispensadas com o escárnio e escarro citados pelo poeta Augusto dos Anjos.

Análise: 80 anos de Rolando Boldrin, herói da memória nacional

“Êta país tão sinfônico
Que é da América, da América do Sul
Êta país biotônico
Que é do Jeca, do Jeca-Tatu” Rolando Boldrin

Rolando Boldrin apresenta o programa "Sr. Brasil"

Rolando Boldrin desmente duas máximas, uma brechtiana e outra tupiniquim. Pela ordem: “Infeliz a nação que precisa de heróis”; e “O Brasil é um país sem memória”. Rolando é o herói da memória nacional. Fácil provar a hipérbole. Contra a invasão de sertanejos pop, ele mantém, há mais de década no ar, pela valente TV Cultura, um programa de música caipira, não só na vestimenta, no sotaque, como, sobretudo, no espírito, na reverência aos ensinamentos dos simples, ao aprendizado empírico daqueles que creem acima de tudo “nos seus cinco sentidos, o testemunho os leve para onde for geralmente eles não têm medo”, para citar, desta vez com razão, mais uma frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Isto tudo porque Rolando não faz mais do que dar vazão e espaço a uma terra e, principalmente, a uma gente que ele conhece bem. Neste caso, tecer loas à tradição é provavelmente a maior ousadia de Boldrin.