Ginga da Capoeira no Brasil

“esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.” João Cabral de Melo Neto

Joga, luta e dança. Perna, braço e atabaque. Berimbau, Brasil e África. Da ponta do pé ao corte dos olhos. Madame Satã. Zumbi dos Palmares. Besouro, diabo. Lança por cima da cabeça, comprida, diáspora. Volta como bumerangue, chicote. Estala. Pandeiro, agogô, viola. Discípulo, mestre, canto das águas. Vem Janaína, rainha do Mar. Vem Iemanjá. Luta, dança e joga. Por cima, por baixo, por entre os escravos. Trazidos da África. Brasil, berimbau, atabaque. Perna, amuleto, braço. Capoeira cai fácil gaivota. Terras, palmeiras e sábia. Gorjeiam os pilares. Passo na areia, estilete, corta. Peito pra frente, tronco pra trás, a revolta. Palmeiras, palmares, madame. Besouro zumbi satã.

Análise: 40 anos da morte de Madame Satã, símbolo da luta contra preconceitos

“Eis a noite encantada, amiga do bandido;
Ela vem como cúmplice, a passo escondido;
Lento se fecha o céu como uma grande alcova,
E o homem impaciente em fera se renova.” Baudelaire

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Trocado quando criança por uma égua, para que a mãe pudesse sustentar os dezessete irmãos que permaneceriam, Madame Satã tornou-se uma figura emblemática e contraditória na luta contra os preconceitos arraigados na formação nacional. Negro, pobre e homossexual distinguiu-se de seus pares, sobretudo, pela coragem e inconformidade. Não foram poucas as vezes que frequentou e passou longos períodos encarcerado, cujos motivos que se repetiam tinham a ver com desacato, quando não atingia a prática da violência física que resultou, inclusive, no assassinato de um policial em 1928. Neste famoso caso teria sido insultado reiteradamente por suas condições, inclusive porque Madame Satã não escondia de ninguém qual a sua preferência sexual.

Destacava-se também por outras práticas. Valente, feroz e temido na Lapa, onde passou a residir ainda jovem levando seguramente, para os parâmetros da época, uma vida de malandro, entre michês, bandidos, sambistas e prostitutas, ficou conhecido como dos mais habilidosos capoeiristas de todos os tempos, jogo que utilizava para se proteger e erguer assim sua fama. O que salta aos olhos na trajetória de Madame Satã, porém, cujo nome de batismo, João Francisco dos Santos, foi apagado diante da imagem impressionante de sua personagem, é a desconstrução de paradigmas e a união de paradoxos. Apresentando-se em cabarés decadentes, contra tudo e contra todos, teve, no peito e na raça, o mérito de se exibir travestido com roupas femininas e entoando canções lânguidas e românticas, isto num universo predominantemente machista que se fazia obedecer pela lógica da violência.

Análise: Phedra de Córdoba foi exemplo de arte e coragem

“É um limite igual ao véu
Por sobre o rosto da dama –
Mas cada dobra é um fortim
Com dragões por entre a renda.” Emily Dickinson

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Numa época em que se discute a transexualidade torna-se imperativo lembrar a partida de uma das nossas pioneiras. Phedra de Córdoda, nascida Rodolfo na Cuba de Fidel Castro, adotou o nome artístico e feminino aos 21 anos de idade, inspirada na mitologia grega, cuja tradução literal é “brilhante”. Nada mais apropriado para a atriz e dançarina que não dispensava o glamour. Phedra conheceu o produtor Walter Pinto, famoso pelo teatro de revistas, durante uma excursão da companhia à qual pertencia em Buenos Aires, e decidiu não mais retornar à terra de origem, fixando-se no Rio de Janeiro. Para quem não conhece o tratamento dado pelo regime de Fidel aos homossexuais cabe a autobiografia de Reinaldo Arenas, “Antes que Anoiteça”, de 1990.

A folia e a dor na música de Herivelto Martins

“Nem sequer no apartamento
Deixaste um eco, um alento
Da tua voz tão querida
E eu concluí num repente
Que o amor é simplesmente
O ridículo da vida” Herivelto Martins & Aldo Cabral

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O carioca Herivelto Martins compôs clássicos da canção brasileira ao longo de frutífera carreira que também incluiu as atividades de violonista e cantor do “Trio de Ouro” em todas as suas formações, tendo sido ele o principal idealizador e entusiasta do conjunto. A briga espalhada através de jornais e músicas com Dalva de Oliveira rendeu-lhe a pecha de arrogante, mal humorado e machista, mas mais do que isso, rendeu pérolas do quilate do nome que acompanhava o trio no qual cantou por mais de cinco décadas, até o último ano de sua vida.

A música carnavalesca de Lamartine Babo

“Canto pelos espaços afora
Vou semeando cantigas
Dando alegria a quem chora (…)
Canto, pois sei que a minha canção
Vai dissipar a tristeza, que mora no teu coração” Alberto Ribeiro, Braguinha & Lamartine Babo

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Não é preciso tocar um instrumento para ser um grande músico. Que o diga o carioquíssimo Lamartine Babo, de quem, sobre sua relação com a festa mais popular do país, Braguinha disse: “existe o carnaval antes e depois de Lamartine”. Em marchinhas, valsas e samba-canções, Lamartine puxa o desfile: “A tua pena não nega Lalá, tu és músico com louvor!”.

Análise: Naná Vasconcelos foi músico da origem

“vento/que é vento/fica
parede/parede/passa
meu ritmo/bate no vento/e se
des pe da ça” Paulo Leminski

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Naná Vasconcelos foi um tipo raro na música brasileira. Não era pra qualquer um, e misturava, em seu caldo, todos os gostos, ciente da abordagem popular que sempre o caracterizou. Natural do Recife teve em seus primeiros anos as influências de Jimi Hendrix e Villa-Lobos, tão díspares quanto complementares para o estilo harmônico que criou. O percussionista, que brincou e reinventou tons e modalidades para diversos instrumentos, mas, sobretudo, o berimbau, tão caro e essencial aos nativos indígenas e povos africanos que aqui chegaram quanto da ocupação do país pelos portugueses, já era uma figura de destaque mundo afora, por diversas turnês que empreendeu pela Europa e América do Norte, fosse acompanhando as bandas de Gilberto Gil, Milton Nascimento e outros, ou como artista principal; quando gravou, com Jards Macalé, em 1994, uma espetacular jam session feita em uma tomada só, batizada, como o disco, de “Let´s Play That”, um marco de irreverência que deixa ainda mais claro o caráter inventivo e libertário da obra de Naná.

Centenários 2016: Silas de Oliveira pertence ao panteão do samba

“Sinto, abalada minha calma
Embriagada minha alma
Efeito da tua sedução” Silas de Oliveira & Joaquim Ilarindo

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Silas de Oliveira morreu e nasceu numa roda de samba. Embora o pai não tenha concordado, por suas convicções pastorais e protestantes, Silas começou a ser Silas quando fundou, junto de seus pares, dentre eles o inseparável Mano Décio da Viola, a Escola de Samba do Império Serrano, e para sempre foi batizado entre batuques, pandeiros e tamborins. Conhecido, sobretudo, pela atividade nos desfiles de carnaval, compositor arguto e perspicaz que era de temas históricos para os tradicionais sambas-enredo, também merecem destaque seus sambas de roda, tais como “Meu Drama”, popularmente chamado “Senhora Tentação”, “Cruel Paixão” e “Desprezado”. É destas canções que emergiram versos do quilate de “será que o amor por ironia/move esta fantasia, vestida de obsessão?”, regravados por ninguém menos do que Cartola; e “amanhece e anoitece/eu sei que nesse mundo tudo se fenece/então porque essa paixão/do meu coração não desaparece?”, e etc.

Entrevista: A arte plural de Delia Fischer

“parti-me para o vosso amor
que tem tantas direções
e em nenhuma se define
mas em todas se resume.” Carlos Drummond de Andrade

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“Sou uma artista multifacetada, faço direção de espetáculos musicais, sou compositora e cantora. Já trabalhei como pianista, e acompanhei vários artistas. Tudo isso me influenciou a fazer e ser o que sou hoje. Não tenho nada que não me orgulhe de ter feito, embora o que me dê maior prazer seja mesmo gravar e realizar meus projetos. Todos os acontecimentos da vida me ajudaram e me amadureceram para me tornar a artista que sou hoje!”, para não precisar de legenda é a própria Delia quem se auto-define, com direito a exclamações e vírgulas. Acrescente-se o fato de ser uma carioca da gema, natural da capital carioca, sem nenhuma vocação pra monotonia. Não é força de expressão dizer que Fischer faz quase tudo. A artista apareceu na cena no final dos anos 1980.

À época, fazia parte do “Duo Fênix”, com Claudio Dauelsberg. A dupla, formada por pianistas, executava peças instrumentais, e lançou um único disco, em 1988. Depois disso Delia nasceu e renasceu muitas vezes como cantora, compositora, instrumentista e tudo mais, e já planeja, inclusive, a volta deste antigo trabalho, agora repaginado e com novo nome: FENIXDUO. Imersa nesses tempos novos, a artista tem uma boa definição para o presente momento da cultura. “O cenário atual é pulverizado, o que permite uma infinidade de gêneros e artistas habitando a rede. Vejo isso de forma positiva”, comemora. Claro que nem tudo são flores, mas Fischer, ávida pelo impulso criativo e não seu contrário adota uma posição proativa distante do comodismo.

1 música para Dercy Gonçalves

“É a vida mais que a morte, a que não tem limites.” Gabriel García Márquez

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Dercy Gonçalves talvez seja das poucas artistas da história que conseguiu atravessar as décadas tornando-se cada vez mais popular. A imagem que ficou é a da senhora de mais de 100 anos, desbocada e irreverente, mas esse humor escrachado e cheio de improvisos já era uma das marcas da atriz quando ela surgiu para a chanchada brasileira na década de 1950, e atuou em peças e “teatros de revista” hilários ao lado de nomes como Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, seu par mais repetido nas telas de cinema. Dercy fez de si a própria personagem, uma mulher que rejeitou todos os estereótipos e limites que se impunham ao gênero e transformou a graça em receita de vida. Com sua voz peculiar e delirante foi tão livre que se aventurou, inclusive, na música.

A Música & a Dança de Lennie Dale

“Mais: que ao se saber da terra/não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas/fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra/e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,/para vencer quem duvida.” João Cabral de Melo Neto

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Quando chegou ao Brasil, no início da década de 1960, trazido pelo produtor e diretor Carlos Machado para compor a coreografia de “Elas Atacam Pelo Telefone”, o ítalo-americano Lennie Dale, nascido Leonardo La Ponzina na periferia de Nova York; já desfrutara de relativo sucesso na terra natal. Era uma promessa cujo gênio ameaçava, desde cedo, as estruturas vigentes. Integrante do musical da Broadway “Amor, Sublime Amor”, foi barrado pelo diretor Jerome Robbins para a versão cinematográfica. Não deu outra, sem pensar duas vezes carregou as malas cheias de collant e brilho para Londres e passou a ensaiar em uma sala alugada com as portas abertas a fim de exibir seu rebolado.

Daí foi um pulo para participar de programa na televisão italiana com a presença do astro da dança e das telonas Gene Kelly e, logo em seguida, da coreografia do filme “Cleópatra”, protagonizado por ninguém menos que Elizabeth Taylor, de quem se tornou amigo e guardou histórias saborosas para contar entre os mais próximos. Anos depois, também encantou Liza Minelli, e a dirigiu em espetáculos. Tudo isso antes de desembarcar em terras brasilis. O que lhe deu mais do que a cancha necessária para fomentar o estilo de dança da bossa nova, e influenciá-la até no jeito de cantar. Ao registrar dois discos valia-se de estribilhos rítmicos e sonoros para compensar a ausência de voz.