A alegria de viver

“quanto mais obtuso o olhar, mais extenso é o bem! Daí a perene alegria das crianças! Daí o humor sombrio e o pesar dos pensadores!” Nietzsche

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Naquele paraíso álacre de Matisse uma das ninfas da roda resolveu se virar de costas para atrair a atenção dos ninfos. Evidente que os olhos destes que eram vermelhos se tornaram ainda mais rubros, cheios de palor, tal como os corpos das admiradas. Num outro canto um casal se tornava azul pela revelação de um amor de nuvens, enquanto o ninfo que ordenhava bodes tocava uma canção amarela, fácil de ser percebida pelo seu vigor. É verdade que havia também uma verde capinação, contrastada à letargia rosa de corpos ao sol, bem como ao vermelho florido, trespassado por uma filigrana, daquela que se banhava.

Banhava-se de quê? Agora me perguntam. Ora, há uma filigrana, como não bastasse, o sol de Matisse é bastante generoso. Há ainda uma canção sendo tocada, roxa e azul, ou melhor, lilás, ou, antes, seguindo o retiro dos camaleões, e por fim uma cena do milagre do gozo, coberto por uma toalha levemente branca, cuja camada de azul se descoloriu em razão dos tremores a que foi obrigada sustentar. Naquele paraíso álacre de Matisse impera uma alegria de viver. As cores não sentem culpa, e abafam os seres humanos. Pois se estes tomassem conta das formas e pormenores, certamente questões de realidade seriam consideradas, o que inevitavelmente traria a morte e todas as desgraças a que estão imunes as obras de arte.

A última carta de amor de Camille Claudel a Rodin

“Não era sem algum mal-estar que eu via essas cartas arderem. Elas avivavam um segundo o fogo e, tudo somado, eu tinha medo de ver tão claro.” Raymond Radiguet

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Quando Camille Claudel escreveu sua última carta de amor a Rodin os efeitos da loucura descansavam. Aquele homem que lhe roubara a paz e pusera seus nervos em frangalhos não era mais capaz de tocá-la. Não era capaz pela distância que guardavam a perfídia solidão das grades do mundo livre e civilizado. Não era capaz por esse motivo concreto. Não era capaz pelo caráter macilento que o desejo adquire com o tempo, como se derramasse sobre ele um ácido que fosse lhe derretendo as rijas camadas da tensão inerentes ao desejo sexual, e que resta, ao final de tudo, como o tédio de dias mortos. Era esse caráter existencial que mais a desestabilizava. A subjetividade cravada em suas costas como uma lança documental. Quando Camille Claudel escreveu sua última carta de amor a Rodin os efeitos da loucura descansavam.

“Mil vezes escolherei você”. Era o que dizia. Era o que ele dizia. Não se esquecera. E jamais se esqueceria. Mesmo quando a loucura a tomava de pé e a tombava como uma girafa faz com o leão que tenta devorá-la num coice, essa frase se repetia impoluta em sua mente. “Mil vezes escolherei você”. Agora os efeitos da loucura descansavam. Mas era mais perturbador, justamente mais perturbador, perceber, com a consciência impoluta, o quanto aquelas palavras eram impossíveis de serem cumpridas. “Pelo caráter macilento que o desejo adquire com o tempo”, repetia para si mesma. Agora os efeitos da loucura descansavam. Lembrou-se de certa feita, quando um pingo de água caindo-lhe no nariz a inspirou a esculpir uma forma que parecesse onda, lhe parecesse água e sua qualidade interminável, essa ideia juvenil e inocente, cheia de frescor e intensidade.

Análise: 95 anos de Lygia Clark, proclamadora da liberdade

“Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, (…)
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.” Carlos Drummond de Andrade

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Se há uma fábula que diz que Deus distribuiu as artes em categorias e presenteou cada uma com uma função sensorial, não é menos verdade que Lygia Clark foi uma pioneira, no Brasil, ao explicitar que para as artes plásticas coubera o tato. Natural de Belo Horizonte, Lygia causou impacto, primeiro, ao extrapolar os limites da moldura, para em seguida propor que se entrasse em contato com o objeto, resultado da experiência humana, de maneira entregue e larga. Lygia foi a antítese do artista “isolado”, em seus paradoxos e problemas elementares, ao contrário, reuniu as linhas da vida e arte numa só, sem medo de expor e convidar seus pares a compartilharem os mistérios da intimidade.

Sua influência em vários campos, portanto, parece natural. Além de adentrar ela própria o universo da terapia, Lygia serviu de inspiração a escritores, cineastas, dramaturgos, músicos e outros artistas plásticos. Experimentava-se no período uma ebulição cultural típica do momento de modernização do país. Movimentos como o Neoconcretismo e a body art passaram por Clark. Outro escritor mineiro, natural de Formiga, se viu embebido pelas propostas de Lygia. Ao escrever seu romance “Stella Manhatan”, Silviano Santiago criou personagens que se desdobravam em gêneros, como as esculturas “Bichos” da artista, que recusava esse rótulo e preferia ser chamada de “propositora”.

Crítica: exposição sobre Leonilson desnuda revolta e solidão

“Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.” Adélia Prado

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Desamparo, desalento, desolação são palavras que ajudam a explicar o universo dúbio do cearense Leonilson. Assim como revolta, ironia e indignação. Em ambos os casos, a causa comum do artista que se radicou e morreu em São Paulo. A palavra “abandono” talvez seja a mais forte de toda a literatura desse artista plástico, que embora tenha se valido, na prática, de inúmeras delas, deixou, sobretudo esta, impressa em imagens que contemplaram tanto cores fortes quanto o vazio, o branco. É certo que em toda arte procura-se o sentimento, o que em Leonilson é a própria matéria-prima; definida pelo minimalismo, a técnica apurada, o enorme arcabouço teórico e, principalmente, a forma íntima de se aproximar sob uma luz sincera e reveladora.

Entrevista: O charme musical de Kícila Sá

“Pés, para quê os quero, se tenho asas para voar?” Frida Kahlo

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Se todo grande time começa com um bom goleiro, a busca de autenticidade começa pela assinatura, no que Kícila Sá não faz por menos. “Posso dizer que sou eu mesma. Quando escrevo, penso no que estou sentindo e como gostaria de me expressar. Pode ser algo do dia a dia, ou um ideal. Acredito que buscar a minha própria voz é uma auto-descoberta, pois a cada dia descubro que posso ser tantas e todas, mas que sou honesta quando sou eu mesma”, afirma. Cantora, atriz e compositora, a artista dispensa, por ora, a “dançarina”, apesar de se expressar no palco com desenvoltura e também posar para fotos com domínio de cena. Natural de Belo Horizonte, emerge no cenário independente da capital. Lançou o primeiro EP em 2012, e atualmente prepara tributo ao centenário de nascimento de Billie Holiday, ao lado de seis outras cantoras.

Esse e outros projetos fazem parte da agenda de Kícila Sá, que não dispensa o mistério. “Sem previsão de show no momento. Minha banda e eu vamos fazer uma imersão para trabalhar num projeto novo. É hora de parar de fazer show e focar. Quero lançar um disco em breve, mas ainda vou soltar na rede um clipe e um vídeo-poema. Estou gravando um curta-metragem com o diretor Ivo Costa que se chama ‘O Presente de Camila’, que deve sair no segundo semestre, e também fica pronto o longa-metragem ‘OTTO’, em que também participo como atriz. Tenho um show dia 28 de junho com o ‘Farside’, que é um projeto de música eletrônica, em que participo com o produtor Daniel Romano, o músico Gabriel Guedes e o baterista Rodrigo Carioca. Têm várias produções em andamento. Não vou contar tudo, pois muita coisa precisa ser finalizada”.

5 cantadas de Jô Soares

“A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas.” Jô Soares

Institucional

O múltiplo Jô Soares é um artista que transita por cinema, televisão, literatura, pintura, música e teatro, sempre guiado por um fio único, mas não restrito: humor. Como ele próprio explica, através da metáfora, são os cinco dedos de uma mão. Sua faceta musical, no entanto, não é tão conhecida, especialmente como cantor. No programa de entrevistas que apresenta há décadas, invariavelmente Jô Soares dá as famosas “canjas” ao lado do “Sexteto”, com quem até já gravou disco. Mas antes disso Jô Soares já apresentava as suas “cantadas”, é o que vamos revelar através de 5 músicas.

Brasil, o país dos ditados

“tudo dito,
nada feito,
fito e deito” Paulo Leminski

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A origem para a profusão de ditados entre os brasileiros tem uma explicação convincente no processo de colonização do país. Como os escravos não podiam se comunicar abertamente, estabeleceram uma linguagem codificada. A semelhança com a poesia, nesse aspecto, dá a medida exata do por que uma nação mestiça, influenciada pela cultura de portugueses, italianos, holandeses, japoneses, africanos, e outros mais, concebeu expressão tão rica e singular. A música é mais uma prova desse estilo. Por vias do samba, da marchinha, do rock e da vanguarda, e através das décadas de 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, até os dias atuais, o Brasil se estabeleceu como o país dos ditados. Tão populares que alguns já mereceram, inclusive, as páginas de dicionários.

Crítica: Exposição “Kandinsky – Tudo Começa Num Ponto” faz coro à possibilidade

“Deves abrir os teus braços mais amplamente.
Mais amplamente. Mais amplamente.
E deves cobrir o teu rosto com um lenço vermelho. (…)
Não é bom que justamente não vejas a opacidade –
é exactamente
na opacidade que isso reside.
É também assim que tudo começa………………………………..
com um………………………………………………………………………
rebentamento………………………………………………………………” Kandinsky

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A questão com a arte abstrata em Kandinsky, pioneiro e teórico do estilo, tem a ver com investigar os limites da origem e finitude da existência. Em outras palavras, ao eliminar tudo o que determine uma noção clássica de compreensão a partir de uma pintura figurativa, o artista não apenas vai em direção ao sentimento, mas, mais do que isso, ao sentido amplo e incompreensível do universo, o que é, em suma, percebido como “essência”.

A exposição realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte, com obras do Museu Russo de São Petersburgo, outros do interior do país e coleções particulares, capta esse movimento ao recorrer à influência do folclore, dos contos de fada, das artes populares, primitivas, e, sobretudo, da tradição no desenvolvimento da carreira de Kandinsky, onde estaria a tal “origem”. Outro fator determinante para o coro buscado pelo pintor russo está na música, por seu caráter impalpável, desconexo da “realidade”, só encontrada em tal formato na sonoplastia. Como na música, há algo de geométrico em Kandinsky que colide com o subjetivo. O que seja talvez a vida.

Centenários 2015: Alceu Penna traçou e coloriu uma ode à beleza

“Sol, s.m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém” Manoel de Barros

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Oliviero Toscani, fotógrafo italiano, afirma que “Caravaggio e Michelangelo, sim, eram publicitários”, ao contrário dele, conhecido por campanhas polêmicas da marca Benetton. E justifica: “Criaram imagens que reproduziam o ideal de beleza no qual a Igreja Católica acreditava”. Para alguns artistas, o adjetivo “moda” é insuficiente. Alceu Penna, mineiro de Curvelo, que tem o centenário de nascimento comemorado neste ano de 2015, é um deles. Célebre pela criação de “As Garotas” na revista “O Cruzeiro”, de 1938 até 1964, Alceu transitou por categorias de entretenimento mantendo o ofício afiado na ponta do lápis. Assinou fantasias de carnaval e peças para desfiles da Rhodia. Se como estilista Penna é quase um solitário no país, ao lado de nomes como Clodovil, Dener, Zuzu Angel e Ronaldo Fraga, é possível constatar no desenho uma larga tradição nacional, especialmente na caricatura, isso sem mencionar mestres da pintura como Tarsila do Amaral e Portinari.

5 perguntas nunca respondidas por Elke Maravilha

“Mas, ao escrever-lhe, tinha em mente outro homem, um fantasma feito das lembranças mais ardentes, das leituras mais belas, dos desejos mais intensos; e, ao final, ele tornava-se tão verdadeiro e acessível que ela palpitava maravilhada, sem poder, todavia, imaginá-lo claramente, de tanto que ele se perdia, como um deus, sob a abundância de seus atributos. Morava em uma região azulada, onde escadas de seda balançavam-se nas sacadas, sob o sopro das flores, sob o luar. Sentia-o por perto; ele viria e a arrebataria toda em um beijo. A seguir, caía do alto, dilacerada, pois aqueles impulsos de amor vago a cansavam mais do que as grandes devassidões.” Gustave Flaubert

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Elke Maravilha é uma das mais exóticas e pitorescas personalidades do cenário brasileiro, basta olhar o número de vezes em que interpretou a si mesma em novelas, cinemas e seriados para constatar essa afirmação. Elke é, em si, a sua própria personagem. Natural da Rússia, despatriada no país de origem e cassada no Brasil, onde veio para morar e combateu a ditadura, Elke adotou a nacionalidade alemã. Como cantora é capaz de interpretar em seu primeiro idioma, o russo, mas também em português e alemão, indo de peças bávaras a xotes do sertão nordestino, em homenagens a Luiz Gonzaga.

Conhecida, sobretudo, como jurada de programas de calouros, onde fez fama junto a um público massificado, Elke começou a carreira como modelo, e o exemplo de beleza grega que ao longo do tempo foi substituído pelo exotismo pode ser conferido em fotografias antigas. Assim, Elke exerce o papel de uma força irreverente, libertária, culta e que ao mesmo tempo despreza todos os pedantismos, lugares comuns e baratos. Em outras palavras Elke conserva aquela qualidade tão cara a todos os artistas, o poder de transformação, a capacidade da contradição, o eterno martírio da dúvida e a busca pelo prazer.