Caderno H2O – 08/07/2016

“Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.” Zélia Gattai

Deboche

Bicicletas
O deboche
Vem pedalando a bicicleta
Com óculos arredondados
De aros azuis
Puxa a manilha aos dentes.

O deboche
No – jor-na-lis-mo
é uma Qualidade Crítica.

QUE AINDA ACREDITA EM INDEPENDÊNCIA
SOU DE UMA GERAÇÃO
POIS QUE A AR
TE
IMITA TUDO

quanto ao jor-na-lis-mo,
ocupa papel de platéia
em minhas prioridades,
com sua relativa importância,
onde quem sobe ao palco?

É a Arte!

Caderno H2O – 01/07/2016

“Oh, senhor, sabe muito bem que a vida é cheia de infinitos absurdos, os quais, descaradamente, nem ao menos têm necessidade de parecer verossímeis. E sabe por que, senhor? Porque esses absurdos são verdadeiros.” Luigi Pirandello

bocadoinferno

Boca do Inferno
o céu da boca tem estrelas, lua e aftas,
o céu da boca espia para baixo
e vê um lindo prado,
montanhas e a faringite,
o céu da boca é algo muito afastado, e tão perto,
que nem deus sabe se é feito
de teto, de palha, fumaça,
é um estado periférico.

o céu da boca ás vezes é forma concreta
ás vezes é só soneto.
o céu da boca em alguns mete medo,
noutros pede clemência.

o céu da boca é entre o azul e o vermelho,
é algo assim, amarelo.

Centenários 2016: Emeric Marcier aliou barroco mineiro ao expressionismo europeu

“O Deus de que vos falo/ Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe/Da grandeza do homem
(Da vileza também) /E no tempo contempla
O ser que assim se fez./ (…) E podereis amá-Lo
Se eu vos disser serena/Sem cuidados,
Que a comoção divina/Contemplando se faz?” Hilda Hilst

emeric-marcier

Embora tenha pintado nus e auto-retratos o grande reconhecimento à obra do romeno Emeric Marcier aconteceu quando ele começou a elaborar, em seus trabalhos, a paisagem mineira das cidades históricas, em especial Ouro Preto, Mariana e Barbacena, tendo esta última como residência em boa parte da vida, e aliou a elas a influência do expressionismo europeu que trazia de sua origem. Logo, Marcier, que fugiu da Segunda Guerra Mundial para Lisboa e depois aportou no Brasil, sendo recebido no Rio de Janeiro por nomes do Modernismo como Mário de Andrade e Jorge de Lima, construiu obra incomum, única, em que se conjuga a temática religiosa a formas e cores preponderantemente emocionais, para além da objetivação descritiva. Foi de Giotto a Pablo Picasso.

Caderno H2O – 17/06/2016

“As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.” Manuel Bandeira

Evolução1

Evolução da espécie
Agora eu entendo,
Quando olho no olho de um cachorro,
No compasso, na orelha, no rabinho abanando, na baba, na língua,
Toda aquela pureza,
De que você me falava e eu não via.
Agora eu entendo,
Que o cachorro é um bicho,
Sinto um troço, esquisito,
Pois sou bicho também,
Mas pareço um anfíbio.

Quando olho no olho de um cachorro,

Análise: Tunga foi ao extremo para tratar a essência

“Nossa memória é frágil
Uma vida é um tempo muito breve.
Tudo acontece tão rápido que não
Dá tempo de entender a relação entre
Os acontecimentos” Isabel Allende

tunga

Sobre o radicalismo na experimentação formal de uma obra específica do escritor argentino Julio Cortázar, um especialista constata que é preciso manter certos pontos nevrálgicos para que a abertura não anule por completo a força do objeto. Já Antonin Artaud, o controvertido poeta, ator e dramaturgo, muitas vezes ligado ao “Teatro do Absurdo”, é mais específico, e afirma que “sentido dado é sentido morto”. É possível assentir que o pernambucano Tunga, artista plástico com obra estabelecida a partir da segunda metade da década de 1970, portanto contemporâneo e que veio à tona em meio ao furor vanguardista do período, pertence mais à categoria representada pelo pensamento do autor de o “Teatro e seu Duplo”. Outra ilação aqui cabível encontra-se no campo da literatura, quando o poeta maranhense Ferreira Gullar pretendeu, em suas palavras, “explodir com a linguagem”, observadamente nas últimas criações do livro “A Luta Corporal”, de 1975. A obra de Tunga se vale de múltiplas relações.

A mulher de José

“Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.” Adélia Prado

caravaggio

O significado de mulher para José é uma rosa aberta. Nasce o sorriso na caveira do homem, por pouco iluminada como uma pintura de Caravaggio, com um feixe de luz direto e oblíquo, preto, porém branca luz. Por nunca ter ouvido nome igual àquele assovia como um menino ladrão de goiabas. Mas desde quando a realidade importa frente a um menino roubando goiabas? José é apenas josé, uma criança desperta, despedaçada, infeliz como a rosa da Rosa do buquê de rosas da dama do filme, da canção de Fellini. O agrado é um doce de rapadura e chá morno: fácil, direto, rápido. Zaira uma massa gorda, compacta, corpulenta, antipática, de óculos escuros prendendo as orelhas e o nariz respirando impune. O juiz desconhece a maleabilidade do caráter, muda rapidamente de opinião, como o cão diante do osso e de repente já é bumerangue.

As olheiras cansadas de Bukowski e Kerouac. Mal senta na cadeira começa a incomodar, igual a um cão sarnento, de pulga e ressaca, procura a laje para se perfumar, parede de vidro à coceira graúda. Todos explicam, ela pergunta. Finge a resposta, e se equivoca. Admira a mania dos polidos pelo artefato da interrogação. Distribui amargos sorrisos, e grita, esperneia, arfa a mulher grand-e-loquente. Todavia, sempre aquele sujeito devastado. Ao final das labutas exaustas está absorta nos pensamentos rocambolescos do final do século XV. Maneirismo em tudo o quanto era estátua, as pessoas ali paradas, movimentam as marcações do filho do Sonho, de Pasolini.

Caderno H2O – 27/05/2016

“O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira, nem à minha Ilha do Nanja; não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções…).” Cecília Meireles

Poema 4-1

Três tigres tristes
Há um romântico em cada um de nós.
Há um dramático.
E também um cômico.
Com freqüência o cômico passa a perna no romântico,
Que se estabaca no chão.
Ao que o dramático chora em cântaros.
Nesta hora o cômico lhe oferece um lenço.
O dramático enxuga o pranto,
Enquanto o romântico colhe flores.
Mal desconfiam os dois que do lenço sairá uma pomba,
E das enormes e amarelas flores um esguicho d’água.