Crítica: exposição “As Máquinas de Leonardo Da Vinci” aciona o mundo em movimento do artista

“Vida para zombar do movimento:
Pois as cascas, ante mim, movem-se,
Ribombam as palavras: conchas criam conchas.
O homem vivo, longe de terras e prisões,
agita os casulos secos,” Ezra Pound

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Duas sacolas podem ser dois pesos, como das rodas extrai-se o movimento. A madeira estica, atrai, comprime. O espelho fixa e nele nada mais se distingue. A exposição “As Máquinas de Leonardo Da Vinci” aciona o mundo contemporâneo de um artista ilimitado quanto a tempo, espaço, arte ou física. O traço elaborado quanto o cálculo até mesmo exato progridem na contrição do gesto agudo e enigmático.

Todos: adultos, crianças, homens, mulheres, velhos e adolescentes permanecem com a abobada expressão no verso, pois a capa logo se atreve a tocar incauta os objetos. Alguns elásticos, outros são firmes, mas cinge em torno o inquieto fio. Da sílaba à matemática, da bicicleta ao pára-quedas, do reservatório d’água à porta aberta, o mundo treme. Hélices, acrobacias, um olhar, Mona Lisa, o rufo é seco.

Miséria Humana à Luz de Sebastião Salgado

“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Lavoisier

Sebastiao-Salgado

Observei. A miséria humana deve ser mostrada. Ossos, cartilagem, membros, diafragma: estraçalhados. Estilhaços de vida imunda, feia, funda, gasta. Nas costelas à mostra, nos dentes pastosos, no langor dos tornozelos empastados repica a luz. Menina me olha. Menino beija. Mulher implora. Homem ajoelha. Gado apodrece. Feijão se colhe. Corpos amontoados servem-se às vespas, moscas, marimbondos, abelhas. No reino dos mortos arfa a mãe natureza.

A escuridão comum. O forte como um boi zebu. Aguarda a faca, o corte, a ferida. No entanto franzem as correntes de prata, as valiosas armadilhas. O corpo magro não as impediriam. O tornozelo ao chão está restrito. O teu sorriso é um mero veredicto. Os amuletos, vestes, bichos, filhos; foram primeiro; incidem em reza e vício. Mas afinal franzino franze os fios, punhos cerrados, incólumes; martírio. Resiste o bravo, calmo, apolíneo.

Artemisia Gentileschi e a Paixão do Corpo

“O gozo fecunda. A tristeza dá a luz.” William Blake

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O sangue, sobre a parte interna da coxa, descia em jorros. Por entre as pernas, de onde saíra, tremia o órgão sob os pelos e a pele lisa, pálida, virgem, os músculos, epiléticos e convulsivos, regurgitavam líquidas excreções. As mãos atadas, noutro momento, determinavam a arrancar uma nítida confissão. Novamente filamentos de coloração vermelha desciam pela parte interna dos braços, ansiando abrigo, todos os membros a suarem frio, em jorros. Artemisia Gentileschi conhecia as cores, as feridas e os gozos através do corpo.

Deitada na praia esticou-se inteira, a fim de compreender a real extensão de sua fatia no mundo. Não satisfeita, ao perceber a limitação imposta por vestimentas, retirou cuidadosamente, descendo por cima dos ombros, a parte superior do vestido, para em seguida, num safanão, jogá-lo inteirinho longe, pronto para ser lambido pela espuma branca do mar. Arriou a derradeira peça íntima, e, no momento, essencialmente coberta pelo sol, pôde-se refletir com mais intensidade. A areia tocou-lhe as costas como nunca antes.

Arte Lúdica de Isabela Couto Machado

“Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!” Florbela Espanca

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As ondas não correspondiam à expectativa. Muito contribuiu esta constatação para entender o porquê de passarem despercebidas. Tampouco a presença de três camelos, e não dromedários – como atestava as duas corcovas – fora suficiente para dirigir atenção a elas. Estes, embora enfileirados, e presos por cordas, no montante arenoso das ondas, de imediato despertaram interesse.

As sombras estalavam no chão refletindo a crueldade do sol. No entanto, e nesse instante as ondas avançam, já havia noite. Debocham-se estrelas como bochechas iridescentes e os rostos chupados têm compadecimento. Numa cruz entre casas, e sobre a principal, a cor negra, talvez uma borda, levanta: uma saia, uma manta, ou o esparadrapo.

Artes Plásticas: Tarsila do Amaral

“Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre
a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

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No seio de uma fazendinha, a branca menina mama. A escrava luzidia de protuberâncias fartas oferece o leite, posta a incapacidade da matriarca. A menina espia o gado, a igrejinha, os porcos, e do colo da negra sente uma pontada. Está de pé, a espantar macacos. Do galho lânguido surrupiam bananas, regurgitando sementes.

A menina agora vive em São Paulo. Leva ao braço a filha, e no outro “a marca”. Cochicham as doninhas: – Esta, é desquitada. Mas de um bom marido, não precisa a Arte. A não ser a pena, o pensamento, as cores. Para o mundo um quadro. Tarsila apelidou-o: “Homem que come homem”. Oswald gostou. É o novo amante. Ainda não o apresentamos.

Artes Plásticas: Ronaldo Fraga

“um súbito murmúrio numa rajada de vento, um som de trombetas distantes, um suspiro, como o farfalhar de um grande roupão de seda” F. Scott Fitzgerald

Caderno de Roupas, Memórias e Croquis

O amarelo manga cai na cabeça antes que possamos conferir a maçã, esférica e lilás, a comprovar a lei da Física. Gravidade em Ronaldo Fraga, nenhuma. É um perfeito Salvador Dalí, a olhar-se no espelho e pentear os bigodes felinos enquanto prega poses de Andy Warhol.

Mesmo quando toca em assuntos sérios, dramáticos e abjetos, relacionando-se ao ridículo da banalidade humana, Ronaldo foca o laço na língua da cobra, seja de Guimarães Rosa, Cazuza cantando Lupicínio Rodrigues ou Fernanda Takai imitando Nara, o furacão rosa.

Artes Plásticas: Mark Rothko

“A violência das cores, no primeiro momento, assusta-nos. Depois, as tonalidades se amaciam, as nossas pupilas absorvem os raios…” Murilo Rubião

Artes Plásticas

Olhou a primeira vez uma tangerina. Não sabia distingui-la de laranja ou mexerica. Nem tocou-a, mas um áspero farfalhar dos gomos, entupidos de polpa fresca, igualara-se à lembrança de folhas quebráveis como um galho seco.

O suco não aparente era saboreado em oposição ao som da fruta maciça. Dentro dela um mundo desconhecido, repleto de sonhos e conjecturas improváveis. Poderia brotar um dente, uma boca, ou orelha.

Artes Plásticas: Juarez Machado

“Você pergunta se eu conheci outro amor que não o platônico. Sim e não. Se a questão me tivesse sido colocada de outra forma: ‘Você experimentou a felicidade de um amor completo?’, minha resposta seria: não, não e não! Mas pergunte-me se sou capaz de compreender a força imensa do amor, e eu lhe direi: sim, sim e sim!” Tchaikovsky

Artes Plásticas

O traço recôndito de Juarez Machado, entre o histriônico e o escracho, circunda as formas minguadas e cheias do copo humano. Corpos escravos: Ora lunares, outrora sois paio, os narizes enamorados por luzes e tentações aromáticas seduzem os apreciadores do prato servido pelo artista plástico, mímico e escultor acrobático.

Falo isto de pestana baixa, pois o circular arrebol a que se configura a língua da madame logo tocará o rabo do gato. Ou será o contrário? Sonego uma contra-árida paisagem de elegantes bailes em meio a orgia de flores, e medo. Medo, esta palavra fingida: talvez seja a chave do cadeado.

Artes Plásticas: De Chirico

“Estou tateando a ogiva de um amor sem matéria.” Araripe Coutinho

Giorgio de Chirico

Para quem fuma a escada é pesada, bruto. Faz-se poesia com o chão, encerador e marcenaria. “E o que devo amar senão o enigma?” pergunta meu Giorgio de Chirico. Meu, intransferível, concreto, posse, escapa como tudo onde é possível deitar as mãos, arquitetura das águas.

Conceda-me essa prevalência, num habilidoso circunflexo de palavras, cacoetes e cocurutos. Criaturas estranhas: unicórnio, sereia, saci, minotauro. Tutano, taciturno, boto. Tremula a bandeira no alto as ruínas da Grécia, Líbano, afegãos e banidos, pleonasmos e hipérboles. Prefiro me abster das coisas aquelas farão com que desista, de você.

Artes Plásticas: Caravaggio

“Pois o homem se enclausurou a tal ponto que apenas consegue enxergar através das estreitas frestas de sua gruta.” William Blake

Michelangelo Merisi da Caravaggio

Uma luz de lampião. Invento cela e mirra. Incenso, vela e granizo. Esganiço o grunhido a gancho. Um rosto atávico remissivo. Enfronhado num enfadonho decompor de caules. E o dedo podre, e os olhos hirtos, e o pelo branco, e a face atônita, e o tronco cheio de indelicadezas delicadas vive.

Tudo há vida, terno habita, tenso levita, cosmos transita, Eros suscita em Caravaggio. Do homem preso, ignorado. Do beiço lepra, resignado. O selo ordenha o maltrapilho, deus maltratado. Que mistérios tem o rinoceronte? De chifres e porte não lhe servem senão aos montes celestiais.