Oscar 2012

Premiação suscita volta ao passado ao consagrar “O Artista”

O Artista

O Oscar 2012 parece ter elegido um grande vencedor. A produção belga-francesa “O Artista”, faturou o prêmio mais almejado da noite: melhor filme. Um filme mudo e em preto e branco que alude ao tipo de cinema consagrado pelo genial Charles Chaplin.

Há considerações sensíveis e formais a serem feitas a respeito. É de se assinalar que o seu grande concorrente, “A Invenção de Hugo Cabret”, dirigido por Martin Scorsese, faturou todos os mais importantes prêmios técnicos.

Cinema: Kika

Película de Almodóvar resiste ao tempo ao abarcar voyeurismo do século XXI

Almodóvar

O mundo de Almodóvar sempre esteve impregnado de cores, deboche e dramalhões mexicanos. Pelo menos o mundo cinematográfico, contrário à infância pobre que o diretor teve. Embora afirme que suas obras são sempre parte de sua vida, Almodóvar tem por mérito exagerar nos tons, e fazer disso seu grande diferencial. A arte maior de Almodóvar é exagerar com sutileza. E esse lhe é um talento inquestionável.

Ao tratar de personagens complexos e quase sempre opostos, entrando em conflitos psicológicos e até mesmo físicos, Almodóvar tem por hábito utilizar cenários abundantes, que nos comovem através da associação de símbolos. Sim, tão comoventes quanto os personagens criados por Almodóvar são os cenários que ele utiliza, regados a seu tradicional vermelho sangue que também pode ser utilizado nos cabelos, nas roupas e no batom da personagem que dá nome à sua película de 1993, Kika.

Teatro: A Gaiola das Loucas

Peça de Miguel Falabella arranca risos por motivos díspares

Teatro brasileiro

O teatro de Jean Poiret chega ao olhar do público mineiro através da lente de Miguel Falabella. O ator, diretor e adaptador do texto, “A Gaiola das Loucas”, trouxe para Belo Horizonte versão reduzida do espetáculo, apresentado no Palácio das Artes nos últimos dias 5, 6 e 7 de agosto, e que por motivos estruturais teve que abrir mão do encanto e da magia do cabaré e das performances musicais dos personagens.

A peça arranca risos do público por motivos díspares. Se por um lado o humor físico e as patacoadas garantem sonoras gargalhadas, as tiradas reflexivas de Falabella merecem melhor destaque. Fazendo uso do jogo habitual de conjugar o grotesco e o suave, o ator encarna o marido do casal gay balançando-se entre o charme e a vulgaridade.

Carmen Miranda (Cantoras brasileiras)

Cantora brasileira

Carmen Miranda não era brasileira, nem portuguesa, nem chegou a ficar americanizada. Sua personalidade musical não tolerava restrições de gênero, território ou critérios absolutos. Carmen Miranda é hoje, como sempre foi, uma identidade universal da boa música: embora ela cante em bom português falado brasileiramente, mesmo quando o idioma é estrangeiro, na voz de Carmen soa língua mãe.

No tabuleiro da baiana (samba-batuque, 1936) – Ary Barroso
“No tabuleiro da baiana”, composto por Ary Barroso em 1936, é um samba-batuque que traz em seu cardápio musical suingue e malemolência, em versos que soam tão deliciosos quanto os ingredientes do tabuleiro. Misturando elementos típicos da cultura baiana ao amor e ao samba e tornando-os definitivamente parte da mesma receita, Ary Barroso criou um dos mais famosos pratos da culinária musical brasileira, que Carmen cantou com graça e coloquialidade: “No tabuleiro da baiana tem…”

Show: Arnaldo Antunes

Artista desfila dança apocalíptica ao espatifar palavras e sons

Show Inhotim

Arnaldo Antunes sempre se divertiu em cena. O antídoto risonho proposto por Nietzsche para desarvorar a vida é levado a ferro e fogo por sua persona bem grata. No palco do Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico (popular Inhotim), no último dia 11 de setembro, o artista desfilou sua dança apocalíptica, sua poesia concreta e seu terno cheirando a rasgado, eucalipto saído dos quadrinhos de Batman, provável “Duas Caras”, pois bom intuitivo que é, prefere os vilões.

O desafio a que se lança com microfone às costas, óculos preto & branco, e gravata ajeitada realça a gravidade de uma música pop imbuída de pretensão e ousadia. Tanto quanto o hermetismo melódico e estrutural de suas composições mais distantes, a proximidade também discorre arquitetada em balançantes hastes de ouro.

Isaurinha Garcia (Cantoras brasileiras)

Isaurinha cantora

Carmen Miranda e Aracy de Almeida enchem a cabeça da menina que enche garrafas de vinho. Logo ela está cantando em auditórios, rádios e discos. A Personalíssima Isaurinha Garcia não esqueceu as influências, mas legou identidade própria para a posteridade. Uma cantora de timbre refinado e interpretação emocionada. Com seu jeito próprio de cantar e emocionar. Isaura Garcia é Isaura Garcia, para quem se aproxima de sua melodia, logo já é Isaurinha.

Mensagem (samba, 1946) – Cícero Nunes e Aldo Cabral
Um imbatível sucesso de Isaura Garcia foi o samba “Mensagem”, de Aldo Cabral e Cícero Nunes, lançado em 1946. No enredo, a história de uma mulher que recebe do carteiro o alento de um antigo amor. “Quanta verdade tristonha, a mentira risonha, que uma carta nos traz, e assim pensando rasguei, tua carta e queimei, para não sofrer demais”, diziam os versos finais da canção que poderiam servir de fundo para o atribulado romance entre a cantora e o pianista e organista Walter Wanderley na década de 50.

Wilson Simonal (Cantores brasileiros)

Sá Marina

“Vamos voltar à pilantragem!” anuncia a voz cheia de bossa e suingue estonteante do porte de um negro com bandana na cabeça e reverência à Martin Luther King. Ele rege o coro da platéia enquanto sua presença move multidões com “Meu limão, meu limoeiro”. Que poder é esse do homem chamado Simonal? É o poder da música. Do belo canto. Simonal é pura música, belo canto.

Sá Marina (toada-moderna, 1968) – Antônio Adolfo e Tibério Gaspar
A música brasileira procurava juntar influências no meio da década de 60, e foi com essa idéia que Antônio Adolfo compôs com Tibério Gaspar a “toada-moderna”, segundo ele, “Sá Marina”, estouro na voz de Wilson Simonal em 1968, ficando com o posto de primeiro lugar nas paradas por 19 semanas seguidas. A união de bossa nova, toada e iê iê iê surtiu o efeito esperado, Sá Marina subiu a ladeira para não descer mais.

Maria Creuza (Cantoras brasileiras)

Na Esplanada, sonora

Maria Creuza dos olhos fundos, brasileira, baiana, filha da poesia, querida do Poetinha. Romântica, abusada, nunca reprimida pela força do cantar que ultrapassa barreiras ideológicas, territoriais e de gênero. Maria Creuza na Esplanada, sonora. Maria Creuza, cantora. Não extingue admiração, há encantamento.

Você abusou (1971, samba) – Antônio Carlos e Jocafi
Maria Creuza conheceu Antônio Carlos na Bahia, e com ele estabeleceu casamento que ultrapassou as convicções musicais. Os dois tiveram três filhos e vários sucessos nas rádios do Brasil e do mundo, principalmente depois que migraram para o Rio de Janeiro. O primeiro grande êxito foi “Você abusou”, que Antônio Carlos compôs com Jocafi em 1971. O canto de Maria Creuza explicitava a beleza da composição que se esvairia de aspirações intelectuais. Ia direto ao coração.

Pery Ribeiro (Bossa Nova)

Morre aos 74 anos

Há os Filhos do Holocausto, Filhos da Ditadura, Filhos da Era Hippie. Milhares, milhões, centenas. Mas há também o Filho do casal mais talentoso e explosivo da música brasileira. Frutífero tanto em brigas via imprensa quanto em canções magníficas.

Este Filho, apenas um. Mais do que isso, foi o cantor que lançou a bela “Garota de Ipanema”, a passear com seu balançado na praia, a música nacional mais executada no mundo em todos os tempos, filha de pais esmerados e um tanto loucos: Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O Maestro e o Poeta.

Entrevista: Lobão

Músico demonstra carinho e admiração por artistas marginalizados 

Entrevista músico

“Eu sou nada e é isso que me convém, eu sou o sub do mundo, o que será, o que será, que me detém?”. Lobão sempre marcou território como contraponto do panorama nacional e invariavelmente se insurge contra vozes totalizantes. Os versos de El Desdichado II servem como pequena amostra desse papel fundamental em que o artista atua. Especialmente numa sociedade cada vez mais preocupada em fechar sentidos e definir padrões de experiência estética superiores. Para atender ou quebrar as expectativas, o músico concedeu entrevista durante noite de autógrafos na livraria FNAC, e foi só elogios a nomes esquecidos pela grande mídia e estimados por ele. A lenda de que o temido lobo não compreende afagos desfez-se como um novelo mal tricotado.

R.: Como foi a história do violoncelo que você deu de presente ao Jards Macalé? Ele contou que vocês se encontraram no Baixo Leblon de madrugada e 8 meses depois chegou encomenda do ‘senhor Lobão’.
A história é mais complicada. Ela começa em 95. O Jards queria aprender a tocar violoncelo e eu tinha um. Aí fomos para o meu apartamento, eu morava no 18º andar e acabou a luz. Isso impossibilitou que a gente tocasse. Então a gente sempre se encontrava no show do Paulinho da Viola e tocava no assunto. Até que eu me mudei para um apartamento menor e aquele violoncelo virou um ‘trambolho’ dentro de casa. Liguei para o Jards, falei: ‘você quer aprender a tocar?’. Ele disse que queria. Inclusive não sei como acaba a história. Se ele está tocando ainda.