Dança: Tango-a-Tierra

Noite de gala da dança argentina brinda os espectadores com atrevimento

Dança

Um rrrádio dos anos 40, e uma aura futurista. São os contrastes que conduzem o espetáculo da companhia argentina ‘Tango-a-Tierra’, dirigida por Gillermo Salvat e Silvia Grynt. Como nos pares que se lançam, cruzam, entrelaçam, cortam, masculino e feminino, com tesoura cega: os sentidos do corpo mais aguçados.

Logo ao abrir das cortinas, um suntuoso conjunto brinda-nos em posição de ataque, anfitriões da casa, tomam posse de seus instrumentos e servem aos convidados doses nada moderadas de melodia e cordas que sossegam a madeira, adormecem o bandoneon e submetem a sinfonia a uma metáfora de creme.

Oswaldo Montenegro (Cantores brasileiros)

cantor brasileiro

Homem do teatro ou da melodia? Cabelos ao vento ou de cimento? Filho de Brasília ou pai da interpretação? Nenhuma delas, Oswaldo Montenegro, querelas à parte, faz arte. Brinca com as palavras, brinda com vinho-canção. Ode à melancolia ou trote à alegria barata, tudo pode, sem nada gasta, insurge a graça feito garça no horizonte anil da popular música brasileira.

Duas metades. Dois nomes grandes. Oswaldo. Montenegro. Centopéia cheia com credos calombos carbonos juízes? Oras, somos todos lumes seja na igreja ou na pradaria. Cada um ilumina o que enxerga, atenta, escapa ou aliança de dedo na mão agora é aliança de dedo na mão? Depende. Varia. Verte.

Benedito Lacerda (Chorinho)

Flautista

De ouvido, aprendeu a tocar. De butuca, como se diz hoje em dia. No tempo do cinema mudo, do silêncio, a calmaria das ruas. E a sua flauta subindo pelas paredes como cobra coral que se enrosca na árvore e não solta. Na Jardineira, tão contestada e aclamada. Como era incontestável o seu talento para compor temas instrumentais e executá-los com maestria.

Para isso, contava com a ajuda de jovens nobres, e também dos mais antigos. Entre eles, foram seus correspondentes no campo da composição Ary Barroso (‘Falta um zero no meu ordenado’), Herivelto Martins (‘A Lapa’ está voltando a ser a Lapa), Aldo Cabral (‘Em Mangueira na hora da minha despedida, todo mundo chorou…’), Humberto Porto (no clássico vencedor do concurso de carnaval de 1939), e muitos outros.

Teatro: Sem Pensar

Peça com Denise Fraga provoca riso quase lágrima

Teatro

Chuva cai morna em nossos lares. Enquanto espectros esparsos esperam graças, quatro personagens rodeados. Denise nos espera na porta. Sorriso franco. Sorriso oco. Camaleônico. Inspeciona o palco com os tamancos da representação. O ar e a pausa são inevitáveis para a comédia dramática.

Preciso me aquietar, aconchegar na cadeira. Mas aquela sobrancelha lagartixa me penteia. Perde o rabo, e segue à espreita, língua de fora gruda na asa do mosquito.

Show: Aline Calixto

Cantora apresenta mistura de músicas dos dois álbuns lançados

Show UFMG

No centro do furacão: uma flor. Morena, cacheados cabelos negros brada branda: sou negona, branca, samba. Aline Calixto pisa de sandália o picadeiro armado na Universidade Federal de Minas Gerais para contar a própria história. Contar? Não. Professora de mão cheia adverte, diverte: Canta. Tem uma voz que impressiona. Martinho da Vila põe na panela a gemada carioca.

Convicta cadência crava no mar de estrelas homenagens a Oxossi e Iemanjá. Lavradas na Bahia de Roque Ferreira e nos pergaminhos de Rodrigo Santiago e Douglas Couto, entusiasmam. Desinibida desenvoltura hipnotiza e arremata o público: “E lá fui eu, pro caldeirão, e lá fui eu…todo enfeitiçado pro seu coração!”. Pérola mineral do compositor Affonsinho.

Literatura: O Retrato de Dorian Gray

Obra atemporal de Oscar Wilde põe em debate a busca da beleza

Literatura

O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1891, é o único romance da obra do escritor irlandês Oscar Wilde, que viveu de 1854 até 1900, e tornou-se um dos mais célebres de todos os tempos.Descrito como um “dos clássicos modernos da Literatura Ocidental”, foi classificado pela BBC como 118 na lista dos 200 romances mais populares.

A história, situada na Inglaterra aristocrática do século XIX, gira em torno de um jovem que apaixona-se por sua própria imagem ao vê-la pintada em um quadro, (reproduzindo em águas novas o mito de Narciso) e faz um pedido para que não envelheça jamais, pois com o tempo perderia a beleza estonteante de seus traços. O suspense sobre seu fim começa quando estranhamente o pedido é atendido.

Chico Science (Mangue Beat)

Mangue Beat

Caranguejo mola nas patas. Ciência na astrologia. Arte de Chico. Brasil de Francisco. Rios e dunas e santos. Bomba histriônica. História atômica. Maracatu cá tu ma ar. Mangues e circos e dardos lançados nas lamas do caos.

Jorge Mautner & Gilberto Gil. Tropical rock de Cássia Eller. Percussão e toda uma Nação de Zumbi dos palmares, palmeiras, palmas palestra dessa cidade que nos resta computadorizada e imune; degradada e convexa.

“No bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor
Toda fauna-flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte
E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico”

João Gordo (Punk)

Ratos de Porão

Rato de porão, vômito verme varizes. No ano da ditadura militar brasileira, num dia 13 caveira, macabro, abriu a tampa do esgoto e despencou nesse mundo colhido-calado. Provocou enorme barulho, em vista de seu tamanho desproporcional. Gordo grande grunhindo gritos de guerra poupando refrão.

Cão espumando, chupando manga. Esqueleto de gosma e fúnebre sarcasmo detonou dinamite gargalhou explosão. Cuspe na morte. Quebrar, incompreensível. Descrente desesperança e virulento discurso político.  Cru, agride. Escroto, corvo, massacre. Carnificina, esquizofrenia, saliência. Sexo e bebedeira. Sujo.

Show: Warley Henrique

Cavaquinista mineiro presta homenagem à altura de Waldir Azevedo

Cavaquinho mineiro

Aquecidos os instrumentos, o show começa morno para o que está por vir. Grande atração da noite, o cavaquinista que irá solar Waldir Azevedo é o último a entrar em cena, onde já lhe aguardam os acompanhantes, Gustavo Monteiro no violão, Ricardo Acácio e Robson Batata comandando as percussões.

Ao atacar a primeira leva de músicas no instrumento principal daquela chuvosa confraternização, Warley Henrique não esboça gracejos ou palavras. Somente se entrega ao cavaquinho que a ele pede esmola e recebe de troco notas e mais notas premiadas.

Cinema: A Erva do Rato

Último filme de Julio Bressane impressiona pela beleza incômoda

Júlio Bressane

Júlio Bressane segue fiel à marginalidade. O gosto amargo que amianto seduz em suas películas corre longe do vagão maquinário da indústria. Em direção quase sempre perpendicular e composta por quadros vagos, parados, extrapola uma beleza radiante.

É louvável o modo com que o diretor utiliza de artifícios toscos para gerar sensações de estranhamento. No seu caso a simplicidade roça com a boca aberta a natureza e se orgulha disso. Dando ao espectador prazer indizível.