Teatro: Cabaret

Musical com Cláudia Raia tem pecados e virtudes

Cabaret

Muito luxo, purpurina, plumas e paetês sonegam os olhos da platéia com rímel e sexo aparente. Superficialmente, o musical ‘Cabaret’, estrelado por Cláudia Raia em versão brasileira de Miguel Falabella não subtrai espaço para dúvidas: é uma delícia.

No entanto, o teor dos diálogos muitas vezes fica abaixo de todo o glamour exibido com qualidade no cenário (construído com requinte, com destaque para as cortinas e o vídeo instalado), nas coreografias (mérito a Alonso Barros) exuberantes e libidinosas, na iluminação soberba, e principalmente da imponente apresentação da orquestra.

Literatura: Paulo Francis

Irônico jornalista colecionou textos impecáveis e desafetos por onde passou

Jornalismo

Há 15 anos morria o jornalista Paulo Francis, em Nova York. No banheiro da sua casa, ele agonizou os momentos finais antes de desvanecer nos braços de sua esposa, que o amparou e chorou como sugestiva parte do Brasil, sua terra natal.

Distante de agradar a todos, o jornalista inveterado, crítico de gregos e troianos, foi fiel e mordaz somente à sua própria filosofia. Como gostava de repetir, “apenas as pessoas inteligentes se contradizem”, e nessa área, Paulo Francis era inimitável.

Show: Humberto Junqueira

Em dia de festa violonista executa com esmero o repertório de Garoto

interpreta Garoto

Na noite de segunda-feira, no Conservatório da UFMG, rebola-se um misto de surpresa e surpreendido, inspiração e improviso, conformação e euforia. Explica-se: marca o fim dos trabalhos no mês. Mas é pouco o tempo de espera no calendário, somente uma semana de ausência, sentida firmemente em decorrência da qualidade dos que ali se apresentam, e legam saudade.

Humberto Junqueira não foi diferente dos outros que o antecederam nessa edição, ele inclusive, em escala formada de grupo (o descontraído ‘Quem Não Chora Não Mama’, que pegou para si no colo Jacob do Bandolim). Coube ao intérprete solo de violão de 7 cordas tomar em seus braços, dedos ágeis e giratórios capazes de circundar o complicado e harmoniosamente belo repertório de Garoto.

Ernesto Nazareth (Chorinho)

Chorinho

Quando o Brasil começou a fazer música brasileira e deixou de apenas importar contribuições externas, Ernesto Nazareth estava lá, com seu piano e sua humildade. Fã declarado de Chopin, o músico se notabilizou por não negar a qualidade musical que emergia de fora, mas inserir a esse contexto o que havia de mais Brasil e mais buliçoso em termos de musicalidade erudita e popular; ao mesmo tempo; sem barreiras limitantes. Muitos foram contra e a favor seu espaço em ambas as categorias, mas sua música ultrapassava ao conquistar unanimemente ouvidos e corações de figuras tão acaloradas quanto detentoras de status para certificar o real caráter de Nazareth, “a verdadeira encarnação da alma musical brasileira” para Villa-Lobos, com quem tocou, “um virtuoso do piano”, segundo Mário de Andrade, “genial” para tantos.

Cinema: Novo

Glauber Rocha revolucionou o cinema brasileiro com sua proposta realista

O Cinema Novo trouxe a marca de “uma câmera na mão, e uma idéia na cabeça”. E câmera na mão treme, incomoda, de preferência, revoluciona. Essa era a idéia dos idealizadores do movimento, políticos que gritavam contra a injustiça através da estética da fome. E se era estética, era arte. Portanto livre de compromissos com o público, as grandes empresas, o lucro, a bilheteria. Havia um quê vermelho sangue naquelas produções ideológicas e contestadoras. A novidade era tamanha, que os participantes do inicial cinema faziam questão de repudiar tudo que já havia sido feito. Era novo mesmo.

Assis Valente (Samba)

Samba

Artista de circo é difícil de achar. Artista espontâneo, que não toca instrumento e sabe rimar letra com melodia. Artista que faz arte até de dentadura, e é desenhista de mão cheia, embora os bolsos permaneçam vazios. Artista de circo desequilibra na corda bamba, como quem disfarça estar em perfeito estado de alegria, acostumado com tristezas natalinas. Assis Valente teve coração de artista e na Praia do Russel morreu em público. O povo cantou sua travessia: “Brasil Pandeiro”, “Uva de Caminhão”, “Fez bobagem”, “Camisa listrada”, provam a eternidade do artista de circo.

Jorge Goulart (Cantores brasileiros)

cantor brasileiro

Bastava uma olhada, um único contato visual para se levantar suspeitas sobre o que aquele homem forte, grande, robusto, era capaz. Mesmo os mais precavidos haveriam de tomar um susto, quando ele enchia o pulmão de ar e se preparava para o gesto.

Gesto, simples, bonito, pequeno, mas que naquele ser imenso se transformava num verdadeiro rojão de festa: com brilhos explodindo no céu e azulando a nuvem branca e o sol poente. Marchas carnavalescas, versões de sucessos norte-americanos (até Charles Chaplin cantou), sambas enredo, canções, exclusivamentesambas, tudo era motivo para seu palavreado bem distribuído colocar-se à serviço da música.

Show: O Terço

Banda alavanca viagens psicodélicas no Palácio das Artes 

Show rock

Retomamos a nave de 1974, o disco voador cibernético dispara guitarras e teclados, fuzis anunciam canhões de bateria, bombas disparam o baixo. Tudo sem parcimônia, com paz, amor e cerimonial digno de batas linhadas e limadas na transição do espacial para o espaço.

Círculos contínuos transcendem para uma mulher com rosto de gato, cauda de sapatilha e adereços mais de estranha bailarina. Rodopia na pia no ralo da cozinha intacto, recheado por rodelas de limão e laranja. Cítrica caipirinha a circular (de novo) pela cidade grande, na orla, no berço, no braço do grande irmão a lhe puxar pelo imã do chamado: um triângulo na testa.

Show: Adriana Partimpim

Moça dos agudos de cristal Adriana Partimpim encanta adultos e crianças

Show infantil

Era abril de 1989, provavelmente em um outono menos frio que o de agora, e o jornalista, cronista e escritor (se todas não forem a mesma coisa) Caio Fernando Abreu escrevia sobre uma moça de 21 aninhos, verdes olhos, platinados cabelos e cotê demi-punk que, sem lembrar Gal, Marina ou Elis, encantava a todos (inclusive uma Marisa Monte presente na platéia) com seus agudos de cristal.

Os mesmos 21 aninhos que ela tinha na época se passaram e, por incrível que pareça, a moça rejuvenesceu. Pintou de pretos os cabelos platinados que já não têm mais nada de cotê demi-punk, colocou uma roupa de bailarina e manteve os mesmos verdes olhos. Além disso, a outra coisa que não mudou foram os olhos que a admiravam empolgados em mais uma de suas histórias, como a contar reais contos de fadas, tanto infantis quanto adultos. A moça também mantém os mesmos agudos de cristal.

Nat King Cole (Jazz)

Jazz

O jazz é dos negros. A igreja dos brancos. Mas e o piano? Com suas teclas misturadas, promove uma interação racial? Afirmações idiotas como as acima apenas servem para reforçar o caráter separatista de algumas imposições. Só que existe um adendo, porém, porquanto.

A Música é universal. E Nat King Cole fez questão de unir em seu canto várias as vertentes. Fossem elas clássicas, gospel, românticas ou castelhanas. Não interessava. Mas somente a semente e sabor do sentimento levado aos ouvidos como a mãe águia solta a comida no céu para que o filho arranque em disparada e capture.