O Sonho da Vida

“Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!” Florbela Espanca

William Turner pintou os mares e tempestades de sua época

Arrancar pedaço? Arrancar pedaço. Todos querem arrancar pedaço. A mãe de João Cornélio na cama nova. Grilo entre frutas e doces. A senhora, um leve buldogue. O Gordo e o Magro. Tânia, a tabeliã. Das Neves e o manto furado. Maria, Marina e a cobra. Vanessa e o seu decote. Fernanda e Leonardo. Aline na beira do lago. Zaira uma massa gorda. Leva dinheiro, arranca estacas. Nada se prende, nada se afoga, nada é profundo. A flor no chão, atropelada, que convidou, serviu o chá. Não existe mais. A onça fanha, ou era flor? Ou era Ágata? Ou era Jade? Muda o nome, mudam os rostos, muda o enterro, e até o defunto, mas o cavalo ainda é um bode. Por entre casas, e cemitérios, e até cortinas, desejos feitos, e as meninas, tão comportadas, a virgindade, deixaram em casa, só para os pais, ainda são santas. Giram os peões. Giram os cachorros. Giram os ossos. Do velho padre: Homero bravo, batina roxa. E a berinjela, aos degradados: tosca, amarela. Uma cidade. E a tal cigarra? Mas as formigas a devoraram. Passa subterrânea, ninguém vai ver: o nosso estrago. Uma cigana previu o futuro. Hoje está morta. E tem certeza. De que a vida. É um grande sonho.

O menino ladrão de goiabas

“namoram na sombra da parede onde a árvore derrama sua chuvarada escura de flores.” Virginia Woolf

Obra de Giorgio Morandi retrata crônica de Raphael Vidigal

Se eu sou um mistério para mim, por que deixar de sê-lo para os outros? Há tártaro nas janelas. Existe tártaro nos poemas. O tártaro, onde quer que ele esteja, não é evasão de morte, mas impressão de vida. O tártaro dá plasticidade à cena. O tártaro suja o poema. O tártaro confere ao ambiente sua condição espessa. Eliminar todas as clemências, todas as luzes brandas, todas as preces. Para que reste a ausência consentida. Que existiu somente para o nosso descaso. Um poço de sabedoria afogado em tramas e veleidades. Passa: com desgosto, sem saber, ao largo. Passa: não tem queijo, garfo ou faca. Cascão, cascudo, casca. Tem problemas, sérios problemas, por isso riscaram-no do mapa. Mas é uma figura pacata, pequena, bonita, e necessitada. Igual a todas as outras.

A Novela de Sebastiana e do Coronel Bim Bim

“Minha mãe cozinhava precisamente: feijão-roxinho, batatinha e tomate. Mas cantava.” Adélia Prado

Robert Mapplethorpe criou obras instigantes e vivas

Proíba-me de falar. Embora lá estive, e estivarei. Entre cacos e rãs e anéis. A mão sobre a lã enrolada das ovelhas, do sono: e Vanessa: vermelha. Depois, proíba-me de contar os casos dos índios, dos mitos, dos bárbaros. Da mulher presa em casa enquanto a onça arranha a porta sentindo cheiro de gente: faminta. Onça só caça gente quando não há mais comida. Na natureza predomina o verde… Renasce exuberante, e bela, ostenta na mesa os quitutes disputados a tapas por crianças de todas as idades… O rio seco de um homem, ou menino, caminha na pedra à distância. Uma casinha, casebre, senzala, no meio do rio seco. O rio seco. A aura seca. A alma seca. Os hipopótamos nas fuças das tenebrosas pedras: e temerárias. Uma paisagem outrora desértica, precária, não mais idônea.

Memória: Josephine Baker simbolizou liberdade feminina nos anos 1920

“Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.” Emily Dickinson

Josephine Baker foi símbolo de exotismo e popularidade

Há um século e uma década nascia para o mundo Freda McDonald, que para sempre permaneceria desconhecida dele. Porém sua personagem é ainda lembrada. Josephine Baker, junção do próprio sobrenome com o do marido é referência imediata para o universo da dança, dos costumes, da luta pelos direitos da mulher, dos negros e de todas as minorias perseguidas. Sua contribuição artística, ao contrário do percebido pela extensa maioria em sua época, portanto, transcendeu aos critérios momentâneos orientados pela estética a fim de alcançar aquele valor concedido às obras-primas: marcou profundamente a maneira de pensar da humanidade; ou, ao menos, sugeriu novas aberturas para ela. Natural do meio-oeste dos Estados Unidos, quando chegou à maioridade migrou para Paris, onde, dizia-se, respirava-se vanguarda e liberdade; naqueles “Loucos Anos 20” por lá passavam pintores como Picasso e escritores do porte de Hemingway e Gertrude Stein, considerada mentora intelectual de muitos deles. Mas não havia nada como o exotismo de Josephine Baker. Trazia, ao seu lado, Chiquita, uma guepardo de estimação.

6 músicas reveladoras de Sandra de Sá

“Entre cavalos e verdes pensei meu canto.
Entre paredes, murais, lamentos, ais
(Um cenário acanhado para o canto
E triste
Se o que dele se espera é até demais)
Pretendi cantar mais alto que entre os verdes
E encantar” Hilda Hilst

Sandra de Sá é uma das intérpretes mais intensas da música brasileira

Sandra de Sá talvez seja das artistas que mais se entrega a seu ofício. Oriunda da soul music brasileira apareceu ao lado de nomes como Tim Maia, Hyldon, Cassiano e outros, sendo, desde então, solitária voz feminina neste cenário. Porém, marcante. A interpretação lancinante e visceral, a entrega pelas letras românticas e o singular suingue trazido se suas raízes africanas sempre denotaram para Sandra a característica de uma cantora catártica, de pura emoção, porém com pleno domínio da técnica a serviço dos sentimentos. Pois música é cultura, não tese. Eis aí a chave para que Sandra seja tão reveladora ao cantar, tanto de si quanto para os outros, que encontram-se em meio às canções. Não é por acaso que o compadre Cazuza a apelidou de Billie Holiday.

Análise: “Estação Plural” exalta a diversidade sexual e de gênero

“Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário nobre do adultério. Separatista protestante. Melindrosa basca com fissura da verdade. Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco (…) Não olho para trás. Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta.” Ana Cristina Cesar

Atração é comandada por trio de apresentadores

Tendo como princípio a diversidade sexual e de gênero, o programa “Estação Plural”, exibido nas segundas-feiras a partir das 22h na TV Brasil, amplia o leque para a raiz e o radical inerente ao tema: diversidade de vida que almeja à tolerância e ao respeito. No elogio ao múltiplo a descoberta de que a riqueza concentra-se no que é vário, e não singular. São paradoxos esmiuçados com consciência, experiência e conhecimento: somos todos únicos e iguais em alguma medida, e é pela identificação humana que devemos reconhecer no outro todas as diferenças que nos propiciam uma existência passível de exuberância. No comando da atração Ellen Oléria, Fefito Oliveira e Mel Gonçalves exibem personalidades tão distintas quanto complementares, não no sentido limitador, mas na coesão que os tons encontram por serem de diferentes peças, para além do quebra-cabeça, mas, por ora, uma sinfonia, aonde a música foge e se oferece harmônica justamente pela impalpabilidade.

Crítica: “Rua das Camélias” questiona estigmas da prostituição

“Meu calor não te assusta. Nem minha luz/Sou uma camélia imensa
Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo./Acho que estou chegando,
Acho que posso levantar – /Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura/De acetileno/Cercada de rosas,/De beijos, de querubins,
Ou do que sejam essas coisas róseas./Não você, nem ele,/Não ele, nem ele
(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) – Ao Paraíso.” Sylvia Plath

"Rua das Camélias" apresenta proposta ousada e inovadora

A estreia de Gabriela Luque na direção revela uma artista inquieta, moderna, ousada, características que aparecem no espetáculo “Rua das Camélias”, com dramaturgia de Daniel Toledo e Gabriela Figueiredo. Com a intenção de explorar e apresentar o universo da prostituição numa das ruas mais emblemáticas de Belo Horizonte, a Guaicurus, a peça acerta logo de cara ao decidir instalar-se num dos hotéis desativados da região, o que permite à experiência teatral aproximar-se o quanto é possível da realidade. Uma das descrições mais sensíveis apresentadas sobre o tema, não por acaso, dá conta desse truque, como dito no encarte e repetido na montagem: “na distância infinita que existe entre dois corpos grudados”. Aí, o teatro não se assume como teatro, como prezava Brecht, mas nem por isso deixa de emitir sua força, muito pelo contrário. Enredados fisicamente os espectadores, que são também chamados por essa mesma força a atuar, podem compreender as nuances do discurso que se enlaça tanto na objetividade quanto por um lirismo incomum. A força que provoca incômodo e deslocamento ao final reverte-se em comunhão.

Deus realize uma prece por mim

“Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão.” Clarice Lispector

El Greco ficou famoso por pintar imagens bíblicas

Uma prece. Deus realize uma prece. Ontem à noite. O espaço de um minuto retém as esperanças e covardes os que creem num Deus com clemência. Numa casca de maçã: donde menos se espera o escorregão: a cobra de Eva: a banana espichada e madura. O pressentimento está prestes a se cumprir. Recebe uma ligação, pensa: a voz da cigana. Desliga. Uma girafa tenta buscar: no último galho a penúria da folha erma. Corre perigo, sem jeito, nervoso: preces, rezas, gestos inúteis. Cambaleia, Ágata à frente: viva, morta: um fantasma: uma onça: uma cidade.

Crítica: Exposição permanente presta justa homenagem a Inimá de Paula

“Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma.” Rilke

Inimá de Paula possui museu em sua homenagem

Nove anos após sua morte o Museu Inimá de Paula foi inaugurado na antiga sede do Clube Belo Horizonte e do Cine Guarani para homenagear o artista plástico natural de Itanhomi, interior das Minas Gerais. Portanto, já (re) nasceu histórico e manteve essa qualidade através dos anos. Além do nome, a casa também oferece na parte lateral do terceiro andar uma permanente exposição para saudar a obra de Inimá, sem contar que, vez ou outra, as peças do artista tomam outras instalações do prédio. Esta em questão, porém, é como uma síntese daquele considerado o maior representante do “Fauvismo” no Brasil, em que as cores e o estilo berrante das pinceladas tomam de assalto as cenas.

25 músicas brasileiras sobre a saudade

“De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo.
A oeste a morte/Contra quem vivo/Do sul cativo/O este é meu norte.
Outros que contem/Passo por passo:/Eu morro ontem
Nasço amanhã/Aonde há espaço:/– Meu tempo é quando.” Vinicius de Moraes

Cantores brasileiros interpretaram a saudade em suas músicas

Saudade é palavra que só existe na língua portuguesa. Saudade cantada pelos poetas e sentida por todos, unanimemente. Dizem que existe um truque do passado para que tenhamos saudade, que pela sabedoria do corpo, da mente e da alma esquecemos o que não faz falta, para guardar somente aquilo que designamos: saudade. A nostalgia cantada em versos é capaz tanto ou mais de emocionar por conter, em si, síntese de lembranças, momentos ou mesmo sonhos e aspirações. Do que “poderia ter sido e não foi…”, diria o outro. Na música brasileira “saudade” é palavra diversa e democrática. Saudade cantada em baião, toada ou trova, ao ritmo de samba, repente ou moda, parte do nosso folclore e da nossa bossa nova. Para todos os que sentem a saudade, música!