Entrevista: Vander Lee + Dibigode

“Leva meu samba, meu mensageiro, esse recado, para o meu amor primeiro” Ataulfo Alves

compositor mineiro Ataulfo Alves

Esgueirando-se do jogo proposto pelo musicólogo Ary Vasconcelos, o músico e compositor Vander Lee é incapaz de sublinhar Ataulfo Alves em uma só palavra. Prefere três: cultura matuta mineira. E se estende prazerosamente: “É a impressão mineira ao samba, uma visão de mundo carregada de culpa, ligação familiar e anti-malandragem, típica da nossa Zona da Mata.”

O músico, que se apresenta hoje pelo Projeto Compositores.BR no Palco do Sesc Palladium, pretende esmiuçar o repertório de Ataulfo Alves a partir de canções clássicas que o tempo se encarregou de eternizar, como “Você passa, eu acho graça”, “Ai que saudades da Amélia”, e “Meus Tempos de Criança”.

Wando (Romantismo)

“Menina, deixa que eu erga
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos antigos
a rosa azul de teu ventre.” García Lorca

Cantor das calcinhas

O artista popular alimenta-se das carícias do público. Numa tenda de frutas, debaixo de um sol de meio dia, o menino criado no interior de Minas Gerais, vendia seu peixe. Quando apareceu num belo dia um ilustre cliente: Jair Rodrigues era seu nome. Alto, esbelto, sensual, cantava sambas ao lado de Elis Regina na televisão, e decidiu levar aos palcos a música do menino das frutas.

Wando imediatamente estourou nas paradas de sucesso, mas à distância, assistindo embevecido ao êxito de sua composição através das repetições radiofônicas. Logo, quis conhecer ele próprio o afago do público. Investiu-se de uma sensualidade consentida, num acordo tácito entre ele e a plateia ficaria provado que para se conseguir carinhos não eram necessárias mais do que meias palavras, cantadas ao pé do ouvido, com charme e saliência.

Fernanda Brum (Música gospel)

“Se eu existo, logo Deus deve existir também. É uma gentileza que faço com um desconhecido.” Lobão

Cantora Gospel Pavão pavãozinho

O sobrenome lembra bruma. Desconhecida, fumegante. Plana plena pluma. Fernanda caminha por entre nuvens disformes, a colher os espinhos das rosas. Os espinhos, forma pontiaguda, esverdeada, negra na parte afiada, da coroa do Cristo. Pouco lhes lançamos olhares.

Porque neste segmento, ou em qualquer outro, a vermelhidão da flor investe-nos mais medo, ameaça, vertigem, vendagem? Fernanda clama ao outro lado, sem esquecer o fardo pesado e feio das calamidades. Toca na superfície da beira, na galhada menos baixia, na bexiga cheia: esvazia. Num único sopro de vento.

Criolo – Rap Na Orelha

“O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.” Carlos Drummond de Andrade

Nó Na Orelha

Tartamudeando a música estava ali abandonada, rejeito, até que o sujeito chegou para pegá-la. Guardou-a como uma tartaruga fora da casca, por descuido da mãe ou dos entes próximos. A música, pequenininha, singular, desprotegida, indefesa, precisa de guarda-chuva.

Não pode ficar ao relento, aguardando pingos grossos, finos, violentos. Enxurradas vorazes deixaram a música com aquela cara de cachorro pidão, pinto no lixo, molhado gato. Sem os pelos aparados, bem penteados, alisados, a música tem aparência amedrontada.

Show: Zé Ramalho & Banda Z

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!” Augusto dos Anjos

Zé Ramalho Chão de Giz

Detrás das neblinas, perde-se de vista o horizonte, um carneiro é sacrificado em nome do Pai, um velho conduz o rebanho com o cajado, feito de madeira, arame, esculpido por mãos comidas por rugas e outros animais que vêm a ter sabedoria pelas profecias dele: o homem.

O homem é desde os primórdios o mais inteligente de todos os animais, e de longe o menos sabido. A intuição conservada nos seres puros perdeu-se com a progressão dos anos, meses, milênios, pouco restou do que havia de lúdico, frutífero, ingênuo.

Show: Renato Teixeira & Banda

“a coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está é na travessia.” Guimarães Rosa

Romaria

O irredutível carisma de Renato Teixeira segue tocando a boiada. Como legítimo mártir da música caipira, o homem da barba branca, dos cabelos brancos, põe a viola dentro da sacola e vai viajar. Convida-nos a ir com ele: seus filhos (nascidos e criados) de uma sincera amizade.

Por entre estradas de ferro e terra, trilhos de trens e cores, referências a Caetano Veloso e Sérgio Reis, soa o berrante do segundo e a São Paulo do primeiro: duas musas inspiradoras do franzino homem do interior que “anda devagar porque já teve pressa, e leva esse sorriso porque já sofreu demais”, entoa junto com o coro da plateia o sucesso bisado por Almir Sater.

Show: Fafá de Belém (canta Antônio Maria)

“Busque amor novas partes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças;
que mal me tirarão o que eu não tenho.” Camões

Fafá de Belém canta Antônio Maria

Falta a Fafá o recato, a contenção, e o esmero para que a apoteose perene da voz inflamada da cantora acompanhe o ciclone de emoções que a destilada música pretende passar. Em doses sempre homéricas (nunca homeopáticas), como é do pavio aceso da nativa mulher de Belém, à vontade em cena como na sala de casa, o que em alguns casos soaria salutar, neste remendo acaba despropositado.

O homenageado da noite, outro nortista, pois que nordeste e norte se embaraçam na salada recheada de frutas de Fafá, era Antônio Maria, sutil na sintonia com o repertório acalorado e confessional da intérprete. O mérito maior da apresentação do projeto “Compositores.BR” no palco do Sesc Palladium esteve na reverência atrevida.

Dança: Funk (Carioca)

“O não dizer é o que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.” Hilda Hilst

Funk Carioca

Um corpo nu está dançando. Balança-se desavergonhado. O pudor não existe na terra (treme) onde dança – o corpo nu. Moral não existe na terra (bate) onde dança – o corpo nu. Caroço cuspiu-se violentamente, exibindo ventre, nádegas, seios, as malditas reprimidas escapolem. Chupa-se a fruta do início ao final, passando por suas veias, sentindo o gosto híbrido da semente rija e macia.

O corpo nu está dançando. Agora não um, são muitos. Orgia regada a vinho e liquidez maciça, libido e ardilosa língua a perpassar orelhas. O quadril dilata-se, o centro do mundo é o verniz da mulata. Brilha o pedaço apertado num short compacto, desprevenido, munido de pele à mostra. O quadril é todo dos ares – entorna, rebobina, desfaz o movimento, avança na direção do explosivo: fogosa mulata, quadril, dançarina.

Cinema: Habemus Papam

“A beleza será convulsiva ou não será.” André Breton

Filme de Nanni Moretti

O cinema, não se deve tomar por inteiro. É um facho de luz, um feixe na cortina, o olhar, de quem filma. Um tacho de mel, a raspa da rapadura, o escândalo que nos vaticina. Sobre disso nos fala Nanni Moretti, no filme dele: “Habemus Papam”. Quero privilegiar as cenas de que me contaram, das quais nem o meu olhar foi refém. Não aguentei frequentar a saga do doloroso Papa em martírio. Por sono, pena, chuveiro quente à minha espera.

O cineasta italiano, que também atua no filme como um inveterado psicanalista, tenta em vão usar de conhecimento técnico para ‘curar’ o Papa, interpretado pelo veterano e bom de guerra Michel Piccoli, explicitando que suas teorias talvez sejam tão furadas e crentes num Deus como a da Igreja Católica, alvo do esbalde crítico do diretor.

Show: Cauby Peixoto (A Voz do Violão)

“o universo é pouca coisa comparado à vastidão de uma fronte pintada por Rafael.” Salvador Dalí

Cauby Conceição

Estou procurando uma inspiração com a foice. Estou no deserto, onde caminho rente ao chão, procurando uma inspiração com a foice. Mas com a foice não se consegue inspiração, nem se captura inseto, relva, ou a flor da mais doce. O instrumento incorreto, vezes outras, pode ser a arma da glória. A bajulação precede mesmo os minutos afoitos de sua entrada triunfal.

Vem o cônego, apoiando nos próprios ombros o peso daquele homem a quem todos conclamam, o peso daquela voz insustentável. A cadeira lhe foi construída especialmente, está certo que a memória falha, mas a voz, suprema, se mantém, rente ao chão do deserto estou procurando uma inspiração com a foice. Ela chega. Cauby ergue o cetro: começa a cantar.